As 36 Pessoas que Comandam a Wikipedia


O que o projeto participativo mais insólito, conturbado e de maior sucesso na história tem a nos dizer sobre o trabalho em grupo.
Por Stephen Lurie
Ilustração por Pablo Delcan


A Wikimedia, o “movimento” que inclui a Wikipedia e todas as outras ocorrências Wiki, na verdade não deveria existir. Seu processo básico de operação desafia nossas mais firmes convicções sobre incentivos, trabalho e comunidade: ela é feita sem qualquer forma de pagamento, possui uma hierarquia formal muito sutil e os usuários não possuem qualquer vínculo comum além de sua participação no projeto.
E, ainda assim, ela não só existe como quase é a própria Web: a Wikipedia é o sexto site mais popular do mundo, com 22,5 milhões de colaboradores e 736 milhões de edições somente em língua inglesa. É como se toda população da Austrália (23,6 milhões) contribuísse 30 vezes. No ano passado, a totalidade de sites da Wikimedia (que inclui páginas como Wikiquote e Wiktionary, além da própria Wikipedia) teve uma média de 20 bilhões de pageviews por mês.
Esse paradoxo do sucesso é ainda mais saliente no topo da cadeia alimentar da Wikimedia. Na operação desse enorme empreendimento há uma hierarquia pouco conhecida de líderes voluntários que trabalham de forma efetiva em regime de hora-extra para fiscalizar o site, combater os vândalos, procurar spammers e fantoches e limpar e controlar tudo que você vê. Na verdade, milhares de pessoas em todo o mundo se oferecem para trabalhar de graça em cargos como administrador, autorrevisor, reversor ou burocrata da Wikimedia.


Mas no alto dessa árvore há 36 usuários que representam a Wikimedia em sua forma mais concentrada: os stewards. Eles exercem “direitos globais” — a capacidade de editar qualquer coisa — e respondem a crises e controvérsias em todas as plataformas Wiki. Eles vêm de todos os cantos do mundo, não recebem remuneração e raramente, ou nunca, encontram-se offline. Você definitivamente não os conhece — mas seu trabalho é essencial para compreender como a existência singular da Wikimedia deu certo.
Os stewards preferem passar despercebidos. Apenas um deles já teve alguma fama de verdade — o cofundador da Wikipedia Jimmy Wales, que serviu como steward de 2006 a 2009. Eles operam em um patamar acima das disputas, conferindo e retirando privilégios de usuários e intervindo em questões pelas quais os editores de níveis inferiores não podem se responsabilizar. Você pode chamá-los em situações de emergência na sala de chat IRC dos stewards na Wikimedia digitando “!steward”.
Sua discrição tem uma certa ironia, dada a natureza totalmente pública do produto que administram, mas talvez ela seja emblemática da Wikimedia como um todo. Se o seu valor fundamental é o de que “cada ser humano possa compartilhar livremente a soma de todo o conhecimento”, as hierarquias se tornam um mal necessário.
“Há, porém, uma coisa que você não deve esquecer”, me disse um steward que atende pelo nome de usuário Trijnstel. “Nós temos de fato alguns direitos a mais, mas na teoria isso não nos torna mais importantes que os outros editores. Consultas com a comunidade são essenciais, então os editores normais têm uma voz através da gente.”
Trijnstel foi um dos poucos administradores que responderam aos meus pedidos de entrevista. Outros declinaram, alguns dizendo que temem dar notoriedade aos stewards pois isso pode diferenciá-los muito do resto da comunidade Wikimedia.
Ao examinar a lista de stewards, uma habilidade comum se torna aparente. Entre os 36 membros atuais, apenas um é monoglota (Bsadowski1, que registra apenas a língua inglesa em seu perfil); como grupo, a média é de 3,6 línguas por pessoa. Há ainda falantes nativos de azerbaijano, indonésio, tâmil, sueco e siciliano — entre as 33 línguas originais que os stewards dominam.
Apenas um pouco menos diversificada do que a capacidade linguística do grupo é sua diversidade geográfica: eles abrangem 22 países em cinco continentes.


Embora ainda existam algumas deficiências notáveis — a Wikipedia em geral carece de participação africana e está em processo de expansão na Ásia Oriental — mesmo assim sua propagação é impressionante.
O mesmo não pode ser dito sobre gêneros: apenas uma steward é do sexo feminino. Essa lacuna não é exclusiva — é a representação da cultura masculina dominante na Wikimedia, em que tanto colaboradores como conteúdo tendem para um viés masculino. É uma questão que os projetos relacionados à tecnologia em geral ainda enfrentam, mas a comunidade Wikimedia está tentando resolvê-la, embora ainda esteja longe de atingir um equilíbrio. O gênero, no entanto, parece ser a única característica compartilhada por uma maioria de administradores. Há um grande número de estudantes, mas também professores, contadores e engenheiros de software. Os stewards também estão distribuídos entre as gerações: nascidos com décadas de diferença, alguns cresceram com a internet enquanto outros são da época dos materiais de referência impressos.
Embora eles e os outros editores da Wikimedia estejam conectados, em algum nível, por uma admiração pelo conhecimento, não há necessariamente uma camaradagem intelectual espontânea. Um steward é especialista em estradas e rodovias americanas; outro em Júpiter e suas luas; outro em grego antigo; outro em física teórica. E, para cada um, há sua própria constelação de páginas e recursos da Wikimedia (obviamente, vários deles estão interessados em computadores).
Eles também chegam até o projeto por diferentes caminhos. Vituzzu, um steward da Itália, contou que sua participação na Wikipedia teve início quando ele “começou a adicionar algumas coisas sobre a Segunda Guerra Mundial que [ele] não encontrava”, e que levou apenas alguns meses para começar a fazer o trabalho de contravandalismo, assumindo posteriormente um cargo formal. Outro steward começou corrigindo erros de digitação, aprofundou-se na escrita de artigos e também passou a combater o vandalismo. Mentifisto, do Reino Unido, disse que “na verdade, eram seus aspectos técnicos que pareciam interessantes, valia a pena tentar explorá-los… o software por trás da wiki, estruturado de uma forma tão lógica.”
O comprometimento de cada steward é consistente. Dois desses três têm participado de projetos Wiki há mais de oito anos, e o outro por mais de cinco anos. Metade de todos os stewards são designados para servir no cargo por mais de três anos. Alguns passam mais de 20 horas em trabalhos para a Wikimedia; exceto pelas interrupções da “vida real”, nenhum deles gasta menos do que oito horas por semana. E, ainda assim, a maior recompensa que recebem são pequenos distintivos chamados barnstars. Como a página do conceito descreve, barnstars são usados para recompensar “colaboradores pelo trabalho duro e esforço prestado”. “Esses prêmios são parte da Kindness Campaign e destinam-se a promover a civilidade e o WikiLove”. A página explica: “Eles são uma forma de carinho amigável: são livres para serem oferecidos e trazem alegria ao receptor”. Além dos barnstars, é possível ser nomeado Wikipedian do dia e ganhar outros distintivos para serem postados em seu perfil. É disso que se trata (embora um steward conte que certa vez ganhou uma camiseta).


A participação e a administração funcionam não porque as pessoas são pagas ou reconhecidas, mas aparentemente porque possuem um interesse autêntico no projeto. De fato, muitos stewards se manifestaram decididamente contrários ao pagamento. Entre os stewards que conversei, a satisfação depende apenas da natureza intrínseca do projeto: a gratificação instantânea pela publicação imediata, a capacidade de difundir o conhecimento e aprender — e, sim, porque é divertido.
Pois é, o maior e mais bem sucedido projeto colaborativo da história, o moderno centro do conhecimento humano — um modelo radicalmente participativo para esta era tecnológica — é possível porque as pessoas acham intrinsecamente gratificante participar.
Esse sucesso estranho, quase sem jeito, deixou a Wikimedia e os stewards que a operam no centro de um cabo de guerra político. Quase todos os partidos tentaram reivindicar esse ethos de trabalho para si: afinal, quem não gostaria de levar o crédito por esse enorme sucesso? Os libertários e anarquistas dizem que o projeto funciona porque carece de uma autoridade central; os capitalistas se vangloriam pela dinâmica do laissez-faire e a tendência ao equilíbrio; os socialistas sugerem que a Wikimedia é um modelo igualitário alheio aos incentivos capitalistas.
Erik Olin Wright, sociólogo da Universidade de Wisconsin-Madison, gosta sobretudo da última teoria. Para ele, conforme descrito em seu Envisioning Real Utopias, o sucesso da Wikipedia é uma prova significativa de que a maioria dos nossos ideais utópicos podem acontecer no mundo real.
“O notável é que esses princípios têm garantido a colaboração de dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo na produção de um sólido recurso global. A Wikipedia mostra que é possível uma colaboração produtiva igualitária não orientada para o mercado em ampla escala”.
Mas a constituição exata da Wikimedia torna ainda mais improvável sua relevância. Democracias sociais com redes de segurança robustas — pense na Suécia — tendem a progredir onde há populações homogêneas; as pessoas querem cuidar das pessoas com as quais se identificam. Com participações tão diversas e distantes, as operações dos stewards, e todas as outras da Wikimedia, não possuem esse benefício natural.
Assim, sob a perspectiva da economia política, da sociologia ou apenas do senso comum, a Wikimedia não deveria existir — e certamente não deveria ser tão bem-sucedida. O que a natureza e o comprometimento dos stewards nos diz, porém, é que o mistério não é tão misterioso assim.
As pessoas participam porque gostam, porque aprendem, porque existe a capacidade de ensinar. Elas se tornam líderes não para ganhar poder, dinheiro ou fama, mas simplesmente porque é uma comunidade e um projeto que eles valorizam. É de todos e de qualquer um.
“Todos podem participar e toda voz é ouvida”, diz Trijnstel. Funciona, diz Mentifisto, porque “qualquer um pode contribuir.”
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