Conheça os tipos de Ecossistema em negócios.

Lorenna F Leal
Mar 1 · 5 min read

O termo ecossistema tem ganhado cada vez mais espaço no ambiente de negócios. Emprestado da biologia com o objetivo de destacar a interdependência entre os atores de negócios, o termo é utilizado em diferentes contextos: no relacionamento entre startups e grandes empresas, no contexto das plataformas, de pesquisa com universidades e empresas, etc. Na academia e na prática, o termo parece descrever diferentes conceitos e fenômenos. É preciso estar em uma plataforma para estar em um ecossistema? É preciso se relacionar com startups para estar em um ecossistema? O artigo recente de Thomas & Autio (2020) visa esclarecer essas questões e trazemos os principais pontos neste texto.

Segundo os autores, existem diferentes tipos de ecossistemas, que compartilham algumas características em comum e outras características diferenciadoras. Os ecossistemas possuem em comum as seguintes características, que exemplificaremos com o caso Android + Aplicativos:

  • Participantes heterogêneos, que atuam em diferentes papéis e podem pertencer a diferentes indústrias; Ex: os aplicativos para o sistema Android pertencem a setores como os de saúde, entretenimento, finanças, ensino, etc.
  • O resultado (output) entregue por um ecossistema é superior ao resultado que qualquer participante sozinho poderia entregar; Ex: nenhuma empresa seria capaz de gerar sozinha tantos aplicativos como a plataforma do Android oferece hoje, nem mesmo o próprio Google.
  • A interdependência entre os membros de um ecossistema não apresentam as mesmas características que a de uma cadeia de suprimentos; Ex: o sistema Android se torna mais valioso por causa dos aplicativos que são oferecidos em sua plataforma, e não consegue entregar uma proposta de valor completa sem eles; da mesma forma, os aplicativos se tornam mais valiosos por rodar na plataforma, e não conseguiriam entregar o mesmo valor sem ela; logo, existe uma co-especialização e uma interdependência entre estes atores.
  • A governança em ecossistemas não depende de mecanismos contratuais, mas reside na definição de papéis, de complementaridade, no co-alinhamento de atores por meio de uma plataforma, etc. Ex: a governança no sistema Android funciona por meio de sua plataforma e suas regras de afiliação, na qual qualquer ator pode se filiar sem nem mesmo entrar em contato com o Google.

Porém, algumas características diferenciam os ecossistemas: seu foco espacial/geográfico, que pode se tratar de cidades, regiões, países, e até em nível global; seu nível de análise, que pode tratar de empresas ou indústrias, agregando fornecedores, complementadores, plataformas, etc.; e ainda o seu resultado, que pode variar entre conhecimento, inovação, modelo de negócios (startup), etc Para Thomas & Autio (2020), existem três tipos de ecossistemas: ecossistema de inovação, ecossistema empreendedor e ecossistema de conhecimento. Conheça melhor cada um deles:

  • Ecossistema de inovação: descreve um conjunto diversificado de atores que colaboram para a entrega de uma inovação à um público definido. O resultado desse ecossistema é um produto/serviço, ou seja, uma oferta de valor. Esse tipo de ecossistema é geralmente composto por uma empresa focal, que possui uma oferta de valor central, e de seus complementares, que fornecem ofertas de valor complementares, como no exemplo do Android + Aplicativos. A governança geralmente é realizada a partir de uma plataforma ou padrões tecnológicos que funcionam como mecanismos de co-alinhamento dos atores. Nesse ecossistema, os atores podem colaborar para a geração de valor e competir entre si para a captura de valor ao mesmo tempo. Em ecossistemas de inovação, falamos por exemplo no ecossistema do iFood, do Uber, do Android, da SAP.
  • Ecossistema empreendedor: descreve comunidades regionais que facilitam a criação novos empreendimentos e startups, operando de maneira coletiva para a inovação em modelos de negócios. Os resultados desse ecossistema são empresas, negócios. Apesar da possível geração de inovações (ofertas de valor), o ecossistema em si não se organização para uma entrega de valor específica para um público definido. O compromisso do ecossistema empreendedor é com a geração de diferentes empreendimentos e startups, ou seja, diferentes ofertas de valor, que podem depender ou não de ofertas de valor complementares, como no caso de um ecossistema de inovação. O ecossistema empreendedor pode ser composto por startups, aceleradoras, espaços de coworking, mentores, espaços maker, investidores anjos, capital de risco etc., geralmente localizados em uma mesma região geográfica, dado que a proximidade entre estes atores potencializa suas interações. Em ecossistemas empreendedores, falamos por exemplo no Ecossistema empreendedor do Vale do Silício, do Brasil, do Agronegócio, de São Paulo, etc.
  • Ecossistemas de conhecimento: descreve comunidades especializadas em produção de conhecimento, especialmente baseadas em pesquisa e desenvolvimento em nível nacional, regional, ou por sistema de inovação. Os resultados desse ecossistema são tecnologias e conhecimento pré-comercialização. Nesse ecossistema, os atores aprendem de maneira coletiva, explorando novos conhecimentos e aplicações, e geralmente é composto por universidades, instituições públicas de pesquisa, empresas com fins lucrativos, etc. Em ecossistemas de conhecimento falamos, por exemplo no Ecossistema de São Carlos, do Porto Digital, etc.

Esses diferentes tipos de ecossistemas podem coexistir em proximidade, em uma mesma localidade geográfica, podem possuir atores em comum, e potencializar um ao outro. Ecossistemas de conhecimento, por exemplo, podem potencializar os ecossistemas empreendedores por meio de geração de conhecimento e tecnologias. Ecossistemas empreendedores podem potencializar ecossistemas de conhecimento atraindo investimento que podem levar as tecnologias e conhecimento pré-comercialização para o mercado, impulsionando o surgimento de startups. Ecossistemas de inovação podem surgir dentro de ecossistemas empreendedores, por exemplo, quando a oferta de valor da startup demandar ofertas de valor complementares. Porém, cada tipo de ecossistema possui características específicas e demanda esforços de gestão diferentes para atingir seu potencial. Nesse sentido, a classificação proposta por Thomas & Autio (2020) nos ajuda a melhor compreender e delimitar as fronteiras dos ecossistemas a partir dos seus resultados, facilitando a análise e formulação de estratégias específicas para tipo de ecossistema.

[Referência]

Thomas, L. D., & Autio, E. (2020). Innovation Ecosystems in Management: An Organizing Typology. In Oxford Research Encyclopedia of Business and Management..

DOI: https://doi.org/10.1093/acrefore/9780190224851.013.203

Bridge Ecosystem

Gestão de Ecossistemas de Inovação

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