A tecnologia não me afastou das pessoas, quem fez isso fui eu


Ei, vamos nos encontrar?”, veio a mensagem pelo whatsapp, e os dois tiquezinhos acesos indicando que li a mensagem faz com que meus dedos tremam, porque agora já era, agora eu tenho que dar uma resposta.

Que desculpa eu dou dessa vez?, e se minha imaginação não for competente o suficiente só me resta aceitar o convite, embora eu goste da pessoa, embora eu saiba que vou me divertir com ela. Mas o cansaço. O esforço que sei que vou ter que investir nesse encontro (me arrumar, deslocamento, procurar assuntos, gastar dinheiro quando é o caso, seguir a cartilha) faz com que eu pense duas vezes.

Respondo e marco o encontro pra semana que vem. Se a pergunta fosse “vamos nos ver hoje?” seria mais fácil responder “não vai rolar, desculpa”. E como fica o meu tempo para sofrer por antecipação? Não dá, preciso de tempo para ficar abraçadinha com minha ansiedade.

Outro dia me ligaram e que maravilha é poder ver quem está do outro lado sem precisar atender pra perguntar “quem é?”. Foi num desses seriados americanos com claque de risos que ouvi um personagem dizer que atender o telefone sem saber quem tá ligando é “uma coisa muito 1995” a se fazer. Ouve-se risos.

Toca duas, três vezes. Teve um dia em que a ansiedade era ter que atender para descobrir com quem eu ia falar; agora a ansiedade é ter que falar. Toca mais uma vez. Lembro da Fal Azevedo ter escrito em seu Sonhei que a neve fervia:

“Minha mãe tem um lance esquisito com telefones tocando: ela atende. Meio da refeição, meio do filme, conversa, aflição pra fazer xixi, nada detém minha mãe ou a impede de, neuroticamente, tirar aquela porra do gancho e mandar um “Oláááá!” (sim, ela atende o telefone assim). Não passa pela cabeça dela deixar aquele treco tocar até derreter. Oh, não, jamais. Ela tem que atender, é mais forte que ela. Eu? Pufffff. Na grande maioria das vezes, nem sei onde o telefone está. E não, nem me dou ao trabalho de olhar quem é no visorzim cagueta. Não quero atender. Quando eu estou ocupada, quando eu não estou ocupada, de noite, de dia, o fixo, o celular, o dos outros, no meio do trânsito, eu não quero atender. Nunca, ninguém. Não quero falar no telefone. Não quero falar. Simples assim.”

O telefone exige ser atendido, ele se impõe, mas eu me recuso a ceder. Não terá poder sobre mim, penso. Então continua tocando silenciosamente até parar, enquanto continuo minha vida, evitando pensar na pessoa que ficou do outro lado.


Se você está vivo hoje e tem um celular, você é uma pessoa mal-educada”, Aziz Ansari, ator de comédia, em seu stand-up na Netflix. Sinto que ele está falando comigo e minha única reação é rir; risos nervosos, risos de culpa.

“Ninguém quer se comprometer com merda nenhuma, porque ficamos morrendo de medo de que algo melhor apareça. Isso é tão escroto, por que fazemos isso? Acho que é porque fazemos parte da geração menos solitária. A menos isolada. Antes era uma grande coisa encontrar seus amigos pessoalmente, hoje em dia nem tanto, porque você está sempre conectado com eles.”

Vou ao encontro e me arrependo instantaneamente de toda a ansiedade que me consumiu. Que bom te ver, me conta as novidades — e é realmente bom te ver, mas deixo o celular ao alcance dos meus dedos, porque isso me acalma. Sei que posso recorrer a ele quando me sentir cansada de tanto assunto e tantas perguntas e de já não saber mais o que falar e de já não ter certeza que estou agradando e eu só preciso de um tempo — conversas também podiam ter as regras do basquete e a possibilidade de pedir tempo, chamar a equipe para o banco, beber uma água e reorganizar a estratégia. Corta para o intervalo comercial, qualquer coisa do tipo.

“Faz mal olhar para o eclipse direto”, me disseram na escola, e ensinaram que era importante usar algum filtro ou proteção para bloquear os raios que podem queimar a retina. E não é isso o que acontece? A busca por um meio de olhar para as pessoas sempre indiretamente, com medo de que tanta proximidade nos queime?

Então desvio o olhar para o filtro mais próximo — o celular — para não precisar olhar diretamente nem pra você nem para ninguém que está do outro lado da tela — os filtros, a edição, a preocupação em mostrar só o melhor também são formas de desviar o olhar, de encarar somente a silhueta da cópia do reflexo do eclipse.

Mas eu nem gosto de ficar olhando para o celular, o que eu estou fazendo? Fingindo ocupação. Fingindo ter encontrado algo mais interessante. Porque o silêncio ninguém aceita muito bem, e às vezes eu só queria ficar calada sem que isso fosse constrangedor; mas olhar para o celular, isso podem aceitar, isso podem entender e não vão achar que sou estranha, que sou errada, se faço algo que todo mundo faz tão naturalmente quanto pedir licença.

Então eu ligo a tela e rolo a timeline como fuga, mas que culpa tem a tecnologia da minha incapacidade de lidar com gente? Ela é só o escudo mais fácil e acessível que eu tenho à disposição para me afastar do que realmente me apavora.

Não demora a perceber que é inútil, que não adianta fugir de pessoas indo para um lugar que tem mais pessoas, ainda que elas não estejam realmente lá, não ao mesmo tempo. É gente fora da internet, gente dentro da internet, às vezes chega de gente, tá bom de gente e tudo o que eu preciso no meu celular é mesmo jogar Pokémon. Uns bichinhos que ficam se batendo e que não parecem nada com humanos, só pra eu descansar um pouco as vistas, sabe?

Melhor ir pra casa, pra companhia da Netflix, e em algum momento lembro da frase “o sol que te aquece é o que me destrói”, que também tá no livro da Fal. É maravilhoso poder se conectar, mas também cansa. Porque as vozes das pessoas não param um minuto (o silêncio é constrangedor), e elas estão lá o tempo inteiro, me contando coisas, me fazendo rir ou me falando das novidades, mas nem sempre estão falando comigo.

Aziz querido, já não sei se essa é a geração menos isolada, como você diz.


A internet fez as pessoas ficarem distantes, mal educadas e superficiais”, dizem de um lado. “Não, a internet possibilita que as pessoas se conheçam melhor e se aproximem”, dizem do outro. Mas a internet nada. A internet não. É como glorificar o martelo por tornar possível pendurar um quadro na parede ou culpá-lo por bater no dedão de alguém, em vez de atribuir responsabilidade à mão que o manuseia. Internet também é ferramenta, que usamos inclusive para lavar nossas mãos e achar que não temos nada a ver com isso.

Se não fosse a internet, eu usaria outra tecnologia, sei lá, o fogo, pra continuar agindo do mesmo jeito. Porque uma fogueira pode ser um convite para sentarmos juntos num clima acolhedor, mas uma tocha pode ser uma forma de dizer “me deixem em paz”.

Então não foi a tecnologia (a internet) que me afastou das pessoas. Fui eu quem fiz isso. Meu medo de parecer inadequada, meu cansaço de ficar procurando a coisa certa para falar, minha preocupação extrema com o que os outros vão achar. Essa vontade de me afastar talvez um sinal de que precisamos de um pouco de solidão para recarregar as energias. Porque ouvir essa multidão de vozes o tempo todo enlouquece. Porque estar o tempo todo disponível é esmagador.

Mas fico pensando: é justo negar um recurso tão abundante quando ele me é oferecido com tanta facilidade, ao me esforçar tanto para me isolar na época mais conectada da humanidade?

A internet não tem culpa de nada, embora também não tenha ajudado muito. Ela não pode me salvar, nem me destruir. Romper a solidão sempre vai ser mais difícil do que receber um punhado de corações ou do que conseguir marcar um encontro com quem quer que seja. Então vou negando ou adiando os convites, até deixar a saudade ficar maior do que o medo de estar presente, sabendo que posso ficar sozinha mesmo quando outras pessoas estiverem lotando meu perfil de corações e mensagens.

Disso acho que aquele texto que li no Medium não fala, né? Celulares e redes sociais não são vilões, realmente aproximam as pessoas, dão possibilidades (inclusive a possibilidade das relações superficiais), mas também não atrapalham quem precisa ficar sozinho. É onde podemos ficar sozinhos, todos juntos. Cada um esperando o momento mais confortável ou menos doloroso para se aproximar de alguém de novo.

Porque uma hora vou ter que sair da toca, me arriscar pra fora da zona de conforto, me esforçar um cadim pra não virar de vez eremita das montanhas. E quando toca o telefone de novo, eu atendo.

“Ei, vamos nos encontrar?” e nem fico irritada por essa ligação ter interrompido minha partida de Pokémon. Não consigo passar do Mega Aerodactyl mesmo.


Mais textos meus lá no blog. Agradeço a visita ♥︎

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