O romancista Richard Wright dizia o seguinte:

“se eu pudesse atar a mente do leitor às palavras, do modo mais firme possível, até que ele se esquecesse dessas palavras e estivesse consciente apenas de sua reação, então sinto que estaria perto de saber como escrever uma narrativa. Eu me esforço para dominar as palavras, a fim de que elas desapareçam”.

É notável que um escritor queira ver sua identidade derretida e que todas as marcas de sua escrita se apaguem, até que não sobre nada dele mesmo… a não ser sua obra. Pode soar como um contrassenso, um exercício budista de negação do self, blá blá blá… Mas não é nada disso.

A grande literatura é aquela que, por um momento (ou por muitos séculos), é capaz de eliminar a alteridade, inserindo-nos tão profundamente na história a ponto de pensarmos que vivemos aquelas situações, somos aquelas personagens, conhecemos suas dores e compreendemos suas atitudes. O “apagamento do autor” produz identificação pura.

Richard Wright sabe disso. Ele é autor de Black Boy, um clássico ambientado nos anos 20, no sul dos Estados Unidos. Seguindo a tradição dos melhores romances de formação, essa ‘autobiografia ficcionalizada’ explora a infância e a juventude do autor, revelando a miséria e a beleza do lugar onde nasceu e cresceu.

Ao relatar as constantes perdas materiais e emocionais, encaradas com naturalidade por todos em volta (com exceção do protagonista), o livro materializa o terror que os brancos eram capazes de provocar, num dia de sol qualquer, com ameaças veladas ou explícitas sobre enforcamentos, surras, corpos queimados e todo tipo de brutalidade que os negros do sul decodificavam prontamente como: fique onde está, aceite, não revide, baixe a cabeça e não olhe para trás. Assim, talvez, pode ser que você envelheça.

A linguagem da violência

Desde cedo, Richard aprende que a violência está de tal forma assimilada pelos negros que eles já nem precisam dos brancos para reproduzi-la. A degradação moral a que ele e seus pares estão submetidos é um problema grave, mas nem de longe tão humilhante quanto a aceitação: eles mesmos já abdicaram de sua humanidade e, dentro de suas casas, são seus próprios algozes.

Castigos físicos são a única resposta para qualquer tipo de questionamento, a única maneira de fazer um jovem negro entender que ele nasceu para ocupar um lugar específico, fora do caminho das pessoas de verdade. É como se um pai, ao espancar o filho para explicar-lhe as coisas do mundo, o estivesse protegendo, impedindo que ele viesse a terminar seus dias pendendo do alto de uma árvore, com o pescoço retorcido.

Richard, no entanto, não pode aceitar essa ordem natural. Para ele, a condição do negro do sul é uma escolha. A mais difícil de todas, mas, ainda assim, uma escolha. Ele se recusa a ocupar a posição que lhe foi reservada, decisão que prematuramente o torna um peso — e um estranho para a própria família.

Deus

A religião, tampouco, pode salvar Richard. Deus, para ele, é apenas mais uma forma de opressão, personificada por sua avó materna e pela tia Addie. A primeira sofre verdadeiramente com o neto descrente, implorando que ele reconsidere e aceite Cristo, sob o risco de condenar sua alma à perdição. Mas Richard sabe que sua condenação é bem outra e nada tem a ver com as Escrituras.

Tia Addie, por sua vez, não é capaz de dizer três palavras sem que uma delas seja “Deus”, o que não a exime de extravasar sua ira no sobrinho, fisicamente, e com frequência. A raiva de Addie só encontra paralelo em sua própria infelicidade e frustração.

Enquanto os familiares tentam, a toda prova, fazer com que Richard seja tocado pela graça divina, ele mesmo só consegue pensar no quanto Deus pode ser um comediante cruel: no dia em que sua mãe recebe a visita de um pastor, o menino entra em êxtase com a possibilidade de comer um pedaço da galinha preparada exclusivamente para o convidado. Sentado à mesa do jantar, com tanta fome que poderia devorar a própria panela, Richard só pode olhar, enquanto o pastor ri das próprias piadas e come a galinha inteira.

Escapar

Esta é a história de um homem em fuga. Richard precisa fugir da fúria dos brancos, da solidão institucionalizada do orfanato, da constante privação de comida, da condescendência dos tios, da indiferença do pai, da expectativa dos próprios negros e da trágica impotência da mãe. Estar no sul, para ele, equivale a abdicar da própria vida sem ter de morrer.

Essa tentativa de escapar é a grande jornada que acompanhamos, da primeira à última página, cheios de pesar e encantamento. De fato, as palavras do autor, aos poucos, vão se apagando, e a cada capítulo somos um pouco mais como Richard Wright. Até que nos tornamos Richard Wright, vivenciamos seu ponto de vista, saltamos para dentro de sua narrativa.

É um livro e tanto. Faz parecerem fúteis as discussões sobre a validade das cotas raciais, cascas de banana jogadas no campo de futebol, comparações entre seres humanos e símios etc. Para entender o racismo, talvez fosse necessário entrar na pele de um negro, sem concessões. Como isso não é possível, vamos à arte.

Gostou do texto? Que tal recomendar?

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Leobaldo Prado’s story.