O amarelo é a infância do laranja?

Ainda que eu tema o que possa ocorrer ao longo dos próximos três ou quatro anos, acredito que nosso país poderá tornar-se algo melhor, numa perspetiva mais ampliada, dentro de uma ou duas décadas. Não compro essa porcaria de “o gigante acordou”, mera alegoria declamada pela classe média entediada e entristecida, não é isso.
O que quero dizer é algo menos palpável. Imagino que uma transformação esteja a caminho, e ela também não tem nada a ver com a alternância de poder entre duas crianças birrentas e egoístas, PT ou PSDB, esquerda ou direita, socialdemocracia ou democracia a Deus dará etc.
O que acho é que estamos nos tornando endemicamente alérgicos a canalhas públicos e particulares. Hoje há mais pessoas discutindo corrupção e operações da polícia federal do que comentando os padrões de desvio ético de um participante do Big Brother. Ou talvez haja um empate, vai. Claro que ainda há muitos cidadãos desatentos, do tipo:
“nossa, eu nunca pensei que um lava jato desse tanto dinheiro!”
Paciência. Errar é humano e é bem brasileiro. O que importa é que estamos diante da oportunidade de, finalmente, esfregar na já dissolvida face de Charles De Gaulle o conhecido diagnóstico de que ‘não somos um país sério’. Na verdade, esse esfregão seria uma injustiça, pois De Gaulle jamais disse algo parecido. Para cortar tão fundo e alcançar tamanha compreensão antropológica, o autor dessa frase teria de ser um de nós: uma alma submetida ao balanço e ao calor dos trópicos, como, de fato, foi mesmo.
Será que sou um otimista ingênuo? Haverá algum otimista que não seja ingênuo? Será que há alguma solução para nossa degeneração política ou para nossa falência, como nação? Será que ainda podemos nos salvar, no longo prazo? Será???

Se você partir de uma olhadela no Facebook, concordo que não tem jeito, estamos fodidos mesmo, presos em algum lugar escuro entre vídeos de pegadinhas no elevador e compilações de atropelamentos incríveis, entre posts de adultos fingindo ser outras pessoas e imagens de crianças sendo quase sempre elas mesmas, entre horrendos flagras de espancamentos e performances de anônimos dublando cantores sertanejos.
E no meio dessa zona midiático-narcisista que provocaria lagos de diarreia num chato como Theodor Adorno, tentamos dar sentido ao mundo. Não é nada fácil.
Mas eu tenho esperanças. Eu acredito mesmo que a corrupção esteja se tornando menos suportável para a maioria de nós, e mais: acredito que ela esteja cada dia mais ESCANCARADA ENTRE NÓS. Não em Brasília, e sim entre mim e ti, sacou? entre você e seu contador, entre o professor e o aluno, entre a patroa e a doméstica, entre vizinhos, sócios, amigos…
Penso que estamos vivendo o início de uma revolução. Não me refiro aos prosaicos e violentos ensaios latino-americanos dos anos 50, 60, 70 e 80, promovidos por bigodudos sem graça e com muito poder de fogo, aos quais a história chama de revoluções. Falo da indignação do homo sapiens ordinário, comum, e que pode estimular, quem sabe, mudanças verdadeiras nos hábitos, no pensamento e na vontade de cada um de nós.
Creio que estejamos atravessando uma espécie de nova infância. Um imenso borrão amarelo de gente que deseja ser outra coisa. O tempo dirá que coisa é essa.
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