Uma mulher no seu pé não é tão legal quanto parece

Ela pode ser a pessoa mais sensata da história.

Como homem, sempre imaginei que ter uma fêmea no meu pé poderia ser a melhor coisa. É algo que infla o ego de forma inofensiva. Sabe como é, bom para a auto-estima, autoconfiança aumentando a cada vez que ela aparece sem ser convidada. Cada batida na janela às 2 horas da manhã, dando aquele friozinho na barriga do ego inflado, fazendo as inseguranças baterem suas asas e desaparecerem pelos ares da noite italiana.


Eu estava errado.

Tudo começou inocentemente uma noite, como eu imagino que muitos relacionamentos persecutórios começam - com o álcool, escolhas erradas na vida, música alta, a parte do cérebro responsável ​​pela tomada de decisões racionais saturada pelo etanol e música techno distorcida.

Um mês depois de me formar na Universidade da Califórnia, decidi voltar para a Itália e obter meu diploma, além de ensinar inglês como segunda língua (TESL) e tentar parar de usar drogas.

Eu sei que isso soa como uma estranha combinação - dar aulas e ficar longe das drogas -, mas faz todo o sentido para mim.

Eu achava que tinha um problema com tóxicos. Pensei que poderia simplesmente tirar as substâncias da minha vida e viajar para o mais longe possível delas. Se eu fizesse isso, disse a mim mesmo, ficaria feliz. Eu seria normal. Tudo que precisava era ir para um lugar muito, muito distante.

Estava errado sobre isso também.

A dor que eu sentia não dava a mínima para minha localização geográfica. Na verdade, ela se alimentava da percepção de que eu estava tão maluco quanto antes de viajar, só que agora sem amigos e familiares para me apoiar. A mágoa cresceu exponencialmente em antecipação ao buraco que eu sabia que sentiria por dentro depois que a novidade que tinha em volta cansasse.

Eu era um ser humano arruinado por dentro, o tipo de ruína que as drogas mais gostam de curar. Elas trabalham de acordo com o que diz a prescrição, entorpecendo tudo o que está em volta. Mas agora, sem os narcóticos, eu realmente sentia toda a montanha de merda. Eu não só odiava as coisas que eu sentia - eu odiava o próprio sentimento em si.

Era psicologicamente excruciante e, para piorar a situação, eu não tinha certeza do que “a coisa” era ou de onde vinha. Eu queria tanto sair da minha própria pele que, entre as aulas, usava uma lâmina de barbear na parte interna da coxa, em um ponto alto, onde a costura da calça escondesse o sangue, na esperança de que alguma coisa - o que fosse - saísse.

E ninguém sabia.

Era o último dia do curso e minha turma decidiu sair naquela noite e comemorar. Era eu, uma menininha havaiana chamada Kristin, uma outra loira bonita de cabelos longos do Texas, cujo nome não me lembro, e um britânico cheio de pompa que tinha certeza de ser o melhor da sala e se chamava David. Toda vez que ele abria a boca eu esperava que ele nos desse algum "insight sobre a evolução da economia de mercado nas colônias do sul..."

David gostava de deixar no ar dicas para que todo mundo no nosso grupo soubesse que ele estava passando as noites com a texana no último mês, enquanto ela aparentava não ter sido comida direito pelos últimos 30 dias.

Éramos um grupo eclético.

Nos reunimos no Shot Cafe, na Via dei Pucci, pouco depois de dobrar a esquina do Duomo. Nós sentamos numa mesa do fundo, bem defronte aos banheiros, abaixo de uma televisão que se alternava entre jogos de futebol e reapresentações de Baywatch.

“Mais drinks?”, perguntou David, erguendo-se. Ele estava bem no início dos seus 20 anos — a mesma idade que o resto de nós — mas de alguma forma tinha somas intermináveis de dinheiro, provavelmente a razão pela qual o aturávamos.

“Claro”, eu disse, cabisbaixo e no tom derrotado de um homem que sacrifica a dignidade ao suportar má companhia em troca de álcool, “eu aceito mais uma cerveja”.

Assim que David foi na direção do bar eu a vi, olhando fixamente para mim uma mesa depois da nossa. Ela era maravilhosa — absolutamente linda, uma figura que eu não conseguiria descrever. Não era nem italiana nem europeia, tampouco árabe ou asiática. Ela tinha olhos verdes e feições delicadas, cabelo negro puxado para trás, expondo uma face que parecia de porcelana e um pescoço que prometia muito à imaginação.

Nós nos encaramos fixamente e, bem na hora em que eu olhei na direção da entrada, convidando-a para sair com um aceno na direção do lado de fora, uma amiga apareceu e bloqueou meu campo visual. Esta amiga era ampla. Larga como uma porta. Seus ombros ocupavam o espaço de pelo menos duas mulheres e meia, minhas tentativas de ver por sobre ela eram frustradas pelo perímetro e largura, forçando-me a me levantar para manter o contato visual. Quando consegui restabelecer o contato visual fiz novo aceno com os olhos para que saíssemos juntos, presumindo uma comunicação que transcendesse as palavras.

Caminhando através do longo bar à minha direita, observei-a vindo atrás de mim no espelho que acompanhava a parede da esquerda na medida em que eu me espremia pelo corredor de banquetas e turistas bêbados. Do lado de fora, me virei e me inclinei contra a parede de pedra do lado da entrada. Quando a garota colocou os pés para o lado de fora ela se virou, me viu, me olhou nos olhos e me beijou na boca enquanto corria a mão direita pela parte interna da minha perna esquerda, junto do corte que eu tinha feito mais cedo.

Atirada nem começaria a descrever a garota, mas impulsivo capturava meu estado de espírito perfeitamente, colaborando para o tipo de indiscrição que apenas a juventude, a inebriação, o vazio e o exílio podem explicar com exatidão.

Quando ela afastou sua cabeça da minha, estendi minha mão, iniciando as formalidades que cabiam ao momento mais por hábito que necessidade.

Ciao, sono Jason”, eu disse, como se ela não estivesse cagando para o meu nome.

“Hallo Jason”, ela disse, pegando minha mão. “Sou a Yalda.”

“De onde você é?”, perguntei.

“Irã.”

“Irã?”, perguntei, surpreendido.

“Sim”, ela sorriu. “Irã.”

Tendo conseguido o que nenhum governo americano lograra fazer desde 1979 — restabelecer relações diplomáticas com uma iraniana— eu apenas esperava não estar violando nenhuma sanção internacional ridícula.

“De onde você é?”, ela perguntou.

“Califórnia”, eu disse, sua beleza a única coisa que deixava o péssimo inglês bonitinho.

“Oceanside?”, ela perguntou.

“Oceanside?”, eu perguntei, confuso. “Que? Não. Eu sou do Norte da Califórnia.”

“Onde é Oceanside?”, ela insistiu.

“Não”, expliquei. “Oceanside é no sul da Califórnia.”

“Oh”, disse ela, aparentando decepção.

Com sua cabeça baixa, eu não poderia dizer se Yalda estava pensando ou olhava para alguma coisa. Ela simplesmente encarava um ponto fixo em algum lugar entre a calçada e eu. Eu recuei e olhei para baixo, tentando descobrir para o que diabos aquela garota olhava quando ela subitamente virou para mim e soltou um “nós vai para seu apartamento?”.

Não tenho orgulho nem me envergonho do que saiu da minha boca em seguida.

“Sim”, eu disse, pausando tempo suficiente para permitir que a fantasia do que estava prestes a acontecer subjugasse um melhor discernimento que estava gritando para chamar atenção e sendo ignorado com vigor. “Sim, isto parece uma ideia fantástica.”

Se eu não podia usar drogas para mudar a forma como me sentia, sexo teria que ser o suficiente.

No momento em que começamos a longa caminhada até o meu apartamento na Piazza Santa Croce, a amiga dos ombros enormes surgiu pela porta do bar da mesma maneira que um jogador de futebol americano atropela o cartaz segurado pelas cheerleaders antes do jogo. Assim que nos viu, ela começou a berrar com Yalda de uma forma que parecia ser quase abusiva.

Não tenho ideia do que foi dito, mas foi uma reprimenda em farsi. Ela colocou as mãos no rosto de Yalda, apontando, batendo e apelando para que Yalda não fizesse seja o que fosse que ela estava prestes a fazer. Havia alguma coisa em jogo ali que eu não estava ciente, algo do qual eu deveria ter simplesmente fugido, ignorado, extirpado da minha vida pela raiz e dado risada depois.

Mas tinha alguma coisa acontecendo com Yalda.

Yalda deixou os braços caírem, fez um beiço de criança pequena contrariada e foi embora com a amiga do ombro largo sem dizer mais nada.

Esta deveria ter sido a última vez que vi Yalda na vida.

Mas não foi.


Uma semana depois de completar meu curso TESL comecei a fazer entrevistas de emprego por toda a península italiana. O mercado para professores em Florença estava saturado de professores, então eu decidi expandir a busca. Sul da Itália, quem sabe. Ou Norte, talvez. O mundo era minha tela em branco e eu ainda me sentia deslocado.

Eu precisava de ajuda. Mas ajuda com o quê?

Como é que se pode descrever o sentimento de não querer sentir? Como é que se explica não querer morrer, mas não ter muito entusiasmo com esta coisa de “viver” também? Como é que se racionaliza o ato de se cortar para sentir uma dor que doa apenas o bastante para não sentir mais dor? O que você pode fazer quando a única ajuda que você conhece vem na forma química, com um subproduto tóxico da autodestruição, tristeza e overdose?

Como é que você descreve a vontade de se sentir seja como for mas não como você mesmo?

Depois de dar um pulo na minha escola para pegar uma cópia do meu certificado de TESL eu comecei a caminhar para casa. Deveria ter sido uma bela caminhada. Atravessar a Piazza della Signoria, parar para um caffè, depois ir até a padaria comprar pão, ir ao açougue comprar carne. Eu tinha parado de comprar queijo, então a moça da queijaria ficava tentando me conquistar com amostras sempre que eu passava. Os odores da cidade, os carros, as pessoas. Era tudo belo e eu estava vivo. A cidade respirava e eu era parte dela.

Mas ainda não era o bastante. Nunca foi.

Eu caminhava no ritmo do álbum de estreia do 50 Cent, que assaltava o meu fone de ouvido com suas batidas. Quando me aproximei do meu apartamento vi o que parecia ser alguém esperando por um táxi. Normalmente isso não teria nenhum espaço nas recordações, mas eu cheguei perto e vi que a pessoa estava com todos os seus pertences. Duas malas e uma mochila. Apenas parada ali. Bem em frente ao meu apartamento. Esperando que eu chegasse em casa.

Yalda.

“Jason”, ela berrou, “Você chegou. Me ajuda. Por favor”.

“Pera… o quê?”, perguntei, meneando a cabeça e revirando os olhos. “Yalda, por que você está com todas as suas coisas?”

“Eu quero ir para Oceanside.”

Eu olhava para ela enquanto tentava compreender que porcaria estava acontecendo. Ela tinha duas malas cheias, vestia uma calça jeans e blusa de botões com o cabelo penteado para baixo. Seu rosto tinha sardas que eu não me lembrava que ela tivesse no bar.

“O que-que”, perguntei, ainda incrédulo. “Yalda, o que você está fazendo aqui? Do que você está falando?”

“Eu quero ir para Oceanside”, ela disse, como uma criança que faz manha por sorvete.

Eu estava perdendo a paciência. “Yalda”, tentei argumentar, olhando ela nos olhos, que pareciam de alguma forma desconectados da realidade, “eu não moro em Oceanside. De que caralho você está falando, meu Deus?”

“Por favor, eu entro, nós fala”, ela implorou.

Meus vizinhos estavam começando a se reunir em volta para acompanhar a comoção. Eu pensei que se deixasse Yalda entrar poderia tentar entender o que é que estava passando pela cabeça daquela menina. Eu não sabia o que mais poderia fazer.

“Ok”, concordei, “você pode entrar. Mas não pode ficar.”

Eu tentei fazer com que ela compreendesse o que eu havia dito mas, ao invés disso, assim que eu girei a chave na fechadura ela se acomodou sem nenhuma cerimônia no apartamento, colocando as malas no chão e indo até o sofá como se fosse a dona do pedaço.

Enquanto caminhava ela tirou os sapatos, deixando-os bem no meio do recinto. Ela então desabotoou suas calças, acocou-se e deixou que elas caíssem até os tornozelos, chutando o jeans para algum lugar entre a sala e a cozinha.

A distância em que ela chutou o jeans era, de fato, muito impressionante.

Ainda sem me olhar, ela se inclinou, baixou a calcinha até as coxas, pelos joelhos e depois tornozelos, deixando-a no chão.

Finalmente chegando até o sofá ela se sentou, desabotoou a blusa e a deixou aberta mostrando a pele nua, sem sutiã.

Ela sentou e me encarou, a cabeça levemente inclinada para baixo, sorrindo. Não era um sorriso sexy. Ou um sorriso sedutor. Ou um sorriso erótico. Era um sorriso psicótico, parecia que eu via frames de Nascido para Matar projetados na minha vista toda vez que piscava. Eu olhava da entrada do apartamento estupefato, com medo, surpreso e excitado.

Yalda estava sentada de blusa branca, toda desabotoada e de meias. Mais nada. Ela estava no sofá, abraçando seu joelho direito que estava encostado no peito, pé esquerdo no chão, dedinhos batendo em um ritmo que só ela conseguia ouvir.

Meu cérebro de 23 anos estava tão confuso.

Ali estava aquela garota linda, sexy pra burro, muito gostosa, sentada nua no meu sofá. Eu não conseguia parar de olhar para o seu corpo nu e tampouco conseguia tirar da cabeça que ela poderia ser louca o suficiente para me machucar.

A situação me deixou muito assustado. Yalda tinha me seguido, descobriu onde eu morava, arrumou todas as suas coisas dentro de duas malas e tomou a firme decisão de se mudar comigo para a cidade onde eu morava.

“Yalda”, eu disse, energicamente, “que merda é esta que você está fazendo? Vista suas roupas. Você precisa ir embora.”

“Não”, ela disse com um sorrisinho que me deixou possesso.

Nós tivemos uma daquelas trocas de olhares que você vê nos filmes de Velho Oeste no momento anterior a uma troca de tiros.

“Ok, é sério, tipo, você precisa se vestir. Você…”

“Não”, ela me interrompeu dentro da minha própria casa.

Eu olhei para ela, duro, como se tentasse atravessá-la com o olhar.

“Eu vou chamar a polícia”, ameacei.

Ela começou a rir, provocando uma ira que eu não sabia ter.

“Que porra é esta, Yalda?”, eu sussurrei enquanto catava suas roupas do chão.

Apanhei as calcinhas e jeans de Yalda e joguei nela no sofá, mas ela empurrou as roupas imediatamente com o pé direito. Yalda agora estava sentada com as pernas completamente abertas no sofá — a blusa, a pele e os pelos pubianos impecavelmente aparados— olhando diretamente para mim.

Suas ações me deixavam irado por um lado, enquanto que ficar excitado com aquilo tudo me deixava mais irritado por outro, me confundindo e demonstrando um nível de perversão que desde então eu passei a aceitar.

Pegando o meu telefone, ameacei mais uma vez ligar para a polícia. E mais uma vez ela apenas riu.

“Tá bom, que se foda”, eu disse, dando de ombros e meneando a cabeça enquanto discava para a polícia. Eu mantinha o meu telefone à mostra para que ela visse que eu estava realmente discando 112, o equivalente italiano ao 190. “Tá vendo isso? Estou realmente ligando.”

Carabinieri, pronto”, disse a voz do outro lado.

“Ciao, uhhh, Inglese?”, perguntei. Eu falava italiano, mas não queria estragar a chamada policial, então calculei que falar inglês seria a opção mais segura.

Un’attimo”, disse a voz, pedindo que eu esperasse.

“Yalda, eu não estou brincando”, eu disse, ficando cada vez mais bravo.

Ela sorriu e gargalhou mais uma vez.

Si, pronto, hello?”, disse uma voz masculina com forte sotaque.

“Sim, estou com um problema”, eu expliquei. “Meu nome é Jason e eu acho que preciso da presença de um policial.”

“Ok, qual ser o problema?”, perguntou o cara.

“Estou com uma garota na minha casa, entende”, eu continuei, “ e ela não quer ir embora.” Eu parei um pouco antes de continuar. “E ela está nua.”

Houve uma demorada pausa.

“Você ter garota nua na sua cassa”, ele disse, devagar, como se tentando compreender o telefonema, “e qual ser problema?”

O homem começou a rir ao telefone, falando alto o suficiente para que seja quem for que estava sentado perto dele pudesse ouvir também. Eu podia sentir o grupo de policiais italianos chegando mais perto do telefone e fazendo graça da situação.

“Escuta cara”, eu implorei, “esta garota não é bem certa. Estou falando sério, tem alguma coisa de errado com ela e eu preciso que ela saia da minha casa.”

Eu podia ouvir uma discussão acontecendo fora do alcance do bocal, com conversas e risadas baixas.

“Ahh si, signore, ããã mister Jay-zone, questa garota, que você ditche, não tem roupas?”

“Está correto”, eu disse enquanto Yalda olhava, sorrindo, me deixando completamente fora do sério àquelas alturas.

“E ela está sentada na sua casa?”, ele continuou.

“Está correto.”

“E, meezter Jay-zone, na verdade eu tenho muitos policiais homens que gostariam muito de estar com questo problema”, ele disse, gargalhadas emergindo do ambiente.

Agora tanto Yalda quanto o policial estavam rindo de mim.

“Deixa pra lá”, eu disse, desligando.

Yalda continuava ali, com aquele sorriso de ‘eu falei’.

Foi então que tive uma ideia.

“Ok, Yalda, desculpe”, eu disse. “Você está certa. Eu acho que podemos fazer isto. Você pode ir comigo para Oceanside.”

O seu comportamento mudou completamente.

“Sério?”, ela disse.

“Sério.”

Ela se animou, alegre e ansiosa. “Sério?”, ela repetiu, para garantir.

“Sério”, eu disse mais uma vez. “Coloque suas roupas e nós vamos jantar e conversar sobre sua ida comigo a Oceanside.”

Ela pulou, me abraçou e pegou suas roupas, caminhando para o banheiro para se vestir, afetando uma modéstia que não fazia absolutamente nenhum sentido. Enquanto ela se vestia, peguei suas malas e as coloquei do lado de fora da porta.

Quando ela saiu do banheiro, vestida, eu me posicionei no vão da porta. Durante toda aquela confusão havia me esquecido do quão bonita ela era. Quando eu abri a porta ela prosseguiu até a saída. Logo em seguida eu coloquei minha mão nas suas costas e a empurrei para o lado de fora, fechando a porta e trancando com todas as fechaduras que havia do lado de dentro. Eu podia sentir Yalda tentando abrir a porta do outro lado enquanto gritava alguma coisa em Farsi.

“Yalda”, eu implorei desde a segurança do meu lado da porta, “vá para casa. Apenas isso.”

“Jason”, ela exigia, “abra esta porta!”

“Nem fodendo”, disse a ela. “Você precisa ir embora. Vá pra casa.”

“Eu odeio ele”, ela chorou. “Meu pai. Eu odeio o meu pai.”

Sentado no chão com minhas costas apoiadas na porta eu podia sentir Yalda do outro lado na mesma posição que eu, ocasionalmente batendo a parte de trás da cabeça na madeira enquanto gritava. Eu ouvia uma mistura de choro com gritos, mexendo com algo dentro de mim que eu não gostava. Esta garota me metia medo, mas eu também me identificava com ela. De certa maneira, eu era ela.

Idiomas diferentes, culturas diferentes, religiões diferentes, educações diferentes em diferentes continentes. Nós dois estávamos machucados, os dois queriam estar em qualquer outro lugar do que onde estávamos. Queríamos ser qualquer outra pessoa mas não quem éramos.

A dor que ela sentia por dentro estava se comunicando com a dor que eu sentia por dentro e isso estava me deixando louco. Uma dor horrendamente debilitante nos conectava e saía do nada para um mundo pelo qual nenhum de nós tinha qualquer particular apreço. Nós estávamos perdidos. Ouvir os gritos do outro lado da porta me forçou a reconhecer a minha própria dor e eu comecei a odiá-la por isso.

“Meu pai”, ela continuou. “Eu não posso ir. Por favor. Eu odeio ele.”

Eu escutei Yalda gritar por horas, nossas cabeças separadas por uma única peça de madeira. Algumas vezes os sons ficavam quase inaudíveis, me deixando pensar que talvez ela tinha ido embora e superado, apenas para ouvir novamente os gritos.

Ainda sentado, abaixei minhas calças e tirei a carteira do meu jeans já meio amarrotado. Encontrando a lâmina fiz um corte profundo, lacerando o lado de dentro da minha perna até que as gotas de sangue pingaram no chão da entrada.

“Yalda, por favor”, implorei. “Apenas pare.” Colocando a cabeça entre as mãos, me ergui apenas para falar. “Por favor, Yalda, por favor,” gritei, com raiva mas suplicando. “Pare.”

“Jason”, ela gritou, “Por favor abra a porta.”

“Yalda”, respondi, “isso não vai acontecer.”

Pegando mais uma vez minha carteira eu puxei uma nota de 20 Euros e a enfiei por baixo da porta. “Pegue, tome um táxi e vá para casa.”

Eu fui para o meu quarto e fechei a porta para não ter que ouvi-la berrar ou chorar ou gritar, mas não adiantou. No silêncio os seus gritos eram mais altos do que quando estava ao lado da porta.

Eu olhava de hora em hora se Yalda ainda estava do lado de fora, com medo de sair do apartamento. Em dado momento eu coloquei uma garrafa d’água do lado de fora da janela, apenas para o caso de ela ter ficado com sede de tanto chorar. A uma da manhã, nove horas depois, ela ainda estava lá. Eu finalmente fechei meus olhos por duas horas e, quando os abri de novo às 3 horas da manhã, ela tinha sumido. A nota de 20 Euros ainda estava lá mas a água não.


“Cara, estou lhe dizendo”, expliquei para Kristin, minha colega havaiana enquanto caminhávamos pela Piazza della Republica, “foi uma loucura”.

Acontecimentos na vida de alguém que estava com as dificuldades que eu estava são sempre muito mais profundos e muito mais complexos do que o que acontece na superfície. A superfície, no entanto, é o que nós escolhemos contar aos outros.

“Eu não acredito em você”, ela disse. “Quando foi que isso aconteceu?”

“Anteontem”, disse a ela. “No dia em que nos deram os certificados de TESL.”

“Não é possível”, ela disse, meneando a cabeça. “Não é possível.”

Do nada eu fui surpreendido por um vulto do tamanho de um armário, uma coisa larga, toda comprimento e largura, me empurrando de lado e me derrubando no chão.

“Onde está Yalda?”, a coisa exigiu saber. “Onde está Yalda?”

“Pera, o que— ã?”, foi tudo o que eu pude murmurar enquanto tentava me reerguer.

“Yalda. Cadê ela?”, repetiu, me derrubando de volta no chão todas as vezes que tentava me levantar.

“Não tenho nem ideia, caralh-ela desapareceu?” Depois de me recompor, notei que ela tinha a marca de uma palma de mão no rosto. Eu ignorei a marca o tanto quanto pude até que deixei escapar, “que houve no seu rosto?”.

“O pai da Yalda me perguntou onde está ela. Eu disse que não sabia e ele me bateu”, ela disse, freneticamente. “Me deu um tapa.”

“Ele a agrediu? Ok, que caralho, cara, que porra é essa, ok, ele bateu em você? Mesmo? Ok, que merda. Então ela sumiu?”

“Sim, ela pegou tudo o que era dela e saiu. Ela disse que iria para Oceanside com você.”

“Velho, que porra de mania que vocês têm com Oceanside? Eu não moro em Oceanside!” Eu gritei alto o bastante para que as pessoas ao redor de nós notassem. “Ela foi até a minha casa dois dias atrás e eu disse a ela para ir embora.”

“Você fez sexo com ela?”, ela perguntou. “Ela é minha prima. Eu preciso saber.”

“Não, porra, não fiz, graças a Deus, não. Não. De jeito nenhum”, eu gritei, o absurdo da cena aumentava diante de Kristin, que finalmente acreditava no que eu tinha contado.

“Saber que ela virgem?”, perguntou a Prima.

“Virgem? Você está completamente lou — sabe o que mais, isso não é problema meu. Eu realmente estou cagando”, eu disse, levantando meus braços. “Isto não é problema meu porque eu não comi ela.”

“Ela disse que ia fazer sexo com você e viver em Oceanside”, disse a prima, fazendo um esforço para sustentar a história. “Eu tenta impedir mas ela não ouvir.”

Pensando mais uma vez na noite em que conheci Yalda, me dei conta sobre o que aquelas duas estavam discutindo do lado de fora quando a prima gritou com ela, implorando para ela não fazer o que fosse que ela estava planejando fazer. Subitamente, tudo se encaixou. Eu me dei conta de que ela tinha armado tudo para cima de mim, que Yalda planejara tudo, sendo a única falha na sua trama a minha recusa em fazer sexo com ela no meu apartamento dois dias antes e a chegada da sua prima na noite em que nnos conhecemos para impedir que ela fosse para a minha casa.

“Bem”, eu disse, “isso jamais aconteceu.” Olhando para cima, pensei em voz alta, para todo mundo ouvir. “Ah graças a Deus que eu não comi ela. Ah, graças a Deus.”

“Você precisa nos ajudar a encontrá-la”, implorou a prima.

“Vocêêêê…”, eu respondi, arrastando a palavra e apontando na sua direção, “só pode estar maluca. Eu não quero me envolver em mais porra nenhuma disso.”

Eu queria que Yalda sumisse da minha vida, queria encarar a situação da mesma forma que eu encarava tudo o que fosse doloroso ou traumático— fingindo que nunca tinha acontecido.

“Por favor”, ela pediu. “Por favor ajuda.”

Primeiro eu senti, depois eu ouvi, a dor na voz de Yalda do lado de fora da minha porta. Ou talvez fosse a minha própria dor. Eu não tinha mais como distinguir entre as duas.

Eu queria que todo aquele fiasco terminasse, mas também queria que Yalda tivesse o apoio de que precisava. Quem sabe se eles conseguissem endireitá-la eles poderiam também me endireitar, seja quem for que “eles” fossem.

Além disso, eu assisti bastante Dateline para saber que quando você é o último cara a ver uma mulher que está desaparecida e há sangue na sua porta as coisas tendem a feder muito rapidamente.

“O que você precisa que eu faça?”, eu perguntei, pensando no problema.

“Se você liga, ela atende”, explicou a prima, cujo nome eu nunca fiquei sabendo. “Você diz ela para encontra você. Nós vamos pega ela e dar ela ajuda.”

Eu peguei meu celular e disquei o número que a prima me cantou.

Chamou apenas uma vez. “Alou, Jason?”

“Oi Yalda, sou eu.”

“Jason!”, ela gritou.

“É, oi, é o Jason. Escuta, Yalda, podemos nos ver?”

A alegria na sua voz feriu minha alma.

“Eu, você nos ver?”

“É, só eu e você”, menti. Eu ia dizer que aquilo me mortificou, mas eu já estava morto àquela altura.

“Sim, sim, sim! Eu vai agora. Onde?”

“Me encontre na estação de trem, Binario 18.”


A estação Santa Maria Novella em Florença sempre está apinhada de gente. Os turistas chegam e se vão, empresários, estudantes, famílias e aproveitadores o tempo todo tentando passar a perna em todos.

É uma coisa linda de ver.

Na esquina da estação de trem está o indispensável McDonald’s, o lugar para onde se vai quando você está de viagem e quer comer alguma coisa familiar. Apesar das resistências, todo viajante em algum momento vai a um McDonald’s em um país vizinho por nenhum outro motivo senão o fato que sabe muito bem exatamente o gosto que o Big Mac pedido vai ter.

Convenientemente, sentar no McDonald’s me deu uma vista perfeita da Binario 18, onde eu podia ver Yalda me esperando com toda a sua bagagem. Escolhi este lugar porque era público e eu receava o que seu pai poderia fazer com ela. Ele já tinha deixado a marca de uma mão na cara da prima.

Observar Yalda esperar por mim me feriu mais do que eu tinha antecipado e saber que tudo o que eu precisava fazer para acabar com a dor estava bem ali ao lado na farmácia da estação de trem não estava tornando as coisas mais fáceis. Ela precisava de ajuda enquanto vasculhava a estação atrás de mim; eu precisava de ajuda por causa da obsessão pelas drogas que estavam ali perto. A ajuda, supostamente, estava a caminho.

A primeira pessoa a se aproximar de Yalda foi a prima. No momento em que Yalda a viu, se levantou e correu na direção oposta, bem nos braços de um outro membro da família que estava esperando por ela em um abrigo vermelho como o sangue marca Puma. Eles planejaram tudo com uma perfeição tão impressionante que me deixou pensando se já não tinham feito um sequestro antes.

O cara no abrigo Puma a segurava enquanto o resto da família chegava junto. Ao todo eram cinco: a prima, o do abrigo Puma, um irmão, o pai e um outro cara que tinha uma corrente de ouro barata e eu nem sei mesmo se era da família.

O pai começou a xingá-la, gritando, gesticulando e cagando completamente para a cena que estava promovendo na estação. Sem qualquer aviso prévio, Yalda olhou diretamente na minha direção, escondido como um covarde em um McDonald’s, com um ar confuso que implorava por salvação. Eu não tenho certeza do que eu esperava que acontecesse, ou quais eram minhas intenções, mas ver Yalda maltratada me fez rapidamente caminhar na direção do que estava acontecendo.

Disparando na minha direção, Yalda conseguiu se livrar do cara no abrigo Puma e então seu irmão a agarrou pelo cabelo, puxando-a de volta com enorme força e brutalidade. Yalda gritou de dor, um tipo diferente de dor que naquele dia no meu apartamento. Uma dor física que provocou em nós dois muita raiva do irmão, sentimento que eu via em seus olhos e sentia no meu estômago.

“Ou, cara, que merda é esta que você está fazendo, puxando ela pelo cabelo assim?”, eu gritei, marchando em sua direção. “Qual é o seu problema, cara?” Enquanto eu chegava mais próximo, ele puxou Yalda para a sua frente, esperando que isso fosse me deter. Eu o empurrei para trás e ele tropeçou nas malas que Yalda tinha feito com a mudança para Oceanside. Ele seguiu segurando Yalda enquanto caía ao chão, recusando-se a soltá-la. O pai começou a gritar comigo em Farsi enquanto a prima, que preferia não se envolver, se afastava devagar, dando a deixa e saindo. O cara do abrigo Puma me puxou para trás e eu não reagi. Reerguendo-me, me recompus e organizei os pensamentos, olhando na direção do pai e apontando diretamente para ele.

“Filho.Da.Puta.”

Para minha surpresa ele não disse nada para mim, ao invés disso falou diretamente com o irmão, que já tinha levantado de novo, ainda mantendo Yalda sob controle. Antes mesmo que o pai tivesse terminado seja o que for que estava dizendo, o irmão que mantinha Yalda nos braços, estranhamente quieta, a levou até um trem do outro lado da estação.

“Para onde ela está indo?”, perguntei à prima, que apenas olhava para baixo quieta. “Hey!”, insisti, “pra onde é que estão levando ela?”

“Eles manda ela de volta a Irã”, a prima disse.

Minha mente escureceu de ódio, uma disposição que eu acreditara ter perdido com a puberdade. “Irã? Mas que merda é essa? Irã? Você disse que ela ia ser ajudada”, eu gritei, sem dar a mínima para a multidão que se formava. “Você não disse que eles iam mandá-la de volta ao Irã!”

“Ela precisa do Islã. O ocidente não é bom para ela”, disse a prima. “Jason, isto não é problema seu. Melhor você ir embora.”

“O quê? Foda-se você e foda-se ele”, eu disse, apontando para o pai. Agora eu estava olhando bem na direção do pai de Yalda, sentindo apenas uma pequena parte do ódio por ele que ela deve ter sentido. “Você tem um problema com a sua filha então você manda ela de volta para a bosta do Irã? Que merda é esta, seu puta covarde! Ela precisa de tratamento, não de uma deportação, porra! Vocês estão loucos?”

“Irã é saudável”, disse o cara no abrigo Puma.

Eu o olhei de soslaio, com ódio. “Quem é que falou com você, ô bosta?”, eu perguntei, sem acreditar. “Saudável?” Eu questionei, com tanta raiva que cuspia naquela altura, “é tão saudável que vocês decidiram não viver mais lá? Vai se foder você também, cara, e seu abrigo de merda. Hipócrita maldito.”

Um atrás do outro, a polizia da estação de trem chegou em um trio, fazendo perguntas tanto em italiano quanto em inglês. Quando me virei para apontar onde estava Yalda, ela tinha sumido. Eu não tinha ideia em que trem eles a tinham colocado e nem mesmo se eles embarcaram em um trem.

Tudo virou silêncio enquanto toda a família me encarava com altivez.

O pai disse algo em farsi e, quando ele terminou, o homem com a corrente de ouro barata começou a traduzir:

“Morte à América”, ele explicou. “Ele diz que acha você porco por faze sexo com sua filha.”

Pausa.

“E morte à América.”

Olhando para o velho eu podia quase ver os olhos de Yalda.

“Olha, cara”, eu tentei manter a calma, “eu não fiz sexo com a sua filha”.

Mais farsi.

“Morte à América”, disse o tradutor. “Ele diz não acredita você. Ele diz que filha era virgem.”

Pausa.

“E Morte à América.”

“Ok”, eu disse, ficando irritado, “primeiro, ela ainda é virgem porque eu não toquei nela”. Quanto mais eu falava, mais alta minha voz ficava, eu comecei a me sentir uma combinação de Denzel no final de ‘Dia de Treinamento’ e Bill Clinton em uma coletiva de imprensa. “Eu não comi a sua filha”, eu disse a ele.

O tradutor hesitou, me forçando a gesticular com energia em sua direção. “Diga a ele”, exigi. “Diga a ele que eu não fodi a filha dele, e eu quero que você use exatamente estas palavras.” O pai respondeu, e o tradutor começou de novo.

“Ele diz morte à Amé-”

“Cara, quer saber?”, eu disse, interrompendo ele, “estou de saco cheio desta merda. Vão todos se foder.” Eu dei uma última olhada no pai. “E você. Você deve ser o filho da puta mais louco de todos nós, e isto não é brincadeira”, eu disse, apontando para ele, “porque sua filha é linda. Ela só precisa de um tratamento.” Eu parei enquanto a declaração ficava suspensa no ar. “Eu sei que você entende isso em inglês, seu cuzão. LIN-DA”, eu disse, articulando cara sílaba. “E você nem se dá conta disso. Você acaba de foder com a vida dela.”

Enauanto a polizia olhava, virei minhas costas para a família e fui embora. Passando pela farmácia, tomei a decisão consciente de usar uma receita que tinha para narcóticos no dia seguinte, de preferência Fentanil, porque eu queria o efeito de sentir que eu estava derretendo, e eu sabia que aquele remédio ia dar para o gasto. As drogas sempre funcionam de acordo com a prescrição, subprodutos, que se danem.

Virando à direita no McDonald’s, esperei pela minha vez na fila. Quando finalmente cheguei no caixa peguei a nota de 20 Euros que tentara dar para Yalda pegar um táxi dois dias antes. Ela tinha umas manchas de sangue por ter ficado ao lado da lâmina na minha carteira. Pedi um Big Mac e uma garrafa de água. Pedi a água porque minha garganta estava machucada de tanto que tinha gritado. E o Big Mac eu pedi porque às vezes tudo o que você quer é saber o gosto que alguma coisa vai ter.


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