Um Brasileiro na Bocoup


Hoje é dia 13 de Outubro e começo a trabalhar localmente no escritório da Bocoup em Boston, MA.

Se alguém não acompanhou todo processo que passei, pode parecer fácil ou rápido, mas foi um dos maiores desafios da minha vida, com certeza o maior em termos profissionais. Quero compartilhar essa história, uma vez que alguns amigos perguntaram como foi e não é algo que se resume além de "bem difícil".

Ao final de 2013 eu acompanhei alguns amigos que também trabalham com web sendo chamados para entrevistas na Booking.com, lá em Amsterdam. Achei sensacional e ao mesmo tempo senti que já estaria velho demais — 33 anos — para tentar algo fora. Inclusive falar inglês parecia uma barreira.

Enquanto isso, eu começava a me incomodar em permanecer no mesmo trabalho, a equipe com quem eu trabalhava era incrível, mas administrativamente não havia uma perspectiva de projeção profissional, os desafios haviam passado e eu não vivo sem eles.

Infelizmente o Rio de Janeiro não oferecia alternativas interessantes de empregos, onde eu pudesse equilibrar um bom salário com uma equipe interessante, gestão humana e oportunidade — pois ainda precisava de uma empresa que quisesse e pudesse me contratar.

Salário é só uma parte de um bom trabalho, é fundamental, mas eu não duro 2 meses em um ambiente que não me faça feliz ou não me apresente desafio, eu sou muito impulsivo e digo logo quando algo me agrada.

Como um bom carioca, ir para São Paulo e morar lá era fora de cogitação. Tenho amigos de lá que amo muito, mas só consigo desejar que eles tenham uma oportunidade de fugir daquela cidade. O problema não é as pessoas — como disse essas são incríveis — mas sim a falta de natureza sobreposta pelo excesso de rotina, concreto e gás carbônico do trânsito.

Infelizmente nenhuma outra cidade tinha uma oportunidade pra mim onde equilibrasse todos os fatores importantes pra minha carreira.

Foi quando fui consultar as duas pessoas mais improváveis sobre a ideia de aplicar para um trabalho fora do Brasil, o gerente e o diretor de TI na empresa onde estava. Os conselhos foram de tentar, com cuidados para o inglês, que eu poderia melhorar.

Falando inglês

Falar inglês merece uma atenção especial nessa saga que passei. Eu basicamente aprendi inglês com videogame e programando. Não completei os cursos que fiz, assim como o Ibeu e o CCAA não me ensinaram nada além do muito básico.

Alguns amigos haviam recomendado: "você pode por tudo a perder se não se comunicar bem nas entrevistas pra fora do país. Cuidado pra não gastar suas fichas". Já disse que sou impulsivo, certo? Isso me deixou apavorado, e com o pavor recusei dois convites de entrevista e comecei a fazer o duolingo.

Meu plano era ficar um ano fazendo o duolingo, que é bem melhor que qualquer cursinho de inglês tradicional no Brasil, e aí sim iria aplicar pra algo fora.

Porém, um certo dia me encontrei com o Eduardo Shiota e ele me encheu de motivação. Ele tinha começado a pouquíssimos meses na Booking e afirmou: "você tem o perfil que queremos, fique tranquilo em relação ao inglês". Conversamos o suficiente para ignorar qualquer cautela, traduzir meu currículo para inglês e aplicar. Além disso, minha esposa me ajudou no incentivo final: "você vai mandar seu currículo hoje, agora!".

No meu pensamento havia a ideia: se eu já iria aplicar para um emprego fora do Brasil, por que não para os empregos dos meus sonhos?

Eu vim perguntar ao Ben Alman — que já conhecia pessoalmente — se teria problema mandar algo pra Bocoup. Ele me respondeu pra mandar e pra dar uma chance, por que não? Achei que me chamariam em um ou dois anos. Outro lugar era a Mozilla, onde achei que teria muito mais chances que qualquer outro lugar, já que trabalhei dois anos lá voluntariamente como representante.


Fracasso internacional

Aquilo foi ao final de Outubro de 2013. No início de Dezembro recebi uma ligação da Booking, em inglês. Apavorado, respirei fundo e comecei a responder o que já seria a primeira das entrevistas. Durou 30 minutos e — sabe Iluvatar como — passei para a fase seguinte. Outra entrevista remota, porém técnica.

Foi engraçado, no dia estava em Recife, tinha acabado de chegar e a internet do hotel não funcionava. Tive um suporte incrível dos amigos lá, principalmente do Luiz Tiago Oliveira, que veio me buscar de carro e me levou até a empresa dele, com internet excelente e me liberou uma sala exclusiva para fazer essa entrevista. Com o apoio dos amigos tudo deu certo, apesar de todos os improvisos.

Passei. Agora tinha que agendar uma viagem no início de Janeiro para Amsterdam, de quebra iria ficar lá por cerca de 5 dias.

A cidade é incrível, a Booking também. Em toda a entrevista eu falava que meu maior desafio ali era não vacilar no inglês, era meu único receio e eu não sei mentir, sou um livro aberto até nesses momentos, não existe estratégia, sou tomado pelo emocional e me abro com quem me der bom dia.

Foram 4 horas de entrevistas, foi tudo ok, fiz uma apresentação com slides, respondi perguntas e apesar de tudo ter sido muito bacana, não fui bem no último teste. Descobri que não tinham me selecionado por causa disso logo após chegar de volta ao Rio de Janeiro.

Me senti um lixo, nada resume melhor esse dia do que isso. Mas aí vim saber de um amigo que trabalhava comigo, Bruno Buss, que ele estava saindo para ir trabalhar na Google, era o sonho dele. Ele parou pra conversar e me contou quantas vezes havia fracassado antes de conseguir, que ele também tinha se sentido dessa forma. Ao mesmo tempo ele disse que me admirava muito como profissional e aquilo foi um banho de motivação pra continuar em frente. Eu tinha um amigo que admirava muito pelo conhecimento profissional e de repente vi que isso era recíproco e se ele conseguiu eu ali só tinha dado o primeiro passo.


Depois da tempestade vem a bonanza

Uma semana passou e recebi tanto apoio dos amigos que estava superando bem, mas não imaginava que seria surpreendido com um email me convidando para uma entrevista via skype, para a Bocoup.

Eu suava frio: se não havia passado no teste técnico da Booking, eu seria destruído na entrevista da Bocoup. Eu não sabia o que iria acontecer, eu não conseguia nem me concentrar pra ver a agenda que estava no email, nem me lembrar que tem no site deles um roteiro de como as entrevistas acontecem.

Eu quase me convenci nessa entrevista que eu sou gago quando falo inglês. Só aos poucos fui me soltando e falei o quanto estava preocupado, além de explicar que havia a reprovação da semana anterior.

Tudo parou no quase. Em um certo momento a Jory Burson, que estava me entrevistando, parou e fez um coração com as mãos, para me certificar que tudo estava ok e que a Bocoup estava animadíssima em conversar comigo.

Aquilo foi crucial e consegui finalmente relaxar e falar com mais naturalidade.

A entrevista acabou e fiquei comemorando, achei que já tinha ido longe demais só de ter feito a primeira entrevista. Daí que veio com a segunda fase, uma conversa com o Boaz Sender, CEO da Bocoup. Eu havia sido apresentado a ele pelo amigão Mike Taylor no Mozilla Summit 2013 em Toronto, mas não fomos muito além de um olá e prazer em conhecer.

Pra quem não conhece o Boaz ainda, ele é uma das pessoas mais incríveis que já conheci. Em algumas conversas com ele é possível entender porque tanta gente bacana vem trabalhar na Bocoup. E a minha conversa com ele na entrevista não foi nenhum problema, ele falava da forma mais tranquila possível e eu cometi dois erros que achei que podia por tudo a perder, mas na verdade não causaram o menor problema.

O primeiro foi a minha resposta para a pergunta: "você fala outro idioma?". Ora, a entrevista era em inglês: "eu estou falando outro idioma agora mesmo". Ele riu enquanto eu fiquei pensando na minha sorte de ele ter um ótimo humor e como podia ter colocado tudo a perder em outras entrevistas.

O segundo foi ter dito que se — em uma próxima entrevista — o Rick Waldron estivesse presente eu iria congelar e não seria possível de responder nada, principalmente se fosse uma prova técnica. Pra quem não me conhece bem, eu sou fã desse cara e do trabalho dele.

Eu estava ansioso para ter as próximas entrevistas e particularmente com medo de fazer elas remotamente, e assim fiz uma sugestão à Jory: o jQuery Conference de San Diego estava pra acontecer e eu poderia ir até lá pra assistir o evento e como a Bocoup realiza o Rooster junto desse evento eu poderia fazer a prova técnica. Sim, eu me convidei para etapa seguinte.

Fui até San Diego em cima da hora, com uma ajuda dos meus pais que me ajudaram financeiramente, passagem pros EUA não é uma coisa simples, mas qual o problema de ficar duro de grana quando tem uma oportunidade boa como essa?

E agora fica a dica: quem viria para a prova técnica? Corey Frang e Rick Waldron.

Eu quase tive um treco. Fiquei imaginando que ele iria me perguntar as nuances implícitas do ES6, me dar um cascudo por não saber o porquê do nome TC39 e cuspir no chão quando eu falasse que eu fiz código sem testes.

Nada disso, cheguei no local marcado e quando ele me viu me recebeu com um abraço dizendo que estava ansioso pra me conhecer. Corey também foi super bacana e ajudou o Rick a equilibrar a sua ansiedade. Eles foram fundamentais naquele momento e me deixaram errar, experimentar e pesquisar durante a prova.

Pra ter ideia do quanto eu investi nessa prova: eu perdi na mesma semana o aniversário da minha esposa e o da minha afilhada. De quebra ainda consegui ter o vôo de volta cancelado ficando 2 dias em Dallas, sem um tostão no bolso.

Voltei para o Brasil sem uma resposta, não sabia que teriam outras fases de entrevistas e depois de uns 15 dias achei que nada mais iria acontecer, até que veio um email me convidando para a prova de arquitetura e a apresentação. Seria remotamente e com cerca de 1 hora cada, no mesmo dia, em sequência.

Serviços de telefonia e internet são ruins no mundo inteiro e no Brasil não é diferente: a NET Virtua me garantiu umas várias quedas durante a prova de arquitetura, ruídos que me custaram 15 minutos de tentativas frustradas para a entrevista que me deixaram finalmente congelado sem conseguir mais falar uma palavra em inglês até ouvir a pergunta: "quer marcar a prova para outro dia?". Eu respondi de uma vez que não mesmo, eu iria fazer aquela entrevista naquele momento senão ia pirar e nunca mais conseguir. Funcionou e depois de ter atingido o fundo do poço, falei inglês como nunca e consegui responder tudo o que foi perguntado, nada mais me deixaria nervoso mesmo.

Assim continuei na apresentação. Eu não sabia pra quem iria me apresentar. E então a surpresa: abri um hangout e no video estava todo mundo da empresa assistindo. Quem não veio ao escritório no dia — ou estava trabalhando remoto — também se conectou e lá fui eu ativar meus slides compartilhando a tela. Para evitar ruídos, desligaram o microfone para eu poder falar a vontade.

Haviam pedido para eu apresentar qualquer assunto sobre JavaScript. Eu pensei em diversos assuntos dos mais complexos, mas acabei escolhendo o mais simples de todos: falei sobre JS Sustentável, paralelizando o tema à minha experiência obtida na minha carreira.

Falei sobre estilo de código, projetos fast food de agências digitais, tartarugas em cima da árvore, go horse, etc. Isso tudo é simples, mas me permitiu falar bem e comparar as minhas experiências e possibilitou eu fazer algumas várias piadas. Se eu fico nervoso eu conto piada, algumas não tem o menor sentido e não são engraçadas se você não curte Monty Python. Não porque eu cito Monty Python, coisa que não fiz, mas porque é necessário um senso de humor muito aguçado e peculiar. Mesmo assim consegui conciliar frases do Doctor Who a estilo de código.

O problema das piadas é que eu não tinha noção se estava tendo sucesso ou falando muita merda. Eles estavam com o microfone no mute para não gerar ruído e eu falava olhando para meus slides apenas, sem o menor feedback.

Quando acabei, retornamos ao vídeo e religaram o microfone para aplaudirem. Passei por uma sabatinagem de perguntas e todas as fases de entrevista haviam acabado. Aquilo foi um alívio gigante e relaxante. Sabia que tinha cumprido o meu papel, era dali aguardar a tão sonhada resposta final.

Na mesma época eu havia recebido convite para entrevista em mais duas empresas estrangeiras, uma delas era o Facebook, onde cheguei a fazer a primeira conversa, mas desisti das duas antes mesmo de ter uma resposta da Bocoup, era um all-in, eu acreditava nas minhas chances, menores que fossem.

Não seria fácil, pois já estávamos em Março, e o dia limite e único para dar entrada no processo de visto de trabalho nos EUA é sempre dia 1˚ de Abril em cada ano — sim, nesse dia.

Eu tinha uma viagem marcada para o Uruguai, onde fui palestrar no JSConfUY, eis que 2 dias antes recebi a tão sonhada confirmação: “parabéns, você passou”.


Eu só não sabia que dali pra frente vinham as partes mais difíceis do processo. O visto.

É tanta coisa para se falar do visto que vale a pena parar por aqui e escrever sobre isso em uma segunda parte, já que pode ser muito útil pra quem quer se inteirar mais sobre isso. Posso adiantar dizendo que eu tive 5 dias pra entregar a maior quantidade de documentação que já empilhei em uma única vez.


Gostou do texto? Então clique no botão Recommend, logo abaixo.
Fazendo isso, você ajuda esta história a ser encontrada por mais pessoas.

Não tem conta no Medium? Que tal fazer login clicando aqui? Leva um segundo. Após fazer isso, você pode seguir a publicação oficial do Medium Brasil e receber todos os dias nossas atualizações. Clique e siga o Medium Brasil. ☺

Siga o Medium Brasil | TwitterFacebookRSSCanal oficial
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.