Porque você não deve odiar tanto os corruptos…

Ou: abaixo a revolução moral!


Vivemos em uma época de acirramento dos ânimos no cenário político. Acabamos de passar por eleições polêmicas, e começamos o ano com várias notícias de corrupção. A revolta no ar é sensível, pelo menos em São Paulo, pelo menos no meu trabalho, pelo menos no meu bairro…

É… As coisas estão feias mesmo…

Mas enquanto nos entretemos em discussões políticas, vomitando alegremente nosso ódio aos governantes; não seria essa uma ótima oportunidade para admitirmos nossa ingenuidade quanto a um fato que sempre fez parte de nossa história: de que é absolutamente louvável desejar um governante honesto, mas que é uma grande burrice depender disso?

Sabe o que eu acho…

Eu acho que a gente precisa largar um pouco essa exigência moralista de que os governantes devem ser essencialmente bons e honestos. E eu não digo isso porque a corrupção me agrada, mas porque é infantil achar que alguém, nas condições em que estão os nossos políticos, vai colocar o interesse da coletividade antes dos próprios interesses…

Isso não é política, isso é um sonho de criança!

Política é disputa pelo poder, só isso!

E antes, mas muito antes de o governo democrático ser a melhor forma de garantir o bem estar geral, ele é a melhor forma de organizar a disputa pelo poder político sem que os atores envolvidos entrem em guerra.

Novamente, devo esclarecer (para garantir minha integridade física), esse não é o meu ideal de política, é a minha percepção do que a política é, ou de como ela tem sido no Brasil desde…

Mas eu defendo esse ponto de vista, não por pessimismo entreguista (como quem diz: “a malandragem é da natureza do brasileiro que é uma merda de povinho ruim! Vou-me embora pra Pasárgada…”), mas porque eu acho que só se pode vislumbrar uma solução para o problema da corrupção no Brasil quando ela deixar de ser entendida como um defeito moral.

A corrupção política não é (ou pelo menos não deve ser tratada como) um defeito moral. O egoísmo é um defeito moral. A corrupção política é um problema técnico de funcionamento do Estado. Exige, portanto, antes mesmo de um paliativo moral, uma solução técnica.

O erro é acreditar que a simples punição, como forma de solução moral por excelência, teria o poder de acabar com um problema técnico, como é a corrupção no Brasil. Ela pode até, na melhor das hipóteses (coisa que nunca aconteceu na história do mundo), corrigir o comportamento de alguns políticos condenados, assim como as palmadas dos pais corrigem uma criança egoísta. Mas no momento em que este político é substituído e a estrutura continua a mesma, é claro que o problema não é solucionado.

Nenhum político jamais vai resolver o problema da corrupção por respeito a princípios morais particulares… O Congresso inteiro podia ir pra cadeia que as coisas não iam mudar. Não existe um salvador da pátria.

Só o Mujica, o Mujica é foda não tem o que falar…

Esse é um bom momento pra você se perguntar: que mudanças foram feitas na estrutura do governo, nos processos, na burocracia do Estado para que um Mensalão não aconteça novamente, além dos paliativos morais (uma cadeia curtíssima pra alguns dos envolvidos)?

Eu entendo que a indignação é um sentimento muito fácil, e as pessoas logo de cara querem o sangue dos desgraçados... Mas não se pode esquecer que ainda que a punição seja muito justa, ela sozinha não resolve o problema.

E pra piorar, nós somos bombardeados por discursos moralistas a todo momento. É como se não fosse possível obter uma informação sobre o governo ou a política, livre de um discurso que se faz moralizante. É a cultura da polêmica. Sem perceber, estamos nos tornando cada dia mais obcecados com esse moralismo. O problema disso é que, historicamente, quando um povo atinge um tamanho nível de obsessão pela conformidade moral universal a certos valores (que geralmente são sempre coisas inquestionáveis como: a honestidade, o altruísmo, o bem comum), ele se torna vulnerável a governos cada vez mais autoritários, como as ditaduras.

E esses governos ditatoriais, com o apoio da população, ao pretenderem inserir os valores “corretos” e a moral “desejável” nos políticos, estendem, logicamente, a obrigatoriedade dessa moral à toda a sociedade. E isso não acontece somente por meios fisicamente violentos, mas também por meios psicologicamente violentos, como fez o governo militar no Brasil com a tantas vezes exaltada e “saudosa” educação moral e cívica nas escolas.

É preciso ter em mente que se quisermos viver em uma sociedade realmente livre, o egoísmo, a “Lei de Gerson” e a cara de pau devem ser coisas lícitas, ainda que indesejáveis…

Mas voltando à uma solução técnica à corrupção, minha sugestão é, na verdade, algo bastante evidente: transparência. Porque me parece que é somente com a transparência nos processos de governo que o povo torna-se de fato um ator mais relevante no jogo político; principalmente como fiscalizador (papel que hoje é ocupado somente pela mídia privada submetida a atores interessados).

Se não tiver transparência, não tem nem como saber o que acontece, quanto mais influenciar em qualquer coisa…

Então, depois de todo esse blá blá blá, eu espero que da próxima vez que um camarada fique espumando de ódio dos políticos com um discurso moralista, você seja o estraga prazeres que vai perguntar: “mas o que você sugere como solução pra esse problema, além de colocar o mundo inteiro na cadeia e forçar um impeachment, digo, golpe de estado?”

Sabe do que mais… A culpa é do Jânio e da vassourinha…

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