Decidi não fazer o que eu amava. E foda-se.


Passando pelo B9, me deparei com um vídeo do Ben Horowitz discursando para os formandos da Universidade de Columbia. Neste vídeo ele fala sobre escolhas, sobre focar nas suas paixões. Ou não. E esta foi uma escolha minha: deixar as paixões de lado.

Um dos pontos abordados é o fato de como nós mudamos nossas paixões conforme ficamos mais velhos. Ou como nós nem sempre somos bons o suficiente nas coisas que amamos e, por isso, talvez o ideal seja colocar nosso foco nas coisas que sabemos fazer bem.

Esse vídeo me fez lembrar da minha breve história profissional:

Durante a adolescência eu era fanático por automobilismo, o que me fez procurar cursos na área, amizades, eventos e livros. Eu trabalhei em oficinas de preparação de carros, passei finais de semana em corridas, virei noites trocando motores e eu adorava tudo aquilo. Mas eu não era tão bom assim, então a realidade me deu um tapa na cara e mostrou que eu precisava mudar meu foco para começar a entender melhor meus propósitos. Foi quando eu comecei a encarar quase toda oportunidade que surgiu e, um dia, arrumei um emprego onde eu basicamente ficava fazendo relatórios de vendas e estudando melhorias.

Aquilo eu odiava. Mas, caras, como eu mandava bem!

Entenda que quando você tem entre 19 e 20 anos e escolhe se manter numa profissão que não é o que você quer pra vida, muitos conflitos internos acontecem, porque talvez aquilo não passe nem perto dos seus objetivos. Todo dia eu chegava em casa estressado, às vezes chorando, me perguntando se minha vida seria resumida em planilhas de Excel e apresentações para pseudo-executivos. Neste momento, eu lembrei da minha primeira paixão e comecei um blog sobre automóveis. Eu até ganhei um dinheiro com isso! Esse era o balanço que eu precisava: Aplicar meu talento no trabalho e minha paixão como válvula de alívio.

O tempo foi passando e surgiu outra paixão: a fotografia.

Nessa eu investi pesado. Comprei câmera, cobri eventos, gastei dinheiro em viagens, lentes, fiz amigos, perdi amigos, conheci gente importante no mercado e aprendi uma arte. Era tudo muito lindo e eu já estava desistindo da minha carreira "comum" para arriscar tudo como fotógrafo, mas a realidade, essa vadia, apareceu de novo. Minha fotografia não era extraordinária o suficiente para me dar algum destaque no mercado, e me esforçava demais para retorno nenhum além de ficar tirando foto em festinha. Ao mesmo tempo, um chefe meu surgia com um esporro que me marcou bastante: "Parece que você só quer um emprego e não pensa em evoluir dentro dele, em aprender uma coisa nova".

Fatality. Eu precisava decidir o que fazer da minha vida. Mais uma vez.

Ficando em conflito por mais algumas semanas, pensando em tudo que eu poderia conquistar como fotógrafo ou como profissional de métricas, eu parei e toquei o foda-se naquela merda: eu não queria viver de fotografia.

Minha escolha, que era conservadora, foi incrível: fiz alguns cursos de marketing, especializações em teoria da comunicação, planejamento, estratégia, estatística, comportamento, RP, Brand Love e até redação. Eu aprendi a gostar do que eu fazia bem, que era (e é) interpretar números. Tive chances de juntar a fotografia ao automobilismo, e resolvi fazer isso apenas como hobbie. Eu vi que minhas paixões serviam para me desligar do mundo real. E o mais importante foi descobrir que a minha escolha de carreira impacta nos negócios de dezenas de empresas todos os dias!

Descobrir o propósito da minha profissão foi essencial para começar a sentir a sede de crescimento que eu sinto todos os dias.

Era muito fácil ficar pensando em ganhar a vida com as coisas que eu amava enquanto eu vivia com meus pais, numa casa própria, com tudo na mão. Se você não tem nada a perder, não existe risco. Pensar só nas atividades que eu amava seria uma atitude muito egoísta da minha parte, porque eu sei o que meus pais passaram para criar 3 filhos, e eu não queria que eles comprometessem a própria renda. enquanto eu ficava brincando de encontrar um novo talento.

"A conclusão que as pessoas têm é que se você fizer o que ama, você vai ser bem sucedido. E isso pode ser verdade, mas também pode ser que, caso você seja bem sucedido, você amará o que você faz. Afinal, você apenas ama ser bem sucedido." — Ben Horowithz

Nisso eu decidi sair de SP e vir me virar em BH, com um pensamento: se eu for tão bom quanto eu penso que sou, isso vai dar certo. Faz quase três anos.

Do dia 26/10/2012 até hoje, eu já cuidei dos resultados de marketing e comunicação de gigantes do mercado nacional. Em agência, ajudei em planejamento, gestão de projetos, redação, proposta comercial, estratégia de marca, eventos, fotografia (olha ela aí de novo), fiz contatos profissionais, dei palestras já fui chamado até para ser professor em pós-graduação. Em dois anos e meio eu comecei a ganhar muito mais do que em São Paulo. Não só em dinheiro, mas em conhecimento.

Hoje, graças às minhas escolhas de foco, eu sou um profissional mil vezes mais feliz e completo do que há seis anos. Cumpro uma função essencial em uma empresa que não para de crescer e continua sendo líder de mercado.

Aprendi a amar uma profissão que eu odiava e isso me trouxe ótimas consequências. Eu escolhi deixar algumas das coisas que amo de lado, mas não existe arrependimento nenhum nisso. Desde que esses conflitos começaram, eu já descobri inúmeras novas paixões. Em nenhuma delas eu evoluí tanto a ponto de pensar em dedicar minha vida a isso.

Talvez eu tivesse desistido de estudar os mercados de marketing na primeira discussão com algum cliente, eu teria tocado o foda-se mais uma vez, pensado em investir de vez na fotografia. Aí eu enfrentaria outra crise na fotografia e isso seria uma desculpa para ficar apertando o botão de foda-se a cada crise profissional que eu enfrentasse.

Não sei se desistir de tudo e fazer o que você realmente gosta é uma atitude tão corajosa assim. Eu conheço muita gente que é apaixonada pela profissão que escolheu e está desistindo.

Pode até ser que em um ou dois anos eu pense em largar tudo e vender hambúrguer numa lanchonete, mas eu sei que ainda não atingi todo meu potencial, e que eu posso conquistar muito mais na minha área.