O Que Acontece Com a Economia do Rio de Janeiro Quando os Jogos Olímpicos Acabarem?

Fogos de artifício no Maracanã durante a cerimônia de abertura dos Jogos 2016. CRÉDITO: AP PHOTO/LEO CORRÊA

Quando o Rio de Janeiro enviou sua candidatura oficial para sediar os Jogos Olímpicos de Verão deste ano, estimou-se que custaria à cidade apenas 2,8 bilhões de dólares para construir as instalações e infraestruturas necessárias e garantir que os jogos funcionassem sem problemas. Na época, a economia brasileira estava crescendo, gerando desenvolvimento e prosperidade para muitos de seus habitantes. Tudo pode ter parecido um investimento sólido.

Agora, a fortuna do Brasil está seriamente decrescente. A economia está em sua pior recessão desde a década de 1930. E o custo de hospedar os jogos teve um aumento extra de US$ 4,6 bilhões em custos diretos e pode chegar a US$ 10 bilhões, com tudo levado em conta.

Que o preço de sediar os Jogos Olímpicos de Verão foi muito além das projeções originais e vai custar muito caro à cidade não deveria ser surpresa. Uma pesquisa consistente descobriu que a realização dos jogos é uma aposta perdedora para qualquer cidade.

Cidades-sede têm que gastar um monte de dinheiro em três grandes áreas: infraestrutura, como transporte e habitação para abrir liberar o fluxo de enormes multidões; a construção de locais específicos olímpicos, como piscinas e pistas de corrida; e os custos operacionais, como emissão de ingressos e segurança. O Comitê Olímpico Internacional exige que as cidades anfitriãs tenham um mínimo de 40.000 quartos de hotel disponíveis, por exemplo, o que significava que Rio teve que construir mais de 15.000 novos quartos.

Megaprojetos que ficam dentro ou abaixo da estimativa financeira VERSUS Olimpíadas que ficam dentro ou abaixo da estimativa financeira. CRÉDITO: Patrick Smith

O custo sempre acaba sendo maior do que o previsto. Na verdade, para todos os Jogos Olímpicos desde 1960, para os quais há dados confiáveis, nenhum aconteceu dentro do orçamento, de acordo com um artigo da Universidade de Oxford. Pelo contrário: geralmente, somente 10–20% dos projetos de grande escala ficam dentro ou abaixo do orçamento.

Os desvios são enormes. A sede dos Jogos Olímpicos executa projetos com 156% a mais do custo original, em média, como os autores demonstraram. Quase metade delas teve excesso de custos acima de 100%. Em média, sediar os Jogos Olímpicos de Verão acaba custando às cidades US$ 5,2 bilhões a mais do que o esperado inicialmente.

Em custos diretos, o projetado de gasto extra no Rio é de US$ 4,6 bilhões, um aumento de 51% sobre o orçamento original — muito caro para uma cidade que já luta economicamente para se manter. O Rio não é exceção: esse custo extra é aproximado à média de todos os jogos desde 1999. No entanto, ainda não chega nem perto de alguns outros Jogos de Verão. Os Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, passaram em 720% do orçamento; Barcelona gastou 266% a mais, em 1992.

À esquerda: a média de gastos com transporte público nas olimpíadas. Ao centro, a expectativa de gastos do Rio acima do previsto e a média de gastos acima do prevista em todas as Olimpíadas. À direita, as Olimpíadas que mais extrapolaram o orçamento. CRÉDITO: Patrick Smith

“Analisando as estatísticas, é claro que grandes riscos e grandes excessos são inerentes aos Jogos Olímpicos”, escreveram os autores do artigo de Oxford.

Parte do problema é que as cidades anfitriãs subestimam os custos em suas propostas originais. “Esse orçamento se parece mais com um mínimo fictício que é consistentemente superado”, escrevem os autores. Mas também é preciso que as cidades garantam que elas vão cobrir todos os custos excedentes. “Isto significa que a cidade anfitriã e a nação estão presos a um compromisso inegociável para cobrir eventuais tais aumentos”.

“A conclusão acachapante é que, na maioria dos casos, os Jogos Olímpicos são um evento que significa perda de dinheiro para cidades-sede”

As cidades-sede ainda poderiam decidir se vale a pena a aposta do preço inesperadamente alto para captar os benefícios do turismo e do investimento, ou mesmo apenas uma grande injeção de orgulho cívico. Mas a pesquisa encontra aquelas que não desenvolveram nenhum deles, de acordo com um artigo da Associação Americana de Economia.

Os benefícios das cidades-sede que podem captar pelos direitos de transmissão, patrocinadores nacionais e internacionais, venda de ingressos, e licenciamento não são desprezíveis: Vancouver recebeu US$ 1,58 bilhões, em 2010, e Londres recebeu US$ 3,27 bilhões, em 2012. No entanto, estão ofuscados pelos custos de hospedagem — US$ 7,56 bilhões para o primeiro e US$ 11,4 bilhões para o último.

O artigo também constata que outros benefícios potenciais não correspondem à realidade. A menos que a taxa de desemprego de uma cidade já seja elevada, o emprego dos projetos de construção que a hospedagem olímpica requer não cria qualquer estímulo, e é uma aposta sobre como será o mercado de trabalho. Utah previu que os Jogos de Inverno de 2002 gerariam 35.000 empregos, mas apenas 4.000–7.000 empregos foram criados e o impacto foi rapidamente dissipado. Isso significa que o governo gastou cerca de US$ 300.000 por cada posto de trabalho criado.

Padrões semelhantes foram encontrados em outros Jogos de Verão, como aqueles em Los Angeles e Atlanta. “Surpreendentemente… estudos mostram impactos econômicos reais próximos de zero ou uma fração do que o previsto antes do evento”, escrevem os autores. “Se alguém deseja conhecer o verdadeiro impacto econômico de um evento, pegue quaisquer números que os promotores estão apostando e mova o ponto decimal a um lugar para a esquerda”.

O turismo também não parece aumentar muito mais, geralmente, uma vez que um grande evento como esse pode realmente fazer algumas pessoas ficarem longe da cidade, enquanto os ganhos financeiros da rede hoteleira, restaurantes e aluguéis de carros não necessariamente ficam na economia local.

E as instalações esportivas que são construídas tendem a trazer pouco valor assim que os atletas forem embora. Elas são muitas vezes tão especializadas que uma cidade tem que gastar mais dinheiro depois para torná-las utilizáveis para outros fins, e a construção de estádios raramente vêm com benefícios econômicos. “Aqui não há nenhuma razão para acreditar que os investimentos necessários para sediar os Jogos Olímpicos irão proporcionar retornos mais elevados do que os projetos de infraestruturas alternativos que poderiam ter sido realizados em vez disso”, escreveram os autores. O Rio poderia ter investido, por exemplo, US$ 4 bilhões em construções de estradas e pontes.

“A conclusão acachapante é que, na maioria dos casos, os Jogos Olímpicos são um evento que significa perda de dinheiro para cidades-sede”, acrescentam.

O caso é ainda pior para as economias em desenvolvimento, como a do Brasil, onde o crescimento pode já estar em um curso incerto.

Experiências passadas não profetizam nada de bom para o que vai acontecer no Rio após as multidões e câmeras forem embora. O excesso de custo quando Atenas sediou os jogos em 2004, mais a dívida que assumiu para cobri-los, desempenhou um papel no enfraquecimento da economia do país, que até hoje está em crise profunda. Montreal levou 30 anos para pagar a dívida que assumiu para financiar o enorme excesso de custo dos Jogos de 1976.

“O custo médio dos gastos extra deve ser motivo de cautela para quem considerar sediar os Jogos e para as economias nacionais, em especial as pequenas e frágeis, com pouca capacidade de absorver os custos progressivos e dívidas relacionadas”, escreveram os autores do artigo de Oxford.