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Crack pelo correio

Por que o FBI demorou tanto para fechar o Silk Road, um site clandestino de venda de drogas?

No site Silk Road, qualquer droga imaginável — e uma vertiginosa quantidade de outras substâncias — esteve disponível para venda durante anos, desde crack, heroína e LSD até uma nova geração de “substâncias químicas experimentais” que existe na margem da lei.

Ativistas, traficantes e usuários utilizaram efetivamente o site para declarar um território online independente, onde toda forma de comércio era permitida, dentro de certos limites. Eles eram amparados pelo criador do site, conhecido até a primeira semana de outubro de 2013, como The Dread Pirate Roberts (O Cruel Pirata Roberts). O FBI alega que sua verdadeira identidade é Ross Ulbricht, um homem de 29 anos que foi preso após uma batida policial em uma biblioteca pública de San Francisco, no dia 2 de outubro de 2013.

Ulbricht, natural de Austin, Texas, estava morando em San Francisco com uma identidade falsa, de acordo com a Polícia.

Até ser fechado pelas autoridades, o Silk Road tinha de tudo: Noruegueses vendendo cogumelos do Camboja, canadenses vendendo heroína do Afeganistão, e britânicos vendendo extratos concentrados feitos a partir de antigas cepas de cannabis nativa do Nepal. A maior parte dos produtos disponíveis no site era ilegal, mas se você quisesse comprar um quarto de grama de heroína ou uma grama da cintilante cocaína peruana escama de pescado, aquele era o local certo. Adquirir os produtos era simples como comprar na Amazon ou no eBay: uma tarefa fácil, que consistia em acrescentar os itens ao seu carrinho de compras e efetuar o pagamento. O dinheiro era retido em uma conta caução hospedada no site, e embora fosse necessário informar um endereço de entrega, era possível criptografá-lo e, assim que o produto fosse entregue, deletá-lo.

O Silk Road movimentou US$ 22 milhões em seu primeiro ano de operação, de acordo com o analista de segurança Nicolas Christin, enquanto os donos do site recebiam uma comissão de aproximadamente 6% por venda — ou US$ 143 mil por mês. Na sua acusação, o FBI afirma que Ulbricht arrecadou US$ 80 milhões durante o tempo em que esteve no comando.

O site não era popular apenas devido às compras e vendas. O fórum também era movimentado, com mais de 100 mil posts, 9 mil tópicos e 11 mil usuários nas efervescentes páginas da comunidade. As conversas giravam em torno da santíssima trindade do site: drogas, contrabando e criptografia. Tudo isso transformou o Silk Road no local mais popular para uma crescente rede clandestina de traficantes que realizavam suas operações online. Então, como esses serviços continuaram existindo mesmo infringindo a lei de uma forma tão flagrante?

A vida na Dark Web

Para que os clientes do site fossem completamente imunes ao rastreamento e, consequentemente, invulneráveis a processos criminais, o Silk Road era hospedado em um serviço oculto, enterrado nas profundezas da Dark Web — a Web oculta — longe do alcance do Google. O seu lar era o Tor, um espaço alternativo na web, repleto de usuários que viajam pelos túneis virtuais que existem debaixo da web comum. Os usuários do site — tanto traficantes quanto clientes — têm total anonimato, e seu dono também tinha, até ter cometido uma série de erros catastróficos, segundo revelações.

O Tor foi criado em 2001 por dois graduados em Ciência da Computação pelo Massachusetts Institute of Technology. Ambos pegaram um software sem utilização, projetado em 1995 pela Marinha Americana para possibilitar acesso simples e anônimo para a internet, e lançaram a sua própria versão online com autorização da Marinha.

“A Marinha tinha um projeto chamado Onion Routing, que continua até hoje” explica o ativista da informação Andrew Lewman, porta-voz da organização Tor.

“A meta era vencer a análise de tráfego na rede, que é a capacidade de saber quem você é, com quem você está falando, e a quantidade de dados que você envia e recebe. Se você pensar nos dados de envelope do seu sistema postal, essa é a base da coleta de informações de inteligência. Por algum motivo, a Marinha queria essa tecnologia — eles começaram o projeto mas não tinham nenhuma intenção de disponibilizá-lo ao público. Então, Paul Syverson, um matemático que ainda é o principal pesquisador da tecnologia onion routing na Marinha, conheceu o universitário Roger Dingledine em uma conferência.”

“Roger disse, “Você já pensou em colocar isso na internet?” Naquela época, a Marinha não tinha planos de implantar o projeto. Mas Paul disse, “Claro.”

O objetivo inicial dos estudantes do MIT Roger Dingledine e Nick Mathewson era possibilitar aos usuários que tivessem controle sobre seus dados quando estivessem online. Isso aconteceu durante o primeiro boom do ponto com, quando muitas empresas davam serviços gratuitamente — ou melhor, em troca dos dados dos usuários e dos seus hábitos de navegação, que seriam então vendidos para terceiros. Ativistas da informação não aceitaram esse modelo de negócio e ofereceram uma alternativa: assim, Dingledine e Mathewson criaram o Tor.

A grande maioria dos usuários do Tor são apenas pessoas que buscam privacidade quando estão conectadas, diante de um aumento diário na coleta de nossas informações pessoais por sites de busca e redes sociais. Ao pesquisar informações médicas ou sigilosas, alguns usuários não querem que suas buscas no Facebook ou no Google retornem anúncios de uma precisão inquietante. O software teve 36 milhões de downloads no último ano, e possui cerca de um milhão de usuários diários. Em regimes opressivos, como é o caso do Irã, usuários do Tor podem acessar sites bloqueados pelo governo. Mas outros, como o Pirata Roberts sabia, usariam o serviço para burlar a lei.

Por dentro do sistema

Como qualquer outra loja virtual de sucesso, o Silk Road tinha seu próprio sistema de qualificações. Os fóruns do site forneciam provas colaborativas dos melhores vendedores e dos piores golpistas do local. Em junho de 2012, quando eu fazia a pesquisa para meu livro Drugs 2.0, havia 81 páginas de resenhas sobre o melhor vendedor de LSD, que acumulavam 50 mil visualizações; enquanto isso, as resenhas dos negociantes de heroína chegavam a 22 páginas, com 8 mil visualizações. Os vendedores de cocaína eram submetidos a grande fiscalização, em um thread monstruoso de 292 páginas e mais de 90 mil visualizações — enquanto os de ecstasy chegavam a 129 páginas e 60 mil visualizações.

Os próprios vendedores participavam com frequência, e alguns gostaram de falar comigo sobre seu envolvimento com o site. Um deles me descreveu, por exemplo, o quanto traficar drogas no site trazia o seu próprio conjunto de problemas morais.

“A possibilidade de um garoto de 12 anos se entupir de ecstasy não é nada agradável” explicou. “Permitir um comportamento autodestrutivo/viciante também é algo que me incomoda. Na vida real, é possível identificar o vício e expressar sua preocupação para os clientes, mas pela internet, não há como saber.”

Ele admitiu, no entanto, que vender pelo site era financeiramente muito mais lucrativo do que vender na vida real.

“Na vida real, você é limitado pelos seus círculos sociais, mas aqui é só uma questão de oferta, capital e horas diárias.”

“Embalar o produto corretamente é um saco.” ele continuou. “É extremamente monótono e requer uma boa dose de concentração para evitar erros que possam colocar em risco o cliente. Às vezes, em períodos especialmente movimentados, eu gasto 70, 80, 90 horas por semana embalando, algo extremamente maçante. Tirando o risco de passar a próxima década na cadeia, essa é com certeza a pior parte do trabalho. Vender na vida real é muito mais agradável.”

Outra desvantagem é uma maior paranoia em relação às autoridades: “Mercados públicos para o comércio de drogas mostram o dedo para uma série de interesses poderosos. Assim, a vontade política para tirá-los fora do ar e prender as pessoas envolvidas é desproporcional em relação ao real volume de comércio ilícito que ocorre. No verão passado, fui o vendedor “número um” (basicamente, o que vendia o maior volume) do site por um tempo, e fui tomado pelo medo. Passava a noite acordado pensando nisso, achando que iriam arrombar a minha porta e me levar preso a qualquer momento. Agora, estou bem mais tranquilo, mas se eu soubesse desde o início todo o sofrimento mental e o estresse que a venda iria trazer, provavelmente não teria começado.”

No entanto, há vantagens, segundo ele: “Acho a rotina diária da venda online pior do que traficar na vida real, mas a interação com as pessoas pela internet costuma ser bem mais animadora em certos aspectos. A maioria das pessoas para quem eu vendo na vida real são frequentadores de rave, um pessoal mais predisposto para o hedonismo (o que eu obviamente não tenho nada contra!) do que para usar por motivos espirituais/emocionais. Assim o feedback é menos comovente, o que é um claro ponto negativo para mim. Eu recebo emails de clientes do Silk Road me contando como as drogas que vendi os ajudaram a tratar problemas emocionais, espirituais ou sexuais, pessoas reatando relacionamentos desfeitos, reacendendo a intimidade.”

Havia alto estímulo para que pessoas usassem o Silk Road, considerando o ambiente legal vigente. O correio possui grande tráfego. Envelopes e pacotes pequenos são raramente abertos, e muito menos submetidos a raio X ou farejados por cães. Isso torna a apreensão, a acusação e a prisão improváveis.

Mas se o usuário estivesse preocupado, um dos vendedores do site oferecia até mesmo um serviço de pacote falso para clientes extremamente cuidadosos: ele entregaria um pacote ou envelope vazio por uma pequena taxa, apenas para acostumar o carteiro a fazer entregas do exterior.

Os métodos de embalagem de muitos vendedores do site eram considerados extremamente engenhosos, e o protocolo nos fóruns e nos formulários de compras era de que isso jamais deveria ser discutido publicamente, mesmo na Dark Web. Além disso, há vendedores em vários países, então não é preciso se preocupar com postagens internacionais ou questões alfandegárias: os usuários nos EUA, Reino Unido ou Holanda — ou mesmo os de dezenas de países ao redor do mundo — poderiam comprar drogas de traficantes do seu próprio país, eliminando o risco de ter o seu pacote visado pelas autoridades de fronteira.

Em menos de dois anos, os administradores do Silk Road utilizaram tecnologia e criatividade, juntamente com inovadoras soluções colaborativas para conter ameaças internas e externas, alcançando o que milhares de ativistas trabalharam desde os anos 60 para alcançar: o direito para que as pessoas possam comprar e vender substâncias químicas naturais e artificiais que alterem seus estados de consciência, da maneira que desejarem, sem a interferência do estado. Uma mudança de paradigmas que não é fácil reverter.

E ainda que o FBI acredite ter capturado o dono do site, o sistema de pagamentos e comunicações do Silk Road permaneceu praticamente impenetrável. É aqui que a visão dos primeiros evangelistas da internet, de um mundo onde a informação circula livremente, onde não há o domínio de uma hierarquia central, e onde a rede está acima do indivíduo finalmente foi alcançada. Independentemente de você celebrar ou lamentar o fato de que drogas como cocaína, heroína e LSD estão disponíveis na internet com apenas um pouco de esforço e com muito pouca probabilidade de gerar consequências legais, é inegável que estamos em um ponto de virada na história jurídica.

Através de um processo de inovação química e tecnológica de várias décadas, a criatividade humana venceu as leis criadas por um sistema político que respondeu a um aumento no uso de drogas insistindo em uma estratégia de criminalização que se revelou danosa, dispendiosa, contraproducente e, finalmente, fracassada.

Ao longo de aproximadamente um século de leis antidrogas significativas, um claro padrão veio à tona. Sempre que uma lei para prevenir o consumo de uma droga é criada, procura-se — e encontra-se — um meio de driblá-la. Esses meios podem ser químicos, legais, sociais ou tecnológicos. Atualmente, estamos em uma encruzilhada formada por esses quatro elementos, com a web possibilitando comunicação à distância entre estranhos, facilitando o compartilhamento de uma infindável quantidade de informação, e permitindo a distribuição de drogas em qualquer lugar do mundo. Para onde vamos agora?


Esse texto foi extraído de Drugs 2.0: The Web Revolution That’s Changing How the World Gets High de Mike Power, publicado no Reino Unido pela Portobello. Compre agora na Amazon UK.