A aceitação do outro — da internet às ruas


Na noite de sábado, quando fazia algumas pesquisas para me preparar para o dia sem carro em Paris, me deparei com um vídeo em que um rapaz se filma dentro de um carro em São Paulo gritando fora de controle contra as ciclovias e o transporte público. Na hora, achei engraçado, mas as imagens me vinham à cabeça várias vezes no dia seguinte, quando a parte central de Paris esteve fechada para os carros (exceto transporte de urgência e táxis).

O dia sem carro em Paris foi apenas uma experiência, um dia de exceção que busca chamar a atenção para a Conferência do Clima, que acontece na cidade no fim de novembro. Diferentemente de São Paulo, onde a Paulista e outras quatro avenidas e ruas deverão ser fechadas para os carros todos os domingos, na capital francesa o que aconteceu neste domingo não tem previsão para se repetir. Se por um lado a iniciativa é limitada a um dia, por outro, é histórica por fechar não apenas uma via, mas toda a região central de uma das principais cidades do mundo. Talvez por isso, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que esteve ao lado da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, na abertura dos trabalhos, considere que a capital francesa esteja à frente.

“O mundo inteiro hoje discute a mobilidade buscando alternativas ao transporte motorizado individual. Aqui eles estão um pouco à frente de nós nas iniciativas. Faixas de ônibus, ciclovias, carros elétricos compartilhados, áreas de baixa velocidade ou sem carros, tudo isso está sendo testado em várias metrópoles do mundo, em busca de alternativas sustentáveis, não só pensando na questão da mobilidade, mas pensando na questão do meio ambiente.”
Ciclista faz foto ao lado dos prefeitos Anne Hidalgo (Paris), Yvan Mayeur (Bruxelas), George Ferguson (Bristol) e Fernando Haddad (São Paulo) durante a abertura do dia sem carro em Paris

Paris, acrescentou Haddad, tem muitas ações urbanas que estão inspirando São Paulo. A capital francesa sempre foi um ponto de atenção quando se trata de mobilidade urbana, mas passou a chamar muito mais atenção depois que foi anunciado o plano anti-poluição, que promete a retirada gradual dos veículos a diesel das ruas até 2020 (com algumas exceções).

Conversando com um simpatizante de uma organização de ciclistas em Paris no domingo, perguntei a ele qual a meta da entidade. Ele respondeu que gostaria que a jornada sem carro acontecesse todos os dias, e não apenas um dia do ano. Questionado se ele gostaria que a circulação de carros fosse proibida diariamente em Paris, a resposta foi: “não, não proibir, mas devemos repensar a presença do carro, abrindo espaço também para as bicicletas”. A mim pareceu bastante razoável.

Ruas da parte central de Paris foram tomadas por pedestres, ciclistas e skatistas durante o dia sem carro

Talvez seja isso que esteja faltando a todos nós, e não apenas na questão da mobilidade. Nos últimos anos, temos nos habituado a respeitar as diferenças, mas parece que não em todos os campos. A questão da mobilidade também passa pela aceitação e respeito ao outro (no caso, do outro tipo de transporte). Não podemos mais pensar as ruas como um lugar apenas para o carro, mas um espaço para a diversidade (modal). E essa aceitação não é necessária apenas por parte dos motoristas, mas também dos ciclistas, de quem usa os transportes públicos e até dos pedestres.

Depois de ver o vídeo do rapaz descontrolado no trânsito de São Paulo, como não lembrar do atropelamento coletivo aos ciclistas do Massa Crítica em Porto Alegre em 2011? Ambos são casos extremos de motoristas indignados com a perda da prioridade do carro para outros meios de transporte (guardadas as devidas proporções). Cada um a sua maneira, reage de maneira brutal e descontrolada contra a crescente ideia de que as ruas não podem mais ser pensadas colocando o carro no centro.

Da mesma forma, não podemos querer que uma cidade seja feita exclusivamente para as bicicletas. Existem muitas atividades em uma cidade, e certamente nem tudo pode ser feito em duas rodas. Aliás, ninguém é ciclista (ou motorista ou pedestre) 24 horas durante todos os dias da vida. Todos nós desempenhamos vários papeis. Podemos usar a bicicleta para ir ao trabalho, mas também nos locomovemos a pé, e certamente há ocasiões em que vamos precisar de um carro. Se cada um usa vários tipos de transporte, deveria ser fácil se colocar no lugar do outro e respeitá-lo, muito mais facilmente do que em outras situações. Mas parece que nesse campo não temos avançado com a mesma velocidade.

À noite, depois do dia sem carro em Paris, fui dar uma olhada na repercussão na internet — claro, acabei perdendo algum tempo no Facebook. E me deparei com a história de Angela Moss, advogada de 47 anos que aparece em uma matéria da TV Manchete do fim dos anos 1980 intitulada “Os pobres vão à praia”, sobre os moradores da zona Norte do Rio de Janeiro que frequentam as praias da zona Sul. Na reportagem, ela aparece indignada e chama os pobres de “sub-raça”. Acontece que Angela viu o vídeo e postou um comentário (que depois foi apagado).

“Infelizmente era eu nesse vídeo quando tinha 18 anos. Eu era uma criança retardada e com pouco conhecimento. Mesmo culta era alienada.(…) Tenho orgulho de ter podido evoluir. (…) Fico feliz que pessoas como vc fiquem indignadas com esse vídeo, o que me perturba mesmo são as muitas que me escrevem dando os parabéns.”

Mas quase 30 anos se passaram para Angela. Quantos anos serão necessários para o rapaz do primeiro vídeo?