A ESPERA

por Matheus Leitão


Ele era moreno, baixo, nem gordo nem magro, olhos e cabelos castanhos, comum como qualquer outro brasileiro na casa dos 30 anos. Exceto pelo fato de que este homem era o líder de uma célula comunista no estado do Espírito Santo e guiava dezenas de jovens idealistas, mais novos que ele, no combate à ditadura. Um dia, entretanto, ele os guiou por outro caminho, para dentro dos porões da ditadura. O líder tornou-se traidor e entregou seus liderados. Depois sumiu sem deixar vestígio algum.

Você iria atrás deste homem se fosse filho de dois daqueles jovens traídos, presos, ameaçados e torturados? Investigaria por conta própria seu paradeiro? Se o encontrasse, teria coragem de encará-lo frente a frente? E depois de ouvir sua versão da história, você o perdoaria?

A Espera é a saga de um jornalista em busca de respostas a essas perguntas. Matheus Leitão, filho dos também jornalistas Míriam Leitão e Marcelo Netto, convida você para acompanhá-lo na busca que consumiu décadas de sua vida e cujo surpreendente final BRIO tem o prazer de agora publicar.


Mateus.

Era o ano de 1969. Mas o começo desta história só foi relatado 20 anos depois, em 1989, quando o Brasil se preparava para a primeira eleição presidencial direta pós-ditadura militar. Um pré-adolescente ouvia atento o pai relatar sua entrada, aos 19 anos, na militância de um partido clandestino. Era como se lutava contra o regime, às escondidas.

“Perseguição”.

“Prisão”.

“Porão”.

O menino que ouvia era eu, e o jovem que militara, cheio de ideais libertárias, meu pai. Lembro-me vagamente do relato, feito no sofá de casa, em Brasília, após o jantar, entre livros e retratos que marcavam a história dele e de nossa família. Aos 12 anos de idade, palavras como aquelas soavam estranhas, injustas, de certa forma, etéreas. Uma luta comovente de resistência contra um regime opressor, que cerceava direitos civis. Eu, à época, nem sabia que aquilo existia. Tortura, para mim o pior de todos os substantivos, não foi mencionado naquele dia.

Minha mãe fizera algumas menções à prisão, mas eu, por alguma razão, não registrava. Talvez porque fosse pesado demais para a cabeça de uma criança, ou porque ninguém havia parado para me contar a história com a profundidade e a solenidade daquele momento. A verdade até então desconhecida sobre os pais, que todo filho procura saber, estava apenas começando a surgir, imponente e misteriosa. E, principalmente, instigante. Do nada, ele decidiu me falar aquilo.

Antigo líder estudantil e presidente do diretório de Medicina da Universidade Federal do Espírito Santo, meu pai, Marcelo Amorim Netto, tinha uma pequena careca e um cabelo ralo no centro da cabeça enquanto contava aquela história, aos 39 anos. Parecia distante daquele jovem cabeludo e de barba rala que tivera importante destaque na liderança estudantil capixaba.

No final dos anos de 1960, as universidades eram foco de resistência política em um ambiente disputado por organizações radicais de esquerda na busca por novos braços para lutar uma guerra desigual.

No dia 13 de dezembro de 1968, o governo baixou o Ato Institucional número 5. O regime entrava, então, no seu período mais opressivo. De 1969 em diante, o regime torturaria mais, mataria mais. Não era hora de se opor a ele.

Foi naquele tempo que um jovem, apreensivo e tenso, andava à noite pelas ruas de Vitória, no Espírito Santo, para o primeiro encontro com o chefe local do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. Era um líder “operário”. Essa palavra era mágica para os estudantes, mesmo os de classe média baixa, caso de meu pai. Ser operário representava autoridade. Afinal, a ideia era inverter a ordem na sociedade de classes e construir um governo do proletariado. Lição número um do marxismo.

Foi nessa conversa com meu pai que ouvi o nome desse líder. Um som que atiçou minha curiosidade logo na primeira vez em que escutei sua composição única, sonora e estranha. O nome poderia ser árabe, ou lembrava a pronúncia de latim. Na verdade, não parecia nome. Parecia outra coisa, talvez um palavrão. Lembro-me de ter repetido mais de uma vez, perguntado para ter certeza de que meu pai tinha acertado.

Mas estranho mesmo foi saber que o meu nome surgiu de uma ideia dele durante um “ponto”, como eles chamavam os encontros secretos de esquerdistas contrários à ditadura militar. “Seu codinome, então, será Mateus”, disse ele ao meu pai em seu batismo comunista. Mateus?

Enganchou. A história fisgou o meu interesse como um peixe que morde uma isca, mas não consegue livrar-se de um anzol bem enfiado, por dentro, até o lado de fora de sua boca. Poderia lutar, se debater, mover para um lado ou para o outro. Mas ela sempre estava lá. A história. E com ela aquele nome esquisito.

Eu, aos 12 anos, idade em que soube do passado dos meus pais. Arquivo pessoal.

Tudo começou oito anos antes de eu nascer. Eu me sentia como se estivesse sendo arrastado por uma linha tênue, mas rígida, da minha própria história para a deles. Ou essa também seria minha história, de certa forma?

O peixe, no caso, eu, teve sua vida até os dias atuais influenciada por essas conversas. A linha condutora parecia ser a que segurava a isca com aquele estranho nome, que acertou o meu corpo e sugou-me ao passado dos meus pais.

Eles sempre foram discretos, fechados e de poucas palavras sobre a ditadura. Não havia respostas fáceis. Vez ou outra, surgiam pistas.

Lembro-me de, um tempo depois, questionar minha mãe, a jornalista Miriam Leitão, sobre a origem do meu nome. Ela me contou com olhos alegres, numa mistura de orgulho e certeza. No dia em que nasci, meu pai perguntou a ela: “Qual será o nome?”. “Matheus, claro”, respondeu. O nome só foi decidido ali, com um “h” a mais, quando ele me segurava nos braços pela primeira vez.

Não houve dúvidas ou discussões. Pareceu óbvio ao meu pai a escolha daquele codinome que sempre estivera com eles.

Apenas 15 dias depois de nascido, sofri uma primeira crise de asma. Resistente, não me largou por muito tempo. Quando criança, tomei algumas vezes injeção de adrenalina ao entrar nas emergências de hospitais com crise aguda de dificuldade respiratória. Sou capaz de passar um dia inteiro calado, não soltar uma única frase. A minha respiração basta.

Falo disso por um motivo. Já na adolescência, quando ela me atacava — o que acontecia mês sim, e outro, também -, pensava na falta de ar que eles deveriam ter sentido na prisão.

Pensava em meus pais presos, jovens, desamparados, totalmente dominados pelos militares. A asma só foi embora quando eu tinha 20 anos, mas deixou como sequelas um peito de pombo e um andar um pouco curvado.

Durante todos esses anos, o tema ditadura e as mazelas que eles haviam sofrido eram trazidos à tona somente quando eu perguntava. Confesso que não entendia o motivo para tanto segredo, a razão do silêncio e da discrição. Aprendi com o tempo: era mais circunspecção, reserva, do que sigilo.

Aos poucos, todavia, as informações foram surgindo. Meu tio Márcio, irmão do meu pai, me contou, pouco antes de morrer, em 1995, vítima de um infarto fulminante, que havia encontrado o meu pai, certa vez, muito mal na prisão, pensando em se matar.

O assustador vocábulo “tortura” foi o último a aparecer nessas conversas em que eu colhia retalhos do passado. Mas surgiu tanto em diálogos com familiares, como em conversas reservadas com a minha mãe, ou com o meu pai, em momentos distintos. Transformei aquilo no meu quebra-cabeça particular, no qual cada peça era revelada aos poucos.

Tapas, cachorros ferozes, cobras em quartos escuros, assédio sexual contra minha mãe grávida, passeios noturnos, ameaças de morte… “Eu posso te matar, sabia?”, disse um militar de olhos azuis com o revólver apontado para cabeça da jovem de 19 anos, em 1972. “Sim, você pode”, ela respondeu.

Socos, chutes, pontapés, porradas, roleta russa, viagem para o Rio algemado como caranguejo, com pernas e braços presos, ao lado de companheiros esquerdistas. Nove intermináveis meses numa solitária, greve de fome para conseguir ter acesso ao censurado caderno B do Jornal do Brasil e a um aparelho de rádio. Lendo o jornal remendado e ouvindo o rádio, ela tentou não enlouquecer na solidão.

Mesmo assim, eu sentia que não havia detalhes, retratos jornalísticos profundos, mas apenas histórias dos pais contadas para um filho curioso e perguntador. Um filho jornalista.


Entregues.

Antes que eu pudesse ouvir sobre os casos de tortura, descobri o motivo que os levou à prisão. Ninguém nunca havia tido nenhuma prova, mas todos os ex-militantes do PCdoB do Espírito Santo tinham certeza de que as prisões eram culpa de um homem. Aquele nome. O sujeito, aquele mesmo que havia dado o codinome de Mateus ao meu pai, entregou muitos companheiros. Entre eles, Marcelo e Miriam.

Meus pais, fotografados pelo Exército ao serem presos, em 1972. Arquivo pessoal.

Para todos os que foram torturados, aquela era a única explicação. Um traidor que tinha um codinome simples: “Zé”. Enquanto era o companheiro admirado por todos, era apenas o Zé. Anos depois, já delator, iria se transformar naquele nome da sonoridade esquisita. O líder de todos que virou o delator de todos.

Nunca entendi a razão de ele ser o ponto inicial do sofrimento dos meus pais. De uma ditadura, eu começava a aprender, podia se esperar tudo. Mas de um companheiro de luta?

Tive raiva, passei mal, chorei sozinho no banho. Era uma reação frequente. O tema me tomou o pensamento por anos. Não contava a ninguém, nem mesmo aos meus pais, o quanto aquela história me interessava. Quando sentia uma brecha, entrava. E, assim, viajava no tempo e voltava para o início dos anos de 1970.

Perguntava tudo sobre o ex-companheiro de armas metamorfoseado em delator. Como ele era? Alto, forte? Era moreno, baixo. Não chegava a ser gordo, mas não era magro. Era atarracado. Perguntava se era bonito. Não, não se sobressaía pela beleza. A cor dos olhos, cabelos? Castanhos, sei lá.

“Por que quer saber?”, questionavam eles. As perguntas às vezes irritavam meu pai, que saía pela tangente. Tudo o que sabia sobre aquele sujeito era guardado na memória. Parecia um homem comum, na casa dos 30 anos, mais velho que a média dos estudantes engajados nos grupos de esquerda no Espírito Santo.

Onde estava o “Zé”, o homem cujo nome continuava a me causar estranhamento? Ninguém sabia. Por que não o procuraram após a prisão? Ele havia sumido e ninguém, nem os amigos mais antigos, sabiam do seu paradeiro. Será que era um agente infiltrado? Será que ganhou benefícios pela delação? Será que sofreu como os outros? A única certeza que os meus pais diziam ter era a de que ele não aparentava ter sido torturado quando foi visto no 38º Batalhão de Infantaria, em Vitória — a instalação militar onde Marcelo e Miriam sofreram na pele os horrores da ditadura.

Lembro-me da primeira vez em que meu pai me contou que chegara a pensar em matá-lo. Num ano sabático, em 2000, Marcelo, que virou um jornalista bem-sucedido, havia alugado um apartamento do cineasta Arnaldo Jabor, em Nova York, para estudar inglês. Me convidou para passar três meses com ele estudando na capital do mundo. Era uma grande oportunidade para eu, um jovem de 23 anos, explorar a enriquecedora cidade e aperfeiçoar meu inglês.

À época, meu pai estava sempre ouvindo as músicas do Buena Vista Social Club, cujo CD havia sido recém-lançado. Todos os dias. Todas as manhãs. Eu escutava com ele e gostava. Parecia uma brecha para irmos a 1971, 1972, mas não tinha certeza. Ele colocava o som no máximo. “Minha alma muy triste e pesarosaaaaa”, gritavam as vozes cubanas.

Numa manhã, as notas suingadas foram interrompidas por um forte estrondo: “Pow”. A pressão que saía da caixa de som criara uma corrente de ar que derrubou uma obra de arte envelhecida, com um tom ferrugem, parecendo datar de 1500 (e custar muitos, muitos dólares). Era uma cruz feita de cerâmica com um gancho de ferro na ponta de cima. Aquele crucifixo, que tinha o tamanho de um tablet, rachou ao meio. Lembro-me da cara de espanto do meu pai, com os olhos arregalados. Parecia o menino travesso que de fato foi. Não que ele saiba, mas é a cara que ainda faz às vezes.

Naquele dia, por conta da cruz, eu e meu pai ficamos mais próximos. A canção cubana, ironicamente chamada “Silêncio”, abriu as portas para um capítulo novo na nossa relação, de mais intimidade. Seguimos eu e ele pelas ruas de Nova York em busca de uma cola especializada para cerâmicas antigas e obras de arte.

Lembro-me, depois de muito caminharmos, da cola na estante, do vendedor, mas não me lembro de como chegamos em casa. Ele estava apreensivo, mas feliz. Usou a cola minuciosamente, tentando esconder a rachadura ao juntar os dois pedaços de cerâmica da cruz. Mesmo assim, nada escondia o rachado. Até que recorremos a um pó de cappuccino — daqueles que quase não se misturam à água quente e dificilmente lembram o gosto de café, de tão artificiais que parecem. Jogado por cima, ideia que tive de supetão, o pó deixava uma cor meio ferrugem, justamente o que precisávamos.

“Poft”. “Tintin”. Abrimos uma garrafa de vinho para comemorar e Marcelo abriu um pouco mais da sua história. “Quando saí da prisão, queria matar o Zé. Era justo. Fomos presos, torturados, mas alguns morreram”. Meu pai referia-se aos comunistas históricos Lincoln Cordeiro Oest e Carlos Nicolau Danielli. Segundo ele, os dois morreram em consequência da delação do sujeito de nome esquisito.

Noite adentro, meu pai falou sobre sua paixão pela minha mãe e sobre a preparação que recebeu de Oest e Danielli, bem antes da prisão, ainda em 1971, para ir combater na Guerrilha do Araguaia, principal resistência rural contra a ditadura. Os dois tratavam Marcelo com carinho. No início da década de setenta, época em que meu pai iria para a guerrilha, ele conheceu Miriam, minha mãe. Foi no dia do médico, 18 de outubro de 1971. Meu pai, líder estudantil, organizou um show do compositor Sérgio Ricardo, em Vitória. Minha mãe estava lá. Foi paixão arrebatadora. Decidiram assumir o namoro em janeiro de 1972. Onze meses depois, os dois estariam presos.

Danielli, aos 41 anos, homem moreno, magro, não esquelético, já que os músculos eram concisos, mas proeminentes pelo seu corpo, ouviu a história de amor e deu mais tempo para ele pensar antes de ingressar no combate armado. Uma informação importante que, pelo menos nessa história, derrubava o mito de que as pessoas que recuavam de uma decisão eram punidas pelos comandantes esquerdistas.

Oest, aos 63 anos, então chamado de o “velho”, falava incansavelmente sobre os valores do marxismo. O ex-deputado, mesmo tendo atuado como ala esquerda do Flamengo por apenas dois jogos em 1927, não aguentava o calor do Rio. Preferia as obras de Marx aos treinamentos de cruzamento na área ou cobranças de faltas. Vestia apenas uma cueca branca enquanto falava em um “aparelho” no Rio de Janeiro sobre as ideias filosóficas, econômicas, políticas e sociais que faziam parte do materialismo e da dialética. Depois de deixar o futebol, já como membro do PCdoB, participou da “Intentona Comunista” de 1935. Meu pai ouvia atentamente os ensinamentos, aulas informais que se estendiam madrugada adentro no aparelho fluminense.

Quando o vinho acabou, também chegou ao fim nossa viagem aos anos 1970. Meu pai sempre encerrava abruptamente as conversas sobre o período. Mas não sem antes repetir que considerava certo o “justiçamento” de Zé. A sentença era a morte.


Destroçados.

Voltei da viagem de três meses aos Estados Unidos com a certeza ainda mais firme de que deveria ir atrás de tudo. Sem avisar a meus pais, tomei a decisão de começar pelos arquivos. Não havia a Lei de Acesso à Informação, promulgada em 2012, já no governo Dilma Rousseff.

No início dos anos 2000, as portas eram fechadas na cara do cidadão que tentava acessar quaisquer documentos históricos. A maioria estava fora do alcance. Minha primeira ida a um arquivo que considerava importante terminou em dois minutos. Foi o tempo de eu ouvir que se tratavam de informações pessoais. “Sim”, respondia eu, “dos meus pais, as quais tenho o direito de saber, ler, reler e até copiar, se fosse o caso. Não?”.

Não. Naquele tempo era muito difícil ter acesso a um documento da ditadura, mesmo sem o carimbo de sigiloso. Consegui alguns na minha carreira como repórter, mas não havia conseguido aqueles.

A verdade é que, entre uma reportagem e outra que eu fazia sobre a ditadura, inclusive sobre a Guerrilha do Araguaia, parecia que eu estava sempre à procura do passado dos meus pais. Era como se a linha ligada ao anzol ficasse ainda mais tensa. Puxava-me ao local de onde eu não deveria sair.

Mesmo quando eu não queria, histórias sobre o regime apareciam à minha frente. Tanto que passei a ser uma espécie de setorista do jornal Correio Braziliense na área. Em 2004, após uma série da qual havia participado sobre o combate na região do Bico do Papagaio — selva entre o norte de Tocantins e o sul do Pará — fui escalado para cobrir uma escavação em busca de corpos de desaparecidos da Guerrilha do Araguaia. Fiquei 15 dias atrás de restos mortais, acompanhando escavações oficiais de uma respeitada equipe argentina que havia participado de trabalhos forenses históricos, como o que achou o corpo do guerrilheiro Ernesto Guevara, o Che.

Na região amazônica, apesar de a equipe não ter encontrado nenhum resto mortal, as marcas de uma luta desigual ainda estavam à flor da terra. Em um dos locais de escavação foram encontradas balas de metralhadora usadas na época pelos 5 mil militares enviados à região para enfrentar aproximadamente 80 guerrilheiros, que agiam inspirados nas vitoriosas revoluções cubana e chinesa começadas no campo.

Dessa viagem a Xambioá, trouxe na bagagem uma bala de metralhadora e o choro de Diva, irmã da guerrilheira Dinaelza Santana Coqueiro, após uma fracassada escavação em busca do corpo da irmã. O choro me doeu mais porque encontrei um antigo morador da região, que disse ter visto parte do corpo de “Mariadina”, como ela era conhecida, em uma cova rasa 40 anos antes.

Pensei na dor daqueles que perderam entes queridos pelos crimes impunes cometidos pelos assassinos da ditadura. O choro de Diva carrego até hoje, mas a bala de metralhadora não quis guardar. Entreguei ao meu pai como uma recordação, para lembrá-lo de que estava vivo, enquanto tantos outros tombaram.

Retomei a busca por documentos duas semanas depois. Minha mãe havia me relatado que lembrava de ter sido fotografada após ser presa. Pensei que poderia encontrar as fotos de meus pais — retratos em preto e branco que sempre forçava minha mente a imaginar.

Ou imagens dos seus antigos companheiros — militantes do partido — dos quais eles lembravam com carinho, como o jornalista Jorge Luiz de Souza, que também ficou meses em uma solitária, ou a brilhante médica Magdalena Frechiani, a “Mariana”, que também havia sido presa e torturada grávida, como a minha mãe. Magdalena chamou de Mariana sua segunda filha. Como eu, ela tem como nome, um codinome.

Não demorou muito para me dar conta de que também poderia encontrar documentos sobre o delator. Como ele era? O que estaria escrito em seu depoimento? Como era o seu sobrenome? As perguntas martelavam em minha cabeça. Os documentos confirmariam que ele delatou os companheiros capixabas e que entregou militantes históricos do comitê central, como Lincoln Oest? E a morte de Carlos Danielli? Era uma consequência de sua delação? Por que entregou os seus camaradas de armas?

Com o conhecimento que obtivera cobrindo os temas de direitos humanos e ditadura militar, eu sabia que a queda do PCdoB no Espírito Santo era um “X” a ser desvendado sobre a resistência à ditadura. O fato tinha importância histórica, além da relevância pessoal. Aquela delação havia isolado e enfraquecido a Guerrilha do Araguaia. Oest e, principalmente, Danielli eram uma ligação entre as áreas rural e urbana do partido. O soturno fim da Guerrilha, isolada sem o apoio das cidades, se apressara com a morte dos dois. Mortes que aconteceram em uma época muito próxima à da prisão dos meus pais. O anzol que me fisgara também carregava uma parte da história do Brasil.


Pesadelo que me fez acordar.

Acordei suado após um terrível pesadelo com minha mãe presa. Jovem, no meu sonho, ela não aguentava ficar imóvel em um auditório escuro, sozinha com uma jiboia. No breu, a serpente vinha agressivamente em sua direção e a atacava. Levantei com o corpo molhado e dolorido. A forte cena me fez perder o sono. Como era possível aguentar aquilo? O pesadelo não era real, mas a cobra e o auditório, sim.

A porta da sala onde minha mãe ficou presa, no Espírito Santo. Imagem: Eduardo Gomes.

Em uma das sessões de tortura, minha mãe foi colocada num auditório escuro por um torturador conhecido como Dr. Pablo com uma cobra de quase 3 metros de comprimento, que chegava facilmente a 50 quilos. Tinha 19 anos, os mesmos 50 quilos, e estava grávida havia um mês do meu irmão mais velho, Vladimir. Ela não sabe quanto tempo ficou ali. Horas? Um dia? O importante é que ela ficou tempo suficiente para que a cobra pudesse abocanhá-la, como no meu pesadelo — o que não aconteceu. Miriam ficou imóvel, estática. Lembrou apenas de que o animal é atraído pelo movimento.

Aquela não havia sido a única tortura pela qual passara. Antes da cobra, naquela mesma sala, foi colocada nua em frente a ao menos dez militares, sob a ameaça de que eles abusariam dela. E, antes das ameaças de estupro, socos, chutes, cachorros ferozes, sob os gritos de “terrorista”, e uma batida com a cabeça na parede que a fez sangrar até a nuca.

Certa noite, minha mãe foi avisada de que aquela poderia ser a sua última. Viu sua sombra projetada na parede branca do histórico forte São Francisco Xavier da Barra, construído em meados do século XVI, parte do 38º Batalhão de Infantaria, em Vitória. A sombra revelava um corpo mirrado, incapaz de enfrentar cães e fuzis em igualdade de condições, enquanto pensava no filho que carregava no ventre e no marido, que, tinha certeza, já estava morto. “Eu sou muito nova para morrer”, disse ao jornalista Luiz Cláudio Cunha, na única entrevista que deu sobre o tema. Ficou sem comer por dias.

Numa única oportunidade que teve de se alimentar, uma bofetada de um capitão chamado Guilherme fez um suco de laranja voar. Ele era magro. Nem baixo nem alto, tinha um olhar frio. O capitão Guilherme era o verdadeiro responsável pelo Batalhão. Os presos conseguiam ver nos pequenos detalhes: era sempre aquele a quem todos prestavam contas.

Em outra sala do mesmo 38º Batalhão de Infantaria, meu pai vivia o começo do seu inferno particular, que duraria longos 13 meses, nove deles numa solitária. Porradas, tapas na cara, chute nas costelas ao adormecer em uma cadeira onde teve de ficar sentado por vários dias.

Quando não aguentava mais ficar acordado, o terror começava de novo. Técnicas consideradas desumanas quando seu uso pelos militares norte-americanos foi revelado recentemente eram prática comum no Brasil autoritário.

No caso do meu pai, um cachorro pastor alemão era colocado para tentar morder o seu nariz. “Terrorista!”, gritavam os militares enfurecidos, irritando ainda mais o animal. Uma roleta russa quase lhe tirou a vida. Feita com o revólver encostado em sua têmpora, pensou, obviamente, no pior, enquanto o dedo apertava o gatilho uma vez, duas vezes, três vezes. Foi levado, ainda, para uma simulação de fuzilamento. Era tortura psicológica, que também impuseram à minha mãe.

Naquele ano, liderara a única greve de estudantes do país, que trancou por dois dias as aulas na Faculdade de Medicina, na Universidade Federal do Espírito Santo, e paralisou os trabalhos no Hospital de Clínicas. Já ouvi de mais de uma pessoa, contemporâneos, que ele nunca mais foi o mesmo. Não havia nada naquela sala de tortura, a não ser o terror, a cadeira que meu pai sentava e o quadro com a representação de Duque de Caxias, herói e patrono do Exército Brasileiro.

“Não gosto de falar desse assunto”, disse, na única vez em que me contou os detalhes. Na pequena sala, sendo esmurrado aqui e ali para responder perguntas, meu pai mudou. As novas agressões, que se repetiam como se tivessem sendo feitas pela primeira vez, transformaram um querido líder estudantil, carinhoso e amável com todos, conhecido como “Marcelinho”, em um homem introvertido.


Zé.

Eu também não fui o mesmo após acordar do pesadelo com minha mãe. Tomando um banho gelado de madrugada, lembrei de que conseguiria ter acesso ao habeas data dos meus pais, espécie de resumo das informações que haviam sido arquivadas sobre eles durante a ditadura.

O habeas data continha registros de números de processos. No Rio de Janeiro, estavam os de número 3.253 e 40.640. Mas a sigla STM, ou Superior Tribunal Militar, chamou minha atenção imediatamente, afinal, eu morava em Brasília, onde fica o tribunal. Naqueles registros processuais, estavam anotadas a autuação, no dia 6 de julho de 1977, exatos quatro meses antes de eu nascer, e também o arquivamento do caso, em 28 de maio de 1979.

Quando eu tinha apenas um ano e meio, o processo no qual constavam os nomes deles havia sido arquivado.

Aos 26 anos, me senti meio estúpido ao perceber que, durante todo aquele tempo de busca, os documentos estavam guardados em alguma gaveta a menos de dez minutos de carro de onde eu morava. Para ser mais exato, a 6 quilômetros da minha casa.

O Superior Tribunal Militar é um prédio imponente na região central de Brasília. Com 13 andares, somando-se o térreo, em uma cidade onde a maioria dos prédios não passa de seis, o edifício se destaca facilmente. Chego bem perto dele e olho para cima. É um gigante. Os militares sempre gostaram de simbolismos, penso. Conto 27 janelas apenas no primeiro andar.

Respiro e imagino, de novo, que o tal processo está dentro de uma daquelas salas do primeiro andar, amarelado, com fotos em preto e branco. Estou errado.

Logo ao entrar, sou informado de que o arquivo é no subsolo. Após os trâmites burocráticos para entrar em um prédio militar, desço um lance de escadas, chego a uma garagem com paredes recém-pintadas de branco e vejo uma porta no extremo oposto dela. Porões militares não são só uma expressão, eles são reais em 2004.

O lugar denota a típica burocracia brasileira. Mais de um funcionário para guardar um mundo de papel que, na prática, não poderia ser visto por ninguém. Meu pedido é negado. “Trata-se de informações pessoais”, diz uma mulher baixa e sem farda. Ela informa que é preciso uma autorização dos meus pais, assinada em cartório, e endereçada a mim para ser anexada a um pedido que, somente então, será analisado.

Saio de lá sabendo que terei de convencê-los. Vou direto ao ponto. Digo que quero ter acesso aos documentos, para que nossa família possa guardar como recordação de tempos difíceis que marcaram nossa história. Eles aceitam. Mas não falo nada a respeito do meu plano mais amplo, que é o de ir atrás do homem responsável por entregá-los aos horrores da ditadura. Duas semanas mais tarde, consigo as cartas, assinadas e reconhecidas em cartório, como manda o figurino. Entro com o pedido e recebo um número, registrado acima da data e hora do protocolo. São necessários mais três meses para eu receber uma resposta.

“Sim”, diz a moça ao telefone, na manhã em que recebo a confirmação. A ligação não demora mais do que 20 segundos, mas representa o final da batalha contra a burocracia para conseguir documentos sobre a minha própria família.

Nesse dia, acordo mais cedo para ir ao arquivo, afinal, tenho que entrar no trabalho às 10h e quero aproveitar que o arquivo estará aberto às 8h.

Demoro como nunca para encontrar uma vaga de estacionamento. Paro e corro para dentro do tribunal, dessa vez, sem olhar para cima, sem pensar nas janelas. Quando chego, o processo, com uma capa verde e um pequeno símbolo do Exército, já está separado em uma estante. Ele é retirado por um militar fardado e colocado numa mesa. Tem cinco volumes, amarrados cuidadosamente por barbantes brancos.

O primeiro dos cinco volumes começa com um número no alto: 1977, ano em que nasci. Meses antes do meu nascimento, havia chegado do Rio de Janeiro cópias do IPM, Inquérito Policial Militar, que começara a tramitar no Espírito Santo, em 1972. O militar me informa que eu poderia ver, mas não tirar cópias. Para que possa xerocar aqueles documentos, será necessário protocolar um segundo pedido. Não quero me irritar. Estou diante do que sempre quis. Pelo menos, acho que sim.

Tenho a certeza ao virar a segunda página do primeiro volume. Uma folha escrita à mão registra “1977 — apelação 40.640–1 auditoria aeronáutica — 5 volumes — DL 898/69” e uma lista com 28 nomes, um embaixo do outro, entre eles, os dos meus pais. A maioria é de estudantes da Universidade do Espírito Santo. Não consta nessa primeira lista o nome de um professor, o médico Vitor Buaiz, que, anos após sair da prisão e participar da fundação do PT, elegeu-se governador do Estado, em 1994.

No segundo volume, surgem as fichas de qualificação. Em ordem alfabética, e não por importância partidária, estão listados e descritos os 30 integrantes do “grupo Vitória” do PCdoB. Todos aparecem em fotos preto e branco, incluindo Vitor Buaiz.

Não resisto e vou direto para a letra M, onde sei que encontrarei Marcelo e Miriam. Meu pai aparece com o rosto desafiador: jovem, cabeludo, um ralo bigode, de frente e de lado, como alguém que não temia aquele ser violento e bárbaro que estava do outro lado da câmera, os anos de chumbo.

Abaixo da foto, um registro típico de presidiário, com as digitais dos dez dedos das mãos. O nome, Marcelo Amorim Netto, escrito de forma errada, com um t só. Filiação: Wolghano Netto e Maria da Natividade Netto. Data de nascimento, naturalidade, estado civil, profissão.

Codinome: Mateus. Paro. Olho para o militar no porão do arquivo do STM. Ele também me olha. Continuo a leitura: “Integrante do Comando Regional do PCdoB e militante da Faculdade de Medicina”.

Minha mãe, linda, é apenas uma menina vestida com uma camisa branca social de um homem. Os cabelos cacheados e o rosto sério, sem temor, parecendo firme o suficiente para enfrentar os duros meses seguintes.

No dela, leio também o nome dos meus avós: “Uriel de Almeida Leitão e Mariana Azevedo de Almeida Leitão”. As lágrimas escorrem quando leio uma das últimas linhas escritas na ficha de minha mãe: “vive maritalmente com Marcelo Amorim Neto — [o] ‘Mateus’”.

A ficha de qualificação de minha mãe, feita pelos militares. Arquivo pessoal.

Na minha mente, imagino a dor de meu avô Uriel, pastor presbiteriano — que nascera pobre, mulato, nordestino, e fizera uma corajosa trajetória de vida até o sucesso como educador no interior de Minas –, sem saber onde estava a sexta dos seus 12 filhos. Minha avó Mariana, descendente de ingleses e alemães, com olhos azuis, virava noites em oração pela filha.

Sou interrompido pelo militar, que pergunta se eu estava me sentindo bem. Ele é o único na sala e o horário beira as 10 horas da manhã. Já deveria estar no jornal. Pergunto se posso ficar um pouco sozinho, já que estou emocionado por ver as fotos dos meus pais. Jogo limpo, e ele sai.

Imediatamente me transformo no repórter e jogo sujo. Tiro uma pequena máquina fotográfica do bolso da frente da minha calça, desligo rapidamente o flash, tiro quatro fotos da ficha da minha mãe, quatro da ficha do meu pai. Respiro fundo soltando o ar que segurei para registrar os fotogramas, e vou até a página de Jorge Luiz de Souza. Fotografo-a. Sigo para a de Magdalena, de quem tiro outra foto, rapidamente, antes de guardar novamente a câmera na calça jeans.

Quando o militar volta à sala, eu já estou olhando a foto de “Zé” ou “Edson”. Aquela pode ser a prova cabal de que, sim, ele era o delator responsável pela prisão de tantas pessoas. Edson é informação nova. Não sabia daquele detalhe — e pelo jeito nem meus pais, já que nunca haviam comentado sobre esse outro codinome.

É a primeira vez que o olho na vida. Dou tempo para aquele momento. Um pouco mais velho que os outros estudantes quando foi preso, tinha 31 anos. Com pele morena, e cabelo crespo penteado para trás, aquele homem tem os olhos castanhos cerrados e barba por fazer, uma imagem bem distante da que eu havia imaginado. Parece um homem feito, mas simples, em meio a jovens estudantes em formação.

Ex-funcionário da prefeitura de Colatina, ele exercia, em tempo integral, a função de primeiro secretário do partido no Espírito Santo, o mais graduado dirigente do Estado.

Seu nome é Foedes dos Santos.

Foedes dos Santos, delator dos meus pais, em foto tirada pelos militares. em 1972. Arquivo pessoal.

Respiro pausadamente a cada vez que leio seu nome, aquele estranho nome que ouvi da boca do meu pai, aos 12 anos.

Foedes era o traidor que tanto procuro? Tudo indica que sim. Pela primeira vez, seu nome surge em um documento militar, oficial, amarelado pelo tempo, mas ainda intacto e cheio de informações. Na terceira página, surge a primeira ligação com meu pai, que, à época, era um dos quatro integrantes do comando do PC do B no Espírito Santo, numa espécie de secretariado.

“Foedes dos Santos, condenado a um ano e dez meses de reclusão; Marcelo Amorim Netto, Jorge Luiz de Souza, Gustavo Pereira do Vale Neto, condenados a um ano de reclusão”. Ao todo, 30 militantes do Espírito Santo foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional por subversão.

Alguém que lê a história de dor, luta e paixão dos seus pais, retratada assim com tanta formalidade, se emociona. Tenho absoluta certeza de que aquele arquivo nunca tinha sido folheado de forma tão cuidadosa. Parece que é um tesouro meu. Passo folha por folha, procurando por mais pistas. São depoimentos. Acho os dos meus pais, o de Foedes. Mas não leio tudo aqui.

Revelo as fotos nos dias subsequentes — em 2004, fotografia
digital também era algo distante, como a Lei de Acesso à Informação. Emolduro as dos meus pais e entrego a cada um separadamente.

Minha mãe me abraça com carinho, me dá um beijo na testa e agradece o meu esforço atrás daquele documento. Ela sempre tem palavras de incentivo. Meu pai também se emociona. É o dia do seu aniversário de 54 anos, e a ficha está embrulhada para presente. Não imagina o que tem dentro. A surpresa atinge o seu rosto. Os olhos ficam molhados.

O jornalista Kennedy Alencar, um dos poucos amigos presentes no aniversário, faz um sinal de positivo para mim. Ao meu ouvido, fala: “Vai ser difícil você superar esse presente nos próximos aniversários”.


Xadrez Imaginário.

Nos dias seguintes, ainda balançado, lembro-me de que devo enviar as imagens para Jorge Luiz e Magdalena. Aos dois, escrevo no computador e imprimo uma carta a ser enviada.

Jorge enfrentou com meu pai o pior tempo de suas vidas. No Regimento Sampaio, da Vila Militar do Rio de Janeiro, ficaram meses, cada um numa solitária. Não havia banho de sol. Não havia acesso a nenhuma leitura, qualquer informação. Jogavam xadrez imaginário, gritando de uma cela para a outra. Muitas vezes, perdiam-se nas jogadas e a partida terminava antes de acabar.

Em Vitória, meses antes, no dia 3 de dezembro de 1972, Jorge foi recebido pelos militares com um forte soco no peito dado pelo Coronel do Exército Paulo Malhães, o Dr. Pablo. O golpe o fez voar. O robusto torturador havia viajado da capital fluminense para a capixaba com uma equipe treinada, e uma jiboia enrolada dentro de uma caixa, a mesma usada para torturar a minha mãe. Queria obter informações do franzino jovem de 1,74 metro. Malhães tinha bizarra semelhança física com o ditador iraquiano Saddam Hussein e, em 2014, reconheceu participação em torturas. Foi encontrado morto um mês depois.

Alguns dos militantes da célula do PC do B no Espírito Santo presos após serem delatados. Arquivo pessoal.

Recém-formado em economia, Jorge foi colocado de pé, sem roupas, em uma interminável sessão de choques elétricos. Ele estava em uma ampla sala, com cobertores pendurados em varais improvisados montados pelos militares. Eles estavam ali para que Jorge não visse quem estava por trás. E o sentimento era o de que havia alguém. Quem? Foedes?

Posto nu, Jorge começou a receber as descargas elétricas. Primeiro, nas orelhas. Em seguida, no peito. Depois, no pênis. O jovem de Cachoeiro do Itapemirim, com cabelos nos ombros e bigode, que havia recebido de Foedes o codinome “Onofre” três anos antes, enfrentava com vigor os seus algozes. Mas o bruto espancamento, seguido dos choques elétricos, o fizeram ter uma primeira parada cardíaca. A equipe de Malhães o ressuscitou. Novos choques o fizeram urrar e urinar. Nova parada o fez tombar. A massagem cardíaca que recebeu dos militares foi tão forte que o esterno, osso do peito, quebrou. Jorge, milagrosamente, sobreviveu, para logo enfrentar outras sessões de tortura.

Magdalena, “Mariana”, a estudante de medicina sempre aplicada, estava na casa da também militante do PCdoB, Beth Madeira, no mesmo 3 de dezembro de 1972. Lá, souberam da prisão de três companheiros do partido. Entre eles, Marcelo, o líder da faculdade que elas admiravam. Magdalena fugiu, com Beth, para a casa de amigos em Cariacica, município vizinho a Vitória.

Uma colega mais velha, Graça Cury, já formada em medicina, buscou as duas e as levou para uma casa na Barra do Jucú, balneário no município de Vila Velha. Lá, ficaram escondidas até o dia 20 de dezembro, e ganharam roupas novas.

Naquele dia, tropeçaram por descuido com estudantes conhecidas na rua. Caçadas pelos militares nos bairros de Vitória, temeram uma delação e seguiram para Cachoeiro de Itapemirim.

Um amigo as levou de carro até Campos, no Estado do Rio, de onde seguiram, de ônibus, para a cidade do Rio de Janeiro. “Queríamos fugir, sair do país”, explicou Magdalena. Dividiram-se. Beth seguiu para a casa de parentes. Magdalena viajou com o também militante do grupo comunista de Vitória, o namorado Guilherme Lara Leite, para um sítio de um parente no sul de Minas. Funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID, o tio de Guilherme aconselhou os dois a se entregarem.

Apaixonados, ainda não havia dois meses que Guilherme e Magdalena tinham transado pela primeira vez. A noite de amor começou em um fim de tarde na praia, ao ar livre, e terminou em um quarto escuro de uma república de estudantes. Magdalena perdeu a virgindade e engravidou. Eles se entregaram ao Cenimar no dia 26 de dezembro. “Está grávida”, dizia o registro no fim de sua ficha de qualificação. Magdalena foi recebida com cães que latiam perto de sua cara, sob o comando de “terrorista”. Dia após dia, respondia às mesmas perguntas e recebia as mesmas ameaças.

Com Janaína na barriga, é um excelente exemplo de uma geração que enfrentou os militares, tornando possível o retorno à democracia. Todavia, sofreu as mazelas e a violência do regime.

Ela acabou experimentando um pânico semelhante ao da minha mãe, que esperava por Vladimir. Eram belas e jovens demais. Duas grávidas que, mesmo torturadas, se tornaram fortalezas.


8 2 6.

Após ver as fichas naquele porão do Superior Tribunal Militar, espero a resposta sobre se posso ou não xerocar os cinco volumes que me foram cedidos. Ela custa a chegar. São mais dois meses de ansiedade. Somente quando consigo pegar a xerox dos documentos posso ler calmamente que o inquérito havia sido conduzido pelo major José Maria Alves Pereira. Foi para ele que Foedes deu seu depoimento devastador no dia 7 de dezembro de 1972, formalizando informações dadas nos dias anteriores, que sucederam a sua prisão.

É um registro histórico. Nele, o ex-dirigente do PCdoB delata meu pai e vários outros. Em alguns casos, com nomes. Em outros, codinomes dos camaradas do PCdoB no Espírito Santo. “Lembra ainda o depoente que o responsável inicialmente pelos três bancos da faculdade de medicina era Amorim (Mateus)”.

Leio essas informações pela primeira vez em casa, no meu quarto. Por várias vezes, tenho que parar, recuperar o fôlego e segurar a raiva, que começa a se acumular no estômago, se juntando com anos e anos de dúvidas e perguntas sobre Foedes. A cada trecho da sua delação, sinto aquela bola aumentar dentro de mim e chegar próximo a uma erupção.

As informações de Foedes desmantelaram o partido no Espírito Santo e trouxeram pistas para o serviço de informação militar sobre o comitê central do partido no Rio de Janeiro.

Foedes não escondeu que outros militantes estavam sendo preparados para incorporar a Guerrilha. Um efeito colateral ficou claro. A delação impediu o envio de reforços para o Araguaia, entre eles, meu pai. Os militantes foram presos antes de serem enviados ao norte do país. A morte quase certa esperava por Marcelo, ou “Mateus”, se tivesse ido para o combate. Cerca de 90% dos guerrilheiros foram executados.

Era estranho, um sentimento dúbio. A delação impediu a ida de Mateus para a selva amazônica, mas proporcionou a possibilidade do nascimento de outro Matheus, cinco anos depois. Eu enlouqueço nesse redemoinho enquanto leio o depoimento de Foedes dos Santos.

O dirigente comunista do Espírito Santo revelou um ponto no qual se encontraria com Lincoln Cordeiro Oest, na rua Cupertino, no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro. Aconteceria no dia 20 de dezembro de 1972, às 19 horas. O “Velho”, como Oest era conhecido no Espírito Santo, não sabia que andava em direção ao vale da sombra da morte ao chegar naquele encontro.

Com ele, também tombou João Muniz de Araújo, o César. Os órgãos de segurança divulgaram uma versão falsa de que Oest fora morto em tiroteio ao fugir na hora da prisão no Rio. Na verdade, a morte foi sob tortura. O “Velho” não resistiu ao mesmo tratamento dispensado aos mais jovens.

Oito dias depois, Carlos Danielli caiu quando seguia para um ponto, acompanhado por Amelinha, irmã da guerrilheira Criméia Shimidt, que eu havia conhecido na ida ao Araguaia.

Danielli foi recebido a socos e pontapés pela equipe do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, em São Paulo. Era 28 de dezembro. No terceiro dia de tortura, Danielli gritou, conforme registrado no livro “Operação Araguaia”, dos jornalistas Eumano Silva e Taís Morais: “Eu sei como chegar à Guerrilha. Sei também onde estão Mauricio Grabois e João Amazonas [militantes históricos do PCdoB], mas não vou dizer. Podem continuar”. Danielli enfrentou uma noite impiedosa no último dia do ano. A devoção à causa comunista lhe custou a vida. Morreu sem entregar seus companheiros.

No depoimento de Foedes, os militares registraram dúvidas do militante sobre a justeza dos objetivos do PCdoB. Calculava que a luta armada levaria mais sofrimento aos brasileiros. “[O depoente] acha por exemplo que a guerra revolucionária armada traria maiores sofrimentos ao povo que os atuais sob o desenvolvimento econômico mais lento”. O esquerdista acrescentou: tinha “uma imagem diferente da que tem agora dos militares”.

Os documentos são inegáveis, irrefutáveis. Foedes entregou meus pais, gerou o indiciamento de ao menos uma dezena de militantes do partido no Espírito Santo e a morte de Oest. Como num efeito dominó, gerou a prisão de Danielli. Tudo que tinham me contado sobre ele, após minhas insistentes perguntas, está confirmado no processo. Contudo, uma informação não bate. Consta em seu depoimento que ele foi recebido a “socos e pontapés” pelos militares das Forças Armadas.

Após conseguir os documentos, penso no que fazer com eles. No jornal, lembrava-me de que, coincidentemente, o meu antigo chefe, Eumano Silva, estava de licença para escrever o livro “Operação Araguaia”. Sabia que ele procurava pela informação que eu tinha. Eu poderia escrever uma reportagem sobre aquilo e publicar no jornal em que trabalhava.

Eumano era um chefe generoso. Todo jovem jornalista deveria ter a oportunidade de encontrar um editor desses. Compartilhava informações, ensinava como tratá-las e, principalmente, a escrevê-las com precisão. Enquanto lembro-me dele, penso se eu estaria impedido de fazer a matéria, devido ao envolvimento dos meus pais. Chego à conclusão de que sim.

O melhor a fazer é doar aquilo a alguém que saberá dar o tratamento necessário em um livro. Entrego as nove páginas do depoimento de Foedes a Eumano, em mãos. Também entrego reproduções de pichações feitas corajosamente por minha mãe e outros que desafiavam a ditadura nas ruas de Vitória: “Viva a Guerrilha no Sul do Pará”. Ele sabe a importância do documento e marca uma entrevista com meu pai, que confirma algumas informações.

Eumano seguiu adiante com sua apuração e publicou o livro em 2005. As páginas 375 a 381 registravam detalhadamente dados do depoimento de Foedes. Na sua lista de agradecimentos, na página 604, Eumano honestamente registrou assim: “Matheus Leitão foi o responsável pela descoberta de documentos e fotos relacionados com as prisões no Espírito Santo publicados neste livro”.

Ao ler aquele agradecimento público, sinto pela primeira vez um pequeno alivio naquele anzol que me prende à história dos meus pais. Vem com uma dedicatória assim do autor: “Ao camarada Matheus, a quem tenho sorte de poder chamar de amigo”.

Mas o que Foedes tem a dizer ao verdadeiro camarada Mateus? À companheira Amélia, codinome de minha mãe? Foedes está vivo para enfrentar os familiares daqueles que entregou? Aquelas perguntas ainda me pesam nesta noite, quando cochilo lendo o “Operação Araguaia”.

O retorno ao combate na selva amazônica pelas entrelinhas do livro acalma um desejo por respostas, ao menos por alguns anos. Meus pais estavam registrados no “Operação Araguaia” como haviam me contado desde a pré-adolescência: após serem entregues pelo líder máximo do PCdoB no Espírito Santo. Com efeito, havia ao menos o conforto de um registro histórico.

Contratado pela revista Época, nos anos seguintes, concentrei-me no trabalho de jornalismo investigativo que exercia para a editoria de política, inclusive com reportagens sobre o período do regime militar. As reportagens me faziam voltar à história dos meus pais, como em uma sobre João Carlos Grabois, filho de Criméia — que, assim como meu irmão, Vladimir, foi torturado na barriga da mãe. O título da reportagem acabou sendo uma referência involuntária ao que aconteceu na minha própria família: “Torturado antes de nascer”.

Em 2008, entrei na casa do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Passara dias rondando a casa, visitando a igreja frequentada pelo militar, até que um dia simplesmente bati à porta e pedi uma entrevista. Ele fora o temido comandante do DOI-Codi da rua Tutóia, em São Paulo, o mais conhecido centro de torturas do regime militar. Foi para lá que Criméia foi levada ao ser presa grávida. Foi nesse centro de repressão que Carlos Danielli tombou após três dias de tortura.

A ditadura brasileira ainda tem um manancial de perguntas a serem respondidas. Muitos segredos ainda estão guardados porque os militares da reserva não querem falar, os da ativa os protegem e o país tem tomado a decisão de não enfrentá-los.

E lá estava eu, na sala do mais notório dos torturadores. A Ustra, perguntei o que aconteceu no DOI em São Paulo, onde tantos morreram. Ele negou a participação em torturas, mas disse que Romeu Tuma, delegado do Departamento de Ordem Político e Social, o DOPS, “acompanhou e viveu a situação de violência da época e o trabalho do DOI”.

A declaração foi entregue por ele a mim em um texto de 31 páginas, defesa inédita, à época, de processos civis que respondiam sobre o período. O documento repercutiu em todos os jornais do país. Era a primeira vez que Ustra se colocava publicamente debaixo do guarda-chuva de Tuma, então senador, que morreu dois anos depois sem explicar o significado da declaração do colega.

A caminho da redação, ao sair da casa de Ustra, pedi para o motorista da revista, Sérgio Edvar, encostar o carro, e vomitei. Na Carta da Redação, o diretor da revista, Helio Gurovitz, escreveu publicamente sobre mim: “Para o repórter Matheus Leitão, da sucursal de Brasília, esse capítulo da história brasileira tem um significado especial. Seus pais foram ambos presos políticos. Seu pai foi torturado e passou nove meses numa solitária. Sua mãe foi submetida a torturas grávida do irmão de Matheus. Matheus, naturalmente, desde cedo se interessou pelo assunto. ‘Eu era o único da família que não havia sofrido as marcas da tortura na própria pele’”, disse, registrado por ele no texto. “‘Mas li tudo o que havia sobre o tema desde a adolescência’.”

À medida que avançava em apurações sobre o regime, crescia o meu sentimento de que Foedes precisava ser questionado pelo depoimento dado em Vitória. Eu tinha que ir atrás dele.

Resolvi entrar em um sistema online de cadastro de clientes feito para lojistas, acessado por repórteres que querem localizar pessoas. Era a minha primeira tentativa de encontrá-lo. Antes, precisava conseguir o número do seu título de eleitor e CPF com uma fonte do Tribunal Superior Eleitoral. Ela me respondeu em 24 horas. Título: …1490. O CPF veio depois. Com ele, no cadastro da Receita, descobri, em 2008, que o seu número estava válido.

Daí para achar um endereço dele — caso Foedes tivesse feito uma compra em uma loja brasileira que usava o tal cadastro — era uma questão de tempo.

No dia 28 de junho de 2008, fiz a pesquisa. Digitei 8 2 6 seguidos do restante dos números. O resultado foi positivo. Emocionei-me em frente à tela ao ver que Foedes dos Santos morava em Cariacica. Ele ainda estava por lá e dirigia um Kadett GL cinza em seu nome, placa final 3966.

Mandei um email para os meus pais com o título: “Encontrei ele”. No corpo do texto, escrevi:

“Achei o Foedes. Preciso fazer a matéria ‘o homem que entregou a ponte com a guerrilha’. Rosto na capa. Vou atrás dele no Espírito Santo. Ele tem 67 anos e mora em Cariacica. CPF ativo, de acordo com a investigação. Preciso de tudo que vocês sabem sobre ele. Mesmo ele entregando vocês, acho que existe espaço para eu mesmo fazer a matéria, principalmente depois da carta do Hélio Gurovitz. Do mesmo jeito, sem revanche. O torturador e agora… O delator. Os dois lados da ditadura. Não falem sobre isso ao telefone. Principalmente o nome dele. O mundo de hoje [2008] também é
surtado. Só conversaremos por e-mail sobre o tema, ou, em códigos, ao telefone.”

Começava assim a ideia da minha pauta: “Foedes dos Santos foi o traidor que tornou possível a desarticulação do PCdoB e o isolamento da guerrilha do Araguaia, em 1972. Enquanto o partido se dividia no combate à ditadura entre o campo e a cidade, as Forças Armadas usaram Foedes, um integrante do comitê central, como seu principal informante, para prender, torturar e matar outros importantes dirigentes do PCdoB no Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Dois deles, Lincoln Cordeiro Oest e Carlos Nicolau Danielli, sucumbiram após a delação. Meus pais foram presos pelas informações passadas por ele. Sabemos onde Foedes está, em Cariacica, Grande Vitória, e podemos contar sua história”.

Todavia, hesitei. Era a busca de um passado que não era meu, de uma geração que não era a minha. Era a busca do passado dos meus pais.

Sentia-me um intruso. Um último questionamento perdurava na minha cabeça: se eles não haviam falado publicamente do próprio passado, por que eu deveria fazê-lo?

Esse último questionamento foi resolvido em depoimento dado pela minha mãe ao jornalista Luiz Cláudio Cunha, que o publicou em agosto de 2014 no Observatório da Imprensa. Nele, minha mãe contou que havia feito, sozinha, uma visita ao velho forte militar no qual esteve presa, e falou das torturas.

Com ampla repercussão na mídia brasileira, as fichas encontradas por mim no STM foram divulgadas em sites, jornais e revistas das mais importantes do país, para ilustrar o seu depoimento sobre as mazelas que sofreu grávida, sob tortura.

O escritor irlandês James Joyce, em sua obra prima, “Ulisses”, faz um personagem dizer a certa altura: “A História é um pesadelo do qual a humanidade está tentando acordar”. Era tempo de acordar do nosso.


Uma Ronda Noturna Pelo Passado.

Pousei em Vitória no dia 2 de dezembro de 2014 — o capítulo mais importante de uma busca que eu iniciara muito tempo antes. Como ponto de partida, usaria aquele mesmo endereço que obtivera em 2008. O plano era bater em sua porta no dia seguinte, 3 de dezembro.

Não tinha planejado, mas a data cairia exatamente 42 anos após a prisão e o início da tortura dos meus pais. Eles foram presos num domingo ensolarado, o 3 de dezembro de 1972, enquanto desciam da favela onde moravam, no morro da Fonte Grande, em direção à praia.

Minha mãe vestia a camisa branca larga de homem sobre um biquíni vermelho. Meu pai estava com camisa da mesma cor e bermuda marrom.

Militares armados cercaram os dois, algemaram e os colocaram em um camburão que seguiu para o 38º Batalhão de Infantaria. Antes, minha mãe gritou e chamou a atenção dos vizinhos para que pessoas testemunhassem a prisão. Era uma orientação antiga de Foedes.

Quarenta e dois anos mais tarde, eu seguiria em busca de um encontro com o mesmo Foedes. Ele não sabe que vou. Não sabe que existo. Não sabe que um novo Matheus tentaria cruzar o seu caminho. Eu não sei se ele está vivo, mas, pelas contas, tem 73 anos.

Cheguei na hora do almoço e fui direto para um restaurante perto da casa de uma prima, onde ficaria hospedado nos próximos dias. Uma carne com molho de mostarda, acompanhado de batata assada, foi minha companhia enquanto pensava em como o abordaria no dia seguinte.

Imagem: Eduardo Gomes.

A um quarteirão dali, ajeitava suas malas num quarto de hotel o cineasta Eduardo Gomes, um jovem produtor de Brasília, olhos verdes, cerca de 1,85m, com cabelos grisalhos que escondem um futuro de calvície. Chama mais atenção na rua do que eu. Ele me acompanharia em todo o processo para registrar a tentativa, nos dias seguintes, de encontrar o delator dos meus pais para o BRIO.

A noite chegava aos poucos, enquanto Ivana, minha prima, cozinhava um penne ao molho de limão siciliano com uma carne assada no forno. Tomamos uma garrafa de vinho.

Naquele noite, descobri outra coincidência. Há anos conhecia os pais de Eduardo, jornalistas que trabalharam diariamente com meus pais e meu irmão Vladimir. O pai de Eduardo, o “Carequinha”, era sempre gentil comigo em diversas pautas pelos poderes de Brasília. Sua mãe, Fátima, tinha sido amiga de toda a família antes de falecer, aos 58 anos, em 2012.

Enquanto descobríamos as coincidências, decidimos, eu e Eduardo, passar na porta da casa de Foedes, em Cariacica. Pegamos o carro de Ivana emprestado, um Air Cross 2010, da Citroen, e seguimos 30 quilômetros até a cidade.

No trajeto, que durou 35 minutos, Foedes não foi o assunto principal. Não foi nem assunto. No carro, enquanto eu buscava o passado dos meus pais, não poderia deixar de perguntar para Eduardo sobre o presente. “O que mais você aprendeu com a partida de sua mãe?”. Ele respondeu sem demorar: “Aprendi que temos que ter paciência com os nossos sentimentos. Foi isso que aprendi com a morte. Ela tava lá e um dia, puft, sumiu”, disse.

A frase soou como um profundo conhecimento. Ela ainda ecoava na minha mente quando atravessamos um sinal vermelho. Vitória é uma cidade violenta. À noite, no breu, e com poucas pessoas na rua, não arriscaríamos parar o carro nos semáforos.

Eduardo também queria falar sobre o presente. Enquanto nos perdíamos na procura da rua onde Foedes supostamente morava, ele queria saber como era casar, o que era preciso saber para tomar a decisão.

Lembrei-me de que, no meu caso, foi preciso voltar ao início. Nascido em uma família cristã, sou sobrinho bisneto, sobrinho neto, neto, sobrinho e primo de pastores por parte de mãe. Voltei inconscientemente à raiz para encontrar a pessoa amada.

Flávia, minha mulher, é bisneta, neta, sobrinha e prima de pastores. Quando a encontrei, senti que era um convite — não uma imposição — para voltar àqueles fundamentos. Aceitei. Nossa aproximação, em 2005, foi o primeiro passo para eu crer na existência de Deus. “É preciso voltar à raiz na hora de se casar”, disse a Eduardo, sem ter a certeza de que eu havia tomado a decisão conscientemente.

O curioso foi que, antes de embarcar em busca de Foedes, Flávia me disse que Deus abriria uma porta. Não era usual dela fazer aquilo, como se banaliza, às vezes em igrejas.

O Google Maps do celular de Eduardo apontava que estávamos perto, quando um homem de bicicleta nos viu entrar em uma pequena contramão. Ela nos levou a uma bifurcação com uma placa. Encontramos, finalmente, a rua de Foedes.

“Odonia da Costa Machado Toledo”. Apesar de o endereço que tínhamos apontar o bairro de Santa Bárbara, estávamos, na verdade, na região de São Vicente. A confusão entre o endereço do papel e o do mapa só fazia aumentar a ansiedade. Encontramos o prédio que achávamos ser o dele. Um sobrado, com um terraço em cima, parecia simples e despretensioso, numa região modesta. Mas era bem cuidado e de esquina.

O “apartamento 1”, em nome de Foedes, ficava em cima de um pequeno comércio, com portões amarelos de dobradiças. Tinha uma pequena varanda que sobressaía nele. Passamos cinco vezes em frente a ela, indo e voltando, para ver se havia algum movimento nas janelas. Nenhum. Todas as cortinas cor creme estavam fechadas. Estranhei. Parecia um apartamento deixado por pessoas que viajaram ou de alguém meticuloso o suficiente para colocar todas as cortinas simetricamente iguais antes de dormir.

Decidimos ir embora para não chamar a atenção dos vizinhos. Era tarde e sabíamos que o dia seguinte seria longo. Começamos a voltar para Vitória com a certeza de que o prédio estava correto. O endereço que buscávamos era aquele. Se Foedes morava ali, não sabíamos.

Na volta, lembramo-nos da conversa no trajeto de ida enquanto atravessávamos a ponte Florentino Ávidos, pré-fabricada em aço na Alemanha, que chegou em Vitória em 1927, o inverso do ano de 72 que marcaria a vida dos meus pais para sempre. Foi a primeira ligação da ilha de Vitória ao continente.

Rimos. Será que estávamos sob o efeito colateral de quem, como nos filmes de ficção científica, viaja pelo tempo? Eduardo definiu assim a nossa conversa: “Foi algo”. Algo ainda maior nos surpreenderia no dia seguinte, o 3 de dezembro.


Tudo Isso Não Apaga O Amor Da Gente.

A casa de Ivana estava em silêncio quando entrei pela porta da frente. Com exceção de Francisco, um poodle que me olhava de rabo de olho, todos dormiam. Olhei meus e-mails e, um, da minha mãe, me esperava.

“Você está aí? Espero que não, que esteja dormindo, ressonando. Vou ler mais um pouco. Boa noite meu filho. Ele é homem estranho, esse que você procura. Seu pai disse: “vaidoso”. Eu digo: “dissimulado”. Ele envelheceu com o segredo: por que entregou todo mundo? O que sentiu quando soube que levou pessoas para a morte? Eu nunca gostei dele. Cisma. Ele nunca gostou de mim. Peço a Deus que você consiga contar sua história. Segue seu instinto”.

Respondi que a amava muito e lembrei-me, na resposta, de Fátima, mãe de Eduardo. Ao entrar na cozinha para pegar um copo d’água, no entanto, encontrei minha tia Jane, mãe de Ivana, lavando a louça do jantar. Jane não queria acordar a filha, que estava no início da gravidez de um menino. Me chamou para dentro e fechou a porta.

Era outra coincidência a presença dela ali. Acabava de voltar de um período sabático no exterior. Não havia combinado aquele encontro ou até uma entrevista, mas Jane tinha acompanhado de perto a dor dos meus pais nos anos de 1970. Jane e meu tio Cláudio foram morar com minha mãe quando ela teve que retomar o trabalho em Vitória após o nascimento do Vladimir e meu pai ainda estava preso. Quando ele saiu da prisão, os dois casais moraram juntos por um tempo.

Àquela altura, ela já sabia porque eu estava em Vitória. Intrigada com a nossa ida a Cariacica, perguntou como havia sido. Detalhei a ida. Jane não rodeou muito. “É preciso se colocar no lugar do outro, Matheus. Sempre faço isso. Penso: sou uma mulher formada. Mas e os meus filhos, como eles lidariam com determinadas situações?”.

Jane estava emocionada ao lembrar do passado. “Aquele tempo foi muito difícil. Quando seu pai saiu da prisão, da solitária, estava acabado. Encontrou a sua mãe tentando se reerguer da tortura com um filho recém-nascido”. Jane e Cláudio tinham um filho da idade de Vladimir. Pedro nasceu 15 dias antes do meu irmão. Moravam todos em um quarto e sala nos fundos de uma casa na Praia do Canto.

Desempregado, meu pai ficou responsável por ajudar Jane, que, até então, cuidava sozinha dos dois bebês. Meu tio fazia sapatos e vendia os pares numa feira e minha mãe trabalhava como repórter em dois empregos, na rádio Espírito Santo e na Tribuna. Cláudio ingressaria mais tarde no MR-8, outra organização de esquerda contra a ditadura.

Jane lembrou de cartas escritas pelo meu pai na prisão que faziam minha mãe chorar. Elas chegavam dobradinhas parecendo uma sanfona para serem levadas para fora da prisão. Houve uma em que Jane viu minha mãe soluçar ao ler. Era uma coisa de que ele gostava de fazer na prisão: escrever.

As cartas se perderam em alguma das várias mudanças da minha mãe. Recuperei duas com uma amiga da época, Beth Madeira. Como líder estudantil da universidade, o companheiro Mateus escrevia para os seus liderados.

Carta escrita pelo meu pai enquanto esteve preso. Arquivo pessoal.

Carta escrita pelo meu pai, enquanto esteve preso. Arquivo pessoal.

“Pessoal, num adianta, vocês vão ver quando a gente se ver. Não adianta a distância, o tempo, tudo isso não apaga o amor da gente. Não adianta não, já falei não adianta. Olha, um dia eles [os militares] vão cansar e vão dar um chute na bunda da gente e vou dar um abraço, sem choro, no Tião, no Guilherme, e bater na barriga e falar é isso aí. Naquelas coisas fofas que são essas amigas da gente. Eu não sei não. O, desgrama, a Beth, a Magdalena, Sandra. Adoro ocês. É uma ruindade da peste isso tudo, mas não tem nada. A bruxa teve aqui hoje, me levou e me trouxe. To junto com ocês sempre e já nem ligo mais disso tudo. Tive a oportunidade de olhar o mar, a cidade e pensei: sou forte, jovem, num to doente, e pensei por que isso tudo? E tive uma pena grande e chorei pela nossa geração. Liberdade, onde tá ocê liberdade. Pessoal que amo, onde estão? Um dia a gente vai sair daqui e, eu não sei, vai dar muita gente diferente. Não sei se vão me deixar mais estudar medicina e tenho medo de não poder mais curar as dores como o mozinho [referindo-se à minha mãe] gosta. Mas não tem nada e vai ver a gente faz outra coisa. Arranja trabalho, um barraco e deixa o barco andar? Dizem que é difícil remar contra a maré? Pois é, pois é….”

Acompanhada de um desenho de Charlie Brown encostado com a cabeça em uma palmeira, a carta era profética sobre o futuro daquele grupo de Vitória. O companheiro Mateus saiu da prisão e encontrou a mulher e os cunhados tentando seguir com a vida. Taxado como “subversivo”, foi punido novamente pela ditadura com o Decreto-lei nº 477. A pena foi aplicada pelo ministro da Educação da época, Coronel Jarbas Passarinho. No final do quarto ano de medicina, foi expulso e proibido de estudar. Seria obrigado a ficar três anos sem cursar a universidade. E, ao voltar, teria que refazer dois anos.

O sonho de ser médico estava cada vez mais distante. Introvertido, meu pai falava pouco sobre os meses na prisão. Passava a maior parte do tempo com as crianças. Até hoje brinca com meu irmão e primo. “Limpei muito vocês, cagavam para cacete. Davam muito trabalho.” Nos primeiros meses de vida, sem saber, Vladimir e Pedro fizeram muito bem àquela cabeça.


3 De Dezembro.

Acordei um pouco mais tarde no dia seguinte, umas 9h. Tinha dormido pouco, mas aquele sono profundo que verdadeiramente descansa. A casa estava vazia. Nem Francisco, o cão, estava lá para me fazer companhia. Apenas um bilhete no qual minha prima e minha tia explicavam que tinham partido para Caratinga, interior de Minas Gerais. Cidade natal de minha mãe, foi para lá que ela foi após deixar a prisão para poder se recuperar por alguns dias e se preparar para o nascimento de Vladimir. Pesava apenas 39 quilos quando deixou o cárcere, mas logo voltou a Vitória e retomou o trabalho na rádio Espírito Santo.

Naquele dia, continuaríamos a busca de táxi. Fiz um sanduíche com peito de peru e uma vitamina com as frutas que encontrei na cozinha.

Saímos em busca de Foedes. O taxista, Mauro Ângelo Costa, ouvia atentamente a nossa conversa sobre 1972 e a ida no dia anterior à casa do ex militante comunista.

Eu dizia a Eduardo: “São muitas as coincidências. Parece que realmente eu tenho que ir atrás dessa história. Me sinto até empurrado para ela agora. Não armei de fazer uma entrevista com a minha tia, não sabia que você, Eduardo, estaria aqui. Parece que tem algo no controle”.

- Será que esse cara está vivo? — perguntei a Eduardo.

- Espero que sim. Você acha que não? — retrucou ele.

- Acho que sim.

Eduardo tinha uma estratégia: pedir para o Mauro parar um pouco distante, enquanto eu ia bater à porta de Foedes. “Espero que não seja para bater em uma porta vazia”, respondi, enquanto o táxi se aproximava devagar da rua Odonia Toledo.

Uma porca bem grande, com pelo marrom e tetas penduradas como as de um animal que tinha parido recentemente, passou andando devagar, mas despreocupada com o movimento dos carros, tirando a nossa atenção. Era gigante a porca. Mauro encostou distante o suficiente para sermos discretos, mas em um ponto que pudéssemos ver o sobrado. As cortinas estavam iguais, todas fechadas e na mesma posição. Reparei bem para ver se existia alguma diferença com o dia anterior. “Meu irmão, não é possível. Não tem ninguém na casa. Ele não mexeu nas cortinas”. Já eram mais de 10 horas da manhã. O sol já forte não deixava dúvidas: ou o dono daquele sobrado ainda dormia ou estava em viagem.

Os passarinhos cantavam em volume alto quando eu olhei a uma distância de 50 metros da porta. O que não tinha percebido na noite anterior era fácil de registrar durante o dia, com o sol quase a pino. O portão amarelo de dobradiça do comércio abaixo, que permanecia estranhamente fechado até aquela hora, tinha sido recém pintado. Uma placa meio improvisada dizia: “Aluga-se”.

“E aí, está nervoso?”, perguntou Eduardo. “Um pouco”, disse, sentindo meu coração mais acelerado que o normal. “Acho que eu vou lá”. “Vai. Boa sorte”, disse.

Dei 49 passos até a porta de Foedes, com um microfone sem fio preso à roupa. Passei por uma obra no meio da rua, onde homens trabalhavam com britadeiras. Toquei o interfone pausadamente, uma, duas, três, quatro, cinco vezes… Ninguém atendeu.

Percebi enquanto andava até a porta do apartamento, uma oficina de carros. “Onde será melhor perguntar? Tem uma oficina. Aquela casa ali…”. “Em todas elas”, respondeu Eduardo, que já se aproximara. A oficina foi o primeiro lugar.

- Fala amigão, bom dia! O senhor conhece a pessoa que mora naquela casa ali?

- Qual? Naquele prédio? Rapaz, eu não conheço. Quase não vejo ninguém ali. Na realidade, eu acho que nunca vi ninguém nessa varanda.

Wanderson, dono da mecânica, um homem de aproximadamente 35 anos, vestia um macacão azul sujo de graxa. Perguntei sobre o comércio.

- Olha, já funcionou. Mas tem uns cinco meses que não funciona mais nada. Era um negócio lá: uma lanchonete, Cantinho da Roça, disse o mecânico.

Saímos em direção a uma casa vizinha. “Será que eu nunca vou encontrar esse cara?”, perguntei em voz alta.

Bati palmas em frente a um portão branco enferrujado ao lado do prédio de Foedes, mas na outra banda da rua. Não tinha muita esperança àquela altura. Tirei os óculos escuros do rosto para ficar mais amigável. O número de motos que passava pela rua era grande naquele horário. Uma atrás da outra.

- Bom dia. Desculpe incomodar. Qual o nome da senhora?

Isabel, uma mulher de mais de 50 anos, usava óculos de grau e tinha os cabelos pintados de ruivo, presos por uma liga.

- Podemos conversar rapidinho? A senhora conhece a pessoa que já morou ali? — disse, olhando e apontando para o apartamento do outro lado da rua em cima do comércio fechado.

- Aqui é um pessoal, mas eles estão num sítio lá em Santa Maria de Jetibá. Eles têm um sítio pra lá. Como é o nome do lugar, meu Deus… Garrafão.

- Garrafão? Mas é aqui no Espírito Santo?

- É, é — respondeu Isabel.

- É perto daqui?

- Pertinho, pertinho, não é não. É lá para cima, para as terras frias.

- Nós estamos falando dessa casa — apontei de novo.

- É, esse prédio aí. Seu Edson… Foedson é o nome dele, disse ela.

- Ah, é Foedson?

Lembrei imediatamente que os arquivos militares que conseguira registravam alguns codinomes para Foedes. Edson era um deles. Mas “Foedson” era a mistura do nome com um dos codinomes.

Perguntei a Isabel se ela conhecia “Foedson”. Não só o conhecia, como elogiou. “Nós não pode (sic) reclamar deles não”, explicando que o homem que eu procurava era casado com uma mulher chamada Virgínia e tinha um filho, Cláudio, que morava lá no Garrafão.

Tentei obter mais informações, como um telefone de contato, mas sem sucesso.

- Meus pais conheceram ele há muitos anos, na década de 70. Por isso que eu estou procurando por ele. A senhora sabe de alguém aqui perto que teria mais informações sobre o sítio? Ou a senhora é a pessoa mais…

- Não. Não acho que tenha mais ninguém. Ele é um homem meio trancado. Não é de se abrir muito não. Ele é um senhor de idade. Meio isolado. E está doente também. Está fazendo tratamento. Ele custou muito a fazer amizade com a gente porque ele é na dele, sabe?

Foedes estava vivo. Era uma certeza, não mais suposição.

Andei até o outro lado da rua com o intuito de tentar mais informações sobre Foedes, ou “Foedson”. Atrás do terreno do ex-dirigente do PCdoB tinha uma casa de apenas um andar. O muro tinha azulejos marrons, uma parte pintada de verde e uma grade cravada na parte de cima do paredão. Um portão cinza, alto, fazia divisa com outra casa. Passei os próximos minutos batendo palmas, gritando “bom dia” ou “tem alguém em casa?”. Tentava ser mais alto que as motos que transitavam na rua e os passarinhos que cantavam nas árvores… até que um Ford Fiesta preto encostou. Dele, saiu um rapaz magro, alto, com 1,85m, cabelo cortado no estilo moicano, de aproximadamente 35 anos. Franklin Erlacher se apresentou.

Perguntei se ele conhecia o pessoal da casa ao lado.

- Rapaz, eu conheço, mas não tenho intimidade não. Faz muitos anos tivemos umas desavenças com ele.

- É mesmo? O que houve?

- Discussão de vizinho. Tínhamos um pé de abacate que dava muita [fruta]. Ele colocou um negócio de óleo queimado lá em cima e matou o pé de abacate. Tem mais de 20 anos já.

- Desde o abacate, vocês ficaram distantes… Ele matou o pé de abacate?

- Matou. Cachorro meu ficava aí do lado, ele jogava chumbinho. Covarde.

Franklin Erlacher fala sobre Foedes, seu vizinho. Imagem: Eduardo Gomes.

Fiquei espantado com a informação. Perguntei se ele tinha certeza daquilo.

- O do abacate eu tenho certeza. O do cachorro… era de raça, ficava latindo no quintal, amanheceu duro de um dia para a noite… mas não sei — disse Franklin.

Como ele disse que conhecia bem o Cláudio, filho de Foedes, perguntei se ele tinha o telefone de algum deles. Mas, de novo, recebi resposta negativa. Franklin apontou para uma casa azul ao lado da do ex-comunista.

Nela, mora Alcântara, homem que, segundo Franklin, tinha comprado uma casa de Foedes. Seguimos para lá. A casa não tinha campainha e voltei a bater palmas. Alcântara apareceu logo, mas não queria muita conversa. Parecia bem desconfiado. Era atarracado e tinha mais de 40 anos. Perguntei sobre o Edson. Ele disse que não sabia e não tinha contato. Mas contou que Virgínia, mulher de Foedes, às vezes, trabalhava para o vizinho da frente. Decidimos bater lá. Mas era o último que abordaria. Se não conseguisse mais informações, ia para a região do Garrafão tentar encontrá-lo.

Toquei o interfone da casa, mas fui interrompido por um outro vizinho, já curioso com a nossa presença. José Geraldo chegou andando e explicou que conhecia Edson, mas não tinha relação com ele. “Eu briguei com ele. Ou ele brigou comigo. Não sei. Faz tantos anos”.

Perguntei se sabia onde ele estava. “Não sei, mas se soubesse entregava. A minha consciência está tranquila. A dele não sei. O cara é meio esquisito”.

José Geraldo era baixo, atarracado, 60 anos, usava bermuda marrom, camiseta branca e chinelo. Carregava uma sacola. Por um momento, pensei ser o Foedes se passando por um vizinho para saber o que queríamos.

Ele disse que, se alguém soubesse o endereço do sítio, era Agenor, dono da casa aonde a mulher de Foedes trabalhava. Esperei mais de 10 minutos.

Um senhor simpático, grisalho, de bigode e olhos azuis abriu a porta. Perguntei para Agenor sobre Virgínia, se ele tinha o telefone.

Todos estavam cabreiros. Agenor voltou cinco minutos depois com um telefone fixo. Pedi um celular. Ele disse que não tinha. Tinha a impressão, mas só a impressão, de que Agenor havia ligado para ele, avisando que o procurávamos. Retomei a conversa:

- Talvez, você não queira dar o telefone. Chega um doido na sua porta e pede um telefone de um vizinho.

- Não é que eu não queira dar. Ele é sistemático — disse, explicando que gostava dele.

Voltamos caminhando para o táxi e percebemos que os vizinhos estavam na porta de suas casas. A maioria olhava para nós. A rua Odonia da Costa Toledo virou um furdunço por nossa causa.

Mauro, o taxista, explicou que a região do Garrafão era mais ou menos a 2 horas de carro de onde estávamos, subindo a serra. Eu e Eduardo conversamos. “A gente pode voltar aqui amanhã e, se ele não estiver, vamos para o Garrafão”, disse Eduardo. “Não”, respondi. “Vamos lá hoje. Esse pessoal vai avisar. Melhor a gente ir logo. Vamos resolver esse trem de uma vez”. Não era mais tempo de hesitar.


A Ovelha Segue O Pastor.

Almoçamos e seguimos viagem no carro de Ivana. Pouco mais de 150 quilômetros nos separavam de São João do Garrafão, vilarejo que era distrito do município de Santa Maria de Jetibá, cravado a quase mil metros de altitude na região serrana do Estado.

O sítio da família de Foedes estava escondido em algum lugar daquela região, uma cercania grande o bastante para nos despistar. Teríamos que bater de porta em porta para encontrá-lo.

Não me sentia bem. Com a sinuosidade da estrada, me recostei como pude no banco do passageiro, enjoado. Precisava parar um pouco. Molhei o rosto, o cabelo, engoli um Dramin e tomei refrigerante, antes de ir olhar o rio Santa Maria. Sentei e vi águas turvas, em um tom marrom claro, que desciam da região serrana antes de virar à esquerda e sumir em direção à sua foz, na baia de Vitória.

A estrada passava devagar e o meu enjoo ficava encruado. Assim que melhorasse um pouco, precisava dirigir, o melhor remédio para estancar o mal estar. Entrei guiando o carro na cidade de Santa Leopoldina, distante ainda 61 quilômetros do Garrafão.

A partir dali, começamos a perguntar, quando parávamos, se funcionários de postos e lanchonetes conheciam um senhor chamado Foedes, ou Edson, com uma esposa Virgínia e um filho Cláudio. Eles mostravam surpresa em ver dois homens procurando por um sítio sem ter o endereço. “O Garrafão ainda fica longe. Segue adiante”.

Não sabia se mais adiante haveria sinal para telefone. Enviei um e-mail às 18h04 para o meu pai, minha mãe e o Vladimir.

“Estou em Santa Maria de Jetibá, perto do sítio do Foedes, que está vivo. Só para vocês saberem onde estou. Vou entrar no mato agora em busca do sítio. Celular pode ficar fora. Amo vocês”.

Na verdade, o horário era o que mais me preocupava naquele momento. Não queria encontrar Foedes à noite, 42 anos depois do ocorrido, sem sinal de celular, com perguntas que, digamos, não seriam exatamente agradáveis.

Faltavam sete minutos para chegarmos ao Garrafão, marcava o GPS que havíamos colado com fita adesiva no vidro do carro, quando minha mãe enviou a resposta. “Vai com Deus. Tome cuidado. Esse homem não tem limites”.

“Esse homem não tem limites? Caralho!”, disse Eduardo, ainda mais nervoso. Assustei-me com sua reação, enquanto prestava atenção na rodovia, cada vez mais campesina.

A pista recém-asfaltada transformou-se em uma descida íngreme, mão e contramão. À esquerda, uma plantação de eucaliptos escondia as pequenas estradas de terra que nasciam do asfalto principal. Uma casa azul e branca parecia vazia, e o sol começava a ser tapado por poucas nuvens baixas no horizonte, quando vimos, do lado direito, uma igreja luterana. “Pastor e padre conhecem tudo”, eu disse a Eduardo. Dei a seta e encostei o carro na primeira vaga que encontramos.

O primeiro movimento no vilarejo foi usar o banheiro da igreja, lavar o rosto e tentar melhorar a face marcada pela ansiedade. No banheiro, um homem nos explicou que já estávamos em Garrafão e que o nome do pastor era Geraldo. Sobre Edson, nada. Não conhecia.

Uma fiel nos indicou um Gol branco onde estava o pastor. O carro já manobrava para sair do terreno da igreja. Virei para Eduardo e disse: “Vamos atrás dele?”. Corremos de volta ao carro e saímos em busca do pastor Geraldo. Entramos numa estrada de terra, na qual achávamos que o Gol branco tinha seguido. Estávamos enganados.

Encontramos um morador da região. Um homem simples, grisalho e gordo. Ao questionarmos sobre o pastor, ele disse para voltarmos “à BR” e seguirmos nela porque o religioso acompanhava outra igreja mais à frente na estrada, “há uns dez minutos daqui”. Perguntamos sobre Edson e o sítio do filho Cláudio. “A gente não conhece todo mundo aqui na região”, disse.

Enquanto o sol baixava mais um pouco, Eduardo brincou: “Qual foi a última vez que você correu atrás de um pastor?”. “Já corri muito atrás de pastor nessa vida”, respondi, arrancando risos de Eduardo, que ainda buscava disfarçar a tensão.

Andamos mais dez minutos e encontramos uma placa: “Bem-vindo a São João do Garrafão”. No caminho, cruzamos com duas mulheres bem pomeranas em um Gol, também branco, como o do pastor. Não sabiam nada sobre o pastor Geraldo. “A igreja luterana é mais à frente”.

Vimos uma farmácia e pensamos que poderíamos buscar informações lá. Quando aceleramos o carro, o Gol branco com as duas pomeranas encostou do nosso lado novamente: “A igreja é ali, ó”, disse uma delas, apontando para um morro. Já sem esperança, depois de perguntar para mais de 30 pessoas sobre o Edson, resolvi fazer a mesma pergunta às duas moças. Uma delas respondeu.

- Você não conhece nenhum Cláudio, que tem um sítio aqui perto? Filho da Virginia e do seu Edson….

- Ah, sim conheço. Cláudio… conheço sim.

Ajeitei o meu corpo na cadeira do motorista e perguntei:

- Filho da Virgínia e do Edson?

- Sim. Um senhor baixo. O Cláudio mora aqui. O pai dele também está com ele na cidade.

- Onde é que o Cláudio mora?

A resposta veio em forma de uma indicação mais confusa que GPS perdido. Respirava pausadamente naquele momento por ter finalmente encontrado uma luz.

- Se você quiser me seguir, estou indo para casa agora. Aí, de lá, te mostro onde é.

As moças saíram e Eduardo soltou mais um “caralho”. “A ovelha que segue o pastor…”, disse a ele, “encontra o caminho”, pensei. Estava nervoso.

“Inacreditável. Inacreditável. Inacreditável. Inacreditável!”, disse para Eduardo. Não poderiam existir dois Cláudios, filho de um Edson e uma Virgínia, em São João do Garrafão. “Encontramos as pomeranas duas vezes. Quando ela falou que conhecia, não acreditei. Sério. Já tava cabreiro. Esse cara se entoca, não conversa com ninguém. Não tem como encontrá-lo. Acabou”. Era o que tinha pensado.

Dirigi mais cinco minutos atrás do carro delas. A mulher loira que dirigia abriu a janela.

- Eu paro aqui agora. Você vai pegar a estrada de chão, subir o morro e descer. Na descida tem uma ponte e uma escola, a Rio Taquara, aí você vai entrar e chegar numa casa perto de uma lagoa, onde tem um monte de lâmpada acesa. Aí [ela riu], é bem complicado chegar lá. Mas você pergunta. Logo ali ele mora. Uns dois, três quilômetros daqui. Você vai achar.

Comecei a contar a distância pelo marcador de quilometragem do carro. Um avermelhado começava a tomar conta do horizonte, enquanto avançávamos pela estrada que cortava uma paisagem lindíssima. A beleza, no entanto, servia de contraste para um cenário muito mais próximo ao de um filme de suspense. O sinal do meu celular desapareceu.

- Vamos chegar lá à noite — eu disse em voz alta. — Deus, guarde a nossa vida.

“É”, respondeu Eduardo. “É aqui a porra da escola?“.

Não era. Tínhamos andado apenas 500 metros. Eduardo riu. Estávamos tensos, mas seguimos em frente. Ao virarmos uma curva na estrada de terra, uma cena inesperada nos chamou atenção. Uma parte da floresta daquela região estava pegando fogo. O sol começava a se pôr.

- Caralho. Estamos chegando em Mordor — disse Eduardo, numa alusão ao filme Senhor dos Anéis.

Encosta pega fogo poucos quilômetros antes do sítio do filho de Foedes. Imagem: Eduardo Gomes.

Avistei a escola Pluridoscente e o rio Taquara. Algumas vacas em pé e deitadas, com o fogo ao fundo, tornavam o cenário ainda mais cinematográfico. Paramos o carro por mais de dois minutos para vê-lo.

- Aventura — disse Eduardo. “É uma viagem chegar na casa do cara à noite”, falei. “Imagina se você tá em casa a essa hora, numa quarta-feira, e chega uma pessoa com o papo brabo que eu vou chegar”.

Não demorou muito e Eduardo avistou uma casinha com umas lâmpadas e uma lagoa. “Está muito creepy isso aqui”, disse Eduardo. Pedimos informações para dois jovens, os únicos na estrada de terra. Sim, a casa de Foedes era logo ali.

“E aí, tá nervoso?”, perguntou Eduardo. “Estou”, disse. E contei a história da passagem bíblica que narra que Jesus, mais perto da cruz, disse a Deus: “Pai, se possível, afasta de mim esse cálice, contudo, que seja feita a sua vontade, não a minha”. “Essa é a minha oração agora”, disse para o filmmaker. Eduardo soltou novamente um “caralho”. A oração parecia deixá-lo mais nervoso. Chegamos em um sítio com uma casa de dois andares pintada de verde. Um carro estava estacionado na frente. Eduardo iluminou com uma lanterna exatamente na placa, que registrava “Cariacica”. Era ali.


Um Café.

O coração batia forte. Imediatamente, um homem de uns 40 anos, bem claro, de olhos verdes, saiu na já escurecida varanda. Vestia uma camisa verde escura, com palavras em branco e azul, “the original trade mark”, e bermuda verde claro. Barba bem feita, traços leves e um olhar firme.

Dois caras chegando àquela hora em um terreno de um sítio isolado quase no breu como aquele não passariam desapercebidos. Mas ele parecia, naquele momento, menos amedrontador do que se revelaria a partir do tom que adotou em nossa primeira conversa. Sem pensar, gritei:

- Oba, amigo, bão? É o Cláudio?

- Sim

- Posso encostar o carro para a gente conversar rapidinho?

- Pode.

Fechamos a janela e pude ouvir um “vou contigo, tá? ”, deEduardo.

Saí do carro.

- Desculpe incomodar a essa hora. Já vou te pedindo desculpas. O seu pai é o Foedes e a sua mãe Virginia?

Cláudio, filho de Foedes, pergunta o objetivo da minha visita. Imagem: Eduardo Gomes.

- Por quê? Qual o problema? — respondeu Cláudio, em um tom desafiador, a cerca de três passos de mim, ainda dentro da varanda.

- Não tem problema, não. Sou um pesquisador da ditadura. Queria dar uma palavrinha com Foedes sobre o período.

Surpreso, ele perguntou como descobri que ele estava ali, naquele refúgio na serra. Expliquei brevemente nossa incursão na rua Odonia Toledo, e, como resposta, recebi um aviso: “Não sei se ele vai gostar muito de falar dessa época”.

- Como é o nome do senhor?

- Matheus.

- Só Matheus?

- Matheus.

- Só Matheus? — insistiu.

- Matheus Leitão Netto.

- Você tem um rosto familiar.

- É mesmo? Pareço com alguém?

- Parece. Não estou conseguindo atinar — e pediu licença para pegar uma sandália para chamar o pai na outra casa do terreno, mais abaixo.

O barulho de sapos, mosquitos e cigarras estava forte naquele momento. Era a nossa trilha sonora na tensão. A pouca luz, e o escuro da roça, complementavam o ambiente.

Cláudio voltou de sandália, ainda parecendo desconfiado.

- Qual a finalidade dessa conversa? — perguntou, parecendo ignorar o que eu havia dito sobre o regime militar.

- Sou um pesquisador da ditadura e os meus pais conheceram o seu.

Não deu tempo de ele dizer mais nada. Naquele momento, Foedes dos Santos surgiu do escuro. Com barba e cabelos brancos espessos, ele vestia um conjunto moletom azul escuro e chinelos. Tinha o jeito de um avô. Aos 73 anos, chegou de cabeça baixa, olhando cuidadosamente onde pisava, mas andando sem maiores dificuldades. Parecia calmo, sem medo, mas desconfiado. A um metro e meio de mim, tossiu duas vezes, e levantou a cabeça. Olhou nos meus olhos fixamente.

Era ele. Reconheci pela foto da prisão na década de 1970.

Cláudio interrompeu para explicar a tosse do pai: “Tá todo mundo ruim. Minha mãe deu pneumonia, meu filho de um aninho também está [doente]”.

Só consegui dizer uma palavra: “Foedes?”.

- Sim.

Foedes dos Santos, aos 73 anos, na sala do sítio de sua família, no interior do Espírito Santo. Imagem: Eduardo Gomes.

-Como é que vai? Será que a gente pode conversar rapidinho? — perguntei, enquanto Eduardo, um pouco mais atrás, tentava filmar tudo com o máximo de discrição.

Fui até ele, sem apertar sua mão. Cláudio ofereceu sua casa maior, que tinha com a esposa e o pequeno filho Gabriel, neto de Foedes. A varanda verde foi se transformando em uma pequena sala azul à medida que entramos no ambiente. Gabriel estava deitado em um colchão no chão em frente a uma TV. Era loiro, bonito e risonho. Fiz uma brincadeira com ele.

A esposa de Cláudio explicou que o menino estava jantando e que, por isso, tinha a boca cheia de feijão. Ele não reclamou quando o tiraram da sala, que se transformou no tão esperado local da entrevista. Dois sofás vermelhos compunham o ambiente. Aquele homem que eu procurava há tanto tempo puxou uma cadeira de ferro branca com encosto azul e sentou. A porta aberta de um quarto servia de varal para uma toalha branca molhada.

“Cláudio”, chamei atenção, “obrigado por nos receber a essa hora”. Ele respondeu, cordial: “Não, que isso. Fique à vontade”.

Foedes entrou na conversa. “Mas e aí?”, disse, novamente olhando nos meus olhos.

Apesar de debilitado por problemas de saúde, um câncer, mostrava-se ainda forte. “Sou um pesquisador desse período da ditadura. O senhor militou no partido comunista, não é isso?”.

Foedes fez que sim com a cabeça. A entrevista (ou conversa, ou acerto de contas) começava.

- Como é que foi que o senhor entrou para o partido? Eu estou contando uma história da época e queria saber como entrou para o PCdoB?

- O senhor é o quê? Jornalista?

- Sou. Jornalista e pesquisador…

Cláudio me interrompeu, com uma lembrança que poderia me colocar em apuros:

- Atinei quem o seu rosto me lembra. Miriam Leitão. Você é parente dela, né? Filho dela, né?

- Sou.

Foedes voltou à conversa, mostrando-se surpreso:

- Eu li uma entrevista dela recente na Gazeta.

- Quando? Sobre o período da ditadura?.

- Sim.

- O senhor conheceu ela?

- Conheci.

- E o meu pai? Marcelo, codinome Mateus?

- Também.

- Meu nome é Matheus por causa desse codinome, como o senhor sabe… É uma longa história.


“Eu Já Estava Te Esperando”.

O ambiente era de muita tensão. Resolvi ser o jornalista, e não apenas o filho. Resumo a partir daqui essa entrevista para o BRIO:

Matheus — Eu estava querendo entender algumas coisas, inclusive como é que foi aquele período da prisão?

Foedes — Foi uma consequência natural. A ditadura escondia inclusive a vida pregressa que a gente tinha. Não tinha força contra a ditadura, principalmente se não tivesse amparo social. Eles faziam tudo pra lançar o cara na sarjeta, e foi o que eles fizeram comigo. Você vê que na minha história não consta minha origem.

Como assim?

Assim, a minha origem, como eu cheguei no partido, o que eu fazia antes. Me colocaram como lúmpen, como um desocupado, um marginal, mas eu era funcionário público.

De onde?

Da prefeitura de Colatina, nomeado inclusive. Ali, se não me engano, passei oito anos como funcionário da Prefeitura. Cheguei até a requerer minha estabilidade porque, de acordo com a Constituição da própria ditadura, eram considerados estáveis todos os funcionários que contassem cinco anos até aquela data da promulgação da Constituição. E eu tinha mais de cinco anos, né? Quando eu fui preso, eles me apresentaram como um desocupado, sem profissão, pegaram minha carteira de trabalho e rasgaram. Todos os meus documentos foram destruídos.

Como é que foi o dia da prisão? Você lembra o dia exato?

Lembro. Eu tinha transferido a imprensa do partido porque aparelho nós não tínhamos. A gente se reunia no mato mesmo, era mais seguro do que se reunir em apartamento de simpatizantes.

O senhor era do comando regional, não é?

É, eu era o responsável maior no Espírito Santo.

E como é que o senhor conheceu o pessoal do PCdoB?

Eu fui procurado por elementos do partido, à medida que eu apresentei combatividade e luta. Isso é uma coisa que acontece naturalmente.

Quando o senhor diz que foi procurado, só pra entender, foi
o Lincoln Cordeiro Oest?

Não. O pessoal do central não descia a esse nível. Eles mandavam alguém fazer, naturalmente. Quem me dava assistência era um quadro profissional do partido, um nordestino chamado Roberto Carlos. Se tornou, inclusive, muito meu amigo. Roberto Carlos teve um desaparecimento também inexplicável, nem o comitê central conseguia explicar o desaparecimento dele, nem a ditadura publicou qualquer coisa a respeito e até mesmo aquele livro “Operação Araguaia” não sabe…

E esse ano que o senhor começa a entrar no partido, que ano era?

Foi 66. Eu fui elevado à posição de dirigente em 67.

Posso te mostrar umas fotos? Conhece esse senhor aí? [Entreguei sua ficha de qualificação, na qual ele aparece em fotos, de frente e de lado. As mesmas que tinha visto no STM]

Era só isso que você queria me mostrar? Por quê?

É o senhor?

Você queria me mostrar por quê?

Eu quero te mostrar o processo todo. Posso te mostrar?

Não precisa.

Não precisa?

Não, não há necessidade. Pode perguntar que eu te respondo.

Enfim, eu estava querendo te mostrar pra tentar te levar ao dia da prisão. Como é que foi a prisão em 72.

Como dirigente regional, quem imprimia “A Classe Operária” era eu. Nós tínhamos muitas carências, uma delas era a imprensa. Pra conseguir o mimeógrafo, tivemos que roubar um do colégio de Alto Laje.

Nós quem?

Naquele dia, fui eu e o Iran Caetano (outra liderança partidária do PC do B capixaba). Ninguém mais do partido ficou sabendo. Não era do interesse de ninguém. A imprensa inicialmente ficou na casa do Iran. O Iran alugou uma casa [com] um cômodo em separado, com sanitário, pia e uma saleta. Muito bem feito, com laje e tudo. Estava a nossa imprensa ali. A Ângela [mulher de Iran] militava lá na Faculdade de Filosofia, de Medicina. [Tive medo de eles serem] seguidos e descobrirem a imprensa. Aí eu cometi um erro e levei a imprensa pra minha casa, que não passava da moradia de um proletário, porque, naquele tempo, um salário mínimo era 100 reais. Era o que o partido me dava todo mês. E eu estava por conta do partido. O dinheiro que a gente recolhia era muito pouco. Era mais pra rodar imprensa, pagar passagem de ônibus pra lá e pra cá, aquele negócio todo. A minha casa era um barraco de tábua, calafetado com reguinhas, num loteamento recém-começado lá no bairro Canaã. Luz elétrica não existia lá, mas, como o mimeógrafo também era manual, eu rodava ele. Não comuniquei a ninguém que eu o transferi, só o Iran ficou sabendo.

Mas qual erro que você cometeu?

Então, o erro foi esse. Porque lá na casa do Iran a imprensa estava mais segura. Acontece que um cara que trabalhou na minha formação política, o Arlindo Sperandio, tinha sido condenado a três anos de prisão à revelia, assim que a ditadura assumiu o poder. Mas ele tinha contato comigo, aquele “contato amigo”, contato político e de amigo. E isso é que foi o mal. Porque ele arranjou uma mulher lá pra morar com ele, e um dia me convidou pra almoçar. Eu fui e ela ficou me conhecendo. Conseguiram passar a mão no Arlindo, levaram para o 38º Batalhão de Infantaria, e a cana durante a ditadura não era mole não. Quando ele viu, segundo palavras dele, que ia morrer, resolveu me entregar. Um dia, eles me flagraram dentro do ônibus. A mulher do Arlindo estava junto a um cara. Logo no ponto seguinte, ela saltou e foi embora. Eu saltei no meu ponto, que até a minha casa era pouco mais de 500 metros, região mais ou menos espaçada, um barraco aqui, outro ali. Quando eu vi, um cara saltou atrás de mim e foi me seguindo. Pensei “pra onde vai esse cara?”. Parei num barranco daquele, abri a braguilha e comecei a urinar pra ver o que acontecia. Ele passou mais um pedaço e fez o mesmo. Passei, continuei e não vi ele mais. Cheguei, almocei, [mas] faltou gás. Peguei uma carrocinha de mão e fui no posto, na beira do asfalto. A minha mulher saiu não sei para quê. Fechamos a casa e colocamos a chave no lugar combinado. Quando eu voltei, não tava no lugar. Eu tive que arrombar a porta para entrar. Eu tava dentro de casa, o cara já foi chegando com uma bolsinha daquelas de mão assim, com uma arma dentro que dava pra gente ver que tava pesada. Já foi entrando no quintal. Eu vi ele entrando, e falei: “é polícia”. Voltei pro meu quarto pra ver se eu encontrava um facão, que eu tinha sempre. O facão não tava no lugar, não sei porque. Ele já meteu a mão no meu peito, me jogou sentado em cima de uma cama. O outro quarto estava sendo usado só com o aparelho pra rodar. “Não se mexe não que eu estou com o dedo no gatilho aqui”, me algemou e me levou. Me pegou com a boca na botija.

O senhor foi levado para onde quando foi preso nesse dia?

Fui levado pra um lugar subterrâneo, no 38o Batalhão de Infantaria.

E como é que foi a recepção lá?

Como é que foi a de todo mundo? Dois em cima, tapa, choque elétrico, porrada. O mesmo que fizeram com os outros. Inclusive, o Jorge Luiz sofreu muito com choques elétricos no pênis. Chegou a um ponto que eles me botaram junto ao Jorge Luiz, porque eu já tava falando que não tinha mais jeito. Para ver se eu [convencia] o Jorge Luiz. Eu falei: “olha, isso aí é uma questão de consciência dele”.

Já tinha passado um tempo que você estava preso, quando encontrou o Jorge Luiz ou foi no primeiro dia?

Não, o Jorge Luiz foi preso acho que no terceiro dia.

Que você já estava lá?

É, que eu já tava lá.

Meu coração batia forte quando decidi que era hora de confrontá-lo. Sabia, pela postura dele na cadeira, que não seria fácil.

Me diga uma coisa Foedes: você entregou seus companheiros?

Claro. Entreguei todos os que eu não tinha como deixar de entregar.

Àquela altura, não havia mais o que fazer a não ser perguntar sem rodeios.

Você entregou meus pais?

Oh, quando eu caí… Eu sei qual o teu problema aqui… Eu já estava te esperando. Quando eu caí, eu caí com a imprensa completa. Não tinha como dizer “eu não sou do partido”. Essa é a primeira coisa.

Foedes interrompe incomodado e faz um barulho como se quisesse cuspir no chão. Cláudio, seu filho, entra com duas xícaras de café. “Se não estiver bom, deixa aí no canto por que é café [simples]”.

Olhei para Eduardo, que segurou o seu e não tomou. Olhei para a xícara e tomei um gole com gosto. Precisava tentar rebater o efeito de letargia do remédio Dramin.

Foedes continuou:

Havia anotações que, apesar de sigilosas, estavam ali, como a anotação [sobre] o comitê central, anotação [dos] companheiros do regional. Eu tinha essas anotações, tudo com codinome, é claro, mas na hora do pau lá, [se] a coisa não confere, o pau volta a comer. Foi o que aconteceu constantemente. Eu fui torturado praticamente até um mês depois da minha prisão.

Era a hora de insistir. A pergunta sobre a delação dos meus pais está no vídeo abaixo.


Sem Estrutura.

Dentro de mim ressoa um “ufa” em forma de alívio. Finalmente, ele admitiu. Não tenho tempo de processar essa informação. Meus batimentos cardíacos estão mais acelerados, mas, num intervalo imperceptível de segundos, continuo a entrevista, que, nesse ponto, já estava muito mais próxima de uma conversa.

Entregou?

Entreguei nessas condições. Então, eu estava te contando o problema porque eu caí, e eu não terminei.

É que essa parte pra mim é muito importante.

Mas essa parte também é muito importante pra mim, porque senão o resto também não me interessa. Porque eu caí? Eu caí porque o Arlindo Sperandio abriu quem eu era, sabia onde eu trabalhava, meu nome, meus antecedentes todos. Botaram essa mulher dentro do ônibus…

Tomo mais dois goles de café. Olho para o Eduardo, que permanece imóvel, segurando a xícara totalmente cheia. Sinto uma forte dor na barriga. Parece emocional. Foedes continua:

- E [aí ]conseguiram me identificar e eu fui preso. Ele mesmo, o Arlindo, eu nem sei se ele está vivo ainda, me confessou pessoalmente: “eu tive que te entregar porque senão eu morreria”. O super-herói aqui é só eu?

O senhor é o super-herói?

Não, o super-herói que todo mundo está querendo é só eu? Os outros todos entregaram…

Mas o senhor falou que entregou. Não estou entendendo…

[Elevando a voz] Pois é, o super-herói, meu querido… O super-herói, que todo mundo estava querendo que eu [fosse]. O super-herói é só eu, os outros todos entregaram e eles tem toda razão… eu não? Uma ditadura te baixa o cacete, igual fizeram com Rubens Paiva, com tantos outros, com o Cordeiro Oest, com o Carlos Danielli. Carlos Danielli militava lá em São Paulo, só aparecia no comitê central uma vez ou outra. Eu nunca estive em São Paulo. É atribuição minha que eu entreguei o Carlos Danielle. Ora, tenha paciência.

Mas foi bom o senhor ter falado do Lincoln Cordeiro Oest, porque essa é uma dúvida que paira sobre a vida do senhor. E eu tenho que te fazer essa pergunta: aqui no seu depoimento, o senhor fala que tinha um ponto, um encontro, na rua Cupertino, no Rio de Janeiro, com um membro do Comitê Central. Está escrito no seu depoimento. Esse membro é o Lincoln Cordeiro Oest. As pessoas atribuem ao senhor a entrega do nome do Lincoln Cordeiro Oest à ditadura e a morte dele. Como é que o senhor se sente em relação a isso?

Ah, eu não me sinto bem, né?

Mas foi o senhor?

Foi. Eu não me sinto bem, ninguém que entrega se sente bem. Até hoje eu não me sinto bem.

O senhor carrega isso?

Carrego esse estigma comigo. Carrego, não só dele, de qualquer outro. O Lincoln Cordeiro Oest era um membro do comitê central, da alta direção. Mas mesmo que fosse o Marcelo, seu pai, ou a Miriam, ou qualquer outro, é a mesma coisa. É duro pra gente. Tanto é que você vê que eu, até hoje, não entrei mais em nenhum tipo de política. Nem a política burguesa, nem a política de esquerda.

A admissão de Foedes de entregar Lincoln à morte era um momento histórico do PCdoB. Pela primeira vez, Foedes admite o que se suspeitava há anos. O “Velho” é um comunista admirado até hoje por seus liderados, pesquisadores do período militar e amigos daqueles tempos extremos.

Foedes, ao fim da conversa comigo, observado pelo filho, Cláudio. Imagem: Eduardo Gomes.

Por que você não procurou ninguém depois?

Porque eu não queria mais pertencer a nenhuma organização, eu não queria discutir isso. Eu estou discutindo aqui com você porque está me procurando. É um fato, não se pode negar o que realmente aconteceu.

Como é que você se sente?

É isso que eu acabei de te falar, eu não me sinto bem.

O que é não se sentir bem? Você pode descrever pra mim? Porque o Cordeiro Oest morreu sob tortura.

Eu soube que ele morreu sob tortura.

O que é esse “não se sentir bem”? Eu quero entender. Eu quero saber o que o Foedes sente. É possível você descrever pra mim?

Rapaz, eu sinto… não propriamente arrependimento. Porque arrependimento é aquilo que você declara “eu tô arrependido, não faço mais isso”. Eu não sei se eu não faria isso [de novo] se eu estivesse lá, você está entendendo? Por isso, eu me afastei da organização. Eu não aguentaria o que o Carlos Danielli aguentou. O que o Lincoln Cordeiro Oest aguentou.

O senhor não é responsável pela morte do Carlos Danielli?

De jeito nenhum. É uma conta indébita. O Carlos Danielli vivia lá em São Paulo, militava lá em São Paulo. Era o dirigente militar da organização. E eu vi o Carlos Danielli algumas vezes no comitê central. Ele, de certa forma, deu assistência pra gente, junto ao Cordeiro Oest, mas eu não sabia absolutamente o nome dele, nem onde ele atuava.

Mas o senhor admite que entregou o Lincoln Cordeiro Oest à ditadura?

Sim. A gente sente remorso, uma atitude de quem… uma dor no coração por tudo o que aconteceu. Até hoje eu sinto isso, se isso explica alguma coisa. E eu vou carregar esse negócio comigo até a minha morte. A delação é muito dura nesse sentido. Mas há a delação espontânea, voluntária, que não foi o caso. Essa foi uma delação que eu não tinha como fugir. Ou eu delatava, ou acontecia comigo o que aconteceu com ele, o Carlos Danielli, o Lincoln Cordeiro Oest.

Mas ele não entregou os companheiros dele…

Pois é, e o que aconteceu? Morreu. É exatamente isso que eu não aguentaria.

Você sabe que o Carlos Danielli falou assim: “eu sei onde é que está o João Amazonas, onde está o Maurício Grabois”… pode começar.

[Foedes levantou a voz pela segunda vez na entrevista, com o dedo em riste]. Eu sei e isso é uma burrice da parte dele. O comitê central do PC do B não era realista, não sabia fingir, não sabia fazer o jogo político. Ele não tinha nada que falar isso.

Mas ele é um herói.

Sim, ele é um herói e está lá dentro da cova. Para nós, ele seria um herói muito mais apetecível se ele estivesse aqui na luta do povo brasileiro. Isso são afirmações temerárias. Como um dirigente responsável, ele não devia dizer isso porque, simplesmente, ia aguçar a luta dos algozes da ditadura contra ele… até a morte.

Foi a primeira vez que senti uma raiva incontrolável na entrevista. Mais ainda do que quando ele disse ter entregue meu pai e minha mãe à tortura, ou o querido Lincoln à morte. A frase saiu de dentro de mim com a força de uma erupção que há muito tempo estava presa.

Então, o senhor escolheu ser o delator, ao invés do herói?

Você está botando palavras na minha boca. Eu vou acabar encerrando a entrevista [O filho Cláudio o acompanhou: “Eu tô sentindo a conversa como uma acusação”]. Você está botando palavras na minha boca. Eu acabei de dizer que eu fui delatado. Tem muita gente que foi presa porque foi delatada por outros companheiros que eu nem sabia onde moravam, nem quem eram. Eu não escolhi ser delator. Eu escolhi a vida porque eu sabia que ia morrer se eu não fizesse isso, se eu não entregasse. Não porque tivesse escolhido, mas porque a exigência deles era nesse sentido: ou fala ou morre.

Emocionado, com lágrimas nos olhos e voz embargada, Cláudio segue a conversa: “Você tá pedindo um sentimento do meu pai? Eu tenho quase 40 e eu desde novinho conheço essa história, conheço as queixas do meu pai, esse livro que saiu ali todinho, do Araguaia, eu li todinho, a história que conta lá, ele ficou muito aborrecido porque não é toda a história, entendeu? Ele delatou porque foi delatado. Então você quer entrevistar, você entrevista, mas ver o cara passar o que ele passou tantos anos atrás, sofrendo. Esse sentimento que ele escondeu, botou num canto para não sofrer mais, você está querendo reavivar demais”.

Achei que a entrevista terminaria ali, mas uma inexplicável calma tomou conta da casa de paredes azuis e brancas como o céu. E Foedes quebra o silêncio:

- No Araguaia, nós tivemos guerrilheiros presos que nem chegaram a dar um tiro, foram presos, ficaram lá bombeando água para o quartel, porque não tinha energia elétrica, com as pernas cheias de leishmaniose, entendeu? Tinham entregado tudo o que os militares queriam e depois foi um agente da ditadura lá, porque o quartel não fazia o serviço sujo, pegou, levou para o mato, deu um tiro na cabeça e largou lá no mato. Quer dizer, a lógica da ditadura, no final principalmente, era matar, matar e matar. O cara podia entregar quem ele entregasse, não foi o meu caso, mas da guerrilha, eles matavam simplesmente por querer matar. O [Ernesto] Geisel chegou a dar uma entrevista dizendo: “Pois é, caro jornalista, não tem outro jeito, tem que matar”.

O senhor sabia que os seus ex-companheiros, inclusive meus pais, dizem que o senhor não sofreu. Quando eles chegaram ao quartel, eles não viram no senhor nenhuma marca de maus tratos. O senhor sabe disso?

[Os militares] eram especialistas em torturar sem deixar marcas, não é? A única marca visível que eles deixavam era a morte. Eles matavam o cara e, minutos antes de o cara morrer, não tinha marca. Tortura não deixa marcas. Sufocação por sacola plástica não deixa marca.

Eles dizem que o senhor não sofreu tortura. O que o senhor diria para eles?

Eu diria pra eles que, durante todo o tempo que eu tava sendo interrogado, eles estavam do lado. Só pode ser isso, porque eles não viram. Como é que eles iam ver? Na hora da tortura, eles não colocam o cara numa praça pública e “venham assistir à tortura”. Eles levam pra um lugar bastante isolado inclusive, se possível, onde ninguém ouça o som. É o que ocorria, por exemplo, na Barão de Mesquita. Os caras eram torturados no subterrâneo.

Quais torturas o senhor sofreu?

Muito choque elétrico. Choque elétrico na orelha, no pênis, pescoção, tortura psicológica, porque aquele negócio dos cachorros, por exemplo, é uma tortura psicológica. Eles jamais deixavam o cachorro, a sua mãe relatou esse fato também, morder o cara, mas é uma tortura muito violenta.

Então, o senhor foi torturado?

Fui torturado. Afogamento… inclusive, nessa viagem que nós fizemos, saímos de madrugada…

Socos e tapas? Violência física também? Violência, além do choque, que também é uma violência? Eles bateram no senhor?

Tapas, principalmente no ouvido. Choque elétrico eles não me aplicaram não. Mas pescoção, tapa no ouvido, foram as primeiras coisas que eu recebi quando cheguei ao quartel. Em seguida, veio a do cão.

O choque você tinha dito que tomou…

Choques foram no dia seguinte. Como eu resisti, eles me levaram lá pro quartel. Curiosamente, porque eu fui levado para o Rio quase um mês depois. No Rio, eu não fui torturado. Mas veio uma equipe do Rio me torturar [quando estava no Espírito Santo].

Quem te torturou?

Hoje, mesmo que eu tivesse gravado, eu não saberia dizer. Eu já tenho falhas de memória. Nome de torturador assim. Nem mesmo vendo ele fisicamente, eu não saberia identificar.

Capitão Guilherme, você se lembra?

Lembro.

Ele participou da tortura?

Participou, o Capitão Guilherme era um bandido.

O senhor disse, em determinado momento, que o Carlos Danielli não foi muito inteligente.

Não, ele foi temerário. Não é que ele não foi muito inteligente. Ele era um cara muito inteligente, mas ele foi temerário. O cara que está numa luta política, ele tem que fazer o possível e enganar o seu adversário. Se não for possível enganar, não fazer provocação. Porque ele está na mão dos caras, preso, e fica fazendo provocação. O que eles vão querer? Cada vez mais torturar ele.

Mas, no caso, o senhor disse que ele foi temerário e que ele poderia estar aqui ajudando na luta política ainda hoje. O senhor faz algum tipo de luta política hoje? Porque o senhor sobreviveu.

Não, eu hoje tenho as minhas convicções políticas e basta. Nem mesmo a nível burguês eu tenho qualquer contato político. Não tenho. Aliás, para seu governo, eu sou liberado até de votar, porque eu tenho mais de 70 anos. Nas últimas eleições eu nem votei. A política que a esquerda brasileira está pondo em execução é uma barbaridade. Só justifica do ponto de vista de “vamos tirar dinheiro dos burgueses pra fazer a luta proletária”. É o que o José Dirceu e outros devem estar falando, porque é uma esquerda, do ponto de vista legal, uma esquerda bandida mesmo. E eu não concordo com isso, naturalmente. O PCdoB atual é um revisionista. Não li nenhum documento dele, mas não resta a menor dúvida. O PT, o que ele está fazendo, é um crime contra a nação brasileira.

O senhor não acha contraditório o fato do senhor falar que “ele foi temerário”, não sobreviveu. O senhor sobreviveu. Se ele tivesse sobrevivido, ele poderia ter uma atuação política hoje. O senhor não faz uma atuação política?

Eu não estou fazendo essa comparação de que eu sobrevivi e ele não sobreviveu. Essa comparação é você que está fazendo. Eu acabei de me penitenciar, que me incomoda muito o fato de eu ter entregado alguns companheiros. Mas, se eu estivesse no lugar de Carlos Danielli, eu não faria essa provocação.

Para finalizar, o que o senhor diria para os seus companheiros, se os encontrasse hoje? Eu carrego um nome que eu acredito que foi o senhor que deu pro meu pai. Matheus…

[Impaciente] Que, pra mim, foi impossível deixar de entregar os companheiros, principalmente os do comitê regional. Eu tive um papel na entrega de um companheiro, o irmão do José Maurílio Patrício [militante comunista capixaba morto na Guerrilha do Araguaia]. O Maurílio é outro caso que eu queria que constasse que não fui eu que entreguei o Maurílio. Eu nunca vi o Maurílio mais gordo. Maurílio foi pra região do conflito e não fui eu que encaminhei ele pra lá, entendeu? Solenemente, a identificação que ele dá na guerrilha consta naquele livro como tendo sido obra minha. Eu não tive lá na guerrilha. O único que conheceu o Maurílio muito bem, e que pode ter entregado ele, é o próprio irmão.

E, se o senhor encontrasse hoje a minha mãe, o meu pai, o Jorge Luiz de Souza, o Lincoln Cordeiro Oest… Haveria um pedido de desculpas pela entrega do nome deles?

Pedido de desculpas é pouco, eu pediria perdão mesmo. Eu tenho realmente muita tristeza po ter entregado esses companheiros. É aquilo que eu te disse, eu me afastei da organização porque mesmo que eu conseguisse ficar de pé na [legenda] e fosse perdoado, eu tenho certeza que eu não aguentaria passar pelo que eu passei sem ter feito o que eu fiz. Não nasci pra isso. Se eu soubesse antes que isso poderia acontecer, exatamente desse jeito, eu não teria nem militado. E tudo que se falava a gente pensava que ia aguentar, mas na hora do pau lá, meu filho, não depende só de você querer aguentar não, depende de você ter estrutura.

O senhor não tinha?

Não tinha essa estrutura.


Materialismo E Fé.

Foedes interrompe a entrevista me convidando para jantar. Depois, continua o relato:

- Eu venho de uma família camponesa desestruturada, a maioria analfabeta, na minha família eu fui o que mais conseguiu estudar, não cheguei a fazer curso superior, mas me preparei pra isso, cheguei a completar o chamado curso médio no passado. Todos tiveram advogado particular, inclusive seu pessoal [meus pais]. A solidariedade de me arranjar um advogado particular não existiu. Eu tive que responder o meu processo com um advogado apresentado pela ditadura que nada fez pra me livrar, simplesmente cumpriu a obrigação dele pra poder receber o dinheiro dele. É verdade ou não? Você ouviu falar que qualquer um daqueles que foram presos na minha época se mobilizou pra arranjar um advogado pra mim? Não, não ouviu porque não existiu. Na verdade, o único desamparado ali era eu, frente à ditadura. Eles podiam sumir comigo…

Eles não iam sumir com os outros também, não?

Não, com uma diferença. Eles podiam sumir comigo e eu nunca ia nem aparecer nos jornais, nem nas revistas. Eu poderia ser simplesmente descartado como uma carta no baralho.

O senhor recebeu indenização?

Não, e nem quero esse tipo de indenização. Naquela viagem, que me tiraram de madrugada e me devolveram ao xadrez 11 horas da noite, se eles me matassem no caminho, desapareciam comigo simplesmente. Não constava minha prisão, eu só assinei a minha prisão preventiva com 27 dias de preso. Naquele tempo, eu estava no xadrez como um sequestrado, não tinha prisão nenhuma registrada. Eu quero que você pense sobre isso. Não estou justificando nada. Continuo com esse peso na consciência, porque era uma coisa que eu prezava muito, a luta que eu tinha no partido. Prezava tanto que abandonei minha própria família, os meus três filhos com outra mulher viraram marginais porque eu não pude dar a eles uma assistência, dois deles, assaltantes à mão armada, e foram mortos pela polícia. Quer dizer: essa é a mazela que eu herdei. No partido, naquela época, a coisa também era muito dura. O Lincoln Cordeiro Oest, por exemplo, abandonou a família pra se dedicar ao partido.

Deixa eu te falar uma coisa Foedes, tem muito tempo que eu procuro pelo senhor. A gente se torna espectador da vida dos pais. E eu sou um espectador da vida dos meus pais, o Cláudio é um espectador da sua vida. O senhor sabia que a minha mãe tava grávida quando ela foi presa?

Não. Não sabia. A vida particular dos membros do partido é deles. Ninguém ia aparecer pra mim pra relatar a gravidez da Miriam, coisa que não tem nada a ver com política.

Eu sempre ouvi as histórias dos meus pais e eu não quero vir aqui só pra falar que, enfim, o senhor é delator. Eu quero dizer também que a vida inteira eu procurei pelo senhor, sabia? Na verdade, a gente é e não é parte dessa história, mas, de certa forma, houve uma influência sobre a minha vida em relação àquilo que aconteceu. E eu quero te dizer que, da minha parte, apesar de tudo, está perdoado. Eu sei que você não está me pedindo nada, enfim, eu só queria que você soubesse disso antes de eu ir embora.

Eu queria que você levasse um forte abraço a todos eles e pedisse par que esqueçam esse passado que nós passamos, porque eu tenho certeza, com toda convicção, de que eles não sofreram mais do que eu. Isso eu posso te garantir. Não só na mão da ditadura, como a herança daquele passado que foi a ditadura para todos os brasileiros, não apenas para o partido. Era muito duro viver sob a ditadura, mesmo para quem não era militante de um partido. Você tinha que calar a boca. Mulher não podia jogar futebol. Eu queria que você dissesse pra eles, se for possível, que eles me perdoem. Eu não aguentaria passar pelo o que o Lincoln Cordeiro Oest e o Carlos Danielli passaram. Por isso é que eu me afastei definitivamente quando saí da prisão. Como é que vocês conseguiram me localizar aqui? Porque eu sou conhecido como Edson.

O senhor se escondia, Foedes?

Não, rapaz. Foedes foi o nome que meu pai me deu por influência de um turco que ele conheceu lá em Alegre quando eu nasci. Depois, ele se arrependeu do nome, porque era motivo de chacota. Aí começou a me chamar de Edson. Eu falei: quer saber de uma coisa? Foedes é ímpar, não tem homônimo. Jamais alguém vai me acusar de um crime que eu não cometi, pelo menos tem essa vantagem. Vou ficar assim mesmo.

Eduardo já tinha se livrado da xícara que segurou por mais de hora sem beber o café. Fala pela primeira vez, após ficar calado e apreensivo.

- O senhor sabe o que significa Foedes?

- Não sei, você sabe?

– Aliança, em latim — explica Eduardo.

Após uns segundos de silêncio, retomo minhas perguntas:

O senhor tem alguma fé?

Não. O meu materialismo se solidificou. Hoje sou agnóstico. Materialista.

E o Cláudio, tem alguma?

O Cláudio é filiado a uma igreja aqui.

Cláudio, você é cristão?

Sou.

Você é de qual igreja?

Sou da Casa de Oração.

Conhecia a denominação. Uma prima minha era pastora da mesma igreja em outro Estado. Continuo a conversa com o filho de Foedes, perguntando se já haviam pregado para o pai dele. Ele me responde: “Já. Amigos e irmãos já pregaram, mas ele é consistentemente ateu. Nunca abriu mão.”

Foedes interrompe o filho: “Mas tem uma correção. Eu não sou ateu, eu sou agnóstico, materialista, uma diferença muito grande”. Retomo o fio da meada.

O assunto acabou indo para esse lado por minha causa, inclusive. E eu queria dizer que eu sou cristão também.

Cláudio — Para explicar o perdão.

Foedes diz: — Eu te digo o seguinte: eu respeito todas as convicções, inclusive a religiosa. A Bíblia é uma fonte histórica da antiguidade. Há algumas coisas distorcidas nela, mas os fatos principais são verdadeiros. Cristo existiu realmente. Em vez de Ele ser um pregador, deveria ter sido um político, um chefe militar. Porque o que Ele propunha era o mesmo que o Danielli estava propondo: futucando o diabo com a vara curta. Ele ia lá para o templo, provocava todo o establishment religioso e depois não queria levar as consequências?

Conversamos bastante sobre a existência de Deus, a fé e as experiências espirituais. Cláudio se emociona. Com a voz embargada e os olhos com lágrimas, aponta para mim e diz: “Isso é resposta de oração. Quantas vezes eu já pedi pra vir alguém de fora para pregar para você. Pai, se você não acredita que isso aqui é resposta de oração, eu sei que é. Não é à toa que ele está vindo aqui”.

Foedes prossegue:

- Na verdade eu gostaria de ter essa certeza que todo religioso tem. Diz que fé tem quem tem. Fé não se pede. Eu não tenho. O que eu vou fazer? Eu estou reparando aqui. O seu cabelo é tão parecido com o do seu pai.

Você me acha parecido com ele?

Pelo menos o cabelo, seu pai usava ele assim.

Espero, sinceramente, que o senhor encontre isso que eu encontrei, a fé.

É, eu sou muito cético, não sei.

Meu nome é Matheus Leitão Netto, está bem?

Falo isso já me movimentando para levantar. Ele me interrompe.

- Só queria te fazer uma pergunta. Agora o entrevistador sou eu.

- Por favor, fique à vontade.

- Seu pai é médico. Se formou?

- Ele não conseguiu se formar. Quando saiu, entrou no 477 e perdeu os direitos de estudo dele.

- Me lembro que na prisão ele tinha taquicardia.

- Ele ficou muito mal e, enfim, perdeu os direitos. Aí virou jornalista.

- Continua materialista ou ele é religioso?

Aquele pergunta me intriga por algo que eu não sabia ser uma nova coincidência. Meu pai é materialista e defende o mesmo discurso da matéria que Foedes havia me relatado.

- Confesso que estranhei um pouco porque ele fala a mesma coisa que você, que é materialista. Fiquei pensando: “será que não foi o Foedes?”.

- Porque ele estudou o materialismo dialético.

- Através do senhor?

- Eu não sou um agente de transformação.

- Não tem problema se aconteceu isso. O senhor era o chefe do partido no Estado, ele estava dentro do comando regional.

- A gente só tinha encontros quinzenais e, geralmente, não passava de uma hora. Era um encontro do secretariado que discutia os problemas de cada um na sua área e o que fazer para o partido avançar.

- Mas o senhor falou com o meu pai sobre isso?

- Naquele tempo, a gente era extremista, da linha chinesa, acreditava em tudo aquilo. Mas pouco a pouco você viu o que aconteceu, a União Soviética caiu, todos os países satélites caíram, a China está caminhando para o capitalismo e Cuba também. É só passar aquela geração de Fidel Castro que Cuba também entra pro capitalismo. Isso mostra o quê? Em primeiro lugar, a força do capitalismo. Em segundo lugar, que aquela teoria de “a cada um de acordo com a sua capacidade para cada um de acordo com as suas necessidades” não representa a aspiração do homem. O homem quer aceitar desafios, o homem quer inventar, o homem quer progredir. E o comunismo podava tudo isso. A gente vê, no dia a dia que o comunismo não representa os interesses da população. Em grande parte, também porque a população é eminentemente religiosa. E o comunismo tem o maior pavor, instiga sempre a puxar para o lado do materialismo.

Foedes e eu nos despedimos após a entrevista. Imagem: Eduardo Gomes.

Cláudio diz uma coisa em que eu também acredito: “Religião é
furada. A religião dele, se você for seguir, é furada. A minha é furada. Não se segue religião. Você vai reunir em um local onde mais pessoas pensam [a mesma coisa]. Mas religião não salva”.

– É estilo de vida — digo.

- Estilo de vida. Jesus não deixou nenhuma religião — responde o filho de Foedes.

- Se eu fosse corajoso, eu até pediria pra orar por você…

- Mas a casa é minha — disse Cláudio.

O pai dá o aval.

- Pode orar, eu me sinto honrado por você fazer uma oração por mim.

Eu e Cláudio nos olhamos. Nos entendemos bem, apesar das circunstâncias difíceis. Temos convicções semelhantes. Outra coincidência que me instiga na viagem. Seguro na mão de Cláudio.

“Nosso Deus, nós te bendizemos por esse dia, por tudo que aconteceu hoje. Pai, nesta noite, eu queria pedir que o Senhor abençoasse o Foedes, o Cláudio, toda essa família. Eu quero te pedir, na simplicidade, se for o desejo do Teu coração, que Foedes possa te encontrar. Assim como o Apóstolo Paulo teve um encontro e aquilo transformou a vida dele, que assim seja na vida do Foedes”.


“Jesus Walks”.

Duas horas e meia depois de ter entrado na casa de Foedes, deixo o local rumo a Vitória. Cansado, tenho mais de 150 quilômetros de curvas sinuosas à frente. A estrada de terra e o escuro da roça já não são mais assustadores.

“Alívio”, digo para Eduardo, enquanto dirijo devagar e olho no retrovisor a poeira atrás do carro se levantar. “Alívio”, repito, sentindo que o anzol e a linha já não estão tão rígidos. Tinham finalmente soltado.

O sinal do celular está de volta. Encosto em uma estrada afluente da rodovia principal e ligo para a minha mãe. Com a exceção de poucos caminhões que passavam iluminando a estrada, o resto era um breu total.

A ligação ao meu pai cai na caixa eletrônica. Deixo um recado. “Pai, só queria falar que encontrei o Foedes depois desses anos todos. Ele admitiu que te entregou, que entregou a mãe, o Lincoln Cordeiro Oest. Pediu perdão. A conversa ficou tensa em alguns momentos, em outros, melhorou. Te amo”.

Ligo no número do meu irmão Vladimir.

- Oi, Vla.

- E aí? Saiu do mato?

- Encontrei o Foedes.

- E aí, entrevistou ele?

- Uhum.

- O que ele falou?

- Ele admitiu que entregou nossos pais para a tortura e o Oest para a morte.

- Ele quase me matou, esse filho da puta.

Flavia, minha mulher, telefona e desligo a ligação com Vladimir. Conto a ela tudo o que tinha acontecido.

- Tava aqui preocupada. Você não atendia.

- Você não sabe: o filho do Foedes é cristão.

- Eu tinha te falado que Deus ia abrir a porta. Eu senti.

- Ele presenciou tudo e falou que eu era resposta de oração.

- Porque o pai dele precisava se liberar… Tá vendo?

Começamos a descer a Serra ao som do rapper americano Kanye West, que desabafava, na música “Jesus Walks”, sobre sentimentos cristãos.

O álbum é de Eduardo, e eu não conhecia. O filmmaker me explica, empolgado, o que a letra diz: “não posso tocar sobre Jesus, sobre Deus, porque não toca no rádio”. “Na música, ele fala que o sonho dele era ver as pessoas cantando em boates a música Jesus Walks. Ele planejou isso. E aconteceu. Isso é que é o genial”, disse Eduardo. A estratégia inteligente de West de pregar sem pregar me faz pensar em como os cristãos usam estratégias erradas para levar a mensagem que acreditam. “Eu sabia que você era cristão, mas não cristão tipo de orar pelo cara”, diz Eduardo. Rimos os dois.

Impressionado com o momento em que a conversa com Foedes ficou tensa e a entrevista quase acabou, ele aponta a parte que o deixou mais apreensivo. Quando Foedes disse: “Eu já sei o que você veio fazer aqui. Eu já estava te esperando”.

Para Eduardo, “frase de vilão de James Bond. I’ve been expecting you, Mr. Bond”. Já são 1h30 da manhã quando conversamos sobre o café de boas-vindas que recebemos da família Santos.

- Tu ficou duas horas com aquele café na mão sem tomar.

- Fiquei segurando. Não vou tomar essa merda não. (Risos)

- Eu fiquei pensando: o cara não deve estar tomando porque está achando que tem chumbinho. (Risos)

- Quando você tomou eu pensei: não acredito que ele tomou essa porra. Vai morrer aqui no meio. (Risos). Eu derramei café no chão sem querer uma hora. Eu ficava segurando. Onde que eu vou tomar aquilo envenenado? Eu fui palha, descrente na humanidade. Pensei: Por que ele fez essa porra de xícara de café para nós dois e não fez para o velho? Algo está errado.

Às 3 horas da manhã leio um e-mail escrito por minha mãe. “Obrigada. Você foi buscar resposta a uma pergunta de antes de você nascer”.

Eduardo calibra o sentimento. “Você acabou de passar por um dia muito cansativo para a sua cabeça. Vai demorar um tempão para processar isso. Você tem que ter paciência com os seus sentimentos”. Precisaria de ainda mais no dia seguinte.


“Isso Não É Câncer”.

Meu sono dura menos de quatro horas. Não consigo parar de pensar em Foedes, Cláudio e tudo que vivemos nas últimas horas.

O alívio daquele encontro me deixa animado. Logo cedo, marco conversas com ex-militantes do PCdoB no Espírito Santo.

Meu pai tinha razão ao dizer na carta escrita na prisão, que, quando eles saíssem de lá, “ia dar muita gente diferente”. Era uma percepção do futuro.

Magdalena transformou-se numa competente oncologista no Espírito Santo. Seguindo para a Ilha do Boi com uma amiga no ano de 2001, seu telefone tocou com uma chamada dos Estados Unidos. Do outro lado da linha, a voz do antigo líder estudantil: o companheiro Mateus, colega de cárcere.

- Magdalena, estou com câncer.

Assustada, ela perguntou:

– Marcelo? O que você está fazendo nos EUA?

- Depois eu te explico, mas estou com câncer.

- Calma, Marcelo. Quem te falou isso?

- Dois médicos daqui. Perguntaram se a minha vida financeira estava organizada porque vou precisar. O câncer é muito agressivo. Tô todo ferrado, me separando, um frio desgraçado aqui. Minha vida está ruim e, agora, isso.

Magdalena temeu pelo velho amigo.

- Não, Marcelo. Me conta a história todinha. Vou parar o meu carro aqui e você vai me falar. Como surgiu isso?

- Eu estava treinando forte para uma maratona, levantando bastante peso e aí apareceu uma coisa no meu pescoço. Eles tiraram e deram um diagnóstico de câncer de origem epitelial.

- É assim do lado do pescoço?

- É.

- Não. Isso não é câncer. Esse médico errou o diagnóstico.

Magdalena me disse depois que queria ganhar tempo. Estava em dúvida, mas já tinha visto erros semelhantes acontecerem.

- Eu acho o seguinte: você estava fazendo muito esforço físico, tinha algum resto branquial aí e inflamou. Como ele viu tecido epitelial em um lugar que não é para estar, o tecido embrionário que está aí, ele se confundiu e deu esse diagnóstico. Está errado. Você vai pegar o material e mandar para nós.

Agoniado, Marcelo não esperou e pegou um avião para São Paulo. Lá, recebeu o mesmo diagnóstico que havia sido dado por Magdalena, de supetão, ao telefone: cisto branquial.

Meu pai estava prestes a assinar o consentimento para a quimioterapia quando fez a ligação para a antiga companheira. A médica em que ela havia se transformado salvou-lhe a vida.

Ela é uma das pessoas que vejo no dia seguinte ao da entrevista com Foedes. A bela “Mariana” se emociona quando nos encontramos em sua casa na insinuante região de Manguinhos. Mostro a foto de Foedes.

Ela tem certeza de que ele a havia entregado grávida para a tortura no 38º Batalhão de Infantaria. Chora. “Eu perdoo, mas não é uma pessoa que eu quero conviver”, diz. Percebo que aquilo era uma decisão a ser tomada por aquela especial geração 68 de estudantes contrários à ditadura.

As reações seriam diferentes nos meus pais, na Beth Madeira, e em Jorge Luiz, que é um dos que não perdoam Foedes. Em entrevista feita com ele em São Paulo, após ouvir em silêncio o que havia sido dito pelo seu delator, Jorge olha nos meus olhos e diz: “Eu não acredito que ele foi torturado. Não há perdão”.

A mesma opinião permanece ainda hoje com o ex-governador capixaba Vitor Buaiz.

“Esse Foedes foi muito bandido. Denunciou tudo, entregou tudo. Um soldado me disse que ele não tinha sido torturado. Foi preso e abriu logo tudo, além do que devia, como se fosse a delação premiada da época. Não tem perdão. Não pode ter”.

Outros o perdoam rapidamente, como Beth, que me diz, em Vitória: “Olha Matheus, quem nunca errou? Ainda mais naquele tempo difícil. Eu perdoo sim”.

Enquanto ando pelas ruas de Vitória em busca daquele doloroso e intenso passado, tenho vontade de visitar o 38º Batalhão de Infantaria, o forte São Francisco Xavier da Barra, onde todos aqueles jovens estiveram presos.

O complexo tem mais de 10 prédios, na beira da baía de Vitória, e é bem protegido por cercas e muros. Militares fazem guarda nos arredores.

Enquanto a noite chega, tento convencer Eduardo a irmos ao local. Ele defende que a busca parece fora de propósito, já que o alvo sempre tinha sido Foedes. Mas eu sinto que falta alguma coisa.

Desde a entrevista no dia anterior, ao menos dentro de mim, um sentimento começa a mudar. Mesmo com contradições, Foedes contava uma história com começo, meio e fim.

Saímos depois das 10 horas da noite em direção àquele local de segurança máxima. Em uma viagem para revisitar o passado, anos antes, minha mãe tinha conseguido uma autorização do governador para entrar.

Ligo para ela. “Vocês não vão conseguir entrar, mas vão lá no portão dar uma olhada”, diz Miriam.

Ela me contou que na entrada tinha uma imagem de Nossa Senhora da Penha. Era ali que minha avó Native rezava pelo meu pai. E foi exatamente ali também que minha mãe recebeu um abraço de meu avô Uriel ao deixar a prisão. “Vamos para casa”, disse para ela. Naquele momento, ele soube que teria um neto. “Vamos tratar bem do neném. Essa criança já sofreu demais”, disse.

Minha mãe agradece o meu esforço de ir atrás daquela história. Eu agradeço a geração dela.


Uma Festa No Forte.

Não tenho esperança de entrar no lugar onde há exatos 42 anos, no 4 de dezembro de 1972, meus pais eram violentamente torturados em seu segundo dia na prisão. Se pudesse voltar no tempo, os encontraria vivendo dor profunda.

Tintas pretas marcam um muro branco à direita, onde está escrito em letras garrafais: 38º Batalhão de Infantaria.

Eduardo para o carro mirando o muro e acende o farol alto. Combinamos que eu iria andando até a porta e ele filmaria a negativa dos militares para a minha entrada e estaria terminada a gravação daquela noite. Estávamos enganados; muito ainda aconteceria. O filmmaker liga a câmera e dá o comando: “Vai ali na guarita”.

São uns 40 metros de caminhada. Penso o quanto estava cansado. Tinha dormido poucas horas e dividido a direção com o Eduardo por mais de 300 quilômetros na serra na madrugada anterior.

Quando me aproximo de uma cancela, um soldado fardado, segurando uma metralhadora, vem na minha direção.

Subitamente, um carro encosta do meu lado e um homem, que eu nunca tinha visto, abre a janela.

Como estamos os dois tentando entrar e a minha história é certamente mais longa e difícil de explicar, digo ao soldado: “Boa noite. Você vai falar com ele primeiro?” e aponto para o homem no carro.

O motorista fala que está indo buscar uma pessoa no Forte e o soldado o autoriza a entrar.

Quando eu vou fazer o meu pedido ao soldado, o homem, inesperadamente, me pergunta: “Você quer uma carona, irmão?” “Pô, eu queria”, respondo, andando para a porta do passageiro.

O soldado questiona: “Você está indo para o Forte?”. Faço que sim com a cabeça.

Entro no carro sem entender ainda como consegui aquilo. O homem se chama Alex Sandro Franscoviaki. Me entrega um cartão: “Aqui, ó. Na hora em que você precisar de um táxi executivo, me liga”. O cartão é preto, tem o nome do Alex e uma citação bíblica: “Agindo Deus, quem impedirá?”.

Meu coração bate forte e eu sinto uma agonia, o temor de ser descoberto dentro do quartel. A entrada clandestina pode ter consequências.

O pânico é o pensamento sobre como eu sairei de lá. Passo a sentir uma angústia enorme enquanto Alex acelera pelas ruas escuras do quartel. Pergunto se posso ir embora no mesmo carro. Ele explica que está indo buscar um cliente. Insisto e ouço que eu posso ligar mais tarde.

Avisto um prédio branco no qual refletores verde e amarelo deixam a construção da cor da bandeira do Brasil. No rádio, escuto um testemunho cristão. É uma sintonia evangélica.

Depois de virar uma rua à direita e, outra, à esquerda, meu telefone toca. Eduardo, preocupado, pergunta: “O que aconteceu?”. Respondo: “Não sei cara”.

Eduardo insiste: “Você foi preso? Tá tudo bem?”. “Por enquanto, sim. Já te ligo”. Eu não quero falar, ainda estou no carro.

Alex encosta o veículo e pergunta para uma pessoa: “O coquetel está sendo onde?”. Uma mulher aponta para a construção branca, com as luzes verde e amarelo refletidas.

Alex para o carro em frente a uma escadaria. Ouço uma música alta e vejo um grupo de quatro militares, alguns deles fardados, conversando nos degraus. Com o celular filmando, subo, passo por eles e vejo que uma festa para mais de 50 pessoas acontece em um grande salão. Vejo crianças, adolescentes, famílias, militares — fardados e à paisana — festejando. Uma menina com vestido e meia-calça brinca por ali. Homens e mulheres se servem, em cima de uma mesa central com água, salgados, cervejas e refrigerantes. Rodas de conversa parecem me deixar invisível para a maioria.

O som alto toca Índios, do Legião Urbana: “Quem me dera, ao menos uma vez, acreditar por um instante em tudo que existe. E acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes. Quem me dera, ao menos uma vez, fazer com que o mundo saiba que seu nome está em tudo e mesmo assim ninguém lhe diz ao menos obrigado. Quem me dera, ao menos uma vez, como a mais bela tribo, dos mais belos índios, não ser atacado por ser inocente. Eu quis o perigo e até sangrei sozinho”.

Angústia e temor. Penso que posso ser detido. Leio uma placa: “Forte São Francisco Xavier da Barra”. Meus pais tinham ficado presos aqui.

Telefono para Eduardo e explico o que está acontecendo: uma
festa dentro do 38o Batalhão de Infantaria e, eu, por sorte ou não, tinha sido confundido com os convidados. “Em cinco minutos estou aí”, responde.

Ao entrar no 38º Batalhão de Infantaria, encontro uma festa de formatura de militares. Imagem: Eduardo Gomes

A noite deixa a baía de Vitória mais bonita. Do lado de fora do Forte, o barulho do mar, o vento balançando bandeiras verde e amarelo, e uma cabra, com sininho e tudo, pasta na grama, entre canhões que compõem a cena.

Nesse dia, há exatos 42 anos, meus pais enfrentavam a tortura. A festa é a comemoração de uma formatura de soldados, e militares bebem e comem, felizes com aquele espaço no tempo.

Com o intuito de me situar, leio o que está escrito em uma placa: “Este espaço localizado nesse sítio histórico, que é um marco da ocupação e da defesa da Capitania do Espírito Santo, tem por finalidade a preservação da história e da memória, tanto do Exército Brasileiro como da formação da sociedade espírito-santense. Permitirá a irradiação da cultura e do conhecimento unindo cada vez mais o Exército e a população deste Estado. Exército Brasileiro: Braço Forte, Mão amiga”.

Revolto-me com aquele infeliz texto imortalizado na parede. Na memória deste lugar não estão preservadas as torturas que o Exército praticou contra cidadãos desarmados, muitos deles jovens recém chegados à vida adulta. Não há a admissão pública daqueles fatos. Apenas relatos das vítimas que sempre encontravam a parede da negação e do silêncio.

Eduardo me encontra desnorteado. O cenário tão contraditório me nocauteia. Se voltar no tempo, encontrarei Marcelo, o Mateus, e Miriam, a Amélia, grávida de Vladimir, vivendo o pesadelo que os marcou para sempre.

A festa prossegue enquanto pensamos no que fazer. Olho aquela mesa com salgados, quibes, e coxinhas, e penso: jamais cearei naquela mesa. Ao contrário de Eduardo, que desta vez come e bebe, não bebo nem água.

O maior covarde estava escondido dentro dos quartéis. É uma conclusão talvez óbvia, mas, após aquela viagem ao passado, falo por experiência e não de ouvir falar de uma geração para outra. A frase de Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição Federal de 1988 faz mais sentido do que nunca: “O Estado autoritário prendeu e exilou. A sociedade, com Teotônio Vilela, com a Anistia, libertou e repatriou. A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram”. Os torturadores daquele tempo sombrio agiram nos quartéis.

Em uma parede, leio uma estranha linha do tempo que aumenta minha revolta. Ela marca as conquistas militares dos últimos séculos. “1956 autorizado pelo presidente o envio de um Batalhão à Suez para integrar a Força de Emergência; 1995 missão de observadores militares do Equador e Peru; 2004 início da missão das Nações Unidas para estabilização no Haiti”

Falta registrar: “1972… aqui nós torturamos, colocamos uma jovem de 19 anos com uma cobra numa sala escura. Chutamos o ventre de uma mulher grávida. Deixamos um jovem de 23 anos ser torturado. Aqui nós machucamos, ferimos, seviciamos, marcamos e destruímos famílias”.

Num ano em que uma minoria revoltada com a condição política do país pediu nas ruas a volta dos militares ao poder, 2014 também embrulha o meu estômago. Ando pelo Batalhão procurando alguma coisa. Sei que o meu pai havia escondido, por exemplo, uma serra que usou para tentar fugir dali. Entro por portas que não devo. Subo escadas e acho uma cela que suponho ser a que minha mãe tinha sido trancafiada nos primeiros dias. Encosto a boca na porta e digo como se minha voz pudesse atravessar o tempo até 1972: “Perdão por ter chegado tão tarde”.

Sinto-me solidário a ela, a meu pai, ao meu irmão Vladimir, a Magdalena, a Beth, a Jorge Luiz, a Gustavo do Vale, a Ângela e a todos os outros. Na ditadura, pessoas foram torturadas e mortas dentro de quartéis como aquele. E não foi para isso que se criaram essas instalações. Elas existem para defender o Brasil, não para torturar e matar brasileiros.

Lembro-me de uma frase que minha mãe me disse ao telefone depois do encontro com Foedes: “Agora, falta achar o capitão Guilherme”. Respondi: “Talvez”.

Ligo lá de dentro para minha mãe:

- Quando você me ligou há pouco eu tive vontade de ficar
sozinha, sabe? Aí eu fui para um canto e fiquei cantando baixinho, falando que você estava aí, e cantei o Assum Preto [de Luiz Gonzaga]. Depois eu achei que você não ia conseguir entrar.

- Inacreditável. A gente foi filmar a tentativa de entrar e
apareceu uma pessoa e disse assim: “você quer uma carona”? Eu entrei dentro de um carro e estou aqui dentro. Aonde vocês ficaram presos?

– Tem uma construção reta, comprida, grande, virada para o
mar. Foi aí que o seu pai ficou preso. Eu fiquei no Forte do século XVII, o São Francisco Xavier, que tem uma prainha embaixo assim..

- Eu já entrei lá. Está tendo uma festa. Inacreditável.

- Você subiu a escada?

- Subi.

- E tem a prainha, você viu?

– Tô olhando para ela.

- Uma pessoa que ia para a festa te deu carona? Sai daí. Esses militares vão descobrir que você taí. Melhor você ir embora.

- Inacreditável.

- E a festa é de quê? Um casamento?

- Não. É uma comemoração de uma formatura assim… Entrei e só tinha militar e eu me senti mal, muito mal, muito mal.

- É assim que era.

- Me senti muito desamparado.

- Eu sei o que é esse sentimento. Ele é um Forte antigo e agora eles alugam para fazer festa porque o Exército não tem dinheiro. Ele, para festa, é bem menos sinistro, né?

- Não. Foi totalmente sinistro. Pode ter certeza.

- A minha cela ficava de lado, em um canto assim virado para o morro. Foi saindo por ali, e passando aí pelo lado do Forte que disseram que iam me matar.

Abaixo a cabeça, emocionado. É por onde eu tinha acabado de andar. Minha mãe prossegue:

- Tem o Forte e uma parte nova, burocrática, onde é a sala do comandante do Batalhão. Lá dentro tem um corredor, que tinha tanto a sala do capitão Guilherme quanto um auditório lá no fundo. Esse auditório, que à época não tinha cadeira, mesas, só tinha um palco bem baixinho, foi a sala da cobra. Era um tempo doido. Eles matavam por pouca coisa.

Ali dentro, diante daquele cenário de festa, a certeza era ululante. Foedes tem os seus erros que, para alguns, são indesculpáveis. Ditaduras produzem delatores. Mas ele não era o inimigo. Não para mim.

-Eles eram os inimigos, mãe. Tenho certeza disso agora… Você tem razão: falta o capitão Guilherme.


Matheus Leitão é repórter há mais de uma década, e recebeu os principais prêmios brasileiros e da América Latina, incluindo o Esso, por seu trabalho em jornais, revistas e sites de notícia, incluindo Folha de S. Paulo, Época e IG. Matheus foi o primeiro repórter a revelar o vídeo de José Roberto Arruda, então governador do Distrito Federal, recebendo propina. Entre agosto de 2011 e julho de 2012 foi pesquisador visitante na Universidade de Berkley. Atualmente, mantém um blog no portal G1.


Publicado originalmente em 27 de maio de 2015