A dama, o vagabundo, e o pão de queijo

Era uma loira tingida de cabelos cacheados, não muito alta, dentro da casa dos trinta e de uma saia jeans à altura dos joelhos. Trazia consigo um livro e um saco de padaria — daqueles de papel pardo com vários desenhozinhos de pão. De dentro saía um vapor levinho, um cheiro de casa de vó em feriado que fazia a gente encher os pulmões constantemente; era a alegria da manhã no ponto de ônibus em frente à farmácia.

Um pobre esfomeado rodeava a moça. Extremamente magro, olhos fundos, pernas frouxas, as costelas todas evidentes, todo o seu corpo implorava por um naco do que quer que estivesse dentro do saco da moça. Seus movimentos, todos friamente calculados, começavam a ganhar a simpatia de um ou outro transeunte, que chegava a ameaçar um sorriso compadecido. A moça, pressentindo o desfecho óbvio, se esquivava como podia de qualquer contato visual enquanto preservava sua preciosa gulosaria fora do alcance e da vista do vadio. Não era um esmoleiro comum: era claro que não queria dinheiro (e o que faria com moedas?); tinha fome e só.

Se esforçava por conseguir a atenção da loira — mal sabendo que já a tinha toda! — mirava seus olhos e, a cada olhadela que a moça deixava escapar, ele fazia a melhor cara de pena que conseguisse, acompanhada de um gemido. Ela permanecia firme, mesmo sob alguns olhares de reprovação: “passa! Passa que não é pro teu bico isso daqui.” — Mas ele não passava.

Depois de muito bater o pé, sacudir os braços, insultar o pedinte, e tentar convencê-lo de todos os modos a ir embora, a moça, finalmente com o coração amolecido (e o saco cheio, é claro), cedeu aos apelos do mendigo.

Surge um redondo e formidável pão-de-queijo. Ele se aproxima com uma viveza até então desconhecida, mas com o cuidado de dar a ninguém a impressão de agressividade — sabia que não hesitariam em expulsá-lo caso a moça se sentisse ameaçada (e mesmo alguns ali já lhe haviam atirado pedras). Ela solta o tão sonhado agrado no chão e ele fica, por uma fração de segundo, como quem sonha. Ensaia uma mordida pequena, cheira, tenta fazê-lo caber todo na boca, desiste. Olha um pouco, examina e o rejeita! Quem entende a fome seletiva desses pedintes? E mendigo lá sabe diferenciar gosto? Com um misto de desapontamento e súplica nos olhos, ele volta a encarar a moça, como um cliente que devolve ao garçom o prato que recebera por engano, mas não cancela o pedido.

Ela pareceu mais contrariada por não se ter livrado do miserável do que pela rejeição ou o desperdício da comida. Desistiu de enxotar o desgraçado como quem efetua um depósito em juízo; como quem finalmente cumpre o que considera ser sua parte num acordo, se sentia plenamente desobrigada. O outro, educadamente ignorado, pouco a pouco parecia desistir de receber novo agrado; foi, fuçou num saco de lixo, rodeou outras moças, voltou, cheirou o pão-de-queijo e foi embora, finalmente decidido a não matar sua fome a esse custo.

Tomei o ônibus e não vi que fim levaram a loira, o indigente ou a guloseima, mas há quem diga que ainda se pode ver, rejeitado, pelas sarjetas da rua Úrsula Paulino, o pobre pão-de-queijo que ninguém quis…