Saindo da depressão

Imagem do filme Melancolia

Tenho visto bastante relatos pela internet sobre depressão ultimamente, mas acho que até hoje nunca vi nenhum sobre como é sair da depressão.

Ainda acho muito pouco o quanto o assunto é discutido, acredito que mais pessoas deveriam entender melhor essa doença — que é até um pouco estranho chamar de doença, de tanto que a gente é condicionada a acreditar que é “só uma fase” e que “acontece com todo mundo” e que “vai passar”. Tanto as pessoas que sofrem com a depressão como as que convivem com essas pessoas deveriam saber mais sobre o assunto. Creio que, acima de tudo, saber identificar um quadro depressivo para iniciar o tratamento o mais rápido possível — assim como com qualquer outra doença — é a chave para combatê-lo. E esse conhecimento não pode ficar restrito aos médicos, simplesmente porque a gente acaba demorando muito a procurá-los. Por vários motivos, inclusive sintomas da própria doença — como o desânimo e a procrastinação — , mas principalmente por não saber que está doente.

Quem percebeu que eu estava deprimida não fui eu, foi uma ex-chefe minha. Seis anos atrás, eu estagiava numa empresa muito importante da minha área. Eu gostava à beça do trabalho e estava muito empolgada para ter um bom desempenho e, quem sabe, ser efetivada no final do meu contrato de estágio. Em algum momento que eu não sei precisar exatamente, minha empolgação deu lugar a um enorme desânimo, descontentamento e frustração.

Desde criança bem pequena, eu convivia com uma insônia crônica. Dormir era desesperadamente difícil. Eu não queria, não gostava e não conseguia dormir. Dormia mal, não descansava direito e tinha pesadelos a noite inteira. Ninguém entendia a gravidade da minha situação, e tudo o que eu recebia eram sugestões de tomar chazinhos ou acusações de não dormir porque ficava até tarde no computador. Veja bem, eu ganhei meu primeiro computador aos dez anos de idade, mas lembro de não conseguir dormir pelo menos desde uns cinco. Quando eu não tinha computador, ficava lendo até tarde da noite. Aprendi a ler sozinha, por puro tédio. Fui eu quem descobriu​ que minha irmã era sonâmbula, porque eu era a única que estava sempre acordada para ver.

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De volta a seis anos atrás, eu já tinha vinte e três e continuava dormindo mal. Muitas vezes eu simplesmente virava a noite, porque não conseguia dormir e no dia seguinte tinha que acordar cedo para ir à faculdade de manhã. Depois, o estágio. Tudo isso numa cidade altamente estressante, o Rio de Janeiro, que realmente não colabora para o bem-estar de ninguém (ou pelo menos ninguém que não tenha muito dinheiro). Eu precisava cruzar a cidade três vezes todos os dias, pois morava muito longe da faculdade, que era muito longe do estágio, que também era muito longe de casa. Eu pegava de cinco a seis ônibus por dia, já que nenhum desses trechos “muito longe” era coberto por uma linha de ônibus só — e naquela época nem tinha Bilhete Único, então eu também gastava muito dinheiro com passagens. Cada vez mais frequentemente, eu caía no choro no último ônibus de volta para casa. Chorava de cansaço, de tristeza, de estresse, de não ver mais sentido em nada do que estava fazendo. Precisei trancar várias matérias da faculdade porque ficou insustentável fazer essa maratona todos os dias da semana. E foi ficando cada vez mais difícil acordar de manhã.

Algumas vezes eu acordava, mas não conseguia levantar da cama. Não tem jeito melhor de explicar isso, eu simplesmente não conseguia. Eu sabia dos meus compromissos, eu me importava com as minhas responsabilidades, mas me faltavam forças para aquele “ok, chega de apertar o soneca, agora tá na hora de levantar”. Comecei a chegar muito atrasada no trabalho, e a faltar com frequência. O pessoal da empresa foi extremamente compreensivo comigo, e aceitou me dar todas as chances pelas quais eu implorei, jurando que ia me esforçar para que isso não acontecesse mais. Mas eu não consegui evitar que acontecesse, e esse fracasso só aumentava a frustração.

Certo dia, a minha supervisora me chamou para conversar a sós e me perguntou, diretamente, se eu estava usando drogas. A pergunta foi um choque para mim, tanto pela franqueza como pelo fato de que não, eu não usava drogas. Mas, confessei a ela, eu andava, sim, bebendo demais. Passei a sair à noite, mesmo em dias de semana, pra encher a cara. Eu não conseguia dormir, e achava que precisava me divertir. Eu bebia e dançava e conhecia pessoas tentando de alguma forma anestesiar aquela dor que não sabia de onde vinha. É claro que esse hábito só piorava a situação.

Então, a minha chefe me disse: “Letícia, você sabe que está deprimida, né?”. Eu sabia, mas não sabia. Eu sabia que havia algo errado comigo, que eu me sentia muito mal o tempo todo e que não conseguia cumprir com as minhas responsabilidades mais básicas do dia-a-dia. Mas achava que estava apenas atravessando um momento ruim, e que isso iria passar. Só que fazia muitos meses que não passava.

Meu último ano no estágio já foi inteiro aos trancos e barrancos e, por melhor que eu trabalhasse (quando conseguia) e por mais que gostassem de mim por lá, não tinha a menor possibilidade de continuar.

Essa história se repetiu diversas vezes. Trabalhei em várias empresas excelentes, com pessoas maravilhosas que gostavam de mim e do meu trabalho e que, por isso, me deram várias chances para tentar melhorar. Eu levei muito tempo para pedir ajuda. Não foi menos de dois anos depois de ouvir “Letícia, você está deprimida” que eu de fato decidi fazer alguma coisa a respeito. Conversei com meus pais, que, mesmo com muita dificuldade, se esforçaram para entender o que estava acontecendo comigo e procurar alguma maneira de me ajudar. Foram eles que me levaram à minha primeira consulta com um psiquiatra, que imediatamente identificou meu quadro como depressivo e me receitou antidepressivos — ele é homeopata, não receitaria se não fosse realmente necessário. Tive muito medo de começar a tomar remédios psicotrópicos e adiei esse momento por vários meses, durante os quais a caixa ficou dentro da gaveta.

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Além do medo de tomar remédios, muitas vezes a gente também tende a criar uma expectativa de que, uma vez começando a tomar, logo os sintomas vão desaparecer e tudo vai ficar bem. Não é assim que acontece, e isso pode ser muito frustrante. Passei por sete psiquiatras diferentes ao longo de quatro anos, até que um de fato acertasse na substância e dosagem prescritas (o mais irônico é que esse médico foi justamente o primeiro que procurei, mas tinha parado de frequentar porque ele atendia em Vassouras, perto de onde meus pais moram, e eu morava no Rio). Felizmente, eu contei com a ajuda inestimável de uma psicóloga maravilhosa.

Tive mais sorte nesse quesito do que na minha busca por um psiquiatra: eu só tinha feito uma única tentativa frustrada antes de encontrá-la. Ainda por cima, ela atendia pelo meu plano de saúde. Logo na primeira sessão eu me senti à vontade, então continuei a vê-la pelo menos uma vez por semana. Porém, da mesma maneira que com os remédios, também levou bastante tempo e várias tentativas de abordagem diferentes até a gente conseguir entender o que é que de fato acontecia comigo. Por mais que a gente se abra e se permita falar sobre qualquer assunto nas sessões de análise, pode levar um tempão até pensarmos em mencionar uma certa coisinha que achávamos que não teria a menor importância, mas faz toda a diferença. Para ser mais precisa, levei cerca de três anos frequentando religiosamente as sessões até mencionar essa tal coisinha. Só então nós (porque a terapia é um trabalho em conjunto, sempre) conseguimos chegar à conclusão de quais eram meus hábitos, pensamentos e sentimentos (a.k.a. sintomas) que eu deveria relatar ao psiquiatra para que ele chegasse a um diagnóstico.

E então, funcionou. Eu percebi imediatamente que funcionou porque tinha levado uma listinha em que escrevi todos esses sintomas sobre os quais a minha analista recomendou falar, e assim que terminei de enumerá-los o meu médico (aquele primeiro) escreveu com convicção a receita que mudou a minha vida. Nesse ponto, eu já tinha perdido mais um emprego que adorava, meu dinheiro tinha acabado, eu tinha precisado voltar a morar com meus pais no interior e sentia que tudo só piorava e eu nunca ficaria bem. Mas dessa vez eu tinha conseguido, com a ajuda da minha analista, explicar ao médico exatamente o que ele precisava entender para me ajudar também.

Não posso deixar de frisar mais uma vez: chegar até ali levou um bocado de tempo, anos, e demandou muito esforço pessoal e muito trabalho em conjunto na análise e com os outros médicos que vi anteriormente — cujos esforços, mesmo não tendo resultado no diagnóstico correto, sem dúvida contribuíram de alguma forma no meu autoconhecimento. Porque é assim que se chega à cura, entendendo a si mesmo.

Um desses médicos me disse que a depressão faz com que a gente se volte totalmente para dentro de si mesma, mas de um modo que não consegue sair nem deixar mais ninguém entrar. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Nos últimos meses que passei morando no Rio, eu raramente saía de casa, tinha me afastado totalmente de todos os círculos sociais que frequentava e até desenvolvido uma aversão gigantesca a esses lugares e pessoas. Eu não conseguia me relacionar direito com ninguém, tinha a impressão de que eu não conseguia entender ninguém e ninguém conseguia me entender, como se eu tivesse sido largada sozinha num país estrangeiro cuja língua eu não falava. Brigava e discutia com as pessoas o tempo todo e pelos motivos mais estapafúrdios. Não tinha paciência com ninguém e tinha a consciência de que eu mesma estava me tornando uma pessoa impossível de suportar.

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Mas olha só que curioso: a chave para resolver a depressão é também um processo de voltar-se para si mesma; só que com um olhar crítico, para tentar entender o que é que está acontecendo ali dentro. É por isso que a análise é fundamental. Sem ela, eu dificilmente teria conseguido chegar sozinha à compreensão de quais eram os meus sintomas relevantes e enfim levar aquela listinha ao consultório do psiquiatra. A gente perde a noção do que é sintoma e do que é traço de personalidade, porque é difícil dissociar o que apareceu com o tempo do que sempre esteve ali. É bem difícil identificar o que veio da depressão e o que foi consequência de outras coisas da vida, já que esse processo leva muito tempo e a gente, de um jeito ou de outro, não para de crescer e amadurecer enquanto isso.

Uma experiência interessante foi quando eu recentemente joguei Depression Quest, um jogo que tem o objetivo de simular o cotidiano de uma pessoa com depressão. Mesmo já me sentindo bastante resolvida e conhecedora da doença, eu não parava de me surpreender com a quantidade de dilemas, pensamentos, sentimentos e escolhas específicos que apareciam no jogo e tinham acontecido comigo, exatamente iguais. A criadora do jogo disse que um dos objetivos dela era mostrar às pessoas com depressão que elas não estão sozinhas e, pelo menos comigo, ela acertou em cheio. Chega a ser um alívio perceber que aquelas situações desesperadoras não eram exclusividade minha e eu não era anormal. Eram apenas sintomas. Sintomas de uma doença que tem cura.

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Lembro de um dia em especial, com duas semanas do novo remédio, em que eu acordei cedo, descansada e cheia de disposição, fiz a cama e fui para o Rio encontrar minha analista. Não faço ideia de quando tinha sido a última vez em que havia feito a minha cama. Encarei a maratona de vários ônibus e trens numa boa, ouvindo música, conversei com estranhos na rua, me sentia tão bem que chegava a estar eufórica. Senti como se a redoma de vidro tivesse sido removida pouco antes de eu ir me deitar na noite anterior. Quando estava deprimida, mesmo que estivesse me sentindo feliz em um determinado momento, essa felicidade era envolta numa espécie de névoa de melancolia — eu conseguia sentir alegria, mas a via meio turva, através de um véu.

Hoje, não. Hoje eu vejo as coisas bem mais próximo de como elas realmente são. Não tenho mais aquele primeiro impulso de antagonizar as pessoas. Hoje eu ponho música para tocar e danço sozinha no meu quarto. Na primeira vez que isso aconteceu, inclusive, quando percebi como ficou fácil me sentir daquele jeito, chorei de felicidade. Estou reconstruindo a minha vida devagarzinho, sempre consciente de que não cheguei ao fim da jornada: cheguei ao começo dela. Ainda preciso melhorar muito a minha concentração, ainda é difícil acordar cedo, ainda dá um medão, de vez em quando, de tudo aquilo voltar. Só que agora me sinto capaz e disposta a recuperar minha funcionalidade. Voltei a estudar, minha monografia está quase pronta (com isso tudo, ainda não tinha concluído formalmente a faculdade), arrumei um estágio, estou fazendo amigos. Não faz nem um ano que eu decidi me matar. Hoje estou maravilhada por estar viva.

Estamos na Semana de Conscientização da Saúde Mental. Exercite a empatia. Compartilhe suas experiências. Converse com as pessoas. Cuide de si e de quem você ama.
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