A falácia da “frequência afetiva”

Ilustração por Beatriz Leite

Sabe aquela amizade em que você sente que, se você nunca mais tomar a iniciativa de procurar a pessoa, você nunca mais vai ter qualquer interação com ela? Deve ser verdade.

A chamada frequência afetiva é basicamente, em termos bem simples, a frequência com a qual você se relaciona com uma pessoa: algumas você vê todo dia, outras você vê duas vezes por ano. Seria tudo lindo se fosse tudo lindo para todas as partes sempre. Mas e quando a sua frequência não bate com a de outra? E quando você gostaria que a pessoa fosse mais presente e ela simplesmente não é? Eu já cheguei a acreditar e até a defender, mas vamos aos fatos: essa história de frequência afetiva e de que cada um tem a sua é uma grande besteira. Balela contemporânea pra gente não se sentir tão deixado de lado nesses tempos líquidos, pra gente 1) se convencer de que desejar mais de alguém nos torna carentes inseguros que deveriam praticar mais a autossuficiência e 2) acreditar que, mesmo que não pareça, aquela pessoa que nunca está por perto quando gostaríamos que ela estivesse se importa sim com a gente, vamo desistir, não, aguenta aí, tem que ser compreensivo. Maior bobagem, desculpa jogar na sua cara, mas é isso.

Como li por aí uma vez, “se uma pessoa age como quem não se importa, acredite nela”. Quem se importa faz questão. De ficar por perto, de perguntar como você está, de dar conselhos quando você pede, de ouvir seus desabafos, de te visitar quando você está doente, de te dar bronca quando você faz merda, de responder suas mensagens, de dar notícias, de compartilhar com você. Quem se importa lembra de você. Quem se importa te procura. Quem se importa estranha quando você some. Quem se importa não some. Quem se importa não te faz sentir que você está correndo atrás.

Isso não é sobre personalidade e as particularidades de cada um. Isso é apenas sobre se importar. Tenho certeza de que essas pessoas com “frequência afetiva” diferente da nossa têm outro tipo de “frequência afetiva” com outras pessoas. Talvez por identificação, talvez por conveniência. Não quer dizer que não gosta se é menos frequente, veja bem, essa pessoa não tem nada contra você, ela te acha mó legal. Mas não dá pra compará-la com a presença daqueles que são mais frequentes, aqueles que sempre dão um jeito de manter contato e que, em meio a toda a atribulação da vida, do trabalho, da faculdade, dos problemas, da mãe maluca, do cachorro doente, arranja um tempinho pra você.

Não é nenhum crime a pessoa não se importar tanto assim. Acontece. Você também vive desmarcando com aquele seu amigo porque trabalha demais. Você também perde o aniversário de umas pessoas que você adora. Você também deixa pra responder depois a mensagem de certas pessoas muito legais e acaba esquecendo pra sempre de se manifestar. Não é culpa de ninguém, é normal se importar mais com uns do que com outros. Mas quem se importa mesmo se faz presente. Diferenças de “frequência afetiva” é só um termo bonito pra descrever quando duas pessoas não estão em simetria quanto à maneira como se relacionam, com o quanto gostam uma da outra, com o quanto de tempo dedicam uma à outra. Não é um jeito diferente de se importar que esse indivíduo possui no âmago de seu ser e o torna um grande incompreendido com quem você deveria ter mais paciência. É um simples caso de se importar mais ou se importar menos. Às vezes, você é o menos.

Se você precisa criar inúmeros contextos pra explicar que uma pessoa gosta sim de você, mesmo não parecendo, é porque ela não gosta tanto quanto você gostaria ou não gosta e pronto. E querer mais de uma pessoa a quem você oferece muito não te torna um ser humano patético, te torna apenas alguém que calhou de gostar demais de alguém que não retribui. Mas entenda: que a pessoa não retribui, é um fato. Chega de relativizar, teorizar, justificar e desculpar comportamentos que podem ser simplificados vulgarmente com “está cagando”. Chega de inventar desculpas pra justificar o comportamento de gente que simplesmente prefere outras coisas, muitas outras coisas, que não são estar com você. E vá ser mais “frequentemente afetivo” com quem é mais “frequentemente afetivo” com você.

Gif por Beatriz Leite

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