Aquela multidão em Istambul

Era um domingo à tarde, eu havia torrado uma fortuna comprando um monte de coisas de que não precisava e na saída do Spice Bazaar, em Istambul, entendi um texto lido muito tempo atrás.

O Spice Bazaar fica numa praça na parte baixa de Sultanameht, a parte histórica da cidade. A alguns metros dali está o mar e o Estreito de Bósforo. À frente, a Velha Mesquita, onde os homens lavam os pés, o rosto e as mãos em uns tanques de pedra antes de entrar. É um lugar cheio de turistas. De vez em quando o sotaque brasileiro é ouvido em palavras cortadas.

Chegamos pela entrada principal, que é grande e bonita. Estava tranquilo de andar, mas quando começou a chover lá fora, encheu rapidamente e logo ficou impraticável. Depois de certo tempo, optamos pela saída mais próxima.

A saída lateral era para uma rua também cheia de vendedores e compradores, mas, além de doces, temperos e chás, são negociados tênis, óculos e agasalhos falsificados junto de tapetes e panelas. Tinha começado a chover mais forte, o que fez surgir um vendedor de guarda-chuvas plásticos-transparentes. Uma balbúrdia e um exotismo típicos dos livros de Agatha Christie que li adolescente.

Poucos naquela parte pareciam turistas, mas reinava a mesma cordialidade do lado de dentro. Há uma peculiaridade na maneira turca de vender. Os vendedores te abordam na rua, te tratam como amigo e te chamam de “my friend”. De repente, você, que estava ali esperando a mulher que foi ao banheiro, agora é dono um narguilé.

E foi ao olhar pela primeira vez aquele tumulto que o texto fez sentido.

Era de um colunista de que não lembro o nome (desculpe), lida quando ainda morava no Rio, nos anos 90. Na cobertura de um assunto banal, uma conferência da ONU, acho, falava de uma estranha compulsão que sentiu em Istambul diante desta mesma cena: se misturar à multidão e desaparecer. Todas as coisas ficariam para trás — a vida no Brasil, família, emprego, etc — e ninguém nunca mais ouviria falar dele.

Neva em Istambul no inverno e isso, apesar da baixa temporada, cria multidões. No Grand Bazaar, na Blue Mosque, nos museus e no palácio Topkapi fui conduzido por grandes e pequenas aglomerações de pessoas geralmente com um mínimo controle sobre onde iria parar. A saída era aceitar ser levado, dando um jeito de escapar em algum ponto. Mas não deixava de pensar no que aconteceria se aceitasse me infiltrar por aqueles corredores misteriosos e ruelas desconhecidas. Possível que uma vida totalmente nova me esperasse. Eu só precisava ir onde todos iam.

E onde todos iam?

Isso eu não descobri. Podia ser um abismo ou uma passagem dimensional, mas provavelmente era só uma porta para a rua e a neve. E não posso pensar em um destino pior àquela altura. Você olha para a neve pela primeira vez e fica feliz. Dois dias depois, aprende que nada te protege dela e, molhado e com frio, nunca odiou nada como odeia neve.


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