O curioso caso dos ativistas que estão enganando o público sobre a Monsanto, o vírus Zika e a microcefalia

por Robb Fraley, Diretor de Tecnologia da Monsanto

No nosso mundo onde o digital tem a preferência, muitos de nós recebem notícias por meio de redes sociais ou aplicativos de notícias. Ainda que seja dada preferência pelo digital, um elemento básico do método empregado pela indústria gráfica para chamar sua atenção — a manchete — ainda é uma forma importante — se não a mais importante — de chamar sua atenção. Isso é especialmente verdadeiro hoje em dia, com os feeds de notícias e os aplicativos em nossos telefones e tablets competindo com milhões de outras fontes de informação.

Os títulos tentam nos atrair para as matérias. Em publicações impressas, os editores têm uma quantidade limitada de espaço para comunicar a ideia central do artigo. Na internet, editores e escritores podem fazer títulos maiores para empilhar mais detalhes (e palavras-chave para os mecanismos de busca). Isso pode ser positivo — títulos mais longos podem contextualizar melhor a matéria.

Também pode ter um lado negativo, como certas publicações online que usam o título mais longo como caça-clique: a prática de usar palavras sensacionalistas ou palavras-chave para atrair olhares ao artigo. Às vezes, uma manchete caça-clique pode ser enganosa e equivocada.

Alguns veículos online que seguem uma agenda própria sabem que acrescentar certas palavras aos títulos aumenta o tráfego do site. O vírus Zika tem aparecido bastante nas notícias ultimamente, com os impactos devastadores da doença atingindo toda a América do Sul e Caribe. Alguns cientistas e organizações, incluindo a OMS, acreditam que o vírus pode ser a causa de um aumento nos casos de microcefalia, uma má-formação congênita que faz com que o bebê tenha uma cabeça menor do que o normal, e que pode causar desenvolvimento anormal do cérebro.

As histórias sobre o Zika e a microcefalia são dolorosas. Aplaudo os cientistas ao redor do mundo, que estão buscando formas de controlar com segurança novos surtos de Zika, assim como os médicos e pesquisadores que buscam opções de tratamento para as famílias afetadas pela microcefalia.

Se o meu título o seduziu a ler este texto e você chegou até aqui, provavelmente deve estar se perguntando por que o diretor de tecnologia da Monsanto está falando sobre manchetes, títulos caça-clique, Zika e microcefalia.

Porque alguns sites resolveram usar o surto na América do Sul para ligá-lo à Monsanto. No último fim de semana, você pode ter visto manchetes como, estas, por exemplo:

Como você já deve ter adivinhado, estou aqui para dizer a você que a Monsanto não tem relação alguma com o trágico vírus Zika ou com a microcefalia.

Este é o contexto:

Um grupo de médicos argentinos, Physicians in the Crop-Sprayed Towns, uma entidade de orientação ativista, divulgou no dia 10 de fevereiro um relatório alegando que, em vez do vírus Zika, um larvicida chamado piriproxifeno — o qual é adicionado na água potável para impedir o desenvolvimento de larvas de mosquito em tanques d’água — está por trás dos casos de microcefalia. Os veículos que noticiaram a alegação também afirmam que a empresa produtora do piriproxifeno, Sumitomo Chemical Company, é uma subsidiária da Monsanto.

Em primeiro lugar, a Monsanto não é proprietária da Sumitomo Chemical Company. Somos parceiros comerciais na área de herbicidas. Temos uma relação comercial com a Sumitomo desde 1997.

Em segundo lugar, a Monsanto não produz nem vende larvicidas. Uma simples pesquisa em nosso website já esclareceria isso. Para os teóricos da conspiração, que podem dizer: “E daí? Vocês podem estar escondendo essa informação!”, temos a obrigação de sermos transparentes com os nossos acionistas em relação ao nosso portfolio de produtos.

Assim, considerando todas essas informações, se você faz parte de uma publicação online com uma agenda específica, principalmente uma que não vê com bons olhos o papel da ciência em enfrentar desafios globais complexos, terá uma boa receita para um título clicável: “Monsanto ligada a (acontecimento atual que é o assunto do momento e que irá trazer visitantes ao nosso site)”

A Monsanto leva a culpa, mesmo se o artigo incluir apenas uma citação à Monsanto, e não importa se essa citação é verdadeira ou não.

É importante salientar, para o bem da ciência, que também não houve dados reais para sugerir que os larvicidas sejam os responsáveis, ou que não são seguros.

Artigos como esses criam medo desnecessário e inviabilizam o diálogo significativo. Eu compreendo que as publicações que erraram podem não gostar da empresa que represento. Temos trabalhado muito para ganhar confiança, e essa confiança não vem fácil. Temos que trabalhar melhor em nosso relacionamento com as pessoas — amigos e adversários— a fim de ajudar a encontrar soluções para alimentar o nosso mundo em crescimento. Mas usar o nome da nossa empresa e recusar-se a apurar os fatos apenas para atrair cliques é uma prática deplorável.

Cientistas e lideranças da área de saúde pública em todo o mundo estão focados em encontrar as soluções para impedir a propagação do vírus Zika. Estão também pesquisando melhores tratamentos para crianças nascidas com microcefalia. É muito negativo que nem todos compartilhem desta visão, e alguns grupos prefiram, ao invés disso, usar uma tragédia para levar adiante suas intenções particulares.

Devemos manter o foco em encontrar soluções para interromper a propagação do vírus Zika e encontrar melhores tratamentos para crianças nascidas com microcefalia, em vez de usar uma tragédia para atender às agendas particulares de grupos de interesse especial.

Recursos adicionais (em inglês):