Ventura


Para estas duas vidas (viver e escrever), um léxico só não é suficiente.

(João Guimarães Rosa)


Afinal de contas, e sem qualquer pretensão acadêmica, por que os homens se dedicam a escrever ficções? Por que constroem estórias com personagens irreais que paradoxalmente dão lições sobre sabedoria e ensinam a lidar com a realidade? Por que precisamos nos distanciar tanto de nós mesmos para atingirmos algumas breves epifanias, esses pequenos espasmos de verdade sobre a vida?

A literatura, como defende Ernesto Sabato em O escritor e seus fantasmas, não é passatempo nem evasão, e sim a maneira mais completa de examinar a condição humana.

Apesar de (normalmente) contextualizada em uma época cronológica, a literatura trata de temas que dizem respeito a toda a humanidade e a todas as civilizações, de todos os tempos. A literatura é, em essência, atemporal.

Grandes escritores e suas grandes obras são e sempre serão universais. João Guimarães Rosa, ao fundar uma linguagem e um estilo e acompanhar a peregrinação existencial do jagunço Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, retratou o ser humano em toda a sua extensão, com as suas vicissitudes, conflitos e paradoxos. O mesmo ocorre com Moby Dick, de Herman Melville, que narra as aventuras de Ismael, Queequeg e o Capitão Ahab em busca de uma furiosa baleia Cachalote a bordo do navio Pequod, e com O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, que acompanha as desventuras tragicômicas do Cavaleiro da Triste Figura e seu fiel escudeiro Sancho Pança.

E justamente porque examina a problemática da condição humana, a literatura já exauriu seus temas. Já se escreveu sobre tudo, mas esse tudo é inesgotável: o amor, o nascimento, as transformações do ser ao longo da existência, o tempo (passado, presente, futuro), a morte, o sofrimento, o gozo, o prazer, a felicidade, a liberdade do espírito versus o aprisionamento da carne.

Esses temas são inesgotáveis porque, sobre eles, não há respostas ou verdades definitivas. São os fantasmas da humanidade: houve grandes interrogações que atormentaram Rosa, Melville e Cervantes. Há perguntas de igual proporção que inquietam os escritores de nossa geração. Certamente haverá as que assombrarão as gerações vindouras.

O que realmente distingue e destaca esses homens e suas obras corajosas é a forma como fazem literatura. De que modo constroem um estilo, uma linguagem e uma voz sem incorrer no lugar-comum, no clichê e na mesmice. Como se alicerçam estilisticamente a um tempo, com profundidade, feito tubérculos, sem deixar de ser universais.

A linguagem é e assim existe para ser lúdica, o local perfeito para o jogo, para a criatividade. Mesmo assim, não pode ser irresponsável, pois ela é que delimita e apresenta o mundo. Transportemos essa máxima de Wittgenstein para a literatura e notemos como o estilo e a linguagem são fundamentais para que o escritor nos apresente o seu mundo e para que ele possa nos transmitir as suas perplexidades, despejar sobre nós a sua problemática e assim compartilhar a sua vida — que passa a ser nossa — em toda a plenitude.

Para Roberto Saviano, a palavra proporciona uma força superior àquela que o corpo e a vida podem conter. É fato. No fogo cruzado do desalento, da frieza e do automatismo pós-modernos, é salutar que, em meio às palavras, possamos nos redescobrir humanos.