A BATALHA DOS

15.000 DIAS

por Renan Antunes de Oliveira e Naira Hofmeister


O sol da manhã vai alto sobre o lago sagrado de Caracaranã. O silêncio realça a beleza agreste da reserva indígena Raposa Serra do Sol. O céu azul cobalto cobre como um manto protetor os bichos e plantas da savana nesse ponto único da linha do Equador onde o mundo se divide entre inverno e verão — e a humanidade entre brancos e índios.

De repente, uma canoa com um bando de indiozinhos da tribo macuxi chega chegando. As meninas vestem qualquer coisa, os meninos usam shorts, os pequeninos estão pelados. Todos se divertem na água super limpa, mesmo sem pranchas de surf, nem isopor com lanches. Duas garotas entrelaçam os braços em trampolim para os saltos do caçula e ele dá gargalhadas com a brincadeira.

Nos sorrisos da turma, se vê o prazer das coisas mais simples.

Foi preciso um rio de sangue de seus antepassados para que a criançada pudesse desfrutar desse momento lindo sob o sol de Roraima.

O velho cacique Orlando lutou a guerra contra os brancos pela conquista do território e sobreviveu para contar a história pelas tabas da Amazônia. Décadas atrás, Orlando parecia não estar nem aí para o sofrimento de seu povo macuxi.

Hoje, o sábio daquelas bandas tem uns 70, talvez, 72 anos — nem ele sabe direito, porque índio não tem certidão de nascimento. O cacique nasceu e até hoje vive na aldeia Uiramutã. Criou 13 filhos num casebre com paredes de barro, chão de terra batida e telhado de zinco. Ainda mora nele, onde parece se sentir tão bem como se o lugar fosse o Taj Mahal e ele o rei do universo infinito.

Em sua oca Orlando recebe uma romaria de índios da tribo macuxi, caciques de outras aldeias, jornalistas, ongueiros, burocratas de Brasília, políticos ambiciosos e emissários da Santa Sé.

Muitos lhe pedem ajuda porque ele é o pai da pátria. Todos lhe rendem respeito porque ele é o bravo líder do levante que expulsou os invasores brancos das terras de seus antepassados.

Por quase um século, os invasores criaram gado, plantaram arroz e garimparam na savana do hoje estado de Roraima, escravizando os macuxis, além dos valentes ingaricós, dos esquivos taurepangs, dos raros patamonas e dos mansos wapichanas: nem nos tempos do Brasil colonial a exploração foi tanta como no século 20.

As tribos só atinaram reagir e se aliaram para isso quando estavam quase aniquiladas, lá por 1970. Liderados pelo cacique Orlando e por um padre italiano inspirado em Che Guevara, os índios se lançaram na “Guerra do ‘Vai ou Racha’” (1969–2009) — levante que expulsou os brancos de quase 120 aldeias para criar uma nação para abrigar apenas índios das cinco tribos, forjada de um naco do território brasileiro.

O nome de batismo da jornada foi dado pelo cacique. É só a velha expressão que as pessoas dizem na hora de sair das enrascadas. O feito é que foi extraordinário: os índios venceram sem usar violência.

A história contada em letra de forma parece uma empreitada fácil.Um balanço dos índios mostra que 30 foram assassinados, 50 espancados, outros 20 sequestrados. Dezenas tiveram ranchos e roças queimados. Os brancos não sofreram baixas — levaram os dedos, mas deixaram os anéis.

As escaramuças aconteceram nos grotões de uma terra sem lei. Os dois lados disputaram cada pedaço de chão da reserva, que nem reserva era, porque durante a maior parte do conflito, ela não esteve sequer demarcada — isso só aconteceria em 1998. Sem mapas e nem escrituras, os indígenas só sabiam de ouvir falar que o chão em que pisavam era o mesmo dos ancestrais.

Os índios foram apoiados por um ramo progressista da Igreja Católica, por ONGs internacionais e por aqueles malucos nacionais que vão dos hippies aos ecochatos amantes de causas perdidas.

Os invasores tiveram a força dos militares da ditadura, de igrejas evangélicas que perderam espaço entre os índios e da galera que queria e ainda quer abrir a Amazônia à mineração.

A vitória dos silvícolas veio depois da queda da ditadura (1964–1985). A Constituição de 1988 deu aos índios o direito às terras de seus ancestrais. Mesmo assim, os não-índios dentro dela resistiram 21 anos. Em 2009, foram despejados pela Força Nacional de Segurança, por ordem do Supremo Tribunal Federal — mas isso para a história é tão cedo que o Google tem pouco do episódio.

Os índios ganharam a terra, mas também um problema insolúvel: como desfrutar dela em paz, sem atrair a cobiça dos brancos.

Índios brincam nas águas do sagrado lago Caracaranã, na Raposa. Foto: Fernando Naiberg.

Para isso, vai ser preciso uma guerra sem fim.

A reserva Raposa atrai a cobiça de gente do mundo todo por causa de sua imensa riqueza mineral.

O primeiro argumento da turma de olho grande é que é muita terra para pouco índio: 1 milhão e 600 mil hectares para apenas 20 mil pessoas. A Raposa tem área 12 vezes maior do que a cidade de São Paulo, que por sua vez abriga 20 milhões.

A cobiça dos brancos tem outra explicação mais realista. Conforme estudos do Departamento Nacional de Produção Mineral a reserva teria a segunda maior jazida de urânio do planeta, 14 vezes mais nióbio do que no resto do mundo, mais ouro do que em Serra Pelada e diamantes para coroar várias gerações da nobreza europeia.

Belo foi o voto do ministro do STF Carlos Ayres de Brito que decidiu a causa. Ele disse que “para os índios, a terra não é um bem. Para eles, a terra não é uma coisa, é um ser, é um espírito protetor. A Constituição diz que eles não podem ser removidos de suas terras,a não ser diante de uma grave calamidade. Na cabeça do índio é o seguinte: ‘Não adianta me pagar pela terra’. Ele não quer ser indenizado nem reassentado. No imaginário do índio, ele pensa:’Eu vou sair daqui, mas meus ancestrais vão ficar’. Então é uma violência para eles”.

Os interessados em tomar os minérios de sob os pés dos índios estão assanhados porque não acreditam na firmeza do artigo 231 da Constituição. Ele reconhece aos índios os direitos originários sobre as terras. Diz que compete à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os bens deles. Afirma que os índios terão o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.

Legal, né? Mas isto é no papel, que aceita tudo. A realidade é outra. Só para demarcar a Raposa foram precisos 21 anos — isto depois que a Constituição mandou entregá-la aos índios (1988). Desde então tramitam no Congresso uma proposta de emenda à Constituição e uma lei de mineração visando virar a terra indígena de cabeça pra baixo se for preciso para explorá-la.

O atual presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), mal assumiu, em fevereiro, já colocou a proposta de mudança constitucional na pauta do Parlamento, primeiro movimento da máquina que poderá transformar a Raposa numa ratazana. Para a turma que ambiciona a riqueza do subsolo, os índios ficariam em cima da terra como manda o livrinho, mas só para enfeite do pedaço.

Sabedores dos desejos dos inimigos, os índios estão se preparando para a guerra sem fim — aquela prevista pelo cacique Orlando. Como os novos desafios exigirão mais guerreiros, eles estão fazendo criancinhas: famílias com 10 para cima são comuns por lá. O próprio Orlando tem os 13 filhos e mais 56 netos. O cacique Jaci, da aldeia Maturuca, tem 19 e perdeu a conta da netalhada.


Um Ex-Escravo Risca O Chão.

Orlando conseguiu mudar o jogo de séculos em favor dos índios num dia esquecido do final da década de 1960, quando ele tinha mais ou menos 23 anos: com um graveto, fez um risco no chão da aldeia Uiramutã proibindo a entrada dos brancos.

Nada, até então, indicava que Orlando teria esse papel para sua tribo e, mais tarde, para todas as demais abrigadas na reserva de 1 milhão e 700 mil hectares.

O gesto funcionou. Os dois lados entenderam que aquele era o último reduto da indianidade. Por toda Raposa, os brancos faziam o que queriam, até o dia em que eles encontraram o limite do risco do cacique na Uiramutã. Ninguém pagou para ver qual seria a reação ante uma invasão.

Nada, até então, indicava que Orlando teria esse papel para sua tribo e, mais tarde, para todas as demais abrigadas na reserva de 1 milhão e 700 mil hectares, 12 vezes São Paulo city.

Até riscar aquele chão, Orlando tinha vivido seis anos como escravo de um comerciante. Tudo o que sabia fazer era tocar sanfona para garimpeiros e marafonas nos bordéis às margens do rio Cotingo — ainda hoje, zona de conflito, por causa do projeto de construção de uma hidrelétrica.

Analfabeto e alcoólatra na juventude, Orlando andava mulambento pelos povoados brancos que começavam a pipocar nas terras indígenas, até ser elevado a tuxaua para suceder ao pai, também alcoólatra como ele, mas num estágio mais avançado da doença.

Não há fotos dele daquele tempo. Em 2005, foi fotografado para uma reportagem do site O Eco. Aparece com a barba por fazer, enrugado, desdentado, com um boné do Flamengo, abraçado na sua inseparável sanfona Todeschini.

O Orlando que já era mandachuva vivia no mesmo barraco, na mesma aldeia, com a mesma sanfona. Ele recebia e tratava todas as pessoas do mesmo jeito, com simplicidade, cortesia e papo reto: o segredo do sucesso dele em comandar parecia ser a paciência com os interlocutores, mantendo sempre voz baixa e olhar atento.

As histórias que se contam sobre ele misturam realidade e lendas. O que se sabe com certeza é que Orlando mudou da água para o vinho — ou melhor, da cachaça para a água. Largou a bebida, fez o risco no chão, liderou o levante da indiarada e se tornou o cacique mais importante da Raposa.

O sucesso não lhe subiu ao cocar. Vive mais despojado do que o ex-presidente uruguaio José Mujica, e no seu vocabulário não existe a palavra soberba.

O tuxaua acorda todo dia antes de o sol nascer e vai dormir perto da meia-noite. Concilia a liderança das aldeias da Raposa, onde vivem 20 mil índios, com as tarefas domésticas de cultivar mandioca, criar galinhas e uma capivara — animal adotado para dar um exemplo de proteção ambiental aos netos. O bicho responde ao afeto e se comporta como um cachorrinho.

Orlando se manteve um poço de serenidade nos momentos mais dramáticos do conflito. Ele impressionou sua gente pela paciência e aos adversários pela valentia.

Por todos os relatos, o cacique sempre evitou a violência. Seu feito inédito foi vencer sem derramar o sangue dos inimigos. E maior do que o feito foi a sorte de ter escapado com vida da sanha deles.

Emblemática é a história da vez em que um fazendeiro contratou um pistoleiro para matá-lo. De alguma forma, os índios prenderam o cara e lhe tiraram o revólver. Para surpresa dos seus, Orlando mandou soltar o matador: “Ele mesmo foi devolver a arma ao fazendeiro”, conta o macuxi Osmario, que testemunhou a cena.

O tuxaua Orlando, líder do movimento que resultou na conquista da área da Raposa Serra do Sol, em frente ao casebre onde mora com a família. Foto: Fernando Naiberg.

Orlando encontrou o mandante. Estendeu-lhe a arma pelo cano, para que o homem pudesse empunhá-la pelo cabo. Diz a lenda que a arma estava carregada.

Os inimigos trocaram algumas palavras. Aí, Orlando se despediu e foi embora, virando as costas ao fazendeiro — que não teve coragem para matá-lo.


Um Quilo De Ouro Pelo Che De Batina.

Os índios das cinco etnias ocupavam as mesmas terras da União onde viveram seus ancestrais. Não estavam preparados para os enfrentamentos que aconteceriam. Em 20 anos a população não-índia do território pulara de 10.000 para 40.000, em 1970.

Essa onda de gente invadiu o pedaço sem o menor respeito pelos limites. Foi no final dos anos 60 que os índios começaram a se mexer para demarcar uma área só pra eles — a reserva Raposa que sobrou é apenas 10% do que foi o território ancestral das tribos confederadas que hoje a dividem.

Orlando percebeu na própria família que sua tribo, sua aldeia, o seu mundo macuxi e o das tribos de seus parentes estavam quase aniquilados sob o peso dos séculos de colonização: “Meu pai estava sempre bêbado, o alcoolismo era uma praga para nossa gente naquele tempo”, conta o cacique, com voz suave, em tom baixo, como se ainda sentisse a dor daqueles dias.

Ele não enxergava a big picture. Os índios não sabiam, mas estavam enfrentando a primeira grande leva de migrantes enviada pela ditadura militar para colonizar “com homens sem terra, a terra sem homens”, como disse o então presidente general Garrastazu Médici sobre o vasto, supostamente deserto e rico território de Roraima.

A Raposa era só um pontinho no mapa da ambição. Mais tarde, nos anos de 1980, as levas de brancos se quintuplicariam para 200 mil. Elas avançariam na savana com ranchos e em balsas tripuladas por ferozes garimpeiros, todos com as garras no coração da terra.

A tarefa de Orlando de liderar o levante indígena tinha um complicador no ambiente político do Brasil pós 64. Os militares queriam rasgar estradas na floresta, arrancar o minério dela e construir hidrelétricas: a causa indígena não valia nada. Os milicos também estavam dispostos a avançar na marra, na versão fardada do “vai ou racha”.

Orlando e seus guerreiros sem flechas eram encarados como um entrave ao progresso, mas não representavam uma ameaça militar. Naquela época, eram menos de 5 mil, espalhados em aldeias isoladas, em sua maioria, mulheres e crianças.

Foi quando os índios receberam uma ajudinha da Santa Sé: o padre italiano Giorgio Dal Bem, codinome Jorge.

Ele veio de Roma com a missão de fazer alguma coisa a mais pelas tribos além de pregar a Bíblia. Jorge se enfurnou na aldeia Maturuca, estudou o ramo da língua caribe falado ali — que os espanhóis tentaram calar desde que botaram os pés nas Américas — e se jogou de corpo e alma na tarefa.

Em algum momento, o padre da Maturuca conheceu o cacique da Uiramutã. Os dois formaram uma amizade instantânea inquebrantável e a aliança que os levaria à vitória. Se Orlando fosse Fidel Castro, o padre Jorge seria Che Guevara. O italiano fez o papel do estrangeiro que foi aliado, estrategista e comandante militar, tarefas bem longe daquela de levar a palavra de Deus aos nativos.

Jorge parecia um amante das causas perdidas — ninguém naqueles tempos apostaria nos índios. Não se sabe ao certo se ele escolheu ou foi escolhido para a missão. Em 1966 ou 1967, antes de fazer 30 anos, ele apareceu na aldeia e saiu pregando o cristianismo, mesmo sem ser necessário: os macuxis já eram convertidos e tementes a Deus.

Os índios inverteram os papéis e fizeram a cabeça do religioso, ao ponto de engajá-lo na causa deles. Na convivência com os macuxis, o italiano mudou sua visão do mundo. Dizia para os índios falarem seu próprio idioma, mas não a “língua do diabo” imposta pelos colonizadores.

Resumo da ópera: no auge dos conflitos, padre Jorge andava com a Bíblia na mão direita e o livrinho de guerrilhas de Che na esquerda. Era caçado pelos militares. Virou lenda. Dizem que se disfarçava de mulher para enganar os jagunços — pistoleiros que sonhavam em matá-lo por um quilo de ouro, recompensada oferecida pelos fazendeiros. A preços de hoje, a cabeça dele valeria 50 mil dólares.

O padre Jorge desapareceu da reserva lá por 1985, não sem antes ter tido um papel importante na criação e no aparelhamento do CIR, o Conselho Indígena de Roraima, a cúpula de tuxauas que comandaria a expulsão dos invasores nos anos seguintes.

Ele viveu os anos seguintes em absoluta clandestinidade. Reapareceu em 2010 para participar da festa de homologação da reserva Raposa, que teve a presença do presidente Lula — o cacique dos brancos estava apressado e o esperado papo entre Lula e Jorge não rolou.

O padre Jorge permanece sendo o único homem branco com passagem livre em qualquer maloca da Raposa, mesmo naquelas onde a Funai e o Exército precisam pedir licença aos caciques.

Os brancos devem agradecer ao padre se nenhum invasor morreu durante os anos de conflito: ele proibiu matanças, ajudando a moldar a fama de pacifista adquirida depois por Orlando.

Jorge usava passagens bíblicas para educar os insurretos. Citava empreitadas difíceis, como a de Abraão na Terra Prometida, de Gideão contra os árabes e aquela de Moisés levando judeus através do mar — imagine-se a imensa capacidade de abstração que os índios precisaram desenvolver para imaginar tudo isso.

Essa intifada ítalo-indígena é quase desconhecida nas cidades.Não se tratou de uma guerra em larga escala entre dois exércitos. Foi um conflito de baixa intensidade, quase invisível aos brasileiros, porque as escaramuças aconteceram nos grotões de uma terra sem lei. “Foi muito desigual, porque só os brancos tinham armas de fogo”, diz o atual bispo de Roraima, dom Roque Paloschi.


Dos Bordéis Para A Luta.

Em algumas noites, o tuxaua Orlando conta aos indiozinhos as heroicas jornadas do passado. O seu palco é uma cadeira de palha, ao lado do fogão a lenha, na cozinha que a família compartilha com o galinheiro — essa oca está para os macuxis como a Casa Branca para os americanos.

As crianças formam um semicírculo em torno do velhinho à espera do show. Ele empunha sua sanfona Todeschini, fecha os olhos e começa sempre com a mesma frase: “Quando eu era moço…”.

Dali em diante, ele transporta a imaginação da criançada ao cenário das escaramuças que comandou, acontecidas na savana de Roraima, nas bordas da floresta amazônica, lá na última pontinha de cima no mapa do Brasil.

Nessas horas, nenhum adulto ousa ligar a TV, que já chegou por satélite a muitas ocas. Todos na aldeia sabem que será mais do que saudosismo do vovô ou uma aula de história animada pela sanfona.

Como experiente marqueteiro da causa indígena, Orlando usa as crianças para perpetuar as tradições da tribo. Um dia, elas vão contar tudo o que ouviram nas outras ocas da Raposa, que é o que lhe interessa — os índios velhos acreditam que o mundo acaba onde começa a civilização.

Durante a contação de histórias, o cacique gosta de assustar a turma com o momento mais duro de sua vida: aos dez anos, ele foi vendido pelo pai para um comerciante branco que fora à tribo trocar bugigangas por um escravo, coisa comum naqueles tempos.

Quando percebe no ar o misto de piedade e terror, ele quebra o clima noir com uma gracinha: “Meu preço foi uma espingarda e um punhado de sal”, diz, para, em seguida, arrancar da sanfona alguma coisa bem alegre.

A história segue com a fase cacique-faxineiro. Sua rotina de escravo, sete dias por semana, era lavar roupa, cuidar da casa, dos animais e da horta, e limpar o armazém do patrão. Esse era um tal de Sodré, morto há décadas, incapaz de perceber que o menino pertencia a uma longa linhagem da nobreza macuxi — seu pai, avô e bisavô foram tuxauas.

Só aos 16 anos Orlando conseguiu a liberdade — numa aula prática de economia, convenceu o patrão que já lhe tinha dado muito lucro ao longo dos anos.

O futuro tuxaua saiu da casa de Sodré analfabeto, porque o patrão não se preocupou em ensiná-lo. E alcoólatra, de tanto servir pinga no balcão do armazém. Como nem tudo na vida é desgraça, lá aprendeu a tocar sanfona.

O cachaceiro Orlando não voltou logo à aldeia. Ficou dos 16 aos 23 rolando entre os brancos, miserável entre os pobres — mas de olhos e coração bem abertos para o sofrimento de sua gente. Por fora, parecia um típico índio, daqueles que se vê nas sarjetas das grandes cidades brasileiras, para quem muita gente joga os trocados.

Ele vai contando a história e pontuando tudo com música. A passagem de maior sucesso é aquela do tempo em que foi sanfoneiro, amigão de garimpeiros e prostitutas nos bordéis.

Orlando revive as cenas da juventude devassa com entusiasmo, balança os cotovelos, sobe o tom e sapateia no chão, arrancando risos da plateia — em geral, são 10 ou 12 crianças de cada vez, turma que se renova a cada ano.

Logo Orlando retoma a amargura: “Nos puteiros, eu tocava por cachaça. Muitas vezes acordava numa rua qualquer, depois da bebedeira da noite, sem entender o que se passava comigo. Eu era escravo não mais dos brancos, mas da bebida”.

Depois de se mostrar desse jeito deprimente às crianças, ele muda o tom para contar a grande volta por cima. O tuxaua olha nos olhos de cada um dos garotos e tenta gravar no HD mental deles a imagem de um imortal: “Foi quando o espírito do meu avô apareceu para mim!”.

A sanfona silencia. Por segundos, dá para sentir no ar a presença de um índio velho ainda vestido com tanga de palha, arco e flecha na mão e penas na cabeça — no figurino moderno, eles usam havaianas, shorts e camisetas de seus times de futebol favoritos.

Os indiozinhos, nessa hora, ficam de olhos arregalados, atentos a cada palavra do tuxaua: “Meu avô me disse para resgatar nossos parentes das garras dos garimpeiros, dos criadores de gado, dos plantadores de arroz! Ele me disse que esta terra é nossa!”.

O velho cacique fala como se fosse um jovem guerreiro outra vez: “Nossa gente lutou contra poderosos inimigos para garantir a liberdade das futuras gerações!” Exaltado, ele aponta para o solo e grita: “Esta terra é de vocês!”.

Com o passar dos anos, sua performance perde intensidade, mas ele sempre dá o máximo na hora da contação. Nela, ele narra o martírio do primo Aldo Mota, morto por fazendeiros. Depois, ele conta aquela situação em que esteve sob a mira do revólver. E fecha com a decisiva batalha de Santa Cruz, na qual brilhou e se redimiu de todos os pecados.

Orlando está pronto para o grande final, muito esperado pela criançada: “Não deixem eles voltarem às nossas terras”. Aí ele faz a sanfona chorar, fechando-a com um golpe bem forte.

Crianças na reserva indígena Raposa Serra do Sol. Foto: Fernando Naiberg.

Mensagem entregue, o casebre se enche de um poderoso silêncio.

Ele toca mais alguns números para relaxar, enquanto saboreia o efeito do papo nas cabecinhas. Esgotado, pede ajuda dos adultos para tirar a sanfona do colo e vai para o seu merecido descanso numa rede.

Quando as crianças saem, o sereno tuxaua toma uns goles de pinga, escondido da família, antes de ferrar no sono. Uma filha conta que a cachaça é um segredinho que todos sabem, mas ninguém ousa espalhar: “Quem falar mal dele, será amarrado num poste”, suprema humilhação na lei índia. Ela garante que ele bebe “apenas para dar uma relaxadinha pra pegar no sono”.


Mundo Rico E Perdido.

Por que milhares de pessoas comuns também cobiçam as terras da Raposa?

“É o ouro de aluvião, estúpido”, diriam os caboclos que já estiveram lá e viram as jazidas a céu aberto. O metal está depositado em rios e córregos, fácil de encontrar.

A Raposa produziu dez toneladas nos anos de 1990/91/92, nos arredores da aldeia Maturuca. Foi coisa mixuruca para os padrões internacionais: a mina Witwatersrand, na África do Sul, rendeu metade de todo o ouro extraído no planeta no século 20.

Nossa supermega badalada Serra Pelada, em seu apogeu, pariu apenas 30 toneladas, nos anos de 1980. O lado bom dela é que conseguiu seu recorde num tiquinho de terra, do tamanho de 6 mil campos de futebol — para usar uma medida bem brasileira.

Na Raposa, pode-se sonhar em chegar aos pés dos africanos, porque a reserva tem o tamanho de quase 2 milhões de campos — uma linha imaginária que a cercasse teria mil quilômetros. Embora seja impossível garantir que exista lá dentro algum veio como o de Witwatersrand, sonhar é de graça.

A Raposa é lindíssima para se viver. Parece um “mundo perdido”, como bem escreveu, em 1912, sir Arthur Conan Doyle, criador do Sherlock Holmes — ele era fã do “grande verde azulado”, tradução de Monte Roraima na língua taurepang.

Mundo perdido faz sentido. Os cientistas acreditam que o monte surgiu 4,5 bilhões de anos atrás, na era do Éon Hadeano — vem de Hades, inferno, em grego. A Terra era apenas uma bola de fogo.

O parque nacional do Monte Roraima fica dentro da Raposa e virou must do turismo mundial. Oferece aos fotógrafos imagens lindas dos deslumbrantes espaços abertos na savana, com nesgas de floresta tropical e grandes cachoeiras perenes.

Menino indígena caminha por encosta na reserva indígena Raposa Serra do Sol. Foto: Fernando Naiberg.

A situação atual desse paraíso é a seguinte: os índios têm o direito à posse permanente da terra de seus ancestrais. Mas tudo o que está debaixo dela só poderia/poderá-talvez-quem-sabe ser explorado com autorização do governo federal, dependendo do humor dos parlamentares. O Congresso também estuda assumir o papel do Executivo e fazer ele mesmo a distribuição dos pães, no que promete ser uma guerra de foice no escuro se a medida for aprovada.

Atualmente, a busca incessante não é mais “apenas” por ouro ou diamantes, mas pelo nióbio, mineral que dá liga ao aço usado em automóveis e aviões.

Uma pequena história mostra o potencial dele. Em 1965, quando nossa gente ainda estava preocupada em escalar o time que perderia a Copa da Inglaterra, um almirante americano ofereceu sociedade para o banqueiro e embaixador Walther Moreira Salles numa mina de nióbio em Minas Gerais — negócio top, feito nas cabeças, acima e além da massa.

A empresa mineradora do almirante já tinha os direitos daquelas jazidas. Moreira Salles comprou o controle e hoje ela produz 85% do nióbio do planeta.

Resultado: a família dos banqueiros e cineastas herdeiros de embaixador, morto em 2001, se tornou em 2013 a mais rica do Brasil, valendo alguma coisa em torno de US$ 27 bi. O nióbio deu US$ 600 mi de lucro à família só naquele ano.

Especialistas acham que a Raposa Serra do Sol teria mais nióbio do que em Minas. Dizem que a área índia pode ter até 14 vezes mais do que as reservas conhecidas no mundo. Portanto, para ser um caso de sucesso como o dos banqueiros a Raposa só precisaria de amigos na Marinha americana e no Itamaraty.

Outro negócio de futuro na Raposa é o de energia. O governo quer construir uma hidrelétrica. Ela criaria o lago de Cotingo no centro do território indígena, prometendo pagar royalties aos índios.

Para agricultura, a região ao sul da savana tem o solo ideal para arroz porque permite duas safras por ano. Durante mais de 20, a partir dos 90, arrozeiros sulistas ocuparam fazendas em área indígena com escrituras frias e ganharam fortunas — era tanto dinheiro que eles preferiram sair presos pela polícia a entregar a terra.

Os principais pontos de referência da Raposa Serra do Sol, na fronteira com a Venezuela e a Guiana.

Hoje, depois da varrida nos brancos de 2009 determinada pelo STF, a área está sob controle da mambembe polícia macuxi, uma espécie de milícia organizada pelos líderes das tribos.

Quanto ao garimpo, continua existindo. Agora, com licenças dadas por alguns caciques inescrupulosos: eles lutaram pela independência ao lado de Orlando e Jorge, e se acham no direito de puxar para suas brasas.

A burocracia indígena de licenciamento é no fio de bigode. Os índios autorizam o funcionamento de uma balsa exploradora. Os brancos chegam e armam seu equipamento, a milícia faz vista grossa. Os caciques ficam só esperando a parte deles. Se tomarem calote, fazem uma delação à Polícia Federal, tipo “os brancos invadiram nossas terras”. Quando isto acontece são premiados com o desmanche da balsa, posando como defensores da reserva e da natureza.


O Falso Eldorado Comprado Com Cachaça.

Ao contrário da crença popular, as provações dos índios de Roraima que levaram ao conflito de 40 anos não começaram quando Cabral chegou.

O Estado tinha apenas 10 mil pessoas em 1940. Em 30 anos pulou para 40 mil. Entre 1980 e 1990, para extraordinários 200 mil — um crescimento tão exponencial que, se fosse aplicado a São Paulo capital, ela teria hoje 50 milhões de habitantes.

Quanto mais gente, mais confusão — hoje se pode dizer que foi sorte os portugueses terem deixado a região abandonada por 200 anos pós Cabral.

No princípio, quem incomodou mais foram ingleses e holandeses. No século 17, eles entraram por onde hoje é a Venezuela em busca da mítica Eldorado, a cidade de ouro sonhada pelos espanhóis.

Uns diziam que ela estaria num deserto do México, outros que era na moderna Colômbia, mas muita gente acreditava que era num lago na atual Raposa.

Sir Walter Raleigh, o aventureiro inglês protestante que deixou seu nome na história dos Estados Unidos e a cabeça num cadafalso católico, morreu em 1618 convencido de que o Eldorado estaria em Roraima, perto de onde é a capital Boa Vista, esta erguida em terra dos ancestrais do nosso bom e velho Orlando.

Na época Raleigh tentou em vão achar a cidade lá pelos lados do Monte Roraima, território da reserva guardado pela tribo ingaricó desde tempos imemoriais.

O inglês procurava por um lago de uma lenda contada por um cacique para um invasor espanhol em 1500 e pico, existente em mapas muito antigos. Um simples GPS mostraria que tal lago nunca existiu — e nem tente garimpar no sagrado Caracaranã porque ele já foi analisado, filtrado e bebido: ali não tem ouro.

Quando ingleses e holandeses fracassaram com o Eldorado, tentaram escravizar os índios para não perder a viagem — pegaram alguns aqui e ali, mataram muitos, mas saíram de mãos abanando.

No século 18 os portugueses expulsaram os concorrentes europeus e tentaram fazer o serviço sozinhos, concentrados apenas na tentativa de escravizar a indiarada.

Numa ideia atribuída ao governador Manuel Gama Lobo, os portugas espalharam gado e cavalos na savana. Na mente dele a medida serviria para consolidar o poder de Portugal — pois não é que funcionou?

No século 19 vastas criações de gado nacionalizadas pastavam na savana. Os animais eram embarcados no rio Branco e despachados para os matadouros de Manaus, gerando riqueza para… os fazendeiros, claro.

Os macuxis se tornaram essenciais às fazendas porque eram os peões do gado. Alguns patrões os disputavam tanto que os marcavam com ferro em brasa, com a mesma marca dos animais que eles cuidavam. Os ingênuos não se acreditavam escravos, se achavam apenas empregados.

Na virada do século 20 as cinco tribos viviam em ocas de barro, telhado de palha e chão de terra batida, pobres de marré marré marré, mesmo sendo donas de tudo — pelo material usado na casa de Orlando na virada do século 21 se pode ver que os índios só evoluíram da palha para o zinco.

Indígenas a cavalo na reserva indígena. Foto: Fernando Naiberg.

As coisas começaram a mudar para pior quando um sapateiro pernambucano chamado Severino Mineiro apareceu na área que seria a reserva, em 1911. Ele acampou numas quebradas que viriam a se tornar Uiramutã, a cidade, ao lado da aldeia do mesmo nome, a liderada por Orlando.

Na década de 30, Severino achou ouro. Como naquele tempo não tinha internet, as coisas eram mais lentas — mas então começou a migração de nordestinos para as terras macuxis, que durou toda a década de 40.

Os não-índios fugidos da seca do Nordeste chegavam no pedaço sem um pingo das preocupações de hoje com terra indígena. Era chegar e acampar. Para agradar os índios eles traziam bugigangas, o muito requisitado sal e bastante cachaça. Mas os nordestinos não podem ser culpados por encharcar a Raposa, eles apenas sabiam do fraco dos tuxauas pelo álcool.

Em 1970 as tribos da savana estavam perto do aniquilamento depois dos séculos de entreveros com os brancos. Da população de Roraima de 40 mil pessoas, estimava-se só 8% de indígenas, conforme chutes encontráveis na internet — não existe nenhum estudo confiável sobre o tema.

Não importa quem diga: o certo é que no ano em que o capitão Carlos Alberto Torres ergueu a Jules Rimet no México os índios da Raposa Serra do Sol já estavam em minoria em sua própria terra.

Como as coisas sempre podem piorar, o Brasil estava no auge ditadura militar. Ela não respeitava os direitos humanos, que dirá os dos índios. Entre suas tarefas estava justamente cuidar deles, cidadãos de segunda classe, coisa que ela negligenciou.

Não foi só negligência. Os militares cometeram barbaridades. A maior delas foi agora documentada pela Comissão da Verdade: eles mataram cerca de 2 mil waimiri-atroaris, vizinhos dos macuxis.

O objetivo era construir rodovias e hidrelétricas nas terras deles. Como não conseguiram fazê-los entender a importância do progresso, pá pum, meteram bala. A história escrita pelos vencedores vai dar mil explicações, mas a conta é sempre a mesma: tiro dado, índio deitado.

Na Raposa, comprando tuxauas com cachaça, bugigangas e ouro, os brancos controlavam todas as atividades. Os cartórios do território emitiam escrituras de terras aos invasores. O pessoal negociava a papelada fria na maior cara dura.

Os índios viviam dependentes das três cidades brancas erguidas dentro do que seria a futura reserva, Pacaraima, Normandia e Uiramutã. Nesta, um riacho separava a parte branca da índia. Em todas, os índios circulavam livres, mas moravam segregados.

Até a descoberta do ouro, que mudou o eixo econômico do mundo das pastagens para as barrancas dos rios, os brancos e os não-índios encastelados em suas fazendas proviam roupas velhas em troca de frutas e trabalho escravo — os cordiais brasileiros exploravam os índios e pareciam estar fazendo um favor pra eles.

O sistema funcionou por décadas. As cantinas das fazendas ofereciam sal, fósforos, bolachas, cachaça, tudo a preços inflados. Para levar os produtos os índios precisavam pagar com trabalho, ouro ou diamantes — sistema que durou até uma iniciativa da Igreja Católica de prover ela mesma os bens, numa ação daquele padre italiano, enfim livrando os índios da exploração.

Tome-se ainda o exemplo dos macuxis, mais próximos dos brancos do que ingaricós e patamonas. Eles adoravam vestir camisas, calças e sapatos. Aí o pessoal fazia gato e sapato deles antes de dar-lhes o que queriam.

De vez em quando uma vaca das fazendas invadia as roças dos índios. Se era morta e comida, os fazendeiros ficavam furiosos.

Nelino Galé é entusiasta de táticas de guerra para os mais jovens. Foto: Fernando Naiberg.

A polícia tomava o lado do dono da vaca e ameaçava quem comeu carne com cadeia ou indenização. A multa era cobrada em serviços, ouro ou diamantes. Quem quer que na família tenha comido um bife acabava tendo que trabalhar de graça pro fazendeiro — e a escravidão não acabava nunca.


Juridiquês Nas Ocas.

Quando Orlando e o padre Jorge se encontraram, em 1967 ou 68, o índio não parecia ter a menor ideia do que era política. Como as tribos eram tuteladas com mão de ferro por burocratas nos gabinetes de Brasília, Orlando foi à capital tentar obter ajuda para os seus: “Ih, eles disseram que não poderiam fazer nada por nós”, conta o cacique.

Os macuxis não reagiram às invasões brancas até porque estavam bem acostumados com a presença deles por séculos — exceto pelos ingaricós, que continuavam empoleirados na montanha. Além disso, sobrava terra para gado, brancos e índios.

O pessoal daquele tempo não cercava as fazendas. As aldeias passaram a ter arame farpado depois dos anos 1980, ideia dos caciques para evitar que os animais comessem suas lavouras.

Para agradar aos donos da terra, os brancos chegaram com as bugigangas para trocar. Eram amistosos e sempre pediam licença para soltar suas vaquinhas. Se o pai de Orlando trocou o filho por uma espingarda, deixar as vacas pastarem parecia um negócio melhor ainda. Ai os brancos se esparramaram: “Eles diziam que onde pisava o boi o índio não poderia mais pisar”, lembra o cacique.

Os brancos passaram então a pedir licença também para recolher ouro. Com o tempo, os tuxauas brigavam entre si para servir melhor aos brancos, em troca de uma pequena parte do ouro.

Não adiantou agradá-los. Fazendeiros e garimpeiros foram se tornando cada vez mais e mais exigentes e sacanas. Uma de suas espertezas favoritas era dar uma grande festa e convidar todo mundo, mas barrando os índios na porta. Eles só ganhavam cachaça se as índias entrassem sozinhas — estas farras foram sempre criticadas pelos missionários da diocese de Roraima.

O tuxaua Jaci, da aldeia Maturuca, onde havia a maior concentração de minerais e pedras nobres, se tornou um milionário na primeira hora. Caciques de outras aldeias que o visitaram viram sacos de ouro e diamantes na casa dele — isto antes da guerra pela libertação.

A tuxauada pirou.

A esta altura o índio queria camionetes 4x4, gerador de energia, armas de todos os calibres para caçar antas e pacus — se interessava por tudo de moderno, menos pela terra que o pariu.

Ver Jaci endinheirado provocou uma corrida ao ouro dentro da corrida do ouro. Os índios começaram a servir aos brancos nas barrancas dos rios, retomando o ciclo centenário de escravidão e mão de obra barata.

O respeito que os índios tinham pela voz do chefe sumiu. Se um tuxaua dissesse a um jovem para não trabalhar pros brancos receberia um desaforo.

“Você não tem pra me dar o que eles me dão”, era uma resposta comum naquele tempo, em uma demonstração incomum de desrespeito aos mais velhos.

Assim como a Terra é ¾ água, garimpo é metade ambição e metade caninha. E o próprio cacique Jaci conta que em seu tempo por lá tomava álcool destilado, daquele usado para limpeza, misturado com um pouco de água: “É coisa para os fortes”, gaba-se.

Enquanto os índios viviam a febre do ouro embalados na cachaça, as índias aguentavam o rojão em casa.

Seus maridos que buscavam as pedras nos rios acabavam sempre endividados com o patrão da mina e quase nunca traziam nada pra casa — muitos iam nas cantinas da versão garimpo apenas por cachaça. Paraty e 51 eram as marcas favoritas no pedaço.

As índias se dividiam entre as que ficavam parindo, cuidando dos filhos e aguentando maridos bebuns nas ocas e aquelas que iam para a zona do meretrício.

Por todos os relatos, foram as primeiras que começaram a cobrar dos tuxauas uma providência contra o fim do mundo.

Foi aí que, do Vaticano, Tupã enviou aquele seu soldado de codinome Jorge — não se sabe se a Santa Sé esperava tal resultado, mas o certo é que ele ajudou a acabar com a farra.

Jorge foi um avanço e tanto. A Igreja Católica mantinha padres beneditinos alemães no trabalho missionário entre os índios da região desde o final do século 19. O alemão Theodor Koch-Grünberg (1872–1924) registrou tudo num livro com fotos que é obrigatório para interessados em saber como aquele povo ainda vivia relativamente bem, apesar dos entreveros com a brancalhada.

Os padres fizeram um belo trabalho em ensinar os índios a cantarem “Noite Feliz” em alemão. O resultado parecia bom, mas alguma coisa irritou os macuxis. Ninguém abre a boca oficialmente nem para confirmar nem para negar, mas até hoje se fala nas ocas que eles mataram um dos beneditinos — se as crianças contam, sinal que ouviram de um velho. A informação não pode ser confirmada porque a ordem religiosa nunca deixou pesquisadores acessaram seus arquivos.

O pesquisador alemão Theodor Koch-Grünberg entrevista um macuxi, no fim do século 19.

Na década de 50 os padres alemães desistiram da tarefa de ensinar cantorias e passaram o plantel de tribos para uma congregação italiana chamada Consolata, praticante de um tipo de catolicismo liberal. Há várias teses sociológicas pra explicar sua diferença das demais — para entendê-las não deixe de googlar o trabalho de Melvina Araújo.

No básico, os padres da Consolata são do tipo que ensina o índio a pescar. Eles cortaram todo tipo de assistencialismo, exceto na educação: os padres insistiam em alfabetizar os pequenos e mandar uma geração inteira às universidades. Foi duro convencer os tuxauas da importância das letras, mas no fim a ideia vingou. Hoje, todos os que estão no CIR possuem formação superior.

O mundo deu mais algumas voltas e o Concílio Vaticano II (1962–1965) fez a Igreja guinar de leve à esquerda. Na mesma hora o jovem noviço Giorgio (nosso Jorge, casualmente da tal Consolata) se voluntariou para virar pescador com os índios da Raposa Serra do Sol e pouco depois embarcou pro Brasil.

A diocese de Roraima, já nos novos tempos, mudou a tradição de mandar seus padres se hospedarem com conforto na casa de fazendeiros e dali benzer índios e caboclos. Os benzidos se sentiam gratos aos brancos por terem um homem de Deus para as bênçãos — era mais ou menos como as cantinas de dominação, desta vez pela fé.

Padre Jorge foi direto para a aldeia do Maturuca. Quando as escaramuças começaram, no início dos anos 70, os militares da ditadura se referiam a esta aldeia como “bunker” da resistência e a classificaram de “vermelha”.

Àquela altura o bispo consolatiano dom Servilio Conti, manda-chuva clerical de Roraima, já era amado e idolatrado por andar descalço entre eles — os índios, não os militares. O homem levava notícias do sofrimento crescente dos macuxis e seus parentes à Santa Sé.

Dom Servílio e Jorge perceberam que a maior missão religiosa não seria catequizar os tuxauas: o objetivo número um teria que ser livrar os caras da cachaça.

O número dois seria fazê-los entender uma coisa chamada direito consuetudinário. É aquele emanado das tradições. Com base nele os índios deveriam entender que a terra de seus ancestrais era deles, sem necessidade de papel — quase o que teria dito o avô de Orlando no tal sonho.

Mais ou menos na mesma época Che definiu que “a questão indígena na América Latina é a questão da terra”. O padre Jorge acreditava em Deus e no bispo, mas passou a pregar o evangelho segundo o guerrilheiro argentino: o foco tem de ser a tomada da terra.

Enquanto isso, lá na distante terra do Uiramutã, as coisas iam de mal a pior sob a liderança do pai de Orlando. Alcoólatra em último grau, o homem não conseguia mais comandar seu povo, nem honrar os acordos que fizera com os garimpeiros que usavam o lugar como refúgio, bordel e entreposto de ouro.

Mesmo com a conquista do território reconhecida pela Justiça, jovens índios seguem sendo preparados para reagir a mudanças. Foto: Fernando Naiberg.

Os brancos decidiram (lá por 1966) que estava na hora de conseguir outro tuxaua confiável para aquela tribo– uma das poucas tradições mantidas pela comunidade foi a de eleger o cacique pelo voto. Nada sofisticado, a eleição era tipo levante a mão quem apoia e depois só contar.

“Tudo o que eles queriam era um tuxaua que entregasse a comunidade para eles continuarem a exploração”, lembra Orlando. “Foram os próprios garimpeiros que me pediram para disputar a eleição”.

O pessoal achou que o jovem sanfoneiro deles, cachaceiro e meio desligado da aldeia seria o cara ideal para o cargo, na clássica definição política do italiano Tomasi de Lampedusa: mudar para deixar tudo como estava.

Orlando fez uma rápida campanha eleitoral entre os seus se comprometendo a largar a bebida e limpar a aldeia. Ganhou de barbada.

A vitória dele na insignificante eleição para o tuxauado da Uiramutã mudaria para sempre a história dos macuxis.

Para surpresa dos brancos, assim que tomou posse Orlando virou o fio. Fez aquele risco no chão e separou índios e brancos. E não apenas parou de beber como também decretou sua lei seca particular, fechando bares. Suprema audácia: nenhum índio deveria mais trabalhar no garimpo.

Os brancos se sentiram traídos. Tentaram chantagear o novo cacique: se Orlando mantivesse a linha dura, cobrariam todas as dívidas dos indígenas que estavam abertas em suas cantinas. Ele achou justo e pagou cada centavo com trabalhos comunitários, ouro e diamantes — uma escravidão que finalmente os libertou para sempre.

Mais ou menos na mesma época, na aldeia Maturuca, o líder Lauro também tomava todas. O sobrinho dele era o jovem Jaci, o mesmo que por anos vinha enricando no garimpo, que então se alinhou com Orlando na política de brancos fora e copos quebrados. Jaci disputou a eleição contra o tio e venceu por um voto.

O padre Jorge viu Orlando e Jaci como peças importantes para o levante que ele sonhava e se aproximou deles e do um terceiro cacique, pai de João Batista, um menino que hoje é tuxaua. Os dois primeiros se consagrariam como pais da pátria e heróis da independência, João Batista como sucessor nos tempos de paz.

Jaci ainda deu umas derrapadas. Teve seus anos de garimpo e cachaça mesmo no exercício do tuxauato, o que o padre Jorge considerava pecado — a esta altura tão íntimo da indiarada que dava cascudos nos bêbados.

Além de ser o considerado “bunker vermelho”, Maturuca foi transformada pelo padre e pelos caciques numa clínica de rehab na luta contra a cachaça.

O tuxaua Jaci lembra de um dos primeiros debates sobre alcoolismo na comunidade, que durou o dia inteiro: “Alguns índios faziam piada, pedindo àqueles que não bebiam mais para doarem suas garrafas de pinga”.

Jaci diminuiu o copo, mas só parou de beber mesmo quase 20 anos depois, lá pela metade da guerra, preocupado em dar exemplo para seus 19 filhos. É, 19. A primeira mulher morreu de malária no 9º, ele casou de novo com a ingaricó Eneida e teve mais 10.

Depois que largou o copo, durante um tour de marketing pela Europa para promover a causa, Jaci enfrentou e venceu a prova definitiva de sobriedade: um grupo de apoiadores ingleses o levou para conhecer uma cervejaria. Lá estava o ex-bêbado na frente daqueles canecos enormes: “Consegui resistir”, conta, com um sorriso constrangido.

Tudo o que ele bebe hoje é o caxiri, um fermentado de mandioca feito pelas mulheres, muito leve, parece um espumante. O tchã pra fermentar é ser mastigado por índias jovens, e entre elas apenas aquelas com bons dentes, que cospem o caxiri num balde. O cacique bebe e vai pra rede.


A Tática Do Gado Manco.

Da Uiramutã purificada por Orlando a nova ordem começou a se espalhar pelas aldeias. O primeiro índio encontrado bêbado, um tal de Naldo, foi amarrado num poste e exibido na aldeia. Parece pouco, mas a amarração por alguma razão só deles deixa o sujeito tão avexado que muitas vezes se muda de aldeia.

Depois de eleitos, Orlando e Jaci nunca mais deram licenças para garimpagem, nem para plantação de arroz, forçando os brancos ao seu redor a viver na ilegalidade — pelo menos, frente ao direito consuetudinário do padre Jorge.

Lá pela metade da década de 70 os dois estavam entre 17 caciques analfabetos que se reuniriam com o padre italiano na Vila Surumu para elaborar os planos da guerra que reclamaria do Brasil aquele naco de terra no norte do país.

Naquelas reuniões com o padre, os índios puderam perceber pelos relatos de cada aldeia que seus problemas eram comuns.

“Os brancos nos impuseram suas leis”, conta o tuxaua Marcelino, então integrante do CIR. “Num dia eles pediam licença para cercar um pedaço, no outro eles botavam cercas e no terceiro já vinham dizendo ‘vocês estão invadindo minha terra’, aquelas mesmas que os deixamos cercar”!

Eles perceberam que enfrentavam o aniquilamento e a tomada final de suas terras, agora totalmente ocupadas por ranchos de gado, fazendas de arroz e garimpos.

Combinadas, as cinco tribos tinham menos de 5 mil pessoas (ou 3 mil, dependendo de quem contava e do argumento a ser provado), cada uma com seu dialeto e falando pouco português.

O cenário político para o levante indígena era ameaçador. A primeira reunião foi acompanhada pela Polícia Federal — criada em 1967, é a mesma de hoje, não na versão que caça corruptos, mas a antiga, que servia aos militares.

Os líderes e o padre foram marcados como subversivos. Ainda assim eles tomaram uma posição de enfrentamento. Açodados, os macuxis queriam sair de arco e flecha para cima do maior exército da América Latina.

As paredes são o que sobrou da igreja onde ocorreu a primeira assembleia indígena. Foto: Fernando Naiberg.

Foi o padre quem acalmou os ânimos. Ele conseguiu disciplinar o pessoal. Primeiro, ensinou aos nativos aquele papo de oferecer a outra face e a virtude cristã da resignação ante o sofrimento. Ao mesmo tempo lecionou as táticas de guerrilha daquele livrinho de Che Guevara.

O plano que os índios dizem que o padre bolou foi começar uma longa guerra contra o gado, para atingir o bolso dos fazendeiros. Orlando é um dos que conta a tática: um único golpe de facão no garrão inutiliza o animal. Então, à noite, os índios saiam a caçar os bois na inóspita savana. Aleijavam dezenas deles de cada vez, que logo morreriam e ficavam pros urubus.

Os brancos montavam patrulhas para vigiar os bichos e tentaram proibir os índios de andarem pelas grandes veredas da savana.

O padre retomou a catequese com a Bíblia, mas só lia as passagens belicosas. Como militante em tempo integral da causa indígena passou quase duas décadas rolando incógnito aos olhares dos brancos, de aldeia em aldeia, desde a Raposa, no extremo ocidental da reserva, até a Serra do Sol, no oriente, fazendo a cabeça dos caciques para se unirem — e atacar o gado.

Para mostrar a importância da união ele usava um discurso emprestado do ditador italiano Benito Mussolini: o feixe de ramos que deu nome ao fascismo. Mostrava um graveto dizendo que era Jaci. Pedia para os índios quebrarem, fácil. Juntava um feixe de gravetos simbolizando todos os tuxauas. Ficava impossível — era só para mostrar como a união faz a força.

Nas aulas de direito consuetudinário o religioso explicou que eles não precisavam de papéis para provar que as terras eram suas, bastaria a palavra dos mais velhos.

Os tuxauas unidos então percorreram as aldeias mais distantes para falar com os mais velhos entre os velhos, para desenhar o mapa do que seria sua reserva — só desistiram de incluir nos seus limites a capital do estado, Boa Vista, porque não eram bobos para não perceber que esta tarefa exigiria a presença de Deus na terra, não seu padreco.

“A questão toda sempre foi a terra”, lembra Jaci, que depois de assumir papel importante no movimento, se livrou da ambição do garimpo: “Entendi o mal que nos causava”, reconhece, com humildade.

“Eles brancos nos diziam que o papel tinha mais valor que o trabalho e a gente acreditava”, completa o tuxaua João Batista, outro protagonista desse épico desconhecido, hoje muito safo ao falar de economia.

O padre também incentivou os indígenas a criarem cooperativas e cantinas nas aldeias para reduzir a dependência das cidades, das cantinas das fazendas e dos marreteiros, mercadores itinerantes de produtos industrializados a preços inflados às aldeias — esta foi aquela ajudinha extra da Igreja Católica.

Jorge percorreu todas as malocas por quase cinco anos até estar pronto o CIR (Conselho Indígena de Roraima), hoje braço político dos índios. Seus membros são a face visível ante a sociedade branca. Têm conexões com as ONGs internacionais, com Brasília e todo apoio do CIMI (o Conselho Indigenista Missionário da CNBB).

Eles buscaram doações internacionais e alguns diamantes no garimpo. Com o dinheiro equiparam as aldeias com energia, rádio, internet, carrões off-road e iPads pra criançada — padre Jorge até levou água encanada às ocas de Maturuca.

Criança macuxi na Raposa Serra do Sol. Foto: Fernando Naiberg

Médicos e dentistas do mundo todo visitam as aldeias e já não se encontram mais aqueles indiozinhos de dentes podres com a frequência com que se viam antes — nas aldeias não existem crianças abandonadas.


A Batalha De Santa Cruz.

Lá atrás, quando as coisas começaram a esquentar, os militares logo rotularam o padre como guerrilheiro internacional: “Agitador”. “Comunista”. “Subversivo”, bem na retórica dos anos de chumbo.

Pelo que aconteceu nos anos seguintes é um mistério saber como ele escapou de ser sequestrado e ‘desaparecido’. Se escapou ileso, não foi sem humilhação. A diocese registrou em seus anais que “…o padre Jorge foi parado por três militares que o insultaram: bosta, veado, maconheiro, pedófilo, comedor de menininhas nas aldeias”.

Quanto mais o padre organizava os índios, mais o difamavam: “É um estrangeiro que veio se aproveitar do Brasil”. Das aldeias nunca saiu uma só palavra em desabono dele. Os tuxauas descartam a hipótese de pedófilo e comedor: “Era pura intriga, se isso tivesse acontecido nós saberíamos, aqui esses segredos não existem”, diz um jovem cacique da Maturuca.

Quando os brancos começaram a notar que os índios tinham mudado de postura e estavam desafiadores, organizaram uma milícia com jagunços. Eles atacavam aldeias, botavam índias e crianças pra correr, queimavam as roças — e caçavam o padre, cuja cabeça manteve sempre o preço estável de 1kg de ouro.

Um coronel reformado do Exército, que participou da repressão à intifada conta que eles sabiam táticas de guerrilhas “porque vinham em formação, com mulheres e crianças na frente, a gente nunca poderia atirar sem fazer um monte de mártires”.

O momento de maior tensão foi em 1987, quando os índios atacaram a fazenda Santa Cruz, cujas terras nada mais eram do que a antiga aldeia do mesmo nome, transformada em fazenda. É o episódio conhecido e supervalorizado nas ocas como “Batalha de Santa Cruz”.

Um dos estrategistas foi o cacique João Batista — misto de pajé e missionário que serviu ao Exército na adolescência. Ele deixou o quartel por influência do padre depois de convencido com um argumento decisivo: “Você quer fazer parte dos opressores do teu povo”?

Visto pelo retrovisor, o episódio foi uma banalidade. Os índios só quebraram o cadeado da porteira da fazenda e botaram para correr três jagunços. Horrorizados com tanta audácia os donos chamaram a polícia, que mandou um destacamento armado à maloca, não na Santa Cruz, mas na Uiramutã de Orlando — sabiam que ele era o cacique de todos os caciques.

Parecia que ia dar confronto. O tuxaua disse que naquela hora resolveu adotar uma postura tipo Gandhi, de não reagir à violência — sempre seguindo orientação do padre Jorge.

Não precisou se imolar. Tudo terminou bem quando a polícia entrou na maloca e acabou cercada por 120 guerreiros — desarmados, mas sem sorrisos nos rostos.

Um militar perguntou, do alto da carroceria da camionete: “Quem é o tuxaua responsável?”

Era o Orlando, mas ninguém disse, embora ele estivesse na frente do pelotão.

A segunda pergunta foi em tom exaltado: “Quem derrubou a cerca”?

Silêncio geral.

“Tá bom” — aí o militar olhou a cara feia do pessoal, recuou e foi embora.

Os militares voltaram mais tarde, com um destacamento maior. Prenderam 19 pessoas e impuseram pesadas multas à aldeia como indenização pelos estragos.

Neste ponto da narrativa João Batista e Orlando divergem, traídos pela memória. Orlando não lembra exatamente como foi, mas sabe o resultado: “Dali pra frente a gente esteve sempre em grupo, organizados, conquistando espaços. Tomamos o que era nosso”.

Ele continua: “A gente precisava mudar o que estava acontecendo e aquela foi nossa primeira tentativa. Quando se chegava num lugar, tinha cerca, se ia pra outro, tinha gado. Muitas vezes eles marcavam o gado dos índios como sendo deles. Se a gente reclamasse ficavam furiosos e diziam ‘tá me chamando de ladrão’, se fazendo de ofendidos. Depois que eles viram o que fizemos na Santa Cruz começaram a ceder”.

Jovem índio disputa cabo de guerra na aldeia do Maturuca. Foto: Fernando Naiberg.

Isso não significa que a violência tenha parado. As histórias se repetem por toda a aldeia, contada por gente que sofreu na pele as consequências dos 15.000 dias de guerra. Índios como Carlos Clementino, Lavínia Salomão, a cacica dona Ozeti, Leônidas Peres e o mártir Aldo Mota.

O pai de Clementino fugiu para a Guiana depois de espancado por um fazendeiro, na aldeia Willimon, e nunca mais voltou. Lavínia adotou um filho num dos acampamentos de resistência, garoto que resultou ruim da cabeça e deu pra beber demais.

Dona Ozeti e as mulheres da tribo enfrentavam a polícia enquanto seus maridos eram obrigados a se esconder na mata — infundindo terror eterno às crianças que viram suas mães à mercê de milicos e jagunços. Peres trabalhou anos ajudando o pai numa fazendo em troca de um par de sapatos.

Aldo Mota foi assassinado pelos fazendeiros Chico Tripa e João do Boi. Neste caso deu para pegar os autores em flagrante. Um inquérito indiciou os dois pelo crime, mas o laudo do IML de Roraima deu a morte como suicídio. O CIR não aceitou a versão oficial, pressionou o Ministério Público, conseguiu exumar o corpo e mandá-lo para um exame forense independente em Brasília, que concluiu por assassinato.

Aldo repousa há 10 anos num promontório perto de Uiramutã e ninguém sabe onde foram parar Chico Tripa e João do Boi. A cova fica num lugar privilegiado, todo verde, às margens de um igarapé limpíssimo, marcado por uma cruz de madeira sem nome — o mártir ainda esperando reconhecimento.


O “Diabo” Do Arroz.

Não foi o ouro, os diamantes ou o nióbio que insuflaram a maior resistência contra os índios desde a redemocratização do Brasil, em 1985. Para entender essa história é necessário voltar no tempo.

A preparação para a disputa com os brancos começou em 1971, depois da primeira grande assembleia de tuxauas. Os padres da Consolata instigaram os índios a estabelecer os limites da reserva. Os caciques falavam que o deus guerreiro Macunaíma teria deixado escrito numa rocha da aldeia do Limão “essas terras são de vocês e terão que lutar por elas” — sabe-se lá em que língua, nem por onde anda tal pedra.

Um trunfo ante os brancos seria uma suposta carta escrita pelo marechal Cândido Rondon, nosso indigenista, criador da Funai em 1910, afirmando que a terra era mesmo dos índios. Ela teria sido deixada quando ele passou por lá no início do século passado com algum cacique em alguma aldeia, da qual ninguém fez cópia, cujo original está em local incerto e não sabido — daí a solução de ouvir os mais velhos da tribo e desenhar o novo mapa.

Os velhos defendiam a posse indígena “de rio a rio” — ou seja, tudo o que estivesse no perímetro formado pelos rios Maú, Tacutu, Surumu, Miang, com todo Cotingo dentro da reserva.

No juridiquês o termo foi traduzido como “demarcação contínua”, como a obtida no histórico julgamento do STF, vencendo aos que queriam constituir uma reserva em ilhas isoladas.

Na sua área de influência os padres abriram escolas muito eficientes, e até Jaci foi alfabetizado. Padre Jorge dava aulas de matemática, geografia, noções de higiene — as dicas de guerrilha eram classes de reforço.

Batalhões indígenas foram discretamente formados nas aldeias e começaram a se mover dentro delas em camionetes importadas, doadas por igrejas alemãs — a turma ficava à espreita dos garimpeiros para botá-los a correr com bordunas.

O batalhão esperava os caras saírem pro trabalho e queimava tudo nos acampamentos. Quando os garimpeiros corriam de volta, os índios atacavam e destruíam os equipamentos, num jogo de gato e rato.

João Batista, misto de pajé e catequista, foi estrategista da Batalha de Santa Cruz. Foto: Fernando Naiberg.

O tuxaua João Batista usava “a experiência que aprendi no quartel de como pegar, matar, espancar, eu era útil”. No ataque à Santa Cruz, ele fez a logística, trazendo reforços de quatro aldeias — mas é outro que nunca disparou uma flecha, nem usou seus dotes de espancador, bem na linha Orlando-Jorge.

Com a organização, os índios passaram a ter até mesmo o seu próprio gado. Gado do índio? Esta foi mais uma iniciativa dos missionários da Consolata. Eles fizeram uma campanha internacional para arrecadar fundos e comprar bois. A ideia era tirá-los da dependência das fazendas. Até o papa João Paulo II mandou dinheiro pro projeto.

Cada comunidade recebia um pequeno rebanho de 50 vacas e dois touros pra manejar por 5 anos. Dava para comer alguns bois e aumentar a bicharada, assim como os portugueses fizeram no século 18. O rebanho ia rolando entre os vizinhos, para todos terem um pouco. Foi um sucesso.

Com os ventos da redemocratização dos anos 80, os índios se soltaram ainda mais. Além de atacar garimpeiros e fazendeiros, criaram os acampamentos de resistência. Era ocupar fazendas e ficar nelas por dias a fio, carneando o gado para churrascadas, com a certeza de que os primeiros governos civis após anos de ditadura (José Sarney, Fernando Collor de Mello e Itamar Franco) não mandariam polícia aos grotões — o episódio da Santa Cruz, de 87, foi uma cortesia aos fazendeiros dos militares, acostumados a mandar nos grotões.

Os brancos revidavam destruindo aldeias. Os índios ficavam calados: “A gente reconstruía tudo, pra eles saberem que nós não iríamos desistir”, conta Orlando. Não só reconstruir como também avançar — em cada grotão onde os brancos acreditavam estar mandando, aparecia um bando para reclamar a terra.

Livrar-se das fazendas de arroz foi mais complicado porque lá vivia o terrível Kanaimé. O diabo, em macuxi.

Pela necessidade de identificar um inimigo no horizonte, os índios personificaram o capeta na figura de um jovem gaúcho de ar bonachão e sorriso franco que apareceu na savana nos anos 70 com caminhões e máquinas para arrozais — Paulo César Quartiero, hoje com 63 anos.

Este senhor não queria escravos, não precisava de empregados, só queria usar a terra. Logo ergueu uma vila para trabalhadores, celeiros pra seu arroz, pontes e até parte da cidade de Pacaraima. Rodava aquele mundão em caminhonetes possantes, sempre armado e cercado de jagunços.

Fazer Quartiero desapegar-se foi impossível. Primeiro ele conseguiu o apoio de alguns tuxauas para montar uma organização para enfrentar o CIR. A sua facção é conhecida por Sodiur (Sociedade dos Índios Unidos de Roraima), uma versão branca do CIR.

Além disso, usou a mídia local para explicar sua tese de que nem os índios estavam interessados em ter uma reserva — e mostrava o pessoal assalariado da Sodiur, vivente nos arredores das cidades.

Quartiero ainda é o maior produtor de arroz de Roraima. Na Raposa, não quis vender as benfeitorias para o governo federal na hora da desapropriação, pra não deixar nada para os índios.

Ele preferiu fazer da Raposa terra devastada como os russos fizeram para impedir o avanço de Napoleão e de Hitler. Quando obrigado a sair em 2009 mandou queimar os celeiros, derrubar as pontes e até jogar o óleo diesel que sobrou nas nascentes dos igarapés que irrigam as plantações — só faltou chamar uma praga de gafanhotos.

No momento mais tenso, às vésperas da saída definitiva, Quartiero usou sua Sodiur para um grande ato de revolta. Mandou bloquear estradas e incendiar pneus por índios pintados para guerra. Em seguida, chamou a imprensa de Boa Vista, trazida num helicóptero do governo do estado, para gerar imagens para o mundo de índios que se opunham à demarcação de tanta terra.

A disputa continuou por alguns dias. Jagunços então atacaram aldeias em motos, como se fossem a cavalaria, na última escaramuça: em seguida o Supremo Tribunal encerrou o caso em favor dos índios e a Força Nacional foi chamada para retirar os intrusos. Os brancos não enfrentaram os brancos com a valentia que enfrentavam os índios e deixaram o território.

Quartiero foi levado preso para Brasília, pela Polícia Federal, mas saiu da cadeia depois de nove dias. Em 2010, elegeu-se deputado federal pelo DEM e continuou plantando arroz em Roraima, ao lado da Raposa, onde está até agora.

Vários processos criminais foram abertos contra o Kanaimé pelos ataques dos jagunços, todos hoje no STF. No Brasil, como se sabe, parlamentares federais só podem ser processados perante a maior corte do país, o chamado foro privilegiado.

No final do ano passado Quartiero elegeu-se vice-governador de Roraima. Segundo ele, a terra foi destinada por Deus aos brancos trabalhadores e honestos. Em paralelo, desbrava novos e enormes campos de arroz no arquipélago de Marajó, no Pará. Por lá, em novas pedras no sapato: os quilombolas — como mostroureportagem da revista CartaCapital.


Ele Está No Meio De Nós.

Boas notícias para os católicos apostólicos romanos que amam os servos de Deus: padre Jorge está vivo. Ele sumiu de entre os macuxis mais ou menos lá por 1985, ou 86, quando as coisas estavam mais quentes, antes da vitória da Constituinte.

A Igreja o sacou de lá por segurança, já que a cabeça dele valia aquele quilo de ouro prometido por fazendeiros. Não é fácil encontrá-lo. Amigos e religiosos evitam passar seus contatos, e ele muda com frequência de endereço de e-mail.

Ainda envolvido de corpo e alma com a causa indígena brasileira, noutro estado. Prefere não dar entrevistas: “Não tenho tempo nem cabeça para mexer com as lembranças daquela época”, nos disse, em fevereiro, por telefone. Prometeu que um dia fará uma revisão de sua participação na criação da Raposa Serra do Sol.

Ele não fala, mas macuxis, taurepangues, wapichanas, ingaricós e patamonas só têm agradecimentos. A obra dele no reino dos homens é reconhecida no mundo civilizado como um milagre — em geral índio perde mais do que ganha.

Pelo que os amigos índios disseram dele o homem sofre quase de um complexo de invisibilidade: nunca quis ter nenhum papel de protagonista na terra do povo que ama.

Jorge está perto dos 80. Não vai mudar seus hábitos. Ele dificilmente recebe ligações, que precisam ser intermediadas por alguém — em geral só fala se for recomendação de um amigo de um amigo que foi amigo de alguma tribo amiga. E ainda assim ele pede o número do interessado, promete entrar em contato “depois” semanas ou meses depois.

Quanto à foto antiga dele que está na internet, melhor não publicá-la, porque há jagunços em atividade no estado…(melhor não dizer) em busca daquele quilo de ouro, cuja cotação continua alta.

No front da Raposa Serra do Sol, os tuxauas se preparam agora para enfrentar mais um Kanaimé. Para eles, o novo diabo é a PEC 215 — a proposta de emenda à Constituição que quer alterar o que foi escrito em 1988 e entregar o subsolo da reserva para a exploração por empresas.

O CIR está atento ao que rola no Congresso e aciona seu grupo de lobistas em ONGs, no CIMI, na Survival Internacional, batendo tambores via internet.

Numa maloca distante, um velho cacique está recolhendo a melhor madeira de jatobá para fazer arcos e escolhendo bambus bem finos para flechas. Já tem 1.600 peças prontas para entrar em combate — se falharem as negociações nos tapetes de Brasília, ele voltará à luta. Trata-se de Nelino Galé: “Vou ensinar aos curumins as táticas de guerra”, diz ele.

Como no Congresso e na savana tudo anda em ritmo lento, os macuxis estão preparando uma nova geração para os próximos combates, se for necessária — o que é provável, considerando que o olho gordo sobre a terra deles sempre existirá.

E apresentamos um possível tuxaua do futuro: Samuelzinho, da aldeia Popó. Tem oito anos. Os visitantes do lugar são saudados por ele com um belo “olá, meu povo guerreiro”!

Vestindo uma camiseta com PEC 215 no peito, ele dá um show bem ensaiado. Mostra a foto de um índio ensangüentado, ferido em 2009 por jagunços daquele Kanaimé branco e grita: “Cadê o maldito que fez isto com eles?!”.

Samuelzinho é visto como um futuro líder dos macuxis. Foto: Fernando Naiberg.

Ele não sabe o que é PEC, confessa que um tio escreveu o discurso decorado, mas parece verdadeiro seu ódio aos brancos, genuína sua emoção — tem sangue nos olhos.

Os índios têm um jeito de reconhecer seus líderes ainda na infância. Por enquanto Samuelzinho possui olhar, gingado e gogó, mas parece ter potencial até para ser o grande morubixaba de todas as tabas setentrionais, ocupando assim o lugar do velho Orlando.

O menino não passará por nenhum treinamento especial. O pessoal valoriza humor, inteligência, desembaraço e respeito mostrados pelo candidato no dia a dia da aldeia.

Não há calendário eleitoral, nem campanha, o eleitorado não diz nada. Quando chegar a hora e a vez dele, os índios vão sentar no chão para ouvi-lo recontar as histórias que ele assimilou dos mais velhos e pronto: tuxaua será.

Quando a guerra sem fim começar, apostamos 10 contra 1 como Samuelzinho comandará os macuxis da aldeia Popó.

Quanto ao tuxaua Orlando, trata-se de um personagem esperando para ter seu nome na história oficial brasileira. Por enquanto, quem digitar “Orlando” só vai encontrar ofertas de passagens e hotéis pra visitar a Disney, na cidade de Orlando, Florida, USA.

Enquanto tiver saúde ele vai continuar sendo cacique e se mantendo no anonimato. Ao contrário dos governantes comuns, só aparece para falar quando é necessário. A última vez que isto aconteceu foi em 2008, às vésperas da vitória nos tribunais, onde a Justiça concederia a Raposa Serra do Sol como área contínua aos índios.

O discurso dele foi curto, de coração e cabe aqui: “Nossa Mãe Terra está triste e sendo contaminada pelos não-índios. Os garimpeiros, fazendeiros e arrozeiros lucraram com nossas riquezas, enriqueceram explorando o nosso trabalho, nossa terra, nossos bens e recursos naturais. Nós exigimos nossos direitos, exigimos respeito. Eu sofro desde criança nas mãos dos fazendeiros. Até quando nós vamos ter que aguentar violência e discriminação? Como será o amanhã das nossas crianças? Não queremos nossa Mãe-Terra dividida”!

Falou e ganhou.


Renan Antunes de Oliveira é editor-assistente do BRIO. Atua também como jornalista freelancer, como correspondente do UOL em Santa Catarina. Trabalhou para os principais veículos brasileiros, como as revistas Veja e IstoÉ, e foi correspondente em Nova York do Estado de S.Paulo. Em 2004, venceu o Prêmio Esso de Reportagem com a matéria “A Tragédia de Felipe Klein”, publicada no Jornal Já, de Porto Alegre.

Naira Hofmeister é jornalista graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atuou como freelancer para grandes veículos impressos do Brasil, como O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, além das revistas Veja, Piauí e Globo Rural. Além disso, teve trabalhos publicados pelos portais Terra, UOL e iG. Em 2012, foi correspondente da agência Carta Maior em Madri, para onde se mudou como bolsista do Programa Balboa para Jóvenes Periodistas (atual Curso Iberis). Na capital espanhola, tornou-se colaboradora da revista digital FronteraD.