Minha filha nunca foi uma princesa

Gigi, aos 6 anos, com roupa menor do que ela, jogada no chão da livraria sendo feliz por sonhar.

Não tenho reino, poder, nem nada que o valha. Jamais pude dar a ela nada do que considero que ela mereça, ou que seja o tal ‘do bom e do melhor’, portanto, minha filha nunca foi uma princesa.


Gigi aos 5 anos. Meses depois de Luciano ter falecido. Sorriso largo, mesmo com tamanha dor no coraçãozinho

Quando eu ainda estava grávida, Luciano e eu tivemos uma conversa: por mais que tios, amigos, avós, padrinhos e outros pudessem dar bons presentes, nunca iríamos aceitar que os presentes deles fossem melhores que os nossos.

Não porque queríamos ser sempre os melhores, mas porque não queríamos que ela tivesse a impressão equivocada de que aquele era seu padrão de vida e aí criássemos uma pequena deslumbrada.

Em seu aniversário de 2 anos, sem perceber, Luciano criou uma tradição que se tornaria a maior referência de infância feliz que a Gigi teria, especialmente depois da morte do Luciano: sem dinheiro, Luciano comprou uma mini torta holandesa, mas pediu que o cara da padaria escrevesse em cor de rosa “Parabéns, Gigi”. Luciano me avisou que quando a campainha tocasse, era pra eu deixar a Gi atender. A campainha tocou, quando ela abriu, no capacho, um embrulho bem feitinho de uma confeitaria, mas ela viu aquilo e perguntou? “Cadê meu papai? Quem deixou isso aqui? Mas eu queria meu papai” e eu, tentando criar aquela atmosfera lúdica, com aquela voz de contadora de história infantil: “Olha, Gigi, vamos ver o que é. Quem será que deixou?” e ela correu para a porta da escada, empurrando-a encontrou Luciano escondido, abraçaram-se e ele veio com ela no colo. Colocamos a “torta lambesa” — como dizia ela — na mesa, cantamos parabéns e dali por diante, toda vez que lhe sobrava um dinheiro, Luciano fazia o ‘ritual’ de colocar a tortinha holandesa na porta, tocar a campainha e se esconder. E Gigi lembra disso como sendo sua melhor lembrança de infância, até hoje.

Gigi aos 9 anos, reparem, com as mesmas roupa da foto anterior: aos 6. E feliz!

Desde sempre, fomos francos com a nossa condição, ao ponto dela pedir um chaveiro que acendia no Natal de 2006, aos 3 anos. Nós ficamos tão constrangidos ao comprá-lo, pois custava apenas R$ 5,00 e conversamos com ela que ela poderia pedir alguma coisa um pouco mais cara ou algo mais. Ela, aos 3 anos disse: “Então vou deixar vocês escolherem, mas eu quero o chaveiro que brilha, tá?”.

Contrariando a lição de 99% dos pais, fomos com ela até a loja de brinquedos e em meio a tantas ofertas, os olhos dela brilhavam, mas ela já entendia que não poderia ter tudo, nem ali, nem na vida. E o tal chaveiro, tornou-se meio de mensuração para que ela entendesse o preço das coisas e o valor de nossos esforços: “Essa boneca custa o mesmo que 100 chaveiros e é 1/4 do que o papai ganha no mês, sendo que esse mesmo valor paga o aluguel do apartamento que moramos”. Ela respondia: “Nossa, eu gosto de morar lá e tem piscina e play. Melhor do que uma boneca que é igual a uma que já tenho. Só muda o cabelo e a roupa”.

Aos 11. Ela guardou moedas para me presentear com um algodão doce ❤

Nesse mesmo ano, nos mudamos para uma cidade com custo de vida mais barato e nos livramos de algo que tirava muito de nossos ganhos, podendo viver um pouco melhor. Então decidimos fazer uma festa para comemorar, simultaneamente, o aniversário de 4 anos da Gigi, nossa nova fase de vida, nossa casa nova que era muito maior e melhor que o apartamento que morávamos e o fato dela ter aprendido a ler e escrever em casa. Foi uma festa e tanto!

Mesmo assim, Gigi não foi uma princesa. Gigi escolheu o tema “Backyardigans” e eu comprei para ela um vestido combinando com a decoração, bem com cara de menina de 4 anos, mas nada de princesa.

Não queríamos nunca que ela achasse que estávamos mudando nossas filosofias de vida, para que caso as coisas voltassem a ficar difíceis, não tivéssemos que tirar dela todo aquele ar de “agora você pode tudo”.

Parecia uma profecia, pois um ano e meio depois Luciano foi assassinado e minha vida desmoronou. A empresa, que era ele que conhecia a parte técnica, foi perdendo clientes, a pessoa que consegui para ajudar, acabou pegando para si os clientes restantes e eu passei a viver praticamente de favor do meu pai.

Aos 11, no pós cirúrgico. SORRINDO MESMO DEPOIS DE HORAS DE CIRURGIA ♥

Gigi nunca viajou, nunca teve roupa da Lilica Repilica, nunca usou tênis de marca, nunca teve presentes caros. E agora é que não teria mais, mesmo. Além da dor de perder um pai tão presente, tão bom, tão dedicado, ela também teve que enfrentar a dor de lidar com uma mãe traumatizada, jogada na cama, incapaz de assimilar o que aconteceu e, claro, experimentar da absoluta pobreza financeira, aquela onde se não fossem avós e tios, ela poderia nem ter o que comer, onde dormir, o que vestir. E ela tinha só cinco anos.

Mas Gigi nunca se abalou, jamais deixou de sorrir e depois de alguns natais e aniversários sem ganhar presente nenhum da mamãe, repensei o acordo que Luciano e eu tínhamos de que o melhor presente sempre teria que ser o nosso:

Aos 12, com o Grupo Escoteiro Roama, no Cientec. Feliz!

Se fosse assim, ela teria passado uns 3 ou 4 natais e aniversários sem ganhar nada, pois eu realmente nunca podia dar nada de presente, a não ser um chaveiro que brilhava de R$ 5,00. Então claro que tive que rever isso e aceitar que os melhores presentes não viriam de mim, mas que eu teria que ensina-la que ainda assim, aquilo não seria o padrão de vida dela. Ensina-la a ser grata, mas nunca esperar e nem achar que fosse obrigação de ninguém.

A questão nunca foi quem dava o melhor presente, mas foi a importância de ensiná-la do que se tratam os presentes: cada um dá o que pode, o melhor possível. E também a ensinei, sem perceber, que é preciso que ela aprenda a lidar com as frustrações da vida, que elas existirão para todos e que para muitos, elas são tão difíceis justamente porque nunca tiveram dos pais a oportunidade e a confiança de que encontrariam o próprio jeito de encará-las e lidar com elas.

Gigi aos 12, no dia que fez sua promessa escoteira

Hoje, Gigi tem 12 anos e, claro, é uma pré-adolescente chata, mas não chega nem aos pés da chatice de 90% das demais pessoas que passam por essa fase, pois ela entende que não é nem nunca foi uma princesa e que a vida é cheia de ofertas que nos enchem os olhos e mais cheia ainda de “nãos” que nos enchem de frustrações, com as quais nós temos que lidar.

Agradeço todos os dias pela filhota que tenho, pela minha moleca companheira e cheia de consciência, pois é por conta disso que ela entende que é mil vezes melhor e mais vantajoso para ela ser resiliente, se adaptar e mudar a si, do que viver uma vida toda querendo ser especial e exigindo que o mundo mude tudo por onde ela passar ou que as pessoas finjam não ver o que veem, nem sintam o que sentem.

Só sei que quando eu morrer, seja hoje ou daqui 100 anos (espero que daqui uns 50), saberei que apesar de muitos presentes e roupas baratas, ela saberá se virar a qualquer situação, pois não se deixa abater pelas frustrações. Nesse caso, me considero orgulhosa por ter ensinado a ela uma lição que dói na alma das mães, por isso poucas encaram ensinar: “Minha filha não é nem nunca foi uma princesa”.

Agradecimentos especiais ao meu pai e a mãe do Luciano, que sempre foram exemplos e apoios. Aos meus tios Toninho e Silvia, que são anjos na face da Terra. E, claro, aos tios e padrinhos da Gi, de ambos os lados, pois nunca deixaram passar batido um aniversário ou um natal, mesmo quando eu não pude fazer minha parte. Graças a eles, Gigi nunca precisou ficar sem abrir presentes nessas datas. Graças a eles, muitas vezes só a eles, ela teve o que vestir e o que calçar.
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