O Espetacular Rubens e o não tão espetacular Império

Para mim, o trabalho de Peter Paul Rubens é pura indulgência estética, fantásticas pinturas transcendentais e belas obras de fantasia Barroca. “Não pense, apenas olhe,” meus olhos parecem me dizer quando contemplo fixamente um Rubens. Era com essa antecipação de deleite visual que visitei a mostra O espetacular Rubens: O triunfo da Eucaristia, no Getty.

Um pintor flamenco cuja excepcional habilidade já era notória em sua época, Rubens era o rockstar entre os artistas europeus durante o século XVII. Se os computadores da Apple existissem naquela época, eles chamariam o Rubens para seus lançamentos de novos produtos, e não o U2.

Peter Paul Rubens, 1623

A exposição inclui tapeçarias de tamanho maior do que a realidade, peças inacreditáveis da altura de uma parede criadas por Rubens para a igreja Monasterio de las Decalzas Reales, em Madrid, além de pinturas em painéis de madeira que Rubens criou e foram utilizadas pelos artesãos como referência para trançar as tapeçarias. Como esperado, o Getty fez um bom trabalho em colocar as obras em seu contexto político, histórico e religioso. E foi este contexto, junto dos temas óbvios das tapeçarias, que me impediu de cair na minha típica acomodação estética com a obra de Rubens. Esses exemplos de como a arte era utilizada pela Igreja para avançar sua agenda política e ideológica, para mim, jogam uma nuvem negra sobre essa própria arte… o que não é pouca coisa se tratando de tapeçarias desta magnitude.

Mas, quem sabe, esse talvez tenha sido o ponto (ou parte dele) dessa exposição.

O Triunfo da Igreja, aproximadamente 1622–25, Peter Paul Rubens, óleo sobre painel. Imagem cortesia do Arquivo Fotográfico do Museu Nacional do Padro, Madrid, via O Getty. A pintura representa uma bela e majestosa mulher em uma carruagem com adornos papais (a Igreja), pisoteando um homem com cabelo de serpentes (o mal), um homem oprimido com orelhas de asno (a ignorância) e um homem com os olhos vendados (a cegueira).

As obras de Rubens na exposição do Getty, Rubens Espetacular, são um ótimo exemplo do movimento de contrarreforma na arte católica. Portanto, seus temas refletem e elucidam a agenda da Igreja Católica no século XVII.

Esmague a Reforma Protestante e não deixe nenhuma dúvida quanto a isso.

Não deixe nenhuma ponta de dúvida na mente de quem vir esta arte quanto a quem é abençoada e justa (a Igreja Católica) e quem é malvado (os que lideram a Reforma Protestante). Não há sutileza ou ambiguidade nessas obras. E o fato de essas ideias terem sido transmitidas pela fantástica beleza do estilo barroco de Rubens fez com a que a mensagem fosse jogada como um tijolo embrulhado em veludo pela janela da frente da Reforma.

Isabel Clara Eugenia com Madalena Ruiz (sua anã), 1585 – 1588. por Alonso Sánchez Coello. Cortesia da imagem pelo arquivo fotográfico do Museu Nacional Del Prado, Madrid, via o Getty

Como informado na exibição do Getty, naquela época grandes peças de tapeçaria eram o símbolo de status, poder e riqueza na Europa. Encomendadas pela poderosa e influente Infanta Isabel Clara Eugenia, a filha favorita do Rei Felipe II da Espanha, se estima que essas tapeçarias levavam até oito anos para serem feitas, custando o mesmo do que um mês inteiro do orçamento militar da Espanha durante tempos de guerra. Baratas, pequenas e simples elas com toda certeza não eram.

O processo de Rubens começava com o design e pintura de pequenos estudos dessas obras (chamados de Bozetto), e depois estudos maiores e mais largos eram pintados sobre painéis de carvalho, o suporte favorito dos pintores europeus da época (chamados de Modello). As pinturas passavam por um crivo e processo de aprovação, revisões eram feitas, e os melhores artesãos de Bruxelas então teavam meticulosamente as imensas tapeçarias baseadas nos designs de Rubens, com sete vezes o tamanho de suas pinturas de Modello. O Getty apresenta bem esses processos, e ver os Modelli ao vivo e a cores foi uma oportunidade deliciosa. O custo, processo e a escala da produção dessas tapeçarias são impressionantes. Mas, entretanto, diz-se que a Infanta Isabel Clara Eugenia era também uma mulher impressionante.

Predileta de seu pai e amada por seus súditos, a Infanta casou-se com seu primo, o cardeal arquiduque Alberto da Áustria, recebeu os Países Baixos como seu dote, e, em troca, os governou até sua morte em 1633. Riqueza, poder e magnitude numa escala, na melhor das hipóteses, difícil para minha classe média americana se colocar no lugar.

Além de ser uma governante popular, de acordo com o legado familiar, a Infanta era também uma defensora ardorosa da fé Católica. Como na maioria das coisas que a realeza fazia naqueles tempos, as encomendas feitas ao maior artista de sua geração para essas tapeçarias foram uma declaração ousada de poder, influencia e, bem, moralismo. A atitude e visão de mundo da Igreja, e dos que estavam em poder, ficam evidentes na representação de eventos-chaves da bíblia nas tapeçarias.

O encontro de Abraão e Melquisedeque, aproximadamente 1625–28

É realmente uma visão magnífica entrar na sala do Getty onde as tapeçarias estão expostas, e é fácil ficar embasbacado pelo trabalho de mestre de Rubens. As tapeçarias eram feitas para serem penduradas nas paredes das Igrejas em datas sagradas, em que a eucaristia era o foco central. Nessa época, pinturas eram um meio poderoso para comunicar ideias, algo com que a Igreja sabia bem utilizar.

Para mim, porém, as espetaculares tapeçarias de Rubens ficam ofuscadas pela realidade em que elas foram comissionadas, levada pelo medo da Igreja Católica, em um esforço para representar, literalmente, a destruição do que eles entendiam como inimigos. Talvez isso diga tanto sobre mim quanto sobre as tapeçarias, mas eu não consegui ignorar o fato de que arte era, assim como muitas vezes ainda o é, ferramenta para propaganda.

Na época a Reforma era vista pela Igreja Católica como uma séria ameaça a sua posição de poder e autoridade. A exibição do Getty nos conta que, em resposta, o Papa convocou o Conselho de Trent em 1551 para condenar o que eram consideradas heresias Protestantes. O conselho passou o 8º decreto, definindo a eucaristia e o seu papel durante a missa como um elemento chave para sua fé e sacramento, o que eles viram como ponto central de diferenciação com a Reforma. A eucaristia e seu papel singular na tradição católica que são os temas centrais de muitas dessas tapeçarias.

A vitória da Verdade sobre a Heresia, aproximadamente 1622–25, Peter Paul Rubens, óleo sobre painel. Imagem cortesia do arquivo fotográfico do Museo Nacional Del Prado, via o Getty. A pintura representa uma bela e majestosa mulher (Veritas ou Verdade) pisoteando o dragão (Satã), junto dos líderes da Reforma, João Calvino e Martinho Lutero.

Em Vitória da Verdade sobre Heresia, a tapeçaria representa uma bela mulher (Veritas/Verdade) pisoteando Satã (na forma de um dragão), ao lado de João Calvino e Martinho Lutero, inimigos protestantes e líderes da Reforma. Em O triunfo da Igreja, vemos uma mulher majestosa em uma carruagem, repleta de ornamentos papais esmagando um homem com a cabeça repleta de cabelos de serpente (heresia), um homem com orelhas de burro (ignorância) e um homem vendado (ah, cegueira). O Getty explica como Rubens usou esses e outros elementos de simbolismo e iconografia para não tão sutilmente passar a mensagem. Isso certamente dá espaço para inspeção e descobertas interessantes.

Por um lado, eu acho que é fácil o suficiente aceitar essas pinturas como uma belo exemplo de fé ou mito (dependendo da sua perspectiva), e se deleitar no esplendor do trabalho excepcional de Rubens.

Mas, lamentavelmente, eu não consegui.

Vendo as narrativas representadas nessas tapeçarias, por um momento senti que elas eram distantes, primitivas, uma bagagem de justiça mal informada que a humanidade há tempos deixou para trás. Mas, então, me lembro que religião continua sendo uma fonte primária de conflito na humanidade. E, até pouco tempo, bem recentemente, mesmo o conflito Católico/Protestante era um grande problema em algumas partes do mundo.

Isso me deixa pensando… era Rubens apenas um peão deliberadamente ignorante para a piedade religiosa? Algumas pessoas não acham isso.


Em seu artigo ‘O que faz de Rubens ótimo?’, o artista e novelista Daniel Maidmen comparou duas pinturas de Rubens. Prometeu Acorrentado e Daniel na cova dos leões.

Prometeu Acorrentado, Peter Paul Rubens, c. 1611–1618

Maidmen habilmente compara dois trabalhos bem diferentes. Ambos representam o confronto contra a autoridade opressiva, mas um representa o encarar da morte e a batalha contra os poderes de então (Deus) e o outro o encarar da morte e a barganha com Deus. Enfrentando nossa própria mortalidade, Maidmen resume, Rubens representa duas maneiras clássicas mas conflitantes de encontramos o nosso fim.

Daniel na cova dos leões, Peter Paul Rubens, c. 1614/1616

Contrastando as duas pinturas, Maidmen acredita que Rubens não responde as perguntas para nós, assim nos levando a ponderar. As histórias de Prometeu e de Daniel são nossas histórias, Maidman declara. Grande arte faz isso. Ela provoca, nos convida e pergunta as grandes questões, especialmente aquelas no coração do que significa ser realmente humano.


No fim das contas, o que é que ele é então? Ao criar essas tapeçarias, era Rubens conivente com o moralismo religioso e político de sua época? Ele era um empregado do trono, o pintor oficial da corte do rei da Espanha, e claramente religioso. Mas eu fico pensando, será que ele realmente acreditava nisso? E ele acreditando ou não, será que ele teve alguma escolha?

Nós frequentemente vemos os pintores como os contadores das verdades, rebeldes e instigadores, como pessoas em que podemos nos inspirar, que se recusam a fazer concessões. Em Prometeu Acorrentado e Daniel na cova dos leões, eu consigo me identificar com ambos os protagonistas, suas histórias clássicas de superação. Mas no trabalho encomendado pela Infanta, eu me vejo identificado, por outro lado, com os antagonistas. O ignorante, o herético, o cego. Não por compaixão com os fracos, mas da mesma maneira que Prometeus e Daniel brigam e imploram por suas vidas, eu também brigo e imploro pela minha, em toda minha imperfeição, contra aqueles nas carruagens com adornos poderosos, disfarçados no que eles representam como bom, justo e verdadeiro.

Todo império rui. Muitas vezes eles tomam a ofensiva, lutando, batalhando e atacando inimigos (sejam reais ou suposições), tentando angariar outros para fazerem o mesmo. Talvez a Infanta, ao lado do trono e da Igreja Católica, tenha visto o que estava por vir, na medida em que a relevância tanto da Igreja quanto da monarquia abriam espaço do centro do poder, e seus impérios, como todos os impérios, tinham um vislumbre de seu futuro limitado.


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