Uber está para a economia colaborativa assim como orgia está para a virgindade


Com a proibição do Uber pela cidade de São Paulo as redes sociais foram tomadas de assalto por gritos de desespero dos cidadãos que não entendem como podemos ter uma medida tão retrógrada, que não se pode ir contra a inovação, que a tecnologia sempre vence e por aí vai. Considero que a discussão não é tão simples e nem tão maniqueísta como a maioria está se propondo.

Abaixo, resumo alguns pontos que acredito serem importantes para se ter uma perspectiva mais clara e lúcida do que o Uber é e o que ele representa. Mas vai aqui um alerta de spoiler: Este não é um artigo de defesa dos taxistas, é um artigo a respeito do Uber, para se considerar antes de chorar a proibição do grande salvador da mobilidade da Era Digital que algumas parecem acreditar que se trata.

A falsa dicotomia

Kevin Kelly, talvez um dos maiores especialistas em tecnologia e em sua evolução, mostrou em "What Technology Wants", sua obra-prima, que a proibição de uma tecnologia nunca foi bem sucedida. Ela sempre é cultivada por entusiastas e reaparece anos depois e é estimulada por novos grupos no poder ou apropriada de uma nova forma.

O jocoso Sensacionalista publicou: "Depois da proibição do Uber, datilógrafos querem o fim do computador". Outro artigo dizia que "charretes" substituiriam os carros. Esta, é uma dicotomia falsa. O Uber, por exemplo, não é uma tecnologia per se. Ele não é uma nova forma das pessoas se locomoverem. Ele não resolve os problemas de deslocamento. Ele coloca novos carros nas ruas, que somente serão ocupados por uma pessoa, preferencialmente, a cada viagem, além do motorista é claro. A tecnologia do Uber é o aplicativo que ele usa conectando os pares: motoristas e pedestres e o sistema de pagamento através de cartão de crédito.

Mas não podemos esquecer de uma das visões de longo prazo do CEO do Uber é bem tecnológica: empregar carros robôs que se auto-dirigem. Ou seja, hoje ele utiliza os humanos apenas como um meio no médio prazo de manter uma cliente para seu futuro exército de carros-robôs. Parece para mim um futuro digno do "uma bota na face humana" profetizado em "1984" de George Orwell: nosso deslocamento atrelado a um grande monopólio.

Inovando no serviço

O grande diferencial está no serviço empacotado, um startup end-to-end, como é definida: entrega um serviço a um valor fixo, geralmente abaixo do mercado, com, assim nos garante, uma qualidade superior. Sua inovação está justamente em garantir e entregar este serviço. Que depende de dois fatores: os carros e os motoristas. Os carros do Uber são, por política da empresa, carros de luxo, de poucos anos de lançamento.

Os motoristas devem adquirir os carros. No momento em que entra em um país, para ter um número grande de motoristas, a Uber garante ganhos mínimos à sua frota que é bem mais atraente para os motoristas. Mas como a empresa já fez antes, logo depois ela deixa de garantir esse mínimo e o que ela declara ser um salário médio de motoristas nunca se realiza na prática. Alguns motoristas chegam a ganhar menos do que o salário mínimo americano. Talvez não seja tão sexy chamar do que realmente se trata a gig economy: Slavery 2.0.

Um dos motivos de custar menos que um táxi comum é por que a Uber não garante nenhum direito aos trabalhadores, que para a empresa são seus clientes. Se o Uber desampara seus motoristas, e estes se voltam contra a companha. A que custo temos estas "inovação"? Além de que algo ser “inovador” não significa automaticamente que ele é desejável ou “não podemos pará-lo”. O nome disso é dogmatismo. É quando toda razão renuncia de abordar a realidade de forma crítica.

Economia colaborativa?

Para se esquivar da resistência a relações públicas do Uber sempre se concentrou em se mostrar como uma tecnologia. E daí ela ser adotada por todos como uma "força da natureza", nem boa e nem má, que devemos apenas adotar e aceitar e como um representante da economia colaborativa. O Uber não é nem um e nem outro — acreditar nessas coisas é só acreditar no discurso oficial fabricado, propaganda (que eu tenho certeza é do tipo de pessoa que reclama de como as pessoas, sempre as outras, estão iludidas).

No artigo "Understanding New Power", Jeremy Heimans e Henry Timms categorizam o Uber como aquele tipo de empresa que externamente emprega um modelo "aberto e colaborativo" de unir dois pares: motoristas e pedestres, mas em sua estrutura interna é totalmente o oposto de colaborativo. Desde táticas agressivas com concorrentes, que são o pior exemplo do que o capitalismo selvagem pode produzir para não concorrer e sim sabotar outros concorrentes, o Uber claramente é um agente que se utiliza de tecnologia e que opera de maneira a formar um monopólio, pois devido um efeito de rede conhecido como “winner takes all” ou "richer get richer", aqueles em controle de grandes fluxos de informação ou com um maior inventário de motoristas, tende a ganhar mais clientes. Uber está para a economia colaborativa assim como orgia está para a virgindade — é uma contradição entre o interno e o externo muito grande. Todos podem colaborar desde que seja com eles. (Nem precisa acreditar em mim, a Fast Company dedicou um artigo inteiro a este ponto, perguntando, "o que está sendo compartilhado além do seu dinheiro?")

No mesmo artigo de Heimans e Timms, os autores preveem que a evolução do Uber é que será mais alinhada, interna e externamente com a bandeira que ele se apropria externamente: um app em que os motoristas sejam os donos do aplicativo. Aí sim poderemos começar a falar em "economia colaborativa" — aliás, precisaria de outro artigo só para entrar no mérito do tema que já é complexo por si só.

Culto à carga

Somado tudo isso, um fator é o das pessoas, e pessoas muito bem informadas, de considerar qualquer tecnologia, ainda mais startups americanas, sem qualquer visão de seu funcionamento e demais efeitos, é no mínimo, culto à carga.

O Uber possui tanto alcance, em grande parte à um foco grande em produto e operações e, não devemos esquecer, a uma grande alavancagem de investimento de venture capital.

O mais engraçado é pessoas defenderem o Uber dizendo que estão proibindo por motivos “econômicos”. E o Uber é um serviço público? O app é famoso por fazer surge price. Ou seja, se acontecer uma inundação por aqui, para quem precisar do serviço naquela região, será cobrado mais caro. Sem choro, apenas “lógica de mercado”.

Tecnologia != Agente

Mas o mais importante: não confundam tecnologia com o agente. As pessoas estão se imbecializando com esse pensamento simplista. A Apple é a empresa que inovou em computadores, a Google com uma ferramenta de busca, a Facebook com uma rede social. A Uber inova em serviço. A tecnologia de comunicação e pagamento por celular não é igual ao Uber e pode e deve ser apropriada por outros agentes.

O Uber não é o profeta da Era Digital que veio resolver nossos problemas de mobilidade urbana. É um app que dá conforto e comodidade para a parcela da população que pode pagar por esse privilégio e não é uma tecnologia tão revolucionária em si mesmo. A proibição pode ter sido uma medida radical de São Paulo, mas fiquem calmos, é a proibição de um agente, não de alguma tecnologia. Infelizmente o discurso e o sentimento das pessoas parece ter misturado tudo, mas é compreensível considerando que as pessoas vivem imersas nesse culto à carga do Vale do Silício.

Leia meu novo artigo: "O que aprendi ao co-fundar uma startup da “economia colaborativa” e por que saí dela"

Adicionado em 7 de julho: Não achava necessário pois em momento nenhum declarei tal coisa, mas tendo em vista as reações de algumas pessoas, preciso declarar explicitamente: não sou a favor de nenhuma proibição, acredito em um estado mínimo. Para mim, o Uber é quase um free-rider: ganha todos os benefícios dos veículos, do tempo dos motoristas sem arcar com o custo total. E não existe almoço grátis. Hoje esse almoço está sendo sustentado pelo venture capital investido, mas alguém um dia pagará a conta, e hoje a realidade é que já é paga por muitos motoristas. No longo prazo saberemos quem pagará a conta principal. Meu artigo foi para dar um pouco de profundidade ao discurso simplista e do 0 e 1 que estava acontecendo — e que as parecem querem ser gravitar, ou se é contra ou se a favor. Acredito que podemos interagir com a realidade de forma mais complexa que isso, e este artigo foi nesse espírito. Obrigado a todos que leram!


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