
Notícia não é negócio
O jornalismo está em crise. Essa é a máxima que ouvimos todo dia por aí. Meios de comunicação buscam novas formas de receita, jornalistas procuram se atualizar de todos os jeitos e uma leva de programadores, designers e marketeiros já estão dentro das redações há muito tempo.
Entretanto, a reflexão que proponho aqui envolve um questionamento além: o que realmente está em crise no jornalismo?
Em um artigo não muito recente (mas extremamente atual) que li esses dias, encontrei uma profunda análise sobre as variáveis de se dizer que o jornalismo está em crise.
A primeira constatação interessante apresentada por Caio Túlio Costa (você pode encontrar o excelente artigo aqui) é de que nunca na história deste mundo a notícia foi tão consumida e desejada como hoje. A afirmação vem da boca de Raju Narisetti, vice-presidente sênior da empresa que edita o Wall Street Journal, a News Corp.
Desde que existe a imprensa, nunca houve tanta gente consumido tanto o que nós fazemos quanto hoje
Mas então, o que está errado?
Notícia não é negócio. Repito aqui o título deste texto porque é realmente isso que precisamos ter em mente. O modelo tradicional de negócios dos jornais sempre teve o foco em distribuição. Não em conteúdo.

E aqui podemos citar, inclusive, o famoso Habermas que (em Mudança Estrutural da Esfera Pública) estabelece um paralelo entre a criação das feiras de livre comércio, o surgimento da distribuição de informações e o capitalismo — a consequência dessa relação é a imprensa que vemos hoje. Notícia é igual a distribuição de informações.
… desenvolve-se, no entanto, uma ampla rede horizontal de dependências econômicas que, em princípio, não se deixam mais ordenar nas relações verticais de dependência do sistema feudal baseadas em formas de economia doméstica fechada. (…) As grandes cidades comerciais são, ao mesmo tempo, centros de troca de informações. (Página 25 do livro Mudança Estrutural da Esfera Pública, de Jürgen Habermas)
Ao longo dos séculos seguintes, então, a ampla rede de troca de informações tornou-se lucrativa. Os jornais sempre tiveram um público cativo que pagava para receber notícias em casa diariamente ou procurava a fonte de informação nas bancas de rua. Eram as únicas maneiras de saber o que estava acontecendo por aí.
Além disso, a empresa produtora de conteúdo tinha domínio em outras áreas, como a venda de espaços comerciais nas páginas e, inclusive, a impressão dos jornais. Tudo era controlado por uma única empresa.
Agora, pela primeira vez na história, os jornais têm que negociar o único produto que detêm de maneira exclusiva (isso de acordo com a credibilidade de cada um) e, de certa forma, nunca tiveram que vender: conteúdo.

Apenas conteúdo?
Sim. A distribuição e a venda de espaços publicitários não é mais dos jornais. E aqui Facebook e Google entram para complementar as ideias, já que são os maiores distribuidores e detentores de informações do mundo (e pode-se dizer, também, da história).
Quando o Google indexa o texto das páginas dos jornais no buscador, fica incomparavelmente muito mais fácil manter-se informado do que ir até a banca da esquina e comprar um exemplar recente da publicação.
A lucratividade do veículo cai e continua caindo quando o mesmo Google disponibiliza espaços para anúncios ao lado da informação que, por direito, é do jornal. No Facebook não é diferente e pode ser ainda pior, já que é possível que qualquer empresa anuncie produtos com a base de dados de usuários das páginas de jornais cadastradas por lá.
Assim podemos também falar do público, que antes era uma valiosa moeda de troca do jornal e agora pulverizou-se com a internet. Aquele assinante fiel ao jornal agora pode “assinar” todas as publicações do mundo sem sair de casa.
As discussões sobre o tema são intermináveis. Existem aqueles que acreditam que tanto Google como Facebook levam mais audiência para os conteúdos digitais dos jornais. Outros quebram a cabeça tentando encontrar formas diferentes de produzir, distribuir e vender informações. Afinal, como o Caio Túlio Costa diz no artigo:
O modelo antigo, antes da internet, relacionava pessoas e mídias numa relação de consumo. Hoje deve-se entender que o processo é diferente. Não adianta tentar mudar os meios de distribuição sem alterar significativamente a maneira de se fazer notícia.

Como alterar significativamente a maneira de fazer notícia?
Ainda não se sabe. A única coisa que dá para ter certeza é que não dá para colocar a culpa da crise nos serviços e produtos tecnológicos. Se seguirmos por esse caminho, nos tornamos mais um rosto na disputa Uber x Táxis.
A digitalização de todos e de tudo o que conhecemos deixou sim a exclusividade do jornal de lado, mas é a oportunidade perfeita para se reinventar. Existem algumas iniciativas pensando nisso.
O Coda Story é uma das primeiras que gostaria de citar aqui. A proposta tem o conceito de cobrir histórias por até um ano. Enquanto os jornais tradicionais focam no hard news, o Coda vai seguir adiante, dando continuidade e profundidade ao assunto.
Pode soar cliché para quem acompanha iniciativas de notícias por aí, mas o interessante vem agora. O Coda desenvolveu uma plataforma exclusiva para leitura de notícias, pensando em não deixar o leitor se perder em informações. Funciona como uma linha do tempo sobre a mesma história. Quando uma nova informação é apurada, ela entra na ordem cronológica.
No vídeo acima dá para ter uma noção melhor. É apenas uma das ideias que estão surgindo por aí e que começam a repensar a proposta de que os jornais devem parar de se preocupar com distribuição e reformular o conteúdo.
Ainda não é, mas notícia pode sim virar negócio.