Foto por Aristocrats-hat via Flickr

Como viver como uma pessoa foda

por Amy Selwyn

Anos atrás, uma amiga de uma outra época da minha vida — dos meus anos em Nova York — foi me visitar em minha pequena cidade no litoral de New Hampshire. Ela ficou durante 24 horas, admirou as paisagens de Portsmouth em direção ao Maine e elogiou o café e os bolinhos da nossa região.

Então, ela disse, “Você merece uma vida “maior”.”

Eu me senti como se estivesse sendo repreendida por ter desistido. Ou por não ter tentado.

Alguns meses depois, outro amigo do tempo em que morei em Nova York disse que iria me visitar por um ou dois dias, mas que passaria a noite em Boston com outros amigos. Ele explicou, “Tem mais coisas pra se fazer em Boston”. Certo.

Mais uma vez, senti a necessidade de dar uma desculpa por morar em um lugar exótico. Como se eu devesse uma explicação aos meus amigos urbanos por morar no meio do nada. Ao invés de morar em Nova York ou Londres — cidades que foram o meu lar durante 25 anos.

Não me leve a mal. Adoro essas cidades, principalmente Nova York. Nova York está no meu sangue. Morei lá por 17 anos e jamais irei me arrepender. Longe disso.

Mas não quero mais morar lá. É uma cidade espetacular, e uma que não faz mais parte dos meus planos.

Encontrei algo nesta cidade supostamente entendiante a menos de 13km do Oceano Atlântico, no coração da Nova Inglaterra. Aprendi muito, e também mudei muito.

Ao contrário do que sempre acreditei, há pessoas que escolhem espontaneamente viver em lugares menores. E elas não lamentam e nem se arrependem dessa decisão. Não consideram que estão presas em um cafundó num fim de mundo qualquer, nem que não possuem a coragem para fazer uma mudança à cidade grande.

Eu me tornei uma dessas pessoas que querem continuar aqui.
(Nem sempre foi assim. Vim para cá porque levamos a minha mãe para morar em New Hampshire, em um condomínio para pessoas de terceira idade a poucos quilômetros de uma das minhas irmãs, o que fez com que eu me sentisse culpada. As pessoas elogiaram o meu “sacrifício”, mas a verdade é que eu temia o sofrimento que teria que enfrentar depois da morte de minha mãe, caso eu também não fosse até lá para “ajudar”. Pronto. Foi isso. Não sou uma santa. Nem um pouquinho.)

Durante esse processo, redefini o que eu acreditava ser uma grande vida.

Uma grande vida tem amor. É muito mais importante e muito mais decisivo do que qualquer tipo de carreira. Não sabia disso antes. Sempre achei que o que EU FAZIA era o que me definia. Que algumas pessoas vem a esse planeta para alcançar objetivos, para realizar mudanças e para fazer acontecer. E percebi que isso era uma escolha, que era mais uma questão de “ou” do que de “e”. Eu partia da suposição de que, se conquistasse muitas coisas, se acumulasse grandes quantidades de milhas áreas e se ganhasse uma quantidade significativa de dinheiro, chegaria à velhice com um sentimento de realização, em vez de nostalgia.

Agora que estou em uma cidade pequena, morando mais perto da natureza (e até em meio a ela) e que estou mais afastada, mudei de ideia.

No final, para mim, os laços serão o mais importante, e as conquistas terão pouca ou nenhuma importância. O mesmo com a acumulação, com ter cada vez mais coisas. A questão para mim será se eu cresci e como cresci naquele breve e iluminado momento sob o sol, como estendi a mão ao próximo, e se compareci ou não, de uma maneira íntegra e autêntica.

Uma grande vida acontece em sincronia com a natureza.

Uma grande vida tem amplo espaço para a criação de arte, regularmente. Não apenas para um curso de cerâmica nas noites de terça. Espaço para a necessidade de escrever, desenhar, fotografar, dançar, cantar, atuar. Para se sentir como se isso fosse um dever. E para dar prioridade a isso, em relação a outras atividades.

Sabe o que eu faço às vezes? Eu me imagino no meu leito de morte. Eu me pergunto como devem ser aqueles últimos cinco ou dez minutos. Que cenas ou fagulhas de pensamento poderão surgir? A participação em um conselho diretivo, ou a inclusão da minha voz em um coral da Nona Sinfonia de Beethoven?

A escritora Cheryl Strayed (por quem sou descaradamente apaixonada, e a quem venero pelo seu talento e coragem) deu ótimos conselhos para uma mulher jovem que sonha em ser escritora, mas que está preocupada com restrições na voz feminista. Cheryl disse, “Não escreva como um garoto, nem como uma garota. Escreva como uma pessoa foda.”

O conselho para uma grande vida certamente deve ser o mesmo.
Viva como uma pessoa foda.

Esqueça o que os outros pensam. Que se dane o hype. Um cargo é apenas um cargo. O dinheiro paga suas contas; não traz felicidade e nem nos leva às lágrimas. Ganhe o bastante, dê um pouco para os outros, e pare de se comportar como se você fosse a autoridade máxima em valores financeiros.

A geografia não é o que nos torna interessantes, e se decidimos morar em algum lugar que não seja uma das cidades mais populosas e badaladas do mundo, não significa que estamos morando em lugares entendiantes. Ou que estamos levando vidinhas simplórias.

Então, como fazemos para chegar a uma grande vida? Deixo aqui os meus três primeiros passos.

1. Vou dizer a verdade. Sempre. Não vou mentir nunca. Vou continuar a respeitar a diferença entre fazer um comentário sincero e vomitar na cara dos outros. Mas sempre direi a minha verdade.

2. Vou seguir meu instinto. Pode não estar sempre correto, mas é o que mantém o meu norte.

3. Continuarei a ser tocada pela natureza. Para encontrar o meu espaço nesse ecossistema genuíno e para ter a certeza de que nunca irei conscientemente perturbar este equilíbrio precioso. Para seguir alerta e consciente.

Sem dúvida, haverá outros passos. Mas esses me parecem pontos de partida excelentes — e fundamentais — para viver como alguém foda.


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