Tod Papageorge “Passing Through Eden”

Insignificâncias [1]

Pequenas situações do cotidiano insignificante de um domingo qualquer

Às 10h34 da manhã Reinaldo escala a escadaria externa do topo de um colégio para reparar as antenas, a chuva bate fraca molhando perigosamente a tinta enferrujada da escada. “Deslizar dessa altura é uma queda e tanto” — pensa — “Imagina quebrar a espinha, com tanta dívida pra pagar. Resto da vida sem poder andar e minha mãezinha de cama”. Enquanto o vento forte passeia pelo seu rosto e pequenas gotículas se formam na testa, aperta as mãos e abraça o metal encostando o peito na escada, agarra-se a vida tomado por um medo inédito em sua vida profissional.

Cibele falta a missa para enfiar dois dedos dentro calcinha debaixo do cobertor na preguiça fria da manhã. Trava contato visual com um coelho de pelúcia, no alto da prateleira, evergonhada, prefere manter os olhos fechados, dedos molhados.

Da janela do segundo andar em um prédio cinzento do Plano Piloto, uma dona de casa observa hipnotizada: a grande árvore balança na ventania. O ronco do marido ecoa pelos corredores, na estante, fotos amareladas de crianças com roupas de 1980. Ela pede perdão a Deus por um pensamento trágico que veio e foi-se, meio sem querer.

Saulo senta-se com o notebook no colo, pronto para passar as próximas horas fabricando montagens engraçadas de photoshop, piadas de ódio contra as minorias “estúpidas” que votaram no governo reeleito e os escândalos de corrupção dentro de uma grande estatal. Há um copo com suco de laranja de caixinha e algumas bolachas mabel para não sentir fome. “Quanta coisa boa eu poderia estar fazendo lá fora…”, imagina, enquanto o computador gasta tempo para carregar, mas o pequeno lapso é facilmente ignorado pelo prazer de escutar o som de inicialização do sistema.

Luana estuda direito constitucional em seu quarto fechado, decide que viajar sozinha é um risco que ela precisa correr antes de se entregar a vida funcional. Mordisca a ponta da caneta, lábios tingidos de tinta azul.

Do outro lado da cidade um radialista narra uma partida de futebol, para ele as crianças brasileiras estão comprando muitas camisas de times internacionais, idolatrando-os. “As crianças precisam de novos heróis nacionais”, ele acredita. E toma uma água para limpar a garganta. “Ninguém precisa de heróis”, o sujeito de azul comenta com desdém, de passagem para a saida.

Um caixa registrador lamenta por trabalhar em pleno domingo: “Hoje era dia de farofada no parque da cidade, era legal quando ficava todo mundo junto.” Volta aos cálculos para devolver o troco correto, o cliente sai, a porta se abre, som de crianças, pássaros, vento e céu cinzento, a porta se fecha, ar condicionado.

Leandro e Cíntia trocam sussurros sonolentos enquanto ouvem o rádio da casa do vizinho tocar música popular. Leandro resiste até onde dá… fecha os olhos. Vendo-o dormir Cíntia prefere engolir o que tem a dizer: “Eu te amo…”; — quem sabe em outra hora melhor?

Bernardo dormiu com a TV ligada, ele deu uma entrevista para o jornal local sobre o aumento de 5,7% no preço das tarifas nos ônibus interestaduais e acabou de acordar sem entender que dia é hoje, está confuso sobre se vai aparecer hoje ou amanhã no jornal da hora do almoço. Três ligações não atendidas, uma delas sobre a morte de seu avô.

Bianca corta o dedo preparando o almoço. Ela gostaria de sentir algo, mas desaprendeu a chorar.


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