Inri Cristo, Dinossauros
e Aeronaves.

As surpresas dos Museus de Sydney.


Fui parar em Sydney após amadurecer por alguns anos a ideia de reencontrar um queridíssimo ❤ casal de amigos que mora por lá. Nesse tempo também criei uma enorme curiosidade e afeição pela Austrália, que se não fosse tão longe provavelmente receberia a minha visita por mais vezes.

Mas ao contrário do imaginário popular, nem só de conhecer praias, coalas, cangurus e procurar o Nemo é que se vive o visitante de Sydney. Isso porque, até mesmo no quente verão australiano você pode ser contemplado com alguns raros dias de céu cinzento e chuva. E digo isso por experiência própria.

Assim que o tempo nublou tirei minha carta da manga para trocar a programação ao ar livre, por uma alternativa indoor.
E a alternativa foi…

Museu!

Ferris Bueller’s Day Off Paramount Pictures

Sei que é o tipo de programa que alguns não curtem muito, acham chato e tal, mas o segredo é conciliar a sua personalidade com a essência do museu ou da exposição. No meu caso, como tudo era novidade, isso só já me bastava. E de tão “chato”, depois do primeiro, fui em mais dois.

Três museus, três experiências, três abordagens. Cada um com seu “jeitinho”. Mas como vi tudo sozinha, será que meu preferido é o mesmo que o seu? Enjoy!

1. Museum of Contemporary Art

Localizado em uma região histórica da cidade e próximo à Harbour Bridge, um dos principais pontos turísticos da Austrália, o Museu de Arte Contemporânea de Sydney pode ser qualquer coisa, menos tradicional.

A experiência:

Ao entrar no museu, a primeira sala de exposições visitada contava com grandes telas, resultado de atividades promovidas por um projeto social. A iniciativa é realizada em comunidades aborígenes na parte ocidental da Austrália e conta com a participação coletiva para a criação de cada obra. Segundo esses artistas “Ninguém gosta de pintar sozinho” e o processo é marcado por cânticos, contação de histórias e longas conversas entre os mais novos e mais velhos da comunidade.

Ngamaru Bidu, Yikartu Bumba, Kumpaya Girgirba, Thelma Judson,Yuwali Janice Nixon, Reena Rogers, Karnu Nancy Taylor, Ngalangka Nola Taylor Yarrkalpa — Hunting Ground, Parnngurr Area 2013, tinta sintética sobre tela

Eu curti a história, o contexto, as obras. Tudo muito colorido, alegre e saí da sala pensando “Nossa, que iniciativa bacana, engajada, que legal darem esse destaque…”

“ÓÓo Paaaaaii!!”

Foi o que ouvi quando meus pensamentos bugaram. O som vinha da sala ao lado e não fazia o menor sentido. Fui lá investigar.

Essa outra exposição apresentava jovens talentos das artes na Austrália. E o som era um discurso de nada mais, nada menos que Inri Cristo!! Meus olhos não acreditavam no que viam e ali eu tive uma crise de riso que atraiu mais a atenção dos visitantes do que a própria obra. Pense, você dá a volta no mundo e dá de cara com essa criatura.

Sean Peoples and the Telepathy Project, Supreme Universal Order,2014, Vídeo arte , Primavera 2014: Young Australian Artists, MCA, 2014.

Sinceramente não entendi a intenção do artista, também não me esforcei. Consistia basicamente de uma vídeo-arte que mesclava um longo discurso em looping do Inri Cristo com umas imagens de insetos asquerosos ao fundo. De tão estranho era engraçado.

Percebi que logo em frente havia uma obra interativa, e com ela a crise de riso quase voltou porque as pessoas que interagiam com as peças ficavam meio ridículas. Mas daí pensei: “Já que é pra ter fiasco, habemus fiasco!”.

Caitlin Franzmann, Dissolve, 2013, Instalação, Primavera 2014: Young Australian Artists, MCA, 2014, capacetes, audio, bancada de luz

Esses “capacetes” tinham um fone de ouvido acoplado por dentro e cada um deles reproduzia um monólogo diferente. A ideia era que ao interagir com a obra, a pessoa driblasse alguns sentidos para se sentir em uma outra atmosfera. E não é que dava certo? Praticamente nem percebi as pessoas rindo da minha cara.

Seguindo para o acervo fixo do Museu, as surpresas continuavam. Afinal, o que dizer do encontro do Homem-Aranha com essa criatura bizarra? Tá, também não tenho resposta pra essa. Mas calma.

Stephen Birch, Sem Título, 2005 poliuretano, pintura sintética, fibra de vidro, cabelo e olhos em acrílico

Já essa outra escultura de um artista chinês recria um busto que é uma representação humana típica da arte ocidental mas com desenhos orientais. Uma analogia ao equilíbrio das diferenças e de como o ambiente pode ficar “tatuado” na essência das pessoas. (Ok, isso foi um combo entre o que eu entendi + a explicação no folder da exposição)

Ai Xian, China China - Bust 81, 2004, porcelana

Nos quesitos surpresa, bizarrice, e risada nota dez !! Achei super divertido tantas obras e manifestações diferentes. Até porque no dia seguinte a coisa ficaria um pouquinho mais séria no…

2. Australian Museum of Natural History

Stuart Humphreys ©Australian Museum

Com mais de 180 anos de história, o Museu Australiano de História Natural é o primeiro museu público do país. Sua trajetória caminha em paralelo com a história do desenvolvimento da pesquisa científica e com os avanços da educação na Austrália.

A experiência:

Apesar de ter ido pela manhã, eu já entrei no museu me sentindo no filme “Uma noite no Museu”, eu já sabia mais ou menos o que encontraria por lá e estava com uma expectativa nas alturas especialmente por conta da seção dos dinossauros.

E bora lembrar das aulas de Biologia… Ou não.

Para quem mora em Sydney as exposições temporárias são o grande atrativo do Australian Museum, mas para quem é de fora o imenso acervo permanente é a visita obrigatória. E aqui listei as exposições fixas em destaque :

Patrick Estrela e seus amigos
  • Indígenas Australianos
  • Garrigarrang: País do Mar
  • Planeta Selvagem
  • Esqueletos
  • Planeta dos Minerais
  • Pacífico
  • Dinossauros
  • Aves & Insetos
  • Espaço Kids
Para não me estender muito, focarei no que mais gostei por lá. Mesmo porque ainda tem mais um museu, não se esqueça!

De início, estranhei um pouco os animais empalhados, alguns pareciam que iriam se mexer a qualquer momento. Mas um dos que mais me impressionou nem era empalhado, era uma réplica de crocodilo feita em resina e outros materiais que o reproduzia em tamanho real. Aqui dá pra ter uma ideia do tamanho da criança, isso que quase um terço dele ficou pra fora da foto.

Mais adiante borboletas e insetos exóticos. Esses últimos bastante típicos da Austrália, já mortos e catalogados, pois se estivessem vivos me assustariam um pouquinho. Mentira, me assustariam pra cara#@$!

Em outro andar a exposição Esqueletos apresentava amostras das mais diversas espécies e também algumas montagens criativas com esqueletos humanos.

Não sei porque mas nesse ponto eu já me sentia uma criança nerd, só faltou alguém pra eu encher de perguntas tipo: “Mas porque a mandíbula desse é diferente daquele?”, “Como é que esse outro conseguia se alimentar?”. “Como faz pra montar eles assim?” e por aí vai.. até que..

ManhêÊêe, olha o dinossauroOo!!!

Tá, eu não estava com a minha mãe. Apenas meu lado criança se manifestando.
Stuart Humphreys ©Australian Museum

Essa exposição foi onde passei mais tempo. E não é por menos, composta por dez esqueletos completos de dinossauros, oito modelos em tamanho real, displays interativos e recursos de áudio, essa exposição é uma das mais populares do museu.

Photos: Adri Pepplow

3. Powerhouse Museum

©MAAS, Powerhouse Museum

O Powerhouse Museum passou por uma recente reestruturação administrativa e hoje também pode ser chamado de MAAS — Museum of Applied Arts & Sciences, que na prática é a instituição mãe que comanda este e outros espaços.

E quando eu achava que já tinha visto muita coisa de artes e ciências nos museus anteriores, o MAAS se revelou como o equilíbrio certo entre as duas áreas. Sua coleção única apresenta também, tecnologia, design, artes decorativas, engenharia, arquitetura, medicina, moda e cultura contemporânea.

De fato é um museu inovador, pois apesar de apresentar os primórdios de processos, máquinas e produtos, os apresentam como a base para o que há de mais atual.

A experiência:

Não sei se já deu pra desconfiar mas entre os três esse museu foi o meu queridinho. O fator surpresa ajudou também, mas na medida em que eu ia passando pelas exposições os assuntos me interessavam cada vez mais, além disso percebia que ali havia também espaço para o design. (Que por acaso representa o meu ganha-pão enquanto não ganho na Mega Sena.)

Logo de cara a primeira exposição já era a 2014 Good Design Awards, seleção de trabalhos que se destacaram no cenário australiano de inovação. Aí está um aperitivo das peças:

Links com mais infos no fim do post ;)

Mais adiante avistei a entrada da mostra sobre interfaces, mas pra chegar lá eu teria que passar pela exposição de…hohoho jamais adivinharás!

Figurinos de Dança de Salão do filme “Vem Dançar Comigo”!!!!

E não é possível que só eu tenha achado isso sen-sa-cio-nal! Afinal, tenho um histórico mal resolvido com a dança mas mesmo assim é algo que adoro. Esse filme, junto com Dirty Dancing, era exatamente o estilo que eu amava assistir quando criança e na exposição descobri que Vem dançar comigo é uma produção australiana. Um verdadeiro orgulho nacional da terra dos cangurus!

Mas não é só isso!

Link dessa expo também no fim do post ;)

Ah sim! Voltando ao papo cult, eu estava falando da exposição de interfaces. Talvez você já tenha ouvido falar sobre algumas discussões em torno das inspirações de design do Steve Jobs para a criação dos produtos da Apple.

Pois bem, essa mostra era tudo isso e mais um pouco. Relacionava a tecnologia com a transformação das máquinas, mas principalmente demonstrava como o uso de artefatos precedentes imprimiram os hábitos que estão presentes até hoje ao interagirmos com objetos de última geração.

“…how a handful of companies made complicated technology appealing and easy to use…” — Exhibition intro

E finalmente: Aeronaves

Elas não me fizeram rir nem fizeram eu me sentir criança, mas me fizeram ficar meio reflexiva, formavam o cenário perfeito para finalizar a minha maratona de museus em Sydney.

Photo: Adri Pepplow

Ao longo de toda a estrutura do Powerhouse Museum ficavam pendurados ao teto os mais variados tipos de transportes aéreos e aparatos voadores. Olhei para uma das aeronaves mais antigas e surgiu um sentimento de gratidão.

MAAS 2015 © Powerhouse Museum

Esqueci por um momento as 20 e tantas horas de vôos e outras aflições que enfrentei para chegar até ali e tentei absorver o máximo daquele momento.

Ao redor não havia mais nenhum visitante, apenas funcionários. O sistema de áudio anunciou que o museu fecharia em 10 minutos. Passou voando.

Saindo do museu mais surpresa: céu azul e solzinho de final de tarde. Previsão favorável à praias, coalas, cangurus, turma do Nemo e mil e uma confusões.

Links de Referência

Museum of Contemporary Art Australia
Martu Art From The Far Western DesertPrimavera 2014: Young Australian ArtistsVolume One: MCA Collection
Australian Museum of Natural History
Dinosaurs ExhibitionMore than Insects Skeleton Gallery
Powerhouse Museum
2014 Good Design AwardsStrictly BallroomStoryInterface: people, machines, design

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