O texto mais difícil da minha vida.

Vó,

Eu nunca fui um ateu muito convicto. Eu sempre fui um ateu que tem medo de assombração, macumba e que anda com uma moeda da sorte no bolso. Mas isso nunca me preocupou. Quase nunca. Toda vez que eu ia na sua casa você me perguntava como eu conseguia não acreditar em Deus, não acreditar em nada. E hoje, sem ter tido coragem de falar pessoalmente, eu te respondo, vó: eu me recuso a acreditar em um Deus que deixa uma pessoa entrevada em uma casa durante seis meses, a ponto de desejar morrer diariamente. Mas ontem, quando eu te vi lá deitada, morta, sem vida, mas ainda quente, ainda, por alguns segundos eu xinguei o seu Deus, torcendo pra que eu estivesse errado e ele me ouvisse. Por que você não esperou uma horinha pra eu te dar um beijo? Pra eu te ver ainda viva, reclamando dos meus brincos. Eu tenho certeza de que você ia me pedir pra não fazer uma tatuagem depois que você morresse. Pra onde você foi, vó? Cadê aquela velha ranzinza que reclamava de tudo, que eu trocava muito de namorada, que eu andava de bermuda e chinelo, que eu falava muito palavrão? Por que você não me esperou pra me xingar pela última vez? Se não fosse por você, vó, eu não estaria onde estou e não seria um décimo do profissional e da pessoa que eu sou. Quando ninguém me achava digno de aposta, você apostou quase tudo o que você tinha em mim. Depois de eu largar uma faculdade faltando apenas um ano para me formar, todo mundo achou que eu nunca fosse dar em nada. Mas você não achou nada, você só me ajudou e me apoiou quando eu precisei. E pelo menos isso eu tive coragem de te falar em vida: o quão grato eu sou, fui, o quanto eu te amava e o quanto você já está fazendo falta na minha vida. Você se foi há menos de vinte e quatro horas e eu já não sei o que fazer sem você, vó. O que eu faço agora? Pra quem eu vou ligar pra dizer que recebi dez mil reais de um trabalho e que vou gastar tudo em uma semana? Quem vai reclamar que eu levo minhas namoradas pra morarem comigo rápido demais? Quem vai me perguntar se eu preciso de um trocado, mesmo eu ganhando mais que você nos últimos anos? O que eu vou fazer sem você, vó? Como eu vou ficar agora? Você era a âncora que me separava da insanidade, que me refreava dos impulsos de aceitar uma proposta de trabalho em outro estado mesmo sendo ruim, de me mudar para outra cidade por causa de mulher. O pouco de sanidade e juízo que eu ainda tinha, era só pra te orgulhar, só pra que você nunca se envergonhasse de mim, só pra honrar você. Eu não sou um sujeito bom ou justo porque eu sou assim, é pra que você fique orgulhosa de mim, do homem que você praticamente criou e cuja vida profissional só existe graças a você, seja me incentivando mesmo sem entender até ontem o que eu faço, seja pagando cursos de cinco mil reais ou livros de duzentos dólares que todos duvidavam que eu lia. E eu lia. E você nunca duvidou disso. Como eu vou seguir em frente sem o meu norte agora? Pra onde eu vou agora, vó? Me diz, por favor… Vó, nunca, na minha vida inteira, eu desejei tanto estar errado. Eu queria demais estar errado, que exista alguma coisa depois dessa merda dessa vida, só pra eu conseguir viver daqui pra frente na esperança de que um dia eu vou te ver de novo. Sem isso eu não sei se vou aguentar. Eu preciso estar errado, vó. Eu preciso te ver de novo, pedir desculpas por não ter chegado uma hora antes. Eu preciso te ver pra ver se eu fiz tudo certo sem você por aqui. Eu preciso de você. Tanto que eu nem sei o que eu vou fazer daqui pra frente. Um beijo, vó. E se eu tiver errado, e tomara que eu esteja, fala pra quem quer que seja o responsável daí, que ninguém merece ver a pessoa que mais fez por você na vida pedindo para morrer. Avisa que ninguém merece precisar pedir para morrer. Enquanto eu não entender isso, sigo acreditando que essa merda aqui é só acaso mesmo. Pelo menos o acaso não é justo. Eu te amo, vó. E eu não sei o que fazer a partir de hoje.


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