A história não contada sobre o início do Google Maps

Stephen trabalhava em um posto de gasolina. Noel Gordon era cortador de tecido na fábrica de roupas de seu sogro. Jens Rasmussen estava dormindo no sofá de sua mãe em casa. Eles criariam um dos serviços mais revolucionários da Internet.


O “Google Maps” começou como uma ideia exprimida em rabiscos aleatórios em um quadro branco.

As anotações — mostradas abaixo — foram rabiscadas em 2004 pelo engenheiro de software australiano Noel Gordon, um dos quatro homens que fundaram a Where 2 Technologies, uma startup de mapeamento digital com sede em Sydney.

O quadro branco ficava pendurado na sede da empresa, que, fora do horário comercial, era utilizado como o quarto de hóspedes do apartamento alugado de Noel no subúrbio de Hunters Hill.

As notas foram escritas durante um período frenético de três semanas, durante o qual os proprietários da Where 2 estavam negociando com o cofundador do Google, Larry Page, para vender a ideia de sua tecnologia de mapeamento experimental a ele.

As anotações mostram os nomes de potenciais concorrentes, compradores alternativos, e uma lista de empresas de capital de risco — para caso o acordo com o Google não vingassem. E espalhadas pelo resto do quadro branco estão as razões (técnicas e estratégicas) pelas quais os fundadores da Where 2 estavam se digladiando quando abriram um negócio e suportavam uma vida com cartões de crédito no limite.

Escrevendo na parede: anotações no quadro branco feitas pelo cofundador do Google Maps, Noel Gordon, quando sua empresa negociava a venda para o Google, em 2004. Foto: Noel Gordon

A tecnologia de mapeamento da Where 2 começou como um aplicativo chamado Expedition. Ele foi projetado para ser baixado e instalado, bem como a maior parte dos softwares da época.

Mas Larry Page e o Google não estavam interessados ​​em um aplicativo para ser baixado. “Nós gostamos da web”, ele disse a Lars Rasmussen, um dos companheiros de Noel Gordon. Larry deu à equipe um prazo para obter o conceito de trabalho em um navegador da web.

A equipe cumpriu a meta e, em agosto de 2004, um acordo por uma quantia não revelada foi selado entre as partes, tornando a Where 2 a segunda empresa adquirida pelo Google.

Os quatro cofundadores da empresa — Gordon, seu colega australiano Stephen Ma e os dois irmãos dinamarqueses Lars e Jens Rasmussen — de repente se viram como os funcionários do Google e trabalhando na recém-aberta filial da empresa americana na Austrália.

O sincronismo do quarteto não poderia ter sido melhor. Todos os quatro tinham sido despedidos após o estouro da “Bolha da Internet”, no final do século 20.

Antes de se juntar à Where 2, Stephen Ma estava trabalhando em um posto de gasolina e Noel Gordon trabalhava como cortador de tecido na fábrica de roupas de seu sogro no subúrbio de Newtown. Jens Rasmussen estava dormindo no sofá de sua mãe em casa, na Dinamarca.

Sem arrependimentos: Noel Gordon, cofundador do Google Maps. Foto: Tony Walters

Agora eles não apenas eram empregados de uma das mais prósperas empresas de tecnologia, mas também quase certamente os proprietários de uma proposta em dinheiro vivo e ações.

No mesmo mês, eles se tornaram Nooglers (o apelido de novos recrutas no Google), e a empresa realizou seu IPO (oferta de ações em mercado de capital aberto). Com suas ações inicialmente listadas em US$ 85, o Google foi avaliado em US$ 23 bilhões. Hoje, essas mesmas ações são avaliadas em US$ 580 — e o valor de mercado é de pelo menos US$ 400 bilhões.

Filho de um ex-fazendeiro e policial de Bellingen (Nova Gales do Sul), Noel Gordon, de 52 anos, é um dos diferenciais na filial australiana do Google, um general junto com uma brigada de 20 a 30 pessoas.

Hoje, Gordon é o único dos quatro que ainda trabalha no Google. Stephen Ma se aposentou há alguns anos e os irmãos Rasmussen saíram da companhia — Lars foi para o Facebook de forma espetacular — após a interrupção do projeto Google Wave em 2010.

“Em 2003, tínhamos a World Wide ‘Wait’,” disse Gordon. “Era pré-histórico. Você clicava em um mapa e só voltava depois de tomar um xícara de café.”

Antes do Google Maps, o mercado era dominado pelo MapQuest, um projeto desengonçado de cartografia analógica, posteriormente comprado pela AOL.

Tela capturada mostrando uma versão inicial do Google Maps.

O Google Maps era baseado em um grupo de tecnologias que hoje são mundialmente conhecidas como Ajax. Os cofundadores do Google Maps não inventaram o nome, mas foram alguns dos primeiros a aplicar a tecnologia que viria a se tornar a pedra angular do renascimento da Web 2.0 no fim de 2004, um reinício da antiga web que entrou em declínio em razão das altas expectativas criadas em 2000.

Os irmãos Jens e Lars tinham brincado com a ideia de construir um software mais aprimorado de mapas quando Lars viajou para a Austrália em 2003, quando morou com sua então namorada cubana que não podia morar nos Estados Unidos.

Lars procurou Gordon, que trouxe um de seus ex-colegas, Stephen. Com um pouco de dinheiro dado por Noel a título de cortesia, a Where 2 tomou vida.

Mesmo uma década atrás, essa não era uma típica startup. Não só os cofundadores já eram homens de meia idade mas, graças à namorada de Gordon (hoje sua esposa), eles trabalhavam em um horário civilizado. Uma condição para usar o quarto de hóspede era que ninguém poderia trabalhar após as 18h, tampouco durante os fins de semana.

Homem de frente: Cofundador do Google Maps Lars Rasmussen. Foto: Stephen Hutcheon

“Éramos a única startup no mundo que trabalhava das 9h às 17h”, disse Gordon.

Prontamente ficou decidido que Lars seria o rosto em público da Where 2, situação que continuou mesmo após o lançamento do Google Maps, em fevereiro de 2005. Foi uma decisão que empurrou Gordon e Ma para longe dos holofotes.

Ao ser perguntado sobre como a parceria funcionou, Gordon escolheu suas palavras com precisão:

“Todos contribuímos de forma equilibrada, mas eu não diria que éramos parceiros da mesma maneira”.

Gordon disse que estava feliz por Lars ficar com a liderança, e que não havia disputas de Ma ou Jens, cujas personalidades introvertidas não seriam adequadas ao mundo da publicidade.

“Eu não acho que isso foi um problema para nós, olhando para trás. Não acho que reclamaríamos sobre como as coisas aconteceram”.

Originally published at medium.com on February 10, 2015.

Siga o Medium Brasil | TwitterFacebookRSSCanal oficial