Quando o branco fala…
“Aliado”, “lugar de fala”, “desconstruído” e outras idiotices sem sentido


Eu me lembro. Tinha uns 11 anos. Fui pro shopping com os amiguinhos. Fomos de bermuda e chinelo. Olhávamos pras vitrines. Fomos no fliperama. Meus amiguinhos estamos felizes. Eu estava triste. Eu estava sendo seguido. Por todos os cantos, o grande homem de terno me seguia. Eu me lembro. Na saída, o homem de terno pegou no meu braço. Gritou comigo, não lembro o que ele disse. Mas me lembro que fiquei com muito medo. Meus amiguinhos só olhavam. Então, me lembro que nunca mais fui pro shopping de bermuda e chinelo, somente de calça e tênis. O grande homem de terno continuava me seguindo assim mesmo. Mas não seguia os meus amiguinhos. Afinal, eles eram brancos.
Eu me lembro também as quatro vezes em que um policial apontou uma arma para a minha cabeça. Quatro vezes. O meu crime? Andar na rua. Uma dessas vezes, eu estava de terno, voltando de um casamento. Estava no ônibus, feliz, pois um grande amigo meu havia se casado. Senti o fuzil frio na minha nuca. Homens fardados vieram e me revistaram. Eu apenas tremia, afinal, havia um fuzil grudado na minha nuca. Os policiaram me apertaram, me bateram, gritaram, eu não sei, não lembro, só prestava a atenção no fuzil na minha nuca. Foram embora. Todos os passageiros passaram a me olhar como se eu fosse um criminoso. Eu me lembro. Foram quatro vezes em que engatilharam uma arma na minha cabeça.
Cinco meninos foram executados. Foram destroçados. Foram 111 tiros. Não foi um engano, não foram tiros acidentais. Foi uma execução. 111 tiros. Cinco futuros destruídos. Cinco famílias destruídas. 111 tiros.
Então, vem o humoristinha. Ah, sempre o humoristinha, não é mesmo? Faz vídeo. Nossa, que genial! Animal! Nossa, que sacada! Comentários na timeline de uma certa rede social. Pessoal adora, né? Quando o branco fala. Aliado, desconstruído, de esquerda. Nossa, ele tá denunciando por meio do humor! Nossa, gente, tô emocionado!


Caramba. Queria me sentir emocionado assim quando apontaram arma pra minha cabeça. Quando me expulsaram do parquinho quando eu tinha uns 5 anos — “Você não pode brincar aqui! Você é preto! Eu sou o filho da diretora, e digo que você não pode!!!” — Eu poderia lembrar tantos fatos, tantos acontecimentos. Vocês gostam, não? Quando choramos as nossas desgraças e tal. A galera da Festinha do Oprimido vibra! Não passarão! Cotas já! Etc.
Deve ser bem loco conseguir achar lógica nisso. Invade a terra dos outros. Mata todo mundo, escraviza, domina, mente, distorce a história. Depois, volta como o grande salvador. Ganha um dinheiro. Lança camisa. Faz souvenir. Souvenir com desgraça. Eu devia rir, né? A maior tragédia da humanidade, transformada em piada. Mas é o branco! O desconstruído! O aliado. Lugar de fala, eles dizem, uhu! Tamo junto!
Mimimi, etc.
“Ain, mas é arte! Ain, mas é crítica! Ele tá denunciando! Ain, ain, ain…”
Nunca vi fazerem cartão postal com os atentados de Paris. Nunca vi souvenir com os cadáveres esqueléticos do holocausto. Nunca vi essa “crítica inteligente” do “branco aliado” com o 11 de setembro. A tragédia e a dor do branco, oh, nossa, tem que respeitar. Mas o nosso extermínio diário, físico e psicológico, ih, vamos fazer ~crítica irônica~. Sim, vamos mostrar o vídeo do ~branco desconstruído~ pras famílias dos cinco meninos massacrados com malditos 111 tiros!!!
…
Sério mesmo que vocês querem que eu ria enquanto continuo tomando bala?
“ Ah… O voyerismo doentio e a psicopatia disfarçada (ou não!) de arte, empatia e solidariedade… Fofo!”