Como a Índia furou o programa de internet gratuita do Facebook
A história por trás da tentativa de Mark Zuckerberg de dar internet sem custos a um subcontinente cético.
por Lauren Smiley



Se você quisesse ter uma ideia da força com que o Facebook briga quando é pressionado contra a parede — uma amostra do seu arsenal, a extensão de sua ambição para acessar e conectar o mundo em desenvolvimento — bastaria dar uma volta em Mumbai, a capital econômica da Índia, na passagem de 2015 para 2016.
Por toda a parte, propagandas. Ao longo da rodovia sob a neblina da poluição e estampadas nas paradas de ônibus: “Um bilhão de motivos para apoiar a igualdade digital”, com uma imagem de um celular obsoleto. Em uma movimentada rua comercial, uma placa com os dizeres “um primeiro passo para a igualdade digital” mostra duas jovens mulheres vestindo saris, conversando enquanto olham para um celular. Os anúncios foram veiculados durante duas semanas em seis cidades.
Também espalhados por toda parte: anúncios de jornal, anúncios de página inteira — anúncios de página dupla! — mostrando agricultores indianos, mãos adornadas com tatuagens de henna e histórias sobre o Facebook proporcionando a entrada de pessoas não conectadas à internet. E um publieditorial de página inteira no Times of India, do próprio Mark Zuckerberg, no qual ele pergunta: “Como pode alguém ser contra isso?”
A campanha foi para salvar o Free Basics, um programa do Facebook que dá acesso a um número limitado de sites (incluindo, naturalmente, o Facebook), gratuito em 37 países em desenvolvimento, um número que segue aumentando. Há um ano, a parceira de telefonia do Facebook, Reliance Communications, possibilitou que clientes de internet móvel na India acessassem sites pré-aprovados pelo Facebook sem precisar de um plano de dados. É um princípio central da Internet.org, a divisão do Facebook encarregada de conectar o mundo inteiro à internet, e uma peça chave do legado visado por Mark Zuckerberg. Também é a entrada do Facebook no modelo de filantropia “bom-para-nós, bom-pro-mundo” do Vale do Silício, e outra maneira de competir com a Microsoft (que quer conectar países em desenvolvimento via painéis solares e subsídios ), Google (via balões do Projeto Loon) e o SpaceX da Elon Musk (via satélites).

Agora, a previsão é de que as agências reguladoras da Índia proíbam o Free Basics em uma decisão que deverá sair em até uma semana. (ATUALIZAÇÃO, 08/02/2016: A agência reguladora proibiu o Free Basics. Saiba mais detalhes da decisão (em inglês) aqui.)
Os anúncios do Facebook mantém o foco no programa para “conectar a Índia”, onde apenas 20% da população está online, e cerca de 30% têm celulares. (Também descobri que ajuda pessoas preocupadas com as finanças, que já estão online, a economizar algumas centenas de rupias em planos de dados todo mês) Ausente no anúncio, mas também reconhecido pela empresa, é o fato de que o Free Basics ajuda o Facebook, ao canalizar o próximo bilhão de usuários para a sua lucrativa rede social. (Os usuários não precisam se cadastrar no Facebook para acessar o restante do Free Basics, mas o Facebook é a primeira seleção na lista. O Facebook Messenger também está incluído nos serviços oferecidos.)
Então, quem poderia ser contra isso?
Os vigilantes da neutralidade na rede. O Free Basics serve de graça aos usuários apenas uma minúscula fatia da Internet aprovada pelo Facebook. Um “jardim cercado”, como chamam os críticos. Ao mesmo tempo, os usuários precisam pagar para acessar qualquer outra coisa na web. Conforme o Backchannel têm documentado há algum tempo, os críticos enxergam isso como uma violação do princípio da neutralidade na rede, de que todas as coisas na Internet deveriam ter o mesmo tratamento para preservar a competição: não ter conexões de dados mais velozes para empresas endinheiradas, não cobrar clientes por alguns sites mas não outros e não permitir que empresas privadas deixem de fora fatias da Internet.
Em dezembro, um ano após o Free Basics ter sido lançado na Índia, as agências reguladoras de telecomunicações ordenaram a empresa de telefonia parceira do Facebook na Índia para que suspendesse o lançamento nacional até que decidissem como fiscalizar preços diferenciais, ou a cobrança de preços diferentes para os dados de internet diferentes — estando o Free Basics claramente implicado. (A imprensa alega que o Free Basics continuou operando, e o CEO da Babajob, um dos serviços incluídos no site, me disse em 28 de janeiro: “Ainda temos novos usuários entrando.”) As agências reguladoras, então, deram aos indianos uma oportunidade para manifestarem sua opinião sobre o assunto ao longo do mês de janeiro, prometendo uma decisão no final do mês, que ainda não saiu, mas que deverá ser publicada em até uma semana. No entanto, a decisão foi vazada ao público nos últimos dias — e aparentemente, o Facebook sairá perdendo.
Para entender o quanto esta batalha é importante para a empresa, representando um possível efeito cascata em outros países onde o Free Basics é oferecido, basta ver a força com que o Facebook lutou.
Isso nos leva ao festival de propagandas: o Facebook não iria dar chance ao azar com o acesso ao segundo maior mercado de usuários em potencial no mundo (e o maior para o Facebook, que é proibido na China), principalmente considerando que isso poderia causar um efeito dominó em outros países. Mesmo antes dessa última briga, o Facebook vinha investindo em boas relações com o país, reunindo-se com startups indianas e com o Primeiro Ministro Narendra Modi, defensor de iniciativas com foco em tecnologia. Desde o conflito de dezembro, Zuckerberg fez ligações a críticos importantes dentro da cena startup na Índia, e representantes do Facebook têm feito lobby a partes interessadas na capital Nova Déli. O Facebook retrata os oponentes como elitistas avarentos presos a princípios “extremos” de neutralidade na rede, “mesmo”, como escreve Zuckerberg em seu publieditorial, “que isso signifique deixar um bilhão de pessoas para trás.” Em dezembro, o Facebook lançou uma petição na própria rede social, para que os usuários apoiassem “a igualdade digital”. As assinaturas foram encaminhadas aos órgãos reguladores.

Uma reguladora fez fortes críticas à petição, chamando-a de “uma pesquisa de opinião orquestrada e grosseiramente majoritária.” (As agências reguladoras queriam que o público respondesse a quatro perguntas sobre preço diferencial, não que participassem de ativismo digital.) Muitos indianos não gostaram da campanha, com um custo estimado em 44 milhões de dólares de acordo com uma reportagem da imprensa — uma hipótese que um representante do Facebook definiu como “muito, muito alto, de uma forma exagerado”
Os internautas responderam ao Facebook com anúncios de paródia, anúncios de utilidade pública ao estilo John Oliver, tweets críticos de figuras de destaque na indústria da tecnologia indiana e uma enxurrada de cartas para as agências reguladoras. Um coletivo informal chamado SaveTheInternet.in têm organizado o movimento de oposição, que tem lutado com a experiente cena de tecnologia e startups da Índia para argumentar que isso não fere apenas a neutralidade na rede, mas também a eles próprios.
Isso porque, em um momento em que empresas indianas estão surgindo para competir com o Vale do Silício, o Free Basics deixa uma empresa decidir o que uma faixa dos usuários poderá ver, o que torna difícil para que os pequenos sejam descobertos na selva da Internet a menos que entrem para o programa. “O Facebook está gastando muito dinheiro em outdoors, em anúncios e em abraços com o Modi”, disse o fundador do app Hey, Neighbor!, Aravind Ravi-Sulekha, com sede em Bangalore.”O Facebook diz “não somos uma ameaça, ainda não sufocamos o ecossistema das startups. Mas até agora eles não tem tido muito sucesso na Índia. Tenho certeza que o Facebook, com a cultura hacker deles, vai dar um jeito nisso, e quando isso acontecer, vai ser tarde demais.”
Quem está certo? Os dois lados declaram que defendem o que é justo. Então, às vésperas da decisão, o Backchannel foi ao Vale do Silício da Índia para entender melhor o que está em jogo.

Os Defensores
Para Sean Blagsvedt, o Free Basics veio sob medida. Ele fundou o Babajob em 2007, após romper com a Microsoft Research, a empresa que o trouxe para Bangalore. O Babajob é um Craigslist de anúncios de emprego para trabalhadores na parte inferior da pirâmide salarial (esteticistas, cozinheiros, eletricistas, etc), o que combina com o público-alvo do novo programa do Facebook.
Fui conversar com o CEO em seu escritório no centro de Bangalore, onde seu cão, Berlim, passeia por salas de conferências com nomes curiosos como Castelo Inflável e The Mystery Spot — uma referência ao lugar homônimo em Santa Cruz, Califórnia, onde Blagsvedt passou a adolescência. Ele dirigiu-se para a varanda cinco andares acima, com vista para um parque onde uma bandeira verde e laranja da Índia tremulava sobre as árvores, e me explicou o caminho que o levou a se tornar um dos poucos aliados do Free Basics na indústria da tecnologia que não tem vergonha disso.
Segundo ele, o Facebook o contatou pela primeira vez em julho de 2014, meses antes do Free Basics — na época, Internet.org — ser lançado na Índia. O contato foi para ver se ele gostaria de fazer parte dos sites oferecidos pelo programa. Os representantes do Facebook disseram que, na África, sites de emprego como o seu conquistaram um número significativo de novos usuários ao fazer parte do Free Basics da Internet.org. Assim, ele decidiu participar.
Até o momento, o número de trabalhadores que se registraram no Babajob pelo Free Basics — que ainda é oferecido apenas por uma empresa de telefonia, e em seis dos 29 estados indianos — chega apenas na casa das dezenas de milhares.”Para ser franco, é provavelmente menos do que esperávamos”, Blagsvedt afirma.”Eu sinto que é uma luta precoce. Nós estamos falando de algo com base no seu potencial para benefício futuro, e no potencial para prejuízo futuro. Até agora, não estamos falando de uma coisa que esteja por toda ou parte ou que seja comum.”
Entrar na Internet.org foi bastante fácil. Os sites não pagam para ser incluídos, e o Babajob já tinha um site leve que se encaixava nos requisitos técnicos do Facebook para funcionar em telefones mais baratos e em conexões 2G e 3G. Mas mesmo antes de ser lançada na Índia, a Internet.org esteve mergulhada em polêmicas. Seus adversários irritaram-se principalmente pelo fato de que o Facebook escolhia quem entrava no serviço. O Free Basics oferecia o Bing, mas não o Google. Dava acesso a BBC News, Wikipedia, Reuters Market Lite e, para a previsão do tempo, AccuWeather. A versão do Facebook que funciona no Free Basics não tem anúncios, e a empresa diz que não há transferência financeira com seus parceiros de telefonia, que absorvem o custo dos dados livres.
Mas os críticos na Índia aumentaram o coro, e várias startups que haviam inicialmente se cadastrado no Free Basics saíram antes mesmo que ele fosse lançado. Somente a Reliance Communications, a quarta maior e a mais barata operadora do país, fez uma parceria para distribuir o serviço. Em abril, Blagsvedt escreveu um texto defendendo sua decisão como sendo uma maneira de conectar pessoas que precisam de empregos em um país com apenas 20% de penetração da internet.
Nos bastidores, porém, Blagsvedt, com o ar de um sossegado idealista da Califórnia, não gostava do fato de que o Facebook selecionava os sites, ainda que ele fosse um dos selecionados. “Quem vai dizer que o Babajob é melhor do que qualquer outro site de empregos?”ele disse. Zuckerberg anunciou em maio que a Internet.org estaria aberta a qualquer solicitação que cumprisse suas especificações técnicas, mas para Blagsvedt, o lançamento não estava indo rápido o bastante.
Blagsvedt afirma que o Facebook o contatou em agosto passado para agendar uma ligação com o próprio Zuck, o que ele supôs ser uma das muitas ligações às empresas participantes para obter feedback e informá-las do que estava por vir. Ao falar com ele pelo telefone, Blagsvedt disse a Zuckerberg para que apressasse o processo de abertura da plataforma.”Acho que as minhas palavras exatas foram que seria muito difícil para o Babajob continuar na plataforma se ela não fosse aberta para os outros”, Blagsvedt me disse mais tarde, por e-mail.
E Zuckerberg cedeu? “Não”, Blagsvedt disse.”Ele disse, ótimo, vamos fazer isso.” O serviço foi ao ar em setembro, e a Internet.org foi rebatizada como Free Basics. (Os críticos acusaram o nome Internet.org de ser enganador, não sendo nem uma associação de caridade nem toda a Internet). Os mais de 30 sites incluídos no lançamento cresceram para mais de 130 em dezembro, incluindo um site contra a violência doméstica, um site para aprender inglês e o aleatório blog pessoal de um cara chamado Raj Rami, que posta fotos dos seus amigos dando rolê.
O Facebook afirma que jamais rejeitou uma solicitação que cumprisse as suas especificações, e o vice-presidente da Internet.org, Chris Daniels, diz que as especulações dos críticos, de que ele não deixaria seus concorrentes entrarem, são “balela”. “Ficaríamos contentes em ter o Google ou o Twitter no Free Basics, pois quanto mais serviços disponíveis, melhor vai ser a experiência para quem está entrando na Internet pela primeira vez.” O Google foi, de fato, oferecido nos testes iniciais da Internet.org em Zâmbia, mas em janeiro, a companhia decidiu sair, afirmando em um comunicado enviado por email para o Backchannel que o “Google não é parceiro do Free Basics ou da Internet.org”, sem citar razões.
“Eu queria que todo esse tempo gasto escrevendo sobre o Free Basics fosse para falar de algo do tipo, “por que não podemos ter pontos de wi-fi financiados pelo governo?” Blagsvedt disse. ”Por que não existe uma grande iniciativa para facilitar a publicação de conteúdo em línguas regionais? Como podemos levar a Internet aos idosos, às mulheres e à população rural?” Em vez disso, o debate concentrou-se no Facebook.
Desde o lançamento da sua primeira forma, há cinco anos, a missão do Free Basics foi aos poucos passando de nova ferramenta para aquisição de usuários no mundo em desenvolvimento para um esforço filantrópico (BuzzFeed News publicou um excelente artigo passo-a-passo ) com Zuckerberg fazendo o papel de estadista evangelizador. Perguntei a Blagsvedt se ele acha que Zuckerberg — com quem ele conversou duas vezes, e com quem falou brevemente mais uma vez no ano passado enquanto ele estava de passagem pelo país, — acredita realmente na sua missão de conectar o mundo.
“Nesse ponto, eu confio em Mark Zuckerberg,” Blagsvedt respondeu.”À esta altura, ele já não precisa mais de dinheiro. Acho que tudo agora se resume ao legado que ele vai deixar ao mundo antes de morrer. Acredito que ele gostaria, de verdade, de poder dizer que colocou 3 bilhões de pessoas na internet.”
Blagsvedt não é a única personalidade da indústria tech que defende o Free Basics, mas é um dos poucos que fala abertamente sobre isso na imprensa. Encontrei outro apoiador entre os indianos fundadores de startups que oferecem seus sites no Free Basics. Tomando bebidas em um bar num terraço de Bangalore, ele argumentou que é melhor ter alguma internet do que não ter nenhuma. No entanto, não quis ter seu nome publicado pois, com tantos na comunidade de tecnologia se posicionando contra o programa, tinha que pensar no futuro de sua nova startup.
Na Índia, apoiar o Free Basics na indústria da tecnologia tornou-se impopular assim.
Os Adversários
Um exército de críticos vêm enviando petições, protestando, mandando tweets e escrevendo artigos que expressam sua desaprovação ao longo das últimas semanas, fazendo o papel de um Davi digital contra um Golias muito rico. Como diz um certo ditado, nunca arranje briga com quem compra tinta e papel por tonelada. Porém, o Facebook tem feito exatamente isso, irritando o pessoal da tecnologia na Índia. O Free Basics não é uma preocupação à toa para os seus adversários: se o programa fosse sua única amostra da Internet (o Facebook diz que isso só se aplica a 5% dos usuários), você provavelmente sequer teria ouvido falar nos argumentos contrários.
Um ponto central das startups (457 empresas assinaram uma única carta contra o Free Basics e mais de 800 fundadores colocaram seus nomes em uma carta para o primeiro ministro Modi na semana passada) é o de que o programa cria um gargalo para o acesso à web no exato momento em que as startups indianas estão decolando. Nos últimos cinco anos, a Índia deixou de ser o escritório de back-end em TI do mundo para ser o centro de uma cena startup rica em investimentos e com um nível de ambição tão grande quanto o do Vale do Silício. Ola Cabs se orgulha de bater o Uber no mercado agregador de táxis, e o site de compras Flipkart está em briga acirrada com a Amazon. E cada vez mais, os empresários estão evitando criar uma cópia idêntica de empresas americanas, preferindo soluções específicas para a Índia. Para aumentar o otimismo, observadores dizem que o país está prestes a ter maiores avanços, devido às iniciativas “Start Up” e “Digital India” de Modi e o desenvolvimento do “India Stack” — uma API pública made-in-India que inclui um banco de identidades nacional e um sistema de pagamento eletrônico que qualquer startup pode utilizar.
Ainda que os táxis e o e-commerce não estejam voltados ao público de baixa renda do Free Basics, aqueles que pensam no futuro estão convencendo as startups de que não é agora que o programa irá afetá-las, mas sim futuramente, por meio da erosão de uma web aberta que permite romper com os que estão no poder — o tipo de rompimento que permite a uma rede social criada no dormitório de uma faculdade desbancar o todo-poderoso MySpace.
“Deixem qualquer pessoa no mundo operar nesse mercado”, defende Sharad Sharma , co-fundador da iSPIRT, um laboratório de ideias com sede em Bangalore que desenvolveu partes do India Stack.”Mas há certas regras necessárias para operar, para que a Índia não vire uma colônia digital”, permitindo que interesses estrangeiros venham depois dos clientes, mas mudando as regras para evitar que empresas nacionais prosperem.
Parte disso é garantir uma web neutra. O que fez com que Kiran Jonnalagadda recebesse uma ligação quando a agência reguladora da telefonia no país publicou, na primavera passada, um extenso relatório de 118 páginas discutindo a neutralidade na rede.


Jonnalagadda começou mexendo no IBM do seu pai depois da escola em 1991, e entrou com tudo na geração digital dos millenials, criando um blog hospedado no LiveJournal em 2000. Uma década depois, estava trabalhando como um desenvolvedor web em um prédio comercial de Bangalore chamado Carlton Towers, onde um cabo pegou fogo e a fumaça tomou conta dos dutos de ar. Enquanto outros funcionários de escritórios atiravam-se pelas janelas em pânico (alguns dos quais perderam a vida), ele e seus colegas de escritório amarraram toalhas molhadas em volta dos rostos, debruçando-se nas janelas enquanto Jonnalagadda tweetava relatos em até 140 caracteres. Ele sobreviveu, e meses mais tarde abriu a HasGeek, uma empresa de produção de conferências sobre tecnologia em uma casa a poucas quadras do prédio, entrando para o boom de startups em Bangalore.
Quando o relatório de neutralidade na rede da agência reguladora de telefonia veio à tona, Nikhil Pahwa, editor do site de notícias sobre telecomunicações Medianama, ficou estarrecido. O relatório abordou a neutralidade na rede, a diferenciação de preços e o licenciamento de empresas de internet por um viés distorcido para favorecer as operadoras de telefonia.”Esse relatório foram 118 páginas de idéias ruins”, disse Pahwa.”Era ruim de um jeito bizarro. Nós achamos que o acesso à internet nunca mais seria a mesma coisa.” Ele imediatamente acionou os seus contatos na comunidade digital para fomentar alguma oposição popular, recrutando Jonnalagadda para executar a parte de tecnologia de uma campanha em nível local. A equipe do HasGeek lançou o website SaveTheInternet.in, incluindo um pedido para que cartas fossem enviadas às agências reguladoras apoiando neutralidade na rede. Outros, como Sharma do iSPIRT, ajudaram a fazer lobby nos fundadores de startups para que assinassem cartas que seriam enviadas aos reguladores, ligando para os seus contatos que não eram muito ligados à neutralidade na rede para convecê-los um por um.
Mas o verdadeiro impulso veio de um vídeo de comédia: inspirado pelo esquete de John Oliver sobre a neutralidade na rede, durante o debate dos Estados Unidos sobre a questão, SaveTheInternet.in pediu para a trupe satírica de Mumbai All India Bakchod, com 1,49 milhões de inscritos no YouTube, para produzir um esquete sobre o assunto que atuasse como um apelo à ação. Após o vídeo fazer sucesso, todos, desde estrelas de Bollywood a parlamentares indianos, mandaram mensagens de apoio pelo Twitter. Os efeitos do networking floresceram, e um milhão de indianos enviaram cartas a favor da neutralidade na rede aos reguladores até o término do prazo em abril. “Essa é a primeira vez que algo assim aconteceu na Índia — foi tudo online”, afirma Jonnalagadda.”Isso chocou muita gente. Os políticos não conseguiam acreditar como isso aconteceu sem gente indo às ruas.”
Com várias agências do governo indiano ainda ponderando sobre as questões, a agência reguladora ordenou que o Free Basics fosse suspenso em dezembro, solicitando ao povo indiano para que dessem suas opiniões sobre o assunto e prometendo uma decisão até fevereiro. O Facebook lançou os outdoors, e era hora de convocar o eleitorado instantâneo do SaveTheInternet.in mais uma vez.
Os Usuários
Uma parte fundamental da estratégia do Facebook para o Free Basics é a narrativa que ele leva a internet para os pobres desconectados. O que Daniels, do Internet.org, chama de “uma ponte para a Internet “, escrevendo em uma extensa seção de perguntas e respostas: “. 40% das pessoas que iniciam sua jornada online no Free Basics acessam a Internet completa dentro de 30 dias”(Essa alegação foi considerada duvidosa por repórteres, e deixa os opositores loucos, pois eles só têm a palavra do Facebook, sem dados brutos. O Facebook rejeitou minha solicitação por mais detalhes.) A petição que o Facebook circulava em sua plataforma afirmava: “Ele ajuda aqueles que não podem pagar por um plano de dados ou que precisam de uma ajudinha para entrar na Internet.” Em seu artigo no Times of India , Zuckerberg dá o exemplo de Ganesh, um agricultor que usa o Free Basics para procurar informações sobre o tempo durante a temporada de monções, sobre os preços das commodities, para fazer negócios mais lucrativos, e que agora investe em novas culturas e criações de animais. O anúncio não afirma, mas leva a crer que Ganesh não estava na web antes: “…Se as pessoas perderam o acesso aos serviços básicos gratuitos, perdem acesso a todas as oportunidades oferecidas pela internet hoje em dia.”
Resumindo, o branding é: o Free Basics coloca pessoas em uma jornada rumo a Internet completa, e se elas não tiverem os serviços básicos gratuitos, perdem a internet.
Apenas por curiosidade, achei que valia a pena investigar quem são os usuários de Free Basics. Perguntei para as dezenas de pessoas que entrevistei — a favor ou contra o Free Basics — se conheciam alguém que usava. Só encontrei uma pessoa. Ela trabalhava em uma ONG que usa o app My Rights, de combate à violência doméstica, para complementar cursos de dois dias sobre direitos das mulheres nos vilarejos, que apareceu em um vídeo promocional do Free Basics. É claro, só as mulheres cadastradas na Reliance podem usar o aplicativo de graça, e ela não fazia ideia se as mulheres continuaram a usar o aplicativo depois que a ONG foi embora.


Pedi ao Facebook para me colocar em contato com os usuários do Free Basics. Eles me indicaram Pavankumar Shende, um agricultor que, segundo eles, morava em uma pequena cidade a cinco horas de Mumbai. Eu esperava alguém que tivesse uma história muito parecida com a de Ganesh, que talvez estivesse acessando a internet pela primeira vez.
Quando liguei para ele com um tradutor de hindi na linha, descobri que Shende era um agrimensor de 28 anos de idade, que ganha 10.000 rupias por mês (cerca de 150 dólares). Ele disse que o FreeBasics não foi a primeira vez que ele entrou na internet: já navegava na web e tinha uma conta no Facebook há cinco anos, pagando entre 100 e 200 rúpias por mês por pacotes de dados pré-pagos, ou 2% da sua renda. Alguns meses atrás, ele recebeu uma notificação no telefone dizendo que poderia ter Facebook de graça com o Internet.org. Começou a usar dados gratuitos para o Facebook e alguns outros sites oferecidos pelo programa, como BBC, um site de notícias sobre tecnologia, e AccuWeather para conferir a previsão do tempo e passar a informação ao seu pai que planta arroz. As duas ou três horas em que ele permanece conectado diariamente mantiveram-se constantes antes e depois do Free Basics, mas seus gastos mensais baixaram para 50 rúpias por mês. Ele ainda faz buscas no Google, fora da plataforma (“Google é Google”, disse).
Resumindo, o Free Basics não é o que fez com que ele entrasse na internet ou no Facebook. Foi um desconto. E um desconto arcado pela Reliance — já que, conforme afirma o Facebook, a Reliance absorve o custo dos dados gratuitos. Entrei em contato com dois dos seus amigos adolescentes que também usam Free Basics e ouvi a mesma história: eles já estavam na Internet e no Facebook por um período entre três a cinco anos, mas migraram para a Reliance a fim de obter o desconto.
Ainda que sejam irremediavelmente anedóticas, essas histórias não estão totalmente de acordo com a narrativa do Facebook. Estão de acordo, no entanto, com a publicidade que a Reliance faz para o Free Basics. Em uma conferência por telefone no ano passado , a Reliance afirmou que o principal motivo pelo qual ofereciam o programa era fazer com que seus usuários do WhatsApp entrassem na “internet real”. Os anúncios — bancados tanto pela Reliance quanto pelo Facebook — estão longe de ser as imagens dos agricultores e das jovens alunas em idade escolar utilizadas no site do Facebook. As propagandas mais recentes não mencionam as palavras “Free Basics”. Em vez disso, deixam de lado o suposto aspecto de caridade e focalizam a oferta mais atraente: “Facebook de graça” e “Curta o Facebook sem plano de dados.” Os comerciais mostram pessoas de 20 e poucos anos da classe média urbana passeando de trator e comendo comida pronta em um apartamento moderno, seguido por um protesto de jovens segurando velas e exigindo: “Eu quero Internet de graça.” Em um golpe de marketing de guerrilha, motociclistas andaram pela cidade levando cartazes com os dizeres “Facebook Gratuito.”
O marketing tem funcionado. Um franqueado da Reliance em um distrito comercial de classe média em Bangalore me informou que os clientes vêm regularmente até ele pedindo “Facebook gratuito.” Na sua loja, ele estima que 50% são estudantes sem dinheiro que alternam entre momentos em que podem pagar por pacotes de dados e momentos em que não podem, e os outros 50% são adultos de baixa renda.
Contatei o Facebook para saber a história de Shende. Um representante suavizou o fraseado sobre a “jornada rumo à internet” para uma versão mais sutil sobre diminuir as barreiras na internet em geral: “O objetivo do Free Basics é derrubar barreiras à acessibilidade e ao conhecimento que impedem pessoas de acessar serviços online, principalmente as pessoas que são novas à internet ou os iniciantes (não necessariamente usuários que a estão acessando pela primeira vez)… Por exemplo, poderiam ter usado uma vez, mas não podiam pagar por mais um plano de dados, ou então tentaram, mas não sabiam quais serviços utilizar, e isso fez com que parassem de acessar. Assim, o foco do Free Basics é tornar o uso de dados acessível para as pessoas (ao oferecê-los de graça), e conhecimento (dar acesso a serviços que as pessoas podem não conhecer).”
A verdade é que, pelo menos para três caras no estado indiano de Maharashtra, o Free Basics é basicamente um cupom de desconto. E eles — assim como as indianas das zonas rurais entrevistadas por um jornal — gostariam que o Google fosse incluído, por favor.

Ao sair do escritório do Babajob em meados de janeiro, eu chamei um táxi pelo Ola Cabs até a sede do HasGeek para ver como estava o movimento. No caminho, liguei para Jonnalagadda para dar instruções ao jovem motorista na língua regional Kannada. Embora o taxista tivesse o aplicativo do Ola Cabs instalado em um smartphone, ele, assim como uma série de outros motoristas com quem andei na Índia, não sabia como operar o GPS. Lembrei da conversa que tive um dia antes com Prathibha Sastry , uma consultora de startups que fez uma pesquisa anedótica sobre o uso da Internet na Índia rural em um projeto chamado Digital Desh Drive. Encontrei Sastry em um café num shopping elegante no centro de Bangalore, ainda com as decorações de Natal, e conversamos entre ligações de negócios e tweets promocionais para uma sessão de Perguntas & Respostas ao vivo pelo Twitter com um representante do governo que é favorável a iniciativas de tecnologia.
Ao entrevistar donos de lojas no Digital Desh, Sastry descobriu que a maioria já estava na internet — incluindo um pescador que enviava fotos dos seus peixes aos distribuidores diretamente do seu barco, pelo WhatsApp. Alguns “pegavam emprestado” o wi-fi dos comerciantes vizinhos e outros compartilhavam a conexão do celular de seus colegas. O acesso à internet não era a maior lacuna, segundo ela. Era o analfabetismo digital. “Devem ser feitas aulas de alfabetização digital”, defendeu Sastry, pois as pessoas ainda querem um ser humano para explicá-las como as coisas funcionam.
Ainda assim, havia um determinado serviço que todos os indianos com quem eu falei conheciam. O mesmo taxista que queria instruções passadas por um ser humano divertiu-se quando eu fotografei um anúncio de “Facebook gratuito” da Reliance em um ponto de ônibus. Entre o meu inglês e o kannada dele, “Facebook” foi uma das nossas poucas palavras em comum.
Depois de muitas voltas pelo quarteirão, ele me deixou na sede do HasGeek, em uma arborizada rua residencial. Jonnalagadda estava em plena campanha, monitorando e tweetando notícias, seguindo o frenético vai-e-vem entre reguladoras e Facebook sobre a petição online que a empresa fez. No entanto, Jonnalagadda disse que, desta vez, boa parte do trabalho de oposição foi feito pela própria campanha onipresente do Facebook. “Os indianos não confiam em publicidade que tenta acobertar falhas. Temos um histórico de empresas com a reputação manchada tentando melhorar sua imagem por meio de publicidade”, principalmente depois que a liberalização econômica chegou ao país e as empresas tentaram abafar escândalos com uma enxurrada de anúncios exagerados nos jornais, ele afirma. “Foi como uma luta de judô: o adversário tropeçou com o peso do próprio corpo.”
Na semana passada, Jonnalagadda pegou um avião para Nova Déli pela terceira vez no último ano com o objetivo de falar em favor da neutralidade na rede diante da agência reguladora. Enquanto esteve lá, surgiram discussões entre os defensores do SaveTheInternet.in sobre como a diferenciação de preços comprometeria a iniciativa Start Up India lançada pelo primeiro-ministro Modi logo na semana anterior, anunciando isenções fiscais e de requisitos para empresas de tecnologia.
No último fim de semana, Jonnalagadda e sua equipe enviaram uma última carta desesperada para Modi no site SaveTheInternet.in, afirmando exatamente isso: “O que nós decidirmos nas próximas semanas terá efeitos duradouros; que irão ditar a trajetória do nosso futuro “, escreveram. Eles pediram a Modi para que emitisse uma declaração e se certificasse de que o governo indiano protegeria a neutralidade na rede. Em dois dias, mais de duas mil pessoas assinaram a petição, incluindo 800 fundadores de startups.
Com holofotes gigantes apontados para o processo de regulamentação, algo normalmente restrito, e para o próprio Modi, os oponentes deixaram a aprovação da diferenciação de preços o mais difícil possível para o governo. “Eles tradicionalmente tentam uma abordagem de meio-termo para tentar agradar os dois lados”, disse Pahwa, sobre as decisões da agência reguladora. “Acho que o que temos feito até agora é, pelo menos, garantir uma chance de mudar o meio-termo para algo mais próximo do nosso ponto de vista. Nós estamos recuperando território pouco a pouco, dia após dia. As operadoras não esperavam por essa: para elas, sempre foi um passeio”.
Parece que, desta vez, não vai ser assim. Na primeira semana de fevereiro, o Times of India publicou um furo de reportagem obtido através de “fontes de primeira linha” relatando que a reguladora iria proibir a oferta de serviços gratuitos ou com desconto — incluindo Facebook, Twitter ou WhatsApp — ou os próprios serviços de música e mensagens instantâneas da operadora com desconto no preço. Esses serviços criam “uma distorção na forma como a internet é acessada pelas massas”, uma fonte não identificada disse ao jornal, e “vão contra o conceito de democracia digital.” O site Moneycontrol da CNBC relatou, também a partir de fontes anônimas, que é provável que as reguladoras permitam descontos se toda a Internet for incluída no plano, e não apenas sites específicos.
Os partidários do SaveTheInternet.in estão no aguardo. Mesmo se a decisão for favorável, “A expectativa de que as operadoras revidem é muito grande,” afirma Jonnalagadda. “Estamos prevendo mais briga por aí.”
E nas semanas que antecederam a decisão, o Facebook já tinha começado a fazer um balanço. Em meados de janeiro, Daniels da Internet.org me disse que se não pudessem levar adiante o Free Basics, iriam se concentrar em suas outras iniciativas para conectar a Índia — como hotspots de wi-fi e drones para distribuir sinais de Internet.
“Qualquer que seja o resultado, vamos trabalhar com a comunidade aqui para trazer mais pessoas à Internet, no intuito de tornar o mundo um lugar mais aberto e conectado”, disse.
Ele parecia alguém que estava considerando um Plano B.

Foto da placa tapada por Philippe Calia. Todas as demais são da autora.
Mais textos sobre o Free Basics (em inglês):
Se você quiser ir ao cerne da questão deste debate, confira a acirrada discussão do investidor indiano Mahesh Murthy com o VP da Internet.org, Chris Daniels.
Enquanto isso, no Medium, Rohin Dharmakumar escreve sobre o potencial “abuso de plataforma” quando empresas de tecnologia cutucam seus próprios usuários para que apoiem causas políticas, e também traz um texto de ficção sobre o destino do agricultor Ganesh no mundo pós-Free Basics de 2025. (Em uma nota igualmente peculiar, Jon Auerbach escreve um script para o Simpsons sobre o Free Basics, que traz Mark Zuckerberg como personagem.)
Umang Galaiya argumenta neste artigo que deve ser dada uma chance ao Free Basics: “Quando estas pessoas em áreas rurais descobrirem o poder que a internet tem, tenho certeza que vão pagar para ter acesso a todas as outras partes fascinantes que não estão incluídas no Free Basics “. Ashish Dua também mostra seu apoio neste post, dizendo que “não existe almoço grátis.”
A Dr. Vandana Shiva adverte quanto ao filantrocapitalismo de magnatas da tecnologia, que tomam decisões cruciais com o poder de ditar os rumos do mundo em desenvolvimento.
Leia tudo que foi publicado no Medium sobre o Free Basics aqui .