Por favor, respeitem minha decisão de não dançar

Este não sou eu. Mas é provável que você me encontre assim em vez de estar dançando. Fora o vinho e o charuto. E o traje

Você pode não perceber, mas vivemos em uma sociedade que normatiza a dança.

Eu não consigo contar a quantidade de vezes que alguém me abordou durante algum evento com música alta – um casamento, um show, um pub ou qualquer outro lugar – e tentou me tirar pra dançar. Às vezes pedem, às vezes convidam, às vezes imploram, às vezes simplesmente me pegam pelo braço e tentam me arrastar – mas, seja qual for o caso, quando resisto ou balanço negativamente a cabeça, sou sempre encarado com um olhar de extrema decepção ou irritação, ou um “ah, vamos, é tão legal!”. O que, na melhor das hipóteses, faz eu me sentir um desmancha-prazeres por não dançar e, na pior, faz eu me sentir constrangido.

Pode soar surpreendente, mas isto não parece divertido

As pessoas parecem ser capazes de respeitar minhas outras decisões de não fazer as coisas – respeitam minha decisão de não pular de bungee jump, de não comer mostarda, de não tomar café ou cerveja (todos têm um gosto horrível, na minha opinião), de não fumar, até mesmo de não comer carne. Mas o problema é que ir a lugares dançantes é, muitas vezes, uma parte inevitável da socialização moderna – geralmente, dançar é a diversão esperada em casamentos, shows, bares, clubes e nas festas com os amigos. E, ao contrário da tendência geral de também haver chá, suco ou água nos cafés, além do café propriamente dito, é muito comum que não haja nada para se fazer em um lugar onde se dança que não seja dançar.

E eu simplesmente não gosto de dançar. Não gosto e não me faz bem, definitivamente. Quando eu danço, sempre sinto que estou forçando meu corpo a fazer movimentos estranhos e artificiais. Meus braços e pernas não foram feitos pra isso.

Eu dançando

E, embora sempre que eu vá a um evento social dançante eu tenha que decidir se vou ou não participar da brincadeira, minha aversão à dança é mais do que apenas uma decisão. Eu não estou decidindo “não me divertir” – isso seria uma idiotice. Dançar não torna as pessoas divertidas. Eu acredito piamente que “não gostar de dançar” é algo intrínseco a mim. É como o caso daquelas pessoas que, devido a alguma predisposição genética, têm um paladar muito apurado e simplesmente não suportam tomates crus. Bom, eu não suporto dançar. E o problema é que, apesar de ser socialmente aceitável não gostar de determinados alimentos, ou optar por não beber ou fumar ou comer carne, parece haver um consenso de que todos devem gostar de dançar. Assim, se você diz que não gosta de dançar, é porque dança escondido, porque é um dançarino secreto e porque está apenas se fazendo para mostrar que não gostar de dançar é uma escolha sua.

Esta atitude é errada e desrespeitosa.


Quero comer TODOS OS TOMATES

Voltemos aos tomates: minha amada vó acha tomates crus repugnantes, ela nunca gostou deles, apesar das repetidas tentativas de “abstrair” ou “superar” a questão. Com o passar do tempo, ela acabou chegando à conclusão de que seu paladar simplesmente não aprova tomates e de que ela é assim. Eu, ao contrário, AMO tomates. Tenho quase certeza de que eles são minha comida favorita, eu fico aguardando com grande expectativa o fim do verão, quando tomates de verdade, frescos, maduros e suculentos são abundantes, e eu posso comê-los em todas as refeições e, muitas vezes, entre as refeições, como se fossem maçãs. Eu amo tanto tomates que tenho certa dificuldade em entender como alguém pode não gostar. Mesmo assim, eu não forço minha vó a comer tomates; isso seria uma grosseria de minha parte. Eu consigo entender que minha vó fez a escolha de não comer tomates exatamente porque ela não gosta de tomates (o que, a propósito, não foi uma escolha sua).

Bom, pessoal, eu nasci assim. Eu não curto dançar. Parece uma atividade alienígena pra mim: por que, quando há música tocando, essas criaturas humanas se sentem impelidas a sacudir seu corpo por aí? O que é essa coisa que os torna incapazes de manter a compostura e, ao invés disso, faz com que eles curvem e contorçam seus corpos de formas que normalmente não fariam? Com certeza é fascinante e agradável de assistir, mas eu não consigo captar.


Se você é um desses compulsivos agitadores de corpos (eu suspeito que provavelmente a maioria de vocês seja), poderia me dizer “Você não sente o balanço? Como é possível você NÃO sentir a música? Você é um robô insensível que não é tocado (literalmente) por este ritmo, esta batida, esta melodia?”.

Bom, é claro que eu sinto a música. Eu sinto o balanço. Eu sou músico e, pra falar a verdade, eu não consigo ouvir música e fazer outras coisas, como resolver um tema de casa ou ler um livro ou trabalhar, como a maioria das pessoas consegue – eu me sinto inevitavelmente atraído pela música, ela me distrai, capta minha atenção e até me induz a agir. Agir, sim. Dançar, não. Quando ouço música, eu não me sinto estimulado a movimentar meu corpo – eu me sinto estimulado a tocar junto. Eu sinto a batida e só quero pegar um instrumento para me juntar à mágica e emocionante loucura sonora que é a música. Tocar música é minha dança.

Este sou eu tocando bandolim

Isso pode fazer com que um programa como ir a um show seja uma experiência extremamente frustrante porque, apesar de muitas vezes ser socialmente aceitável ou, pelo menos, visto como um sinal positivo o ato de se levantar e dançar ao som da música, definitivamente não é aceitável sacar seu piano/bandolim/kazoo e subir no palco para participar do show. E quanto melhor for o show, mais frustrante é a experiência – certa vez, fui em um show de Béla Fleck, provavelmente o melhor tocador de banjo do mundo. Quando ele toca seu banjo, não soa como um banjo; soa como anjos cantando. E assim, sentado naquele show e ouvindo seus belos refrãos me lavarem a alma, eu estava no céu… E também pronto pra subir no palco e tocar com ele (o que acabei não fazendo, infelizmente).

Então, sim, a todos os agitadores de corpos que normatizam a dança que estão aí: quando eu escuto música eu me sinto MUITO impelido a me movimentar, a expressar minha reação emocional à música abertamente e sem restrições. Só não pela dança.


Eu amo ouvir música. Eu até gosto de assistir às pessoas dançando! Eu só não danço. Não sou um dançarino, não nasci um dançarino e vou continuar não sendo um dançarino.

E eu sei que não estou sozinho. Há outros como eu – vocês sabem quem são vocês – encostados nas paredes ou sentados pelos cantos nas festas e casamentos. Eu consigo ver seus esforços de uma forma que os agitadores de corpos simplesmente não conseguem, e eu entendo a sua situação, especialmente quando alguém está tentando convencê-los a dançar. Podemos ser poucos, mas nós existimos, à espreita nas sombras, os não-dançarinos. Por favor, respeitem quem somos.


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