O impressionante parque de arte contemporânea do Brasil

Inhotim é um casamento surreal da cultura com a natureza


Se você já pensou, mesmo que brevemente, em fazer uma visita a Inhotim, o extraordinário parque de arte contemporânea criado por um visionário magnata da mineração, é hora de começar a planejar a sério.

A afastada paisagem rural do parque sempre foi, essencialmente, uma parte do seu charme. Quando eu o visitei, uma enchente transformou as estradas de chão batido em canais de lama, acrescentando um elemento Indiana Jones à experiência. Mas a medida em que sua fama e popularidade crescem, Inhotim vai se tornando cada vez menos uma aventura para desbravadores. A previsão é que até as Olimpíadas do Rio de Janeiro, uma pista de pouso permitirá que aeronaves de pequeno porte aterrissem na cidade de Brumadinho, cortando a viagem pela metade. Por sorte, chegar até lá e suficientemente complicado para manter o exotismo do local intacto, por enquanto.

As recompensas mais do que justificam o esforço. Pode-se tranquilamente passar alguns dias apenas explorando os jardins tropicais de renome internacional, que regularmente são visitados por cientistas do mundo todo (foram projetados pelo renomado paisagista Roberto Brule Marx, que trabalhou com Oscar Niemeyer em Brasilia e projetou as icônicas linhas onduladas do calçadão de Copacabana). Um restaurante ao ar livre serve buffet; há lindos cafés à margem dos lagos (cada um deles diferente, já que os lagos são preenchidos com variedades de algas que garantem colorações distintas). Há até mesmo uma pizzaria bastante agradável.

E então, é claro, há a arte.

Foto: Diego Maia/Flickr

Bernardo Paz, o visionário criador de Inhotim, refere-se ao parque como uma Disneylândia para adultos, e é fácil entender por quê. Este extenso “museu ao ar livre” é, agora, um dos mais emocionantes experimentos em cultura contemporânea — uma resposta futurista do Brasil para localidades famosas como o Storm King, em Nova York, o Park Güell de Gaudi, em Barcelona, e o Yorkshire Sculpture Park, no Reino Unido. A escala é impressionante. Há oito quilômetros de trilhas por exuberantes áreas verdes, que conectam 21 pavilhões. É como se a Bienal de Veneza fosse transportada para dentro de uma floresta tropical.

Foto: Tony Perrottet

Várias instalações tornaram-se icônicas, incluindo talvez a obra mais famosa de Inhotim, “Sonic Pavillion”, do artista norte-americano Doug Aitken. A câmara de vidro circular de Aitken permanece pousada como um disco voador sobre o topo de uma colina, com microfones localizados no fundo da terra transmitindo ruídos que estranhamente remetem a seres vivos, como se o próprio planeta estivesse gemendo. “Viewing Machine”, do artista dinamarquês Olafur Eliasson, é um telescópio forrado com espelhos para criar uma visão caleidoscópica das exuberantes montanhas à distância. Outro pavilhão contém uma obra do artista brasileiro Cildo Meireles, intitulada “Red Shift”, um apartamento onde cada parte da decoração possui um forte tom de vermelho.

Foto a direita: Diego Maia/Flickr. Foto a esquerda: Circuito Fora do Eixo/Flickr

Mas há mais de 600 peças na coleção de Inhotim, e o melhor a fazer é largar o mapa e se deixar levar por surpresas aleatórias. Espalhadas em diversas clareiras na floresta, é possível encontrar: um círculo de monolitos similar a Stonehenge, em cores vivas; figuras Maias contorcidas; um iate pendurado de ponta cabeça por cipós, como uma homenagem a Fitzcarraldo de Herzog; e uma coleção de fuscas pintados em cores tutti-frutti.

Foto: Cesar Kobayashi/Flickr

Algumas das criações acústicas do parque irão lhe acompanhar enquanto você estiver caminhando, como o sentimento de estranhamento ao ouvir arcaicas melodias sacras cantadas por um coral infantil misturadas ao som dos pássaros e das folhas balançando ao vento. E, caso você se esqueça que está no Brasil, uma das instalações é uma piscina de verdade, com salva-vidas, toalhas gratuitas e vestiários. Não se esqueça de trazer sua roupa de banho.

Foto: Diego Maia/Flickr

Talvez o elemento mais surpreendente de todo o lugar é que, ao contrário de museus urbanos tradicionais, ele nunca se torna cansativo. O traçado de Inhotim - em meio a uma floresta com trilhas sinuosas - estimula os frequentadores a reacender seus olhos e mentes — seja ao sentar em bancos feitos de antigos troncos de árvores, ou ao refletir sobre a beleza complexa das folhas de jequitibá e da ondulada “madeira crocodilo”.

Por fim, este pode ser o único museu do mundo onde você pode pegar ingredientes para um drink. Enquanto eu caminhava por uma trilha tomada pela vegetação, entre galerias, um jovem botânico vestindo shorts e camiseta apontou para um leque de frutas exóticas, incluindo bananas rosadas e pitangas.

“Fica muito bom em uma caipirinha”, ele revelou.

Foto: Cesar Kobayashi/Flickr

PRATICIDADES


Partindo de Belo Horizonte, são aproximadamente duas horas de carro até Inhotim, em estradas sinuosas nas montanhas que foram, em sua maioria, criadas para abastecer as gigantescas minas de ferro que permeiam a paisagem. Há ônibus que partem do centro de Belo Horizonte todos os dias às 8h15 da manhã, embora a viagem seja mais confortável em veículos particulares que podem ser agendados com os hotéis da região.

É possível ficar em Belo Horizonte e fazer uma viagem de ida e volta em um dia, mas a opção mais atraente (e agradável) é uma pequena pousada rural chamada Pousada Nova Estância, a apenas quinze minutos do parque. O relaxante esconderijo tem uma piscina, um criativo restaurante com um chef venezuelano, uma vista sobre as palmeiras em direção às montanhas ao redor e, quando a noite cai, uma exuberante paisagem sonora criada pelas rãs. O local também tem um simpático motorista, Cristovão Lana, que leva e busca visitantes ao parque. (R$270 a diária, incluindo café-da-manhã, www.pousadafazendanovaestancia.com.br).

O ingresso ao parque sai por acessíveis 20 reais, com entrada franca às terças.

Foto: Claudia Regina/Flickr

Foto da capa por Tony Perrottet


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