Mel e Pretinha

Após a morte de minha avó, ficamos com sua cachorrinha. E aprendemos muito sobre carinho, justiça, disciplina e convivência.


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A última sexta-feira antes do Natal não foi fácil. Pela manhã, recebo uma ligação dizendo que minha avó tinha falecido. Dona Natalina faria 84 anos no dia 25 de dezembro, estava bem de saúde e foi levada por um infarto surpreendente. Ela amava os animais — tinha de galinhas a gatos. Depois do enterro, minha mulher ficou olhando para uma cachorrinha serelepe que parecia se preparar para a corrida de São Silvestre: magra e incansável. Quem cuidaria da Pretinha, uma pinscher de 9 meses que acabara de ficar órfã? O coração da Ana falou mais alto e resolvemos trazer a cachorrinha pra casa.


Os primeiros dias foram bastante complicados. Logo no começo, a Pretinha atacou a Mel, uma poodle de 9 anos que reina incontrastada sem a companhia de outros animais. A Mel não sabe se defender — e desconfiamos que sequer sabe que é um cachorro. Tomou um pau da Preta, situação que se repetiu por mais duas vezes. Chegou a sangrar. Chorou feito uma criança.

Ficamos meio paralisados. Por que um filhote estava atacando um cão velho, o dono da casa, aquele que deveria ser o alfa?

Por medo.

A Pretinha estava insegura, e o medo é um forte estimulante para a violência. É assim com humanos — em momentos de medo, mostramos os caninos sem olhar para o tamanho do oponente. É assim também com animais. A Preta estava assustada, insegura. Não sabia se nossa casa seria seu paraíso ou apenas um lar de passagem. Quem éramos nós, afinal? Onde está minha mãe? Aos poucos fomos controlando seu instinto e mostrando que aquilo tudo era desnecessário.

A raiva desapareceu, mas a energia, não. Eu ando chamando a Pretinha de Minha Queniana. Ela faz uma maratona por dia. Em um de nossos cafés da manhã me dei conta de uma coisa: não percebemos o quanto nossos animais envelhecem. Com a Pretinha em casa, notamos como a Mel está mais lenta. A Preta caminha, cheira tudo, deita, levanta, deita, levanta. A Mel, esparramada no chão, mal abre os olhos com leve curiosidade. Exigimos que ela tenha todo o gás da juventude, mas, ao lado da Preta, nossa velha poodle parece uma almofada fofa.

As andanças da Pretinha pela casa nos mostraram quanto espaço os animais tomam na nossa vida. E o quanto é difícil redistribuir esse espaço conforme a necessidade de cada morador. Só quando aparece outro bicho, mais novo, mais ligado — e que sabemos que é preciso dividir atenção e também o sofá — é que notamos que até mesmo os cães precisam se adaptar às mudanças da vida. Ninguém gosta de perder privilégios, nem mesmo os cães. Mas é preciso entender que isso é necessário para a boa convivência. Não é fácil pra eles, nem pra nós.


A convivência é um exercício diário, uma disputa por espaços físicos e sentimentais. Quem ganha carinho primeiro? Quem fica grudado em você enquanto vê TV? Quem brinca com a bolinha? Por tudo isso, outra coisa que aprendemos é que os maus hábitos precisam ser reprimidos todos os dias, como doenças que precisam ser controladas. É necessário reprimir uma epidemia de discórdias.

Quando a Pretinha chegou aqui ela não sabia nem mesmo seu nome. Minha mulher foi procurar na Internet um ranking de cachorros mais inteligentes e descobriu que o pinscher não estava no TOP 10. Isso é uma bobagem. Não há nada que não possa ser ensinado. Em poucas semanas, a Preta já entende que não pode subir na cama, que precisa esperar que a comida seja servida em vez de ficar pulando nas nossas pernas, que a cama da Mel não é dela e que subir e descer uma escada caracol é algo bem mais simples do que parece. E vai aprender mais coisas (inclusive seu nome, que ela ainda não sabe).

O ensino só foi possível quando a Pretinha entendeu o funcionamento da casa. Não existe disciplina sem rotina — e não existe aprendizado sem disciplina. Quando os bichos entendem a hora de acordar, a hora de comer, a hora de dormir, a hora de passear, eles se tornam muito mais calmos e confiantes. Um cachorro é líder ou liderado, não há um fórum de debates ou um parlamento que supere essa lei natural. Quem manda aqui? Se você será o líder dele, seja de fato. Estabeleça as ordens, sem meio termo. Eles precisam e querem isso.

Só tome cuidado com o excesso de atenção. Ele atrapalha. Deixe os bichos na deles. Ficar em volta só aumenta a sensação de controle — e o descontrole virá quando o controlador (você) sair de casa ou sumir da vista.

Acreditamos que as próximas semanas, e os próximos anos, trarão mais ensinamentos pra nossa casa. E, no fim das contas, espero que a vovó esteja feliz em sentir que estamos cuidando bem da cachorrinha dela. Fico procurando nos olhos da Pretinha algum sinal de conforto, alguma mensagem do além. De algum modo, na vista profunda e misteriosa dos cães, ela está lá.

Mel e Pretinha.

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A Ana está documentando a saga.