

A maior viagem de trem do mundo por 1.000 dólares
‘É como ser teletransportado para uma terra diferente toda vez que você acorda’


No final do século 19, um homem achou que seria uma boa ideia construir uma estrada de ferro que começaria na Europa e seguiria por toda a Ásia. Este homem era o Tsar Nicolau II da Rússia, e esse projeto tornou-se a Ferrovia Transiberiana.
Cento e vinte anos depois, ela segue sendo a maior ferrovia do mundo, estendendo-se por 9300 quilômetros, 87 cidades, oito fusos horários e dois continentes. Se você tirar uma soneca no Golfo da Finlândia e perder a parada, há uma chance de que você irá acordar no Mar do Japão.






O trem Transiberiano corre (ou se movimenta fazendo barulho, o que é mais comum) pelas regiões mais remotas da Rússia e passa por quase todo tipo de paisagens, de montanhas cobertas de neve a desertos, florestas e lagos.




Eu andei nesse trem em maio de 2011 como parte de uma viagem de mochileiro que ia da Ásia até a Europa, sozinho. Eis o que aconteceu:
Cheguei na Estação Ferroviária de Pequim.


Embarquei no trem 3, com destino a Moscou (duração: 6 dias).




Nossa rota seguiria a via Trans-Mongoliana, que começa na China e atravessa a Mongólia antes de entrar na linha principal, que segue pela Sibéria.


É possível fazer a viagem de 8 mil quilômetros sem sair do trem, mas para preservar minha sanidade (e minha higiene), resolvi fazer paradas ocasionais ao longo do trajeto.
Parte 1
Pequim a Ulan Bator
(30 horas)


No primeiro trecho, rumo à capital da Mongólia, você pode escolher entre três opções de cabine — spalny vagon (primeira classe), kupe (segunda classe), ou platskartny (terceira classe).


Consegui um compartimento econômico de 4 camas na segunda classe, que dividi com um cara de Hong Kong e outro da Alemanha.


Não há chuveiros a bordo. E o cara de Hong Kong estava indo direto para Moscou, sem fazer nenhuma parada…


É um ambiente extremamente sociável, e depois de algumas horas você já está à vontade com seus colegas de cabine e seus vizinhos. Elena, uma russa de quatro anos de idade, infernizava o nosso vagão. Ela falava um inglês péssimo e eu, um chinês péssimo. Nós nos demos super bem.


Havia um vagão restaurante chinês.


E um almoço cortesia, que não empolgou ninguém.


Seguimos viagem lentamente pelas regiões montanhosas da China setentrional.


… até que a paisagem ficou plana.


Paramos, e o motor foi trocado por um mais econômico.


Treze horas depois, chegamos a Erlian, na fronteira da China com a Mongólia.


E parece que os trilhos da Mongólia e da Rússia são de uma bitola menor que os da China. Assim… mais uma troca. Dessa vez, do material rodante.
O trem é erguido por incríveis macacos hidráulicos, enquanto você fica preso lá dentro por 3 horas. (E todos os banheiros são trancados para evitar que incidentes desagradáveis aconteçam com os engenheiros que estão trabalhando embaixo de você...)


Você sabe que está em um país diferente quando…


Ao acordar, o vagão restaurante chinês foi substituído por um mongol.


E você tem que pagar 10 dólares por um café da manhã nada apetitoso…


Mudança de paisagem à vista: acabamos de entrar no Deserto de Gobi.


Mesmo com as janelas fechadas, a areia entra dentro do trem.


E então, a infinita paisagem desértica finalmente dá espaço a um aglomerado urbano dominado pelo concreto. Uma vista quase tão desoladora quanto a anterior. Bem-vindos a Ulan Bator.


A Mongólia acabou sendo um destino fabuloso. Passei uma semana inteira lá. Mas isso é assunto para uma outra história…


Parte 2
Ulan Bator a Ulan-Ude
(25 horas)


Este trecho é ou não é devagar? Um turista italiano que conheci no hostel onde fiquei hospedado saiu na manhã seguinte à minha partida, de ônibus, e chegou no destino antes de mim.
Para ajudá-lo a se situar, há marcadores de distância a cada quilômetro, mostrando a distância a partir de Moscou ou Pequim. Passei um bom tempo apenas olhando as placas. Lentamente…


Depois de oito horas resolvendo problemas com a Imigração na fronteira russa, cheguei em Ulan-Ude na noite seguinte…


… para descobrir que a única coisa que vale a pena ver nesse lugar é a maior cabeça de Lenin do mundo.


Parte 3
Ulan-Ude a Irkutsk
(8 horas)


Algumas das paisagens mais espetaculares de todo o percurso podem ser vistas a caminho de Irkutsk, que fica próxima às margens do Lago Baikal.
É o lago mais profundo, mais cristalino e mais antigo da terra. Tem 1/5 das reservas de água doce do planeta e inúmeras espécies de peixes, das quais 80% são encontradas somente neste corpo d’água.


Passei vários dias explorando uma ilha no lago — Olkhon — que é maior que a minha terra natal, Cingapura.


Parte 4
Irkutsk a Yekaterinburg
(62 horas)


Este é o trecho mais longo de todos: 3.400 quilômetros. Por favor, não me perguntem como tive a ideia de viajar de platskartny — a terceira classe, com “dormitórios coletivos”.


Acho que pensei que ia encontrar um pessoal da Rússia e passar momentos de diversão bebendo vodka.
Não tive essa sorte.
O que encontrei foram uma série de atrasos misteriosos, que começaram na manhã seguinte. Eu acordei, olhei pela janela e calculei que tínhamos permanecido tempo demais na estação. Estávamos muito longe do programado.
Finalmente, o trem voltou a rodar de novo, até fazer outra parada não programada no meio da Sibéria.
(Estou falando sério. Foi literalmente no meio de Sibéria.)
Eu dormi. E acordei no mesmo cenário.
Estávamos agora com 15 horas de atraso. Aquilo não podia ser normal. Os passageiros estavam discutindo rispidamente com o provodnik (o comissário do vagão), uma conversa que eu não podia decifrar. Alguma coisa estava acontecendo.
“Qual a pior coisa que poderia ter acontecido?” perguntei a mim mesmo. Pensei em algumas hipóteses, e a mais mirabolante delas era um dramático acidente. Uma cena épica com explosões, estilhaços de metal e labaredas de fogo.




Era definitivamente um momento para fazer uma reflexão…
O atraso trouxe também um problema de menor importância para mim: minha comida estava acabando. Tive que fazer um racionamento dos meus petiscos, já que a única coisa que ofereciam a bordo era água quente.


A maioria dos passageiros estava bem preparado, com utensílios, copos e pratos. Eu não. Mas impressionei alguns russos ao transformar a embalagem do meu macarrão instantâneo em um copo de chá.


Naturalmente, havia reabestecimento de vodka em cada estação principal.




— Tempo!—
Todos os trens da Rússia operam de acordo com o horário de Moscou, mas há sete fusos horários no país e essa jornada me levou a quatro deles.
Isso cria uma situação bastante confusa, uma vez que relógios diferentes estão ajustados de acordo com fusos horários diferentes. As pessoas que embarcaram no trem em Irkutsk, como eu, acertaram seus relógios para o horário de Irkutsk (GMT +9). As estações ferroviárias usam o horário de Moscou (GMT +4), assim como o trem. Mas o nosso veículo estava uma hora atrasado (GMT +3), possivelmente devido a um erro na hora de acertar o relógio para o horário de verão. Os provodniks estavam com os relógios acertados de acordo com seus respectivos destinos, normalmente uma cidade maior como Yekaterinburg (GMT +6) ou Novosibirsk (GMT +7). Além disso, devido ao descarrilamento, estávamos 15 horas atrasados em relação à tabela de horários que havia em cada trem.
Assim, quando o relógio do trem marca 3h, alguns preparam o café da manhã, enquanto outros tentam dormir. E perguntar aos comissários pelo horário de chegada apenas cria ainda mais confusão. Vou chegar lá às sete ou às oito? Da manhã ou da noite? Horário local ou horário de Moscou? Chega a um ponto em que você já não sabe mais se está almoçando ou jantando.
Parte 5
Yekaterinburg a Vladimir
(25 horas)


Em algum ponto, marcado por um obelisco branco, passamos da Ásia para a Europa.


Fiz uma parada em Vladimir para visitar a cidade de Suzdal, que parece saída de um conto de fadas, e que consegue amontoar mais de trinta igrejas com 600 anos de idade em uma área inferior a 9km².


Vladimir a Moscou
(3 horas)


Embora não pareça longe no mapa, desembarcar em Moscou é como chegar em um país completamente diferente. Dá para ver imediatamente que você está em uma grande capital europeia, do nível de uma Paris, Londres ou Roma.


Moscou a São Petersburgo
(8 horas)
Tecnicamente, este trecho não faz parte da Transiberiana, mas esta viagem não estaria completa sem visitar o esplendor de São Petersburgo. É aqui que o Império Russo começou, de certa forma, e onde minha viagem chegou ao final.


Epílogo
Faz exatamente um mês desde que saí de Pequim, e estou muito contente de ter percorrido todo o trajeto. A Sibéria, onde somente três por cento da população fala inglês, não é nenhuma moleza para um viajante solitário. Pense comigo: se você souber inglês e andar pelas ruas pedindo por ajuda, apenas uma em cada 33 pessoas irá lhe entender.
Fiquei entendiado durante a maior parte do tempo? Sem dúvida. Faria a viagem outra vez? Num piscar de olhos.
Nesse ponto, eu havia passado mais de 161 horas dentro de trens. Fiquei entendiado durante a maior parte do tempo? Sem dúvida. Faria a viagem outra vez? Num piscar de olhos. Adoraria percorrer a Transiberiana no inverno, de Moscou a Vladivostok.
Viajar continuamente por uma rota tão extensa proporciona uma visão especial a você. Indo gradualmente em direção ao ocidente, podemos ver as cidades se transformando. Os monastérios viram igrejas. Os banheiros evoluem de buracos no chão para privadas com descarga. O número de orientais vai diminuindo, passando de uma maioria para uma minoria.
É como ser teletransportado para uma terra diferente toda vez que você acorda.
No oriente, carros baratos com a direção no lado esquerdo, importados do Japão, se misturam com os carros europeus com direção ao lado direito. Enquanto você vai seguindo viagem rumo ao ocidente, a proporção de veículos com a direção no lado esquerdo vai diminuindo, caindo a zero no momento em que chegamos a Moscou. Em algum lugar no meio do trajeto, há uma estranha — e assustadora — mistura.
E sobretudo, não há outra maneira de ver uma variedade tão grande de paisagens em constante mudança. É como ser teletransportado para uma terra diferente toda vez que você acorda.


Finalmente: quanto me custou?
Resposta: 1175 dólares por um mês
Resumo dos gastos:
$240 — Trem de Pequim a Ulan Bator
$42 — Trem de Ulan Bator a Ulan-Ude.
$41 — Trem de Ulan-Ude a Irkutsk
$88 — Trem de Irkutsk a Yekaterinburg
$81 — Trem de Yekaterinburg a Vladimir
$11 — Trem de Vladimir a Moscou
$30 — Trem de Moscou a São Petersburgo
$56 — Visto russo
$17 — Propina para o policial em Moscou.
$569 — Comida, hospedagem e outras despesas.
Observe que são gastos de mochileiro — dormi no sofá de estranhos, comi comida de rua, fiz tudo da forma mais barata possível. (Dito isso, também comprei lembranças, paguei entradas para museus e até assisti o Ballet do Teatro Mariinsky).
Conclusão: Fiz uma viagem espetacular e, pelo mesmo preço, nada impede que você também faça.
Derek é engenheiro e empreendedor. Ele é o criador do Berkeley Ridiculously Automated Automate (BRAD), um hit viral no YouTube que, na verdade, tem menos visualizações que 10 Momentos Mais Fofos Com Gatinhos. Foi matéria na TIME, Forbes, CNN, The Guardian and TechCrunch. Ele sabe que escrever seu perfil na terceira pessoa pode soar um tanto idiota.
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