Nove dicas para você terminar de escrever seu livro

Por Hanya Yanagihara


O meu segundo romance, A Little Life — sobre um grupo de homens em Nova York e sua amizade ao longo de 30 anos — foi publicado em março. Como meu primeiro livro, The people in the trees, saiu em agosto de 2013, as pessoas me perguntam: o que aconteceu? Por que o primeiro livro demorou 16 anos para ser escrito e o segundo, apenas 18 meses?


A verdadeira (embora insatisfatória) resposta é: não sei. (Bem, eu sei mais ou menos: passei boa parte desses 16 anos enrolando e sendo preguiçosa). Mas não saber não vai me impedir de compartilhar as nove regras abaixo com que está trabalhando em seu manuscrito, perguntando se, quando e como ele poderá ser publicado.


1) Você não precisa de um mestrado em artes ou de um curso de escrita criativa para escrever um romance.

2) Publicar não é uma maratona. Não importa a sua idade quando você publicar seu livro. Ou melhor: pode até importar (para jornalistas que escrevem livros ou para a sua editora), mas seu livro não vai ser, necessariamente, melhor ou pior por causa disso. E há vantagens em publicar depois de uma certa idade. Como alguém que publicou seu primeiro livro aos 39 anos, eu diria que a grande vantagem é: quando seu livro é lançado e você é um adulto de meia-idade, o fato de você ser um autor publicado não vai e não deveria definir a sua identidade, ou como você se sente em relação a si mesmo como pessoa (para melhor e pior). Você já saberá. Se você quiser, será apenas alguém que escreve, em vez de um escritor, e isso pode ser libertador.

3) Você não precisa escrever todos os dias para ser um escritor. Se você conseguir fazer isso, melhor. Mas "escrever" não significa ficar o dia inteiro sentado diante de seu computador (ou notebook): a parte mais difícil do trabalho de escrita — a criação de seus personagens, o povoamento do seu mundo ficcional — é feita muitas vezes em momentos de ócio ou enquanto você realiza outras atividades (afazeres diversos, almoço, caminhadas, natação) que não têm nada a ver com escrita. Ainda assim, você deve se lembrar que...

4) A única diferença entre um bom escritor que publica um livro e um bom escritor que não o faz é que o escritor que publica, realmente terminou o livro. Anos atrás, quando eu era assistente editorial, a editora tinha um contrato com um autor a quem chamarei de A. Isso foi na época em que as editoras compravam manuscritos parciais, e o romance inacabado de A, um livro ficcionalizado de memórias sobre sua infância, tinha uma das prosas mais belas e arrepiantes que eu já tinha lido. Anos mais tarde, quando eu já não trabalhava no mercado editorial, falei com um dos editores da casa. "O que aconteceu com o livro de A?", perguntei. Ele deu de ombros. "Ele nunca publicou", disse. "É tão injusto", respondi. "Ele é um dos escritores mais talentosos que li em muito tempo." O editor deu de ombros novamente. "Mas ele nunca terminou", repetiu. Pode ser óbvio, mas é igualmente inegável: ninguém vai ler o seu livro se você não terminá-lo.

5) Ter filhos e/ou um trabalho não é desculpa para não terminar. Pode demorar anos, décadas, para terminar. Mas o objetivo é terminar, não terminar rapidamente (ver ponto 2). No entanto...

6) Existem maneiras de viabilizar esse processo. Um editor conhecido me disse certa vez que o seu conselho para escritores era escrever 2 mil palavras por semana ou 5 mil palavras por mês. Se você conseguir se comprometer com uma combinação dos dois — 8 mil palavras em alguns meses, 5 mil em outros — é provável que em um ano você tenha 80 mil palavras, ou pelo menos um projeto de bom tamanho. É uma visão reducionista, claro, mas ficar olhando para um romance às vezes dá a impressão de que se trata de algo tão impossível que pensar nele em termos de números — e não como uma série de personagens, lugares, temas e paisagens interiores — pode ser reconfortante.

7) Não se demita. Em primeiro lugar há uma razão óbvia: dinheiro. O dinheiro nunca é o que você pensa que é. Vamos dizer que você é sortudo o suficiente para vender o seu livro, e digamos que você ganhou um adiantamento de US$ 50 mil. Desse total, de 10 a 15% vão para o seu agente; de 20 a 40% são destinados ao pagamento de impostos. O restante será pago em quatro parcelas dispersas entre 18 e 24 meses. Pode ser o suficiente para viver — mas requer disciplina, e você pode ter gasto toda a disciplina que faz parte das suas capacidades cognitivas escrevendo o livro (ver ponto 6). Mas e para aqueles que não têm tanta sorte? As chances são muito altas — lotericamente altas — de que você nunca seja capaz de construir uma vida financeiramente confiável ou consistente escrevendo livros. Há outras recompensas, é claro. Mas o dinheiro provavelmente não será uma delas.

A consideração menos óbvia sobre dinheiro é a seguinte: você nunca irá querer depender da sua escrita para ter um salário. Isso muda você — seu trabalho, as decisões que você toma acerca do seu trabalho, a produtividade do seu trabalho. Como a editora de ficção de uma grande casa editorial me disse uma vez, “se você depende da sua escrita para ganhar dinheiro, ainda terá que se comprometer— como todos nós temos — mas nunca poderá se dar ao luxo de fazer concessões em relação ao seu trabalho”. Ela sabe o que é escrever um romance tanto da perspectiva do editor quanto do autor. E ela tem razão.

Mas eu também diria que uma das principais razões para manter o seu trabalho não é financeira. A escrita é, por sua natureza, um trabalho interior. Assim, ser forçado a ficar cercado de pessoas é uma grande vantagem para um romancista. Você começa a se lembrar, diariamente, de como as pessoas pensam, como eles falam, como vivem; o que as preocupa, o que elas esperam, o que elas temem. Claro, você seria capaz de imaginar tudo isso, mesmo desempregado. Mas o seu escritório — seja literal ou não — fornece uma verificação da realidade diária. Faz com que você enfrente a humanidade na vida real, não apenas nas páginas. Te leva para fora do mundo do seu livro, e essa viagem às vezes é útil, até mesmo essencial.

8) Saiba diferenciar quem está interessado em discutir seu trabalho e quem está apenas sendo educado. Ouvir escritores falarem sobre seus trabalhos é constante e excruciantemente entediante. Mas não é apenas uma questão de etiqueta: preocupações incessantes e articuladas sobre seu manuscrito também te deixarão mais envolvido consigo mesmo. A maior parte dos seus amigos, familiares, colegas e chegados não quer ouvir as minúcias acerca do seu progresso — e cabe a você respeitar isso.

9) Existem várias maneiras de escrever um livro. O que equivale a dizer: você provavelmente deveria ignorar tudo o que foi dito aqui. Você pode ter um grupo de escrita, ou um único leitor, ou nenhum. Você pode escrever diligentemente por dias, ou em fatias de 15 minutos que sobram do tempo nos fins de semana ou após o trabalho. Você pode achar confortável seguir outros escritores no Twitter, ou pode evitar completamente as redes sociais. Pensamos na escrita de um livro como um processo, mas a própria palavra — processo — sugere que existe apenas um: um modelo a seguir, um mapa para nos guiar. Se isso fosse verdade, certamente alguém teria descoberto algum método mercadológico que todos nós poderíamos comprar. Mas na verdade só existem as conjecturas daqueles que estão à frente, que já escreveram um livro ou mais, mas que não podem garantir que encontrarão a mesma rota outra vez. Mesmo assim podemos ter esperança — você deveria ter esperança também.


Hanya Yanagihara é autora de A Little Life e The People in the Trees. Ela vive na cidade de Nova Iorque. Siga Hanya no Instagram @hanyayanagihara e @alittlelifebook.


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