Procrastinação e Prejuízo

Hoje vou contar pra vocês um caso (de vários) em que a procrastinação me deu prejuízo. Também pode ser conhecido como:

JBL, isso tá na garantia?

Imagem meramente ilustrativa: não tenho beats ou iphone.

Algumas semanas atrás, estava eu indo pra faculdade com a pressa costumeira de quem sempre deixa pra sair de casa no último minuto antes do horário do ônibus (porque deixou pra se levantar no último minuto antes de não dar mais tempo de tomar banho (porque deixou pra ir dormir no último minuto antes de ter menos que 5 horas pra dormir (porque deixou pra estudar no último dia antes da prova (etc.))))

Bom, caminhava eu apressado em direção ao ponto de ônibus, ajeitando no pescoço os fones relativamente novos que eu tinha ganhado de presente (os melhores do mundo) com planos de ir ouvindo uma sequência maravilhosa de Hiatus Kaiyote e Jorge Drexler, quando vi, dobrando a esquina alguns metros atrás de mim, o grandioso carro verde-cinza do MOVE¹. Sim, era o ônibus que eu ia pegar e eu ainda estava a uns trinta metros do ponto.

Naquele momento a adrenalina tomou conta das minhas pernas e me vi correndo como um louco! Em vão. Quando cheguei ao ponto, o ônibus arrancava e, à revelia de meus tapas na lataria e acenos no retrovisor, o motorista seguia acelerando. Em um instante de loucura e revolta pensei, “esse motô não me conhece! Não sabe que eu nunca perdia no pega-pega… ele não faz ideia!”. E, inspirado, tanto pelas lembranças da infância quanto pelos olhares zombeteiros da galera no ponto, continuei correndo.

Corri, corri muito, e o motorista (que ainda me via pelo retrovisor) começou a se desesperar e acelerar mais. Furou um sinal amarelo! Eu, desafiado, atravessei no bonequinho piscante. Dois quarteirões à frente, estava, como uma miragem, o próximo ponto!

Ainda correndo, respirei fundo e o cheiro da pizza mais tradicional do Betânia me fez perceber que tudo acabaria bem! Sim, mais um quarteirão apenas e tudo estaria bem. Eu já via os braços acolhedores de uma dúzia dos meus companheiros desconhecidos sinalizando para o ônibus (cuja velocidade prenunciava uma janelada² memorável). Não janelou.

Cheguei ao ponto e a tempo. Pacientemente aguardei a entrada dos outros passageiros enquanto tentava me lembrar como era a sensação de ter ar nos pulmões e elaborava os vários desaforos que diria ao motorista quando recobrasse o fôlego. Todos entraram e eu fiquei por último.

Entro a passos vagarosos… degrau por degrau… o motorista, consciente do que o aguarda, se recusa a me olhar e mira o para-brisa obstinado; eu, com os olhos fitos na têmpora direita dele, vejo escorrer uma gota de suor… Uma bola de feno atravessa a Úrsula Paulino… Ok. Não teve bola de feno. Prossigamos.

Sem se virar ele arranca lentamente. Eu, suando cachoeiras e ainda recobrando o fôlego, me dirijo ainda mais lentamente à catraca, como à véspera de uma erupção de desaforos. “Bom dia!” diz alegre o trocador… Cara… por quê?… por que você tinha que sair do roteiro? Agora não dava pra colocar as verdades que eu precisava dizer ao motorista no mesmo cenário em que responderia ao cumprimento… “Bom dia!” respondi com igual sinceridade, apesar de muito desapontado com a evidente falta de profissionalismo de meu coadjuvante. Agora eu não queria mais xingar ninguém.

Sentei-me. Poderia finalmente ouvir o Choose Your Weapon inteiro até a UFMG, e ainda daria tempo pra ouvir algumas do Cara B. Mas a vida… a vida é uma caixinha de pandora. Peguei os fones e, oh, mundo tão desigual! Tudo é tão desigual! uô-uô-uô-uô… Só tinha o lado R do fone. O L provavelmente caiu durante meu sprinte.

NOTAS:
¹MOVE é o nome artístico do sistema BRT em Belo Horizonte.

²janelar; v.t. descumprir o dever de parar no ponto para a entrada de passageiros havendo plenas condições para cumpri-lo. Ex.: “Os motoristas do 6350 sempre janelam no Anel Rodoviário.”

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.