A SELVA DO FUTEBOL

por Raul Andreucci e Tulio Kruse


Dinheiro Contado.

Cinco reais. Quem teme, paga. É esse o preço do pedágio clandestino que dá acesso a um caminho lamacento que nos desvia do posto policial e nos faz cair, ainda que gastando uns minutinhos a mais, livres e impunes no meio da AM-010 — oficialmente uma rodovia, mas, na prática, uma estrada sem sinalização e fétida que atravessa uma região de granjas como um convite a náuseas e acidentes. O destino é Rio Preto da Eva, a 80 km de Manaus, a capital do Amazonas, Estado brasileiro que carrega o nome da maior floresta do mundo.

- Vai uma Coca? — oferece o responsável por contar a grana e abrir o portão.

A pick up segue em frente com seu retrovisor esquerdo completamente destruído, motivo para a rota alternativa, evitando qualquer problema com os policiais da rodovia. O motorista é Renato Benigno. Nosso destino é o Estádio Francisco García, o Chicão, sede do Holanda Esporte Clube, time que enfrenta o Esporte Clube Iranduba da Amazônia pela última rodada do Campeonato Amazonense de 2014, a exatos dois meses do início da Copa do Mundo, no dia 12 de abril.

Benigno é um homem que parece mais velho do que seus 36 anos, especialmente por conta do rosto furado, cheio de marcas de espinhas da adolescência. Suas roupas de grife e relógio dourado indicam uma posição elevada, mas ele não sabe dizer ao certo qual cargo ocupa no Holanda. É uma espécie de faz tudo, revezando-se entre o centro de treinamento no interior e a sede administrativa do clube na capital amazonense. O certo é que sua família, de origem italiana, faz parte da história do futebol local. Seu avô Ismael, já falecido, foi presidente do São Raimundo, outro clube local, e permanece eternizado como nome do estádio do time — apelidado e mais comumente chamado de Colina.

Naquela nossa viagem, atrás dos únicos dois bancos, o do motorista e o do passageiro, pegava carona um bolo de notas, dinheiro vivo mesmo. Informação que só foi revelada durante o trajeto, após a surpresa da reportagem ao saber da rescisão dos jogadores. A sequência após o duelo entre Holanda e Iranduba era inapelável: apito final, centro de treinamento, banho, malas, dinheiro vivo contado na mão e adeus.

O Holanda lutava contra o rebaixamento e não tinha motivo para continuar com os jogadores.

Distante da fama e das glórias da seleção homônima das terras baixas europeias, o maior salário da equipe era de R$ 3.500 até alguns dias antes. Com a primeira leva de demissões, o salário mais abastado passou a ser o de R$ 2.500.

O valor exato do bolo? Benigno não sabe (ou não quer) dizer, mas, para pagar atletas e comissão técnica devia passar de R$ 20 mil. Medo de assalto? Que nada. Se alguém fosse tentar alguma coisa, seria no começo do mês, por volta dos dias 5 ou 10, os dias usuais de pagamento. Mesmo assim, Benigno dirige em alta velocidade e, a qualquer sinal de emboscada, faz a ultrapassagem do jeito que dá. Desconfia de todo mundo, dos jogadores aos engravatados do escritório. Qualquer um pode passar a informação e armar o golpe. É de conhecimento geral que o homem da grana, sempre que é escalado para levar os pagamentos da capital até o centro de treinamento, faz o trajeto sozinho, sem segurança.

Chegamos inteiros. No intervalo, o Holanda vencia o Iranduba por 1 a 0. Faltava um gol para que os donos da casa mantivessem as esperanças de evitar o rebaixamento. Devido a uma combinação de resultados de vários jogos, era preciso vencer por dois gols de diferença. A emoção, fosse em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais ou Rio Grande do Sul, teria reciprocidade dos gritos vindos das arquibancadas ou das unhas roídas sem piedade.

Ali, no entanto, o que seria ou deixaria de ser do Holanda importava quase que exclusivamente às famílias dos jogadores. Arquibancadas vazias, nem 50 almas.

Uma fumaça de alguma queimada nos arredores dominados pelas árvores frondosas da Amazônia, que acompanharia o segundo tempo, começava a se formar. Diante dos berros esparsos do público, o som de um alto falante ininterrupto do lado de fora pedia que os moradores de Rio Preto da Eva ajudassem um senhor, já de bengala, sofrido.

Nos acréscimos, o baixinho Weverton bateu uma falta no ângulo. O goleiro nem se mexeu. Um golaço sem registro no YouTube. O Holanda fazia 2 a 0, resultado suficiente para seguir vivo até o dia seguinte, domingo, quando torceria para um empate entre Sul América e São Raimundo — não fosse a falta de estádios em Manaus à época, esse jogo deveria ter acontecido no mesmo dia.

Emoções suspensas no ar. Os jogadores não podiam explodir, extravasar, tampouco chorar e se deprimir. Mas o dinheiro de Benigno não iria esperar.

Camisetas do Holanda penduradas em varal no centro de treinamento do clube. Foto: Raul Andreucci.

Fundado em 2007, o Holanda tem uma vida futebolística modesta. O nome foi escolhido por questões práticas. É verdade que a cidade-sede do time, Rio Preto da Eva, é a maior produtora de laranjas de toda a região Norte do Brasil. Também é verdade que os donos do time se dizem fãs da seleção holandesa de 1974, conhecida como Carrossel e Laranja Mecânica. Mas o fato é que o nome foi adotado porque Holanda estava disponível na Federação Amazonense de Futebol (FAF), pois começara a ser usado por um clube amador fundado em 1984. Como iniciar do zero um processo de registro na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a entidade máxima do esporte no país, levaria tempo e custaria dinheiro, os cartolas aproveitaram o que estava disponível mesmo.

O time também serviu aos interesses pessoais do presidente do clube, Paulo Radin, cunhado de Benigno. Além da aparente preocupação com a prosperidade do futebol local, Radin alça seus voos políticos. Secretário-geral do Partido Social Democrático (PSD) no Amazonas e peça-chave na campanha vitoriosa do ex-governador Omar Aziz ao Senado, eleito em 2014, ele encontrou no Holanda uma forma de ocupar as crianças com quem trabalhava numa organização não governamental.

Por isso mesmo, o time quase não tem torcida. Em um dos jogos da equipe, contra o Sul América, em 6 de abril de 2014, acompanhado in loco por esta reportagem, o público pagante foi de zero pessoas. A bilheteria, ao lado da porta de entrada, até estava aberta, mas nada de bilheteiro. Um jovem aparentando 16 anos cuidava da catraca, mas deliberadamente deixava passar conhecidos, amigos e parentes de atletas. Estava muito mais preocupado em cortejar uma moça de shortinho. Um vira-lata fazia as vezes de segurança, mas o máximo que conseguia era colocar a língua para fora pedindo água, deitado num mato mal cortado.

As dificuldades começaram já no primeiro jogo oficial, em 2008, ocorrido na cidade de Itacoatiara, a 260 km de Manaus e a 180 km de Rio Preto da Eva. Os jogadores seguiam em um ônibus que acabou quebrando na estrada. Com o risco de perderem por WO, os atletas chegaram ao estádio espremidos na carroceria de um caminhão.

Logo no ano de estreia, num sucesso que poderia impulsionar sonhos de grandeza por aquelas bandas, o Holanda foi campeão da série B e subiu para a primeira divisão local.

Em 2014, o time teve apenas dois meses e 12 dias de atividades entre a estreia e o último jogo no Campeonato Amazonense. Naquele sábado de abril, havia a esperança de sobrevida. Com o resultado de domingo, o São Raimundo batendo o Sul América por 1 a 0, ocorreu o golpe final do rebaixamento. O golaço nos minutos finais contra o Iranduba fora em vão.

Neste ano, a situação foi ainda pior. O time da camisa laranja não jogou o campeonato local porque a segunda divisão deixou de existir, assim como já havia acontecido em 2012 e 2013. Mesmo quando a segundona existe, nunca se sabe quem serão os times participantes. A confirmação costuma ser de última hora, pois muitos podem não ter o dinheiro necessário para entrar em campo.

Jogadores, torcedores e técnicos sabem dessa situação melhor do que ninguém, assim como têm a clareza de que as chances de algo mudar efetivamente são as mesmas de o Nacional disputar a Copa Libertadores. Para se ter uma ideia, o time mais popular e vitorioso do Amazonas será o único representante do Estado no Campeonato Brasileiro deste ano — na quarta divisão…

A situação se repete a cada ano. É sempre assim, como obra. Quando o torneio estadual acaba, todos ficam sem atividade, e os jogadores, desempregados, precisam correr atrás do próximo canteiro de construção — ou, no caso, campo de futebol.

Equipe do Holanda faz uma oração após a partida que decretou o seu rebaixamento para a segunda divisão do campeonato amazonense, em 2014. Foto: Raul Andreucci.

Desde 1993, apenas seis dos 22 Campeonatos Amazonenses duraram mais de três meses. No fim das contas, muitos profissionais acabam seduzidos por ligas municipais e campeonatos amadores de todo tipo, que costumam pagar entre R$ 50 e R$ 100 por jogo. É menos do que a diária de uma faxineira em centros como São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília.

Esqueça, portanto, os milionários aos quais você assiste na TV e as cifras siderais de transferências de jogadores. Pense no operário que joga para um time na mesma condição que um pedreiro numa obra: o trabalho acaba quando o campeonato acaba — e olhe lá. Pense no jovem jogador, em muitos casos, já com família para sustentar, que tem de se virar com o pouco que recebe — isso quando recebe. Pense na infraestrutura inadequada, no assédio moral e em todas as aflições comuns a quem se preocupa com o sonho de um dia ser contratado por um time médio para, oxalá, chegar a um time grande. É dele que estamos falando, desse pé-de-obra — uma multidão boleira capaz de formar cerca de 730 times completos de futebol, com reserva e tudo, conforme os dados do Bom Senso F.C.

Como nas séries A e B do Campeonato Brasileiro, a nossa elite futebolística, há apenas 40 clubes, não resta dúvidas de que estamos falando da grossa maioria do futebol brasileiro.


Obrigado Por Jogar.

A viagem entre o estádio Chicão e o Centro de Treinamento Leão Braúna, o grande investimento do Holanda na tentativa de profissionalização, demora dez minutos. Um muro branco, de meia altura, cara de fazenda, cerca o local. Os cachorros estão quase sempre presos no canil.

O terreno é enorme. O descampado de terra batida, nos fundos, cheio de estacas brancas, cercado por verde, prepara-se para receber três campos oficiais de treino. Lá embaixo, a cozinha. Em cima, dez casas de alojamento. Tudo laranja. A maior residência, à direita da entrada pela estradinha de terra, é a da “administração”, assim chamada por abrigar o treinador, Sidney, e o roupeiro, Macapá. Os dois dividem um cômodo com ar condicionado e banheiro sem box ou cortina de plástico. Uma cueca reciclada serve de tapete no chão.

A sala tem cozinha americana e sofá de couro preto. Do lado de fora, há uma churrasqueira prestes a desmontar, e os azulejos azuis claros da piscina estão a craquelar de tanta sede, sem uma gota d’água. Nada é convidativo. A impressão é de que alguém abandonou aquilo tudo e os dois simplesmente se apropriaram, sem qualquer tipo de apego a mobílias, reparos ou decoração, como se estivessem de passagem num hotel de beira de estrada.

O resultado do jogo do São Raimundo ainda não tinha saído, mas, para os dirigentes do Holanda, pouco importava. Se o time permanecesse na primeira divisão ou se fosse rebaixado, o procedimento seria o mesmo: jogadores, sigam suas vidas e ano que vem a gente forma um novo time.

A meia-hora para que os jogadores tomem banho e terminem de arrumar suas malas passa rápido. Um deles é o jovem Ioran, de 19 anos. Seus pais o aguardam do lado de fora, para levá-lo para casa. Também está no vestiário um grupo de cinco paulistas que pegaria um táxi para aguardar o voo da madrugada no aeroporto de Manaus. Todos se dirigiam para a “administração”. Pareciam apressados em sair, esquecer aquilo tudo, resolver a vida e tocá-la pra longe dali.

“Não menosprezando o futebol do Amazonas, mas é bem chato ser rebaixado num campeonato desses, tão fácil como é”, diz Weverton, manauara de 20 anos, fã de Cristiano Ronaldo e que, como muitos, sonha com a Europa.

Antes de tudo, no entanto, a rescisão. A papelada está separada, bem como o pagamento pelos dias trabalhados naquele mês. O dinheiro trazido por Benigno será distribuído. A operação acontece em cima de uma dessas mesas de boteco, dobráveis, branca, alaranjada em quase todo o meio — não como homenagem à cor do clube, mas como ode à ferrugem mesmo -, onde os atletas se apoiam para assinar. Em seguida à rubrica, o treinador Sidney entrega o dinheiro sentado na cama improvisada como cadeira.

Jogador do Holanda recebe o dinheiro da rescisão contratual com o clube. Foto: Raul Andreucci.

Como Weverton, a maioria confere o dinheiro, timidamente, passando as notas por entre os dedos, enquanto Benigno chupa um pirulito vermelho. Ninguém reclama. O joinha para a foto da reportagem, de boné e corrente, como seus colegas de profissão famosos, lembra os registros de quem acaba de assinar um contrato novo, desses nos quais toda a imprensa comparece. Benigno deixa o pirulito de lado quando seu telefone toca. Do outro lado da linha está o presidente do Holanda. A tela estilhaçada impede que seu dedo deslize para o lado que recusa as chamadas. Ele sempre precisa atender.

- Tô, ainda tô aqui, tá tudo certo, já vai acabar, tá?

Os jogadores não têm a mesma visão. Todos com quem conversamos reclamaram da incerteza de futuro e da angústia inerente até a assinatura de contrato com o próximo clube, seja no retorno a Manaus, seja em qualquer outro lugar do Brasil onde um clube lhe abra as portas do vestiário. Após quase três meses de aventura na selva amazônica, estão no olho da rua.

A situação do Holanda não é exceção, mas regra no Amazonas. Nas palavras do técnico Adalberto Lana, hoje comandante do Nacional e que trabalha há duas décadas na região: “Isso não existe, cara. É um campeonato que fazem assim, no empurrão, de qualquer jeito, só pra falar que teve. Esses caras são presidentes de federações [estaduais], apadrinhados pela CBF, que passa a mão [na cabeça]. Fazem o que querem e fica tudo por isso mesmo”.

Se o técnico critica, quem sofre mais é o jogador. A maior preocupação ali é a sobrevivência.

Pouco antes da Copa do Mundo, Tiago Verçosa, manauara de 26 anos, capitão do Holanda no Estadual, tinha dúvidas sobre o futuro. “A gente começa o ano, é pré-temporada, treinamento, começam os jogos, recebe tudinho, ali é o momento do jogador, que tá em atividade. Mas aí, quando vai chegando no final do campeonato, a gente vai ficando meio preocupado. Será que eu vou tá empregado? Será que vai ter o segundo semestre? É difícil, complicado”. Para ele, no entanto, a vida melhorou. Depois do rebaixamento do Holanda, foi jogar no Nacional, o time mais rico do Estado, e disputou a artilharia do campeonato em 2015.

Colega de Tiago no Holanda, Wellington Alexandre dos Santos, o zagueiro conhecido como Alexandre Black, natural de Campinas, experimentou um caminho inverso. Nascido em Campinas, foi revelado pela Ponte Preta, time importante do interior de São Paulo. Disputou a Série A do Campeonato Brasileiro em sua temporada de estreia entre os profissionais, mas sua equipe acabou sendo rebaixada. Permaneceu encostado no time por mais dois anos, e, a partir daí, passou a entender o que é ser nômade no futebol brasileiro. Rodou por times pequenos de Goiás, Pernambuco e Maranhão até chegar ao Holanda, no ano passado.

“A questão é você estar trabalhando, porque já está difícil hoje em dia o futebol se você estiver empregado, se não estiver, então, piorou. Muita concorrência, muitos jogadores”.

Depois da rescisão, o destino o levou, aos 28 anos, para Rolândia, no Paraná, na outra ponta do Brasil, onde disputou parte da segunda divisão do Campeonato Paranaense pelo Nacional-PR.

Hoje, Alexandre Black está desempregado, segundo os registros da CBF — ou escondido em algum time amador, fora dos registros da Confederação.

Além do Holanda, outro time rebaixado em 2014 e que ficou sem jogar neste ano foi o Sul América, o pior do último Amazonense. Apesar do nome continental, lembra time de várzea. A piada é que sua sede, em Manaus, mais parece o Castelo de Grayskull, do He-Man, desenho animado dos anos de 1980. Lembra casa de torcedor fanático com decoração temática para provar devoção.

Jogador do Penarol se aquece no vestiário antes de partida contra o Nacional, pela semifinal do Campeonato Amazonense de 2015. Foto: Danilo Mello/Foto Amazonas.

O aviso para não estacionar na garagem do vizinho está lá, quase escondido pela pilha de lixo. Em frente, há um parquinho às moscas. Balanço e escorregador enferrujados, árvores pedindo poda e banquinhos sem quina. Por dentro, um salão comprido por demais. Na metade do caminho, no trecho a céu aberto, na altura do banheiro, um sujeito ainda se recompondo do xixi, pênis à deriva, como se estivesse em casa. O homem de pele oleosa, barriga de chope, à vontade nas chinelas, mesmo naquele domingo de decisão pela permanência na elite amazonense, é Luiz Costa, presidente do Sul América há 12 anos. Limpa as mãos na calça de ginástica e, meio sem jeito, me cumprimenta.

- Já chegou, é?

Logo no início da conversa, mostra quem manda no clube. Autoriza fotos do alojamento dos jogadores, mas logo avisa:

- Olha lá o que você vai escrever. Se falar mal do futebol amazonense mando te matar lá em São Paulo. Tô falando sério, olha lá o que você vai falar.

A preocupação de Luiz justifica-se. A acomodação oferecida para os jogadores de fora de Manaus é insalubre. Separados do banheiro por um corredor, os quartos e o ambiente sem janela fazem do horário do banho uma sauna e, ao mesmo tempo, com os fios à solta, um convite ao incêndio. A situação não melhora quando eles deixam o quarto para treinar. Pelo menos um jogador, o zagueiro Fernando, se machucou por causa das condições do “gramado”, localizado a alguns minutos de carro do alojamento. Quase não há verde. O que domina é a terra batida, seca. Na pequena área, pombos brigam com um urubu pelo saco de lixo abandonado.

O presidente, que tem como seu vice o próprio filho, Alex, também atacante reserva do time, reclama: “Tudo o que você imaginar já tentei. O governo ajuda num ano, no outro não. A maioria dos clubes aqui não tem receita própria. Nós não temos porra nenhuma, vivemos da ajuda de amigos e da minha ajuda. Todos os nossos jogos deste ano deram prejuízo. Clube nenhum no Amazonas ganha dinheiro! Ninguém mais quer assumir essa porra, vou fazer o quê?”.

Nem os clubes mais tradicionais do Estado fogem do script. Quando estão sem risco de rebaixamento e com poucas chances de disputar títulos, costumam dispensar dezenas de jogadores, sob o pretexto de que alguns já tinham proposta de outros clubes ou queriam voltar para casa. Foi assim com o Fast naquele ano. Com o método, de fato, economizam alguns dias de salário. O Nacional, por exemplo, manteve em seu elenco de 2015 apenas quatro jogadores que disputaram a temporada passada.

O mesmo acontece com o Rio Negro, segundo clube mais tradicional do Amazonas, atrás apenas do Nacional. Recentemente, o clube chegou a demitir a sua maior estrela, o meia Carlinhos, por conta do seu “alto salário”. Ele ganhava R$ 2.000 no clube, o equivalente a 20 minutos do pagamento a Cristiano Ronaldo, por exemplo. Depois de deixar o time, o jogador reclamou que tinha dois meses atrasados de salário mais a rescisão do contrato, totalizando uma dívida de R$ 8.000.

“O presidente do clube é desumano. Nunca participou de sequer um treino e nem acatava as opiniões dos atletas. Tem jogador ainda sem receber e praticamente passando fome por conta desses atrasos”, diz Carlinhos.


Um Elefante Na Sala.

Não é de hoje que o futebol brasileiro sofre com descasos administrativos, o que acaba impactando a qualidade do futebol jogado nos gramados brasileiros, na sustentabilidade dos clubes e na capacidade de o Brasil atrair — ou manter — grandes talentos. Essa lógica se faz presente antes e depois dos 7 a 1 contra a Alemanha. O massacre pode ter sido um divisor de águas, mas, na Amazônia, as águas do rio Amazonas seguem caudalosas, sem maiores novidades… com exceção de uma cesta indígena de mais de 30 metros de altura.

Em junho de 2014, o Amazonas presenciou um marco para o Estado no quesito futebolístico. Inglaterra, Itália, Estados Unidos e outras seleções de astros — que, individualmente, recebem em apenas um mês o que todo o time do Holanda junto demoraria mais de cinco anos para ganhar — desembarcaram em Manaus para colocar à prova a Arena da Amazônia.

Torcida do Nacional na Arena da Amazônia, em partida da Copa do Brasil de 2014. Foto: Raul Andreucci.

O estádio chamou a atenção de todo o mundo para o Amazonas. Erguido ao longo de quatro anos, ao custo de R$ 669,5 milhões, a arena, embora sedie um jogo aqui outro acolá, é um elefante branco. E põe branco nisso. Para se ter uma ideia da capacidade de atração de público do futebol amazonense, em 2014, excluindo-se os jogos da Copa, a média de público do campeonato local caiu para 662 pagantes, contra 804 pessoas no ano anterior. As 59 partidas do estadual daquele ano reuniram exatos 41.540 espectadores, número menor do que a capacidade total da Arena da Amazônia, de 44.500 pessoas.

A falta de interesse pelo futebol no Norte do Brasil é conhecida. Em 2012, uma pesquisa da consultoria Pluri Stochos mostrou que a região tem o maior percentual de pessoas que não torce por nenhum clube (27,5%). E quem torce prefere o eixo Rio-São Paulo, com Flamengo, Corinthians e Vasco nos primeiros lugares. O Paysandu, do Pará, vem em quarto, com 6,9%. Não havia entre os dez primeiros qualquer clube amazonense.

Uma esperança dos dirigentes locais de justificarem, no pós-Copa, a construção do estádio seria a Copa Verde, um torneio da CBF que reúne times do Norte e do Centro-Oeste (as duas regiões mais secundárias do futebol brasileiro) e que garante ao campeão uma vaga na Copa Sul-Americana — uma espécie de segunda divisão da prestigiosa Copa Libertadores.

Mas as próprias médias de público da Copa Verde mostram como os jogadores locais podem andar nas ruas tranquilamente, com risco quase nulo de serem importunados por fãs em busca de autógrafo (ou xingamentos por alguma eventual atuação desastrosa). Dos 16 times participantes do campeonato, 9 tiveram média de público inferior a mil espectadores por jogo. O São Raimundo, de Roraima, teve zero torcedores em todos os seus jogos.

O Nacional e o Princesa do Solimões, os dois representantes do Amazonas, conseguiram chegar entre os oito melhores da competição. Nos seus jogos decisivos realizados no estádio da Colina, disputados no sistema mata-mata — portanto, cercados de mais emoção -, o número de torcedores presentes não alcançou nem 5 mil pessoas, considerando-se os dois jogos juntos.

Ainda antes da Copa do Mundo, o Nacional enfrentou o São Luiz de Ijuí, rebaixado no Campeonato Gaúcho de 2014, pela partida de volta da primeira fase da Copa do Brasil de 2014. Apenas 3.183 pessoas compareceram à Arena da Amazônia. No intervalo, diante das câmeras de TV, um punhado de jovens salta e canta, em coreografia. Tudo bonitinho para a reportagem do dia seguinte, que não mostrou takes do estádio praticamente às moscas. Milagres da edição.

Hoje, a Arena da Amazônia é tudo, menos da Amazônia. Desde que foi inaugurada, pouco serviu ao torcedor local. O duelo sem gols entre Fast e Princesa do Solimões pelo primeiro turno do Campeonato Amazonense de 2014 foi a única partida válida pelo Estadual realizada no estádio até junho deste ano.

Em 2015, a Arena até apareceu na tabela, mas foi, aos poucos, sendo readequada à realidade dos clubes. Primeiro, foi descartada no maior clássico do Estado, entre Nacional e Rio Negro, para a abertura da competição. Depois, de outras rodadas. Especulou-se sobre as semifinais. Mas só os dois jogos da decisão, entre Nacional e Princesa do Solimões, com mais um título nacionalino, tiveram o privilégio de usufruir do estádio. O governo estadual encarregou-se dos gastos com o quadro móvel, mas ainda deve o patrocínio de R$ 2,5 milhões prometido no início do Estadual.

Agora, é cotada para receber a grande decisão do Amazonense. Isso se o governo estadual, que já coloca R$ 2,5 milhões no torneio, cumprir a promessa de arcar com as despesas.

As dificuldades para lidar com a Arena da Amazônia não eram novidade para ninguém, muito menos para o governo local. Até mesmo quem cuidou do estádio durante todo esse período tinha dúvidas sobre sua viabilidade. É o caso de Ariovaldo Malizia, conhecido como Seu Ari, responsável pela administração de todas as instalações esportivas do Amazonas no período em que a Arena foi construída e também durante a sua fase de testes, antes da Copa.

Torcedores do Flamengo recepcionam a equipe carioca na saída de hotel em Manaus. Foto: Alberto Cesar Araújo/Foto Amazonas.

“Não temos suporte para segurar isso aí. Tinha uma manutenção, mas, hoje, por exemplo, só a parte de TI [tecnologia da informação] é altamente complexa, requer pessoas de alto conhecimento nessa área. O gramado, por exemplo, você pode lá da sua casa acionar o controle para molhar a grama. A modernidade é tão grande que chegou a esse ponto. Esperamos que logo cedo o governo possa terceirizar a administração da Arena, de modo geral, porque os custos vão ser altos, com certeza”.

Hoje, não se sabe o que vai acontecer com a Arena. Em março, o governo estadual anunciou que faria uma licitação para passar a gestão do estádio para o setor privado em maio, mas estamos em julho e nada aconteceu ainda. Na Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, quando a Arena será um dos sete estádios do torneio de futebol, pode ser a sua última chance de convencer os investidores de que é um bom negócio.

O custo mensal, segundo o governo, gira em torno de R$ 600 mil, incluindo a empresa especializada em tecnologia da informação, a automação, a limpeza, a água, a luz, a equipe e outros serviços.

A já infindável busca por rentabilidade sempre foi amadora. Em uma das conversas com a reportagem, Seu Ari deixou à mostra, em meio à pilha de papéis da escrivaninha arrumada para a foto, um documento com o seu planejamento para fazer da Arena algo rentável. A folha não era timbrada. Também não tinha cabeçalho com data, nomes de políticos, setores governamentais ou qualquer carimbo de identificação. No alto, lia-se apenas “Perspectivas de Viabilidade Econômica”. Abaixo, uma lista que ia de jogos de clubes brasileiros na Libertadores — o que nunca aconteceu — a shows internacionais e eventos religiosos.

Depois da Copa do Mundo, a Arena da Amazônia recebeu apenas um grande jogo, pela penúltima rodada do Campeonato Brasileiro de 2014, uma goleada do Flamengo sobre o Vitória.

Em 2015, além das finais do Amazonense, apenas mais um duelo oficial, o empate em 1 a 1 entre Nacional e Vilhena (RO), pela Copa Verde. Os outros quatro dos cinco jogos do ano foram amistosos. Três mais notáveis, num torneio de pré-temporada entre Flamengo, Vasco e São Paulo intitulado de Super Series.

Segundo um levantamento do jornal amazonense “A Crítica”, publicado na edição de 13 de maio, o estádio era, naquele momento,entre os que sediaram confrontos da Copa, o menos utilizado na temporada. Antes da disputa pela taça, ficou quase quatro meses às moscas. A bola rolara pela última vez com o Nacional, em 22 de fevereiro.

No total, a Arena da Amazônia realizou 17 jogos desde a sua inauguração, há 15 meses, média de pouco mais de um por mês, portanto. Se descontados os quatro da Copa do Mundo, foram 13, menos de um por mês.

Já era de se prever. A Copa não havia nem começado e o presidente da Federação Amazonense de Futebol (FAF), Dissica Valério Tomaz, já admitia que o estádio não seria usado no campeonato local.

“Não vamos nos iludir. Não vamos ter condições de usar no Campeonato Amazonense. Não vamos ter condições de jogar na Arena toda semana. Não dá, não tem como”, disse ao BRIO.

Não é mesmo barato mandar um jogo no estádio. Os valores são calculados em uma porcentagem em cima da arrecadação bruta, e variam. O certo é que 25% do total já ficam comprometidos de saída, inclusos 10% de aluguel e somados os tributos de 5% do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), 5% da federação local e 5% do Imposto Sobre Serviços (ISS). Juntando o público baixo e as contas altas, na ponta do lápis, é praticamente impossível fechar a conta do estádio.

Dissica Valério Tomaz, presidente da Federação Amazonense de Futebol, em restaurante de Manaus. Foto: Raul Andreucci.

Para o presidente da Federação, a culpa pela dificuldade para se lucrar com o estádio é dos próprios clubes. “Isso aí é uma coisa que, puta que pariu, meu irmão, é falta de mentalidade, o pessoal se acostumou com uma ajudazinha, com esse pouquinho que o governo dá, e não cresce, pô, não cresce, não vai adiante”.

Na Copa Verde deste ano, o Nacional até arriscou anunciar sua estreia no estádio da Copa. Com 2.015 ingressos vendidos ao preço de R$ 40, para uma renda de R$ 14.560,01, mudou a partida para outro estádio mais acanhado. Ninguém sabe o que o Nacional fará para a estreia na Série D do Campeonato Brasileiro, agora em julho.

O próprio Dissica não tem uma proposta para o estádio. O que o cartola tem certeza é de que a Federação não vai abrir mão dos 5% da renda de cada jogo a que tem direito. Por isso, para ele, não importa quem irá cuidar da Arena, se o governo ou se um grupo de empresários.

BRIO questionou Dissica sobre como fazer para que a bilheteria seja suficiente para arcar com todos os custos e ainda gerar um lucro suficiente para a Federação. Vestindo uma camiseta amarela com uma bola de futebol desenhada, o presidente fechou o sorriso, pensou e respondeu: “Nós vamos… Nós… Eu tenho falado o seguinte… Eu não vou dizer pra ti o que eu penso em fazer porque eu não sei, eu te digo com toda sinceridade do mundo, não tenho… Mas nós vamos discutir muito isso, eu te garanto”.


Estádio Verde, Sinal Amarelo.

Com infraestrutura precária, torcedores que se importam mais com os times do Rio e de São Paulo do que com os locais e problemas financeiros de toda ordem, o risco de a Arena da Amazônia ficar subutilizada era evidente e foi alardeado pelas imprensas brasileira e mundial. Por que, afinal de contas, o Amazonas ganhou o direito de sediar a Copa do Mundo?

A pergunta encontra várias respostas, dependendo de quem conta.

Em 2012, a Play The Game, organização não-governamental dinamarquesa que trabalha por transparência no esporte, apontava a Arena da Amazônia como uma das que mais corriam o risco de subutilização, ao lado da Arena Pantanal, em Cuiabá (MT), da Arena das Dunas, em Natal (RN), e do Estádio Nacional, em Brasília (DF).

Em 2014, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, diante de perguntas em sequência da imprensa envolvida na cobertura sobre o assunto, intrigada com o potencial de inutilização da arena pós-Copa, tentou repassar a responsabilidade adiante, e acrescentou, ainda que involuntariamente, um componente que ajuda a explicar muita coisa.

“Não foi uma decisão da FIFA de jogar em Manaus, mas do governo brasileiro”, disse, na ocasião.

Há outra versão, menos difundida, mas contada aos quatro cantos pelo presidente da Federação Amazonense de Futebol, que aponta para um elemento que somente reforça a ausência de planejamento.

Diz Dissica: “A Copa veio pra cá porque eu fui o segundo Estado a inscrever como candidato a ser sede. Fiz sem governador, sem prefeito, sem porra nenhuma, na marra. Eu conhecia o governador [que, à época, era Eduardo Braga, hoje, ministro das Minas e Energia e do mesmo partido de Dissica] e tinha certeza de que ele ia endossar [a candidatura]”.

Mas há outra razão: a Arena poderia ser usada como propaganda de sustentabilidade. Nada mal, realmente, para um estádio moderno erguido em meio à selva amazônica — ícone internacional para os defensores do meio ambiente.

Manaus foi identificada como a sede com maior potencial para ser expoente da chamada “Copa Verde”, nome adotado para vender a ideia de que o Mundial seria organizado sob princípios de sustentabilidade.

A FIFA tenta emplacar sua defesa do meio ambiente nas intervenções que faz ao redor do planeta desde 2006, quando a Alemanha sediou a competição. Até um programa foi criado para cuidar especificamente disso, o Green Goal. O compromisso de entregar um Mundial sustentável foi assumido pela entidade ao lado do Comitê Organizador Local brasileiro.

Em agosto de 2011, o governo estadual lançou uma promessa clara e determinada para justificar sua escolha, em uma nota oficial publicada em seu site posteriormente retirada: “Manaus é tida como a capital sustentável da Copa entre as 12 cidades-sede e vamos corresponder com a expectativa”. O “estádio verde” na Amazônia seria o carro-chefe do mundial sustentável.

Porém, acabado o Mundial, além de todas as questões futebolísticas e financeiras, a Arena da Amazônia tem outro problema escondido em suas entranhas. Uma investigação feita por BRIO mostra indícios de que pelo menos parte do estádio foi construído com aço que é fruto de desmatamento ilegal.

A partir de consulta a bases de dados governamentais, e visitas a regiões produtoras de carvão em dois Estados, siderúrgicas e instituições de monitoramento, constatou-se que o carvão feito com desmatamento abasteceu a cadeia fornecedora do estádio. A informação foi confirmada por especialistas e agentes federais consultados pela reportagem.

Na lista dos fornecedores de aço para a Arena estava a Sinobras, do polo siderúrgico de Marabá, no Pará. Entre novembro de 2010 e julho de 2012, quando as fundações que sustentam a Arena da Amazônia estavam sendo preenchidas com o aço, a Sinobras recebeu carvão de pelo menos cinco carvoeiros que já haviam sido ou foram posteriormente multados e interditados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Carvoarias, de acordo com o órgão de controle ambiental, fraudavam o sistema de rastreamento do governo com o objetivo de acobertar o fato de que o carvão produzido por elas era originado de madeiras fruto de desmatamento ilegal. Foi com parte do material vindo dessas carvoarias que a Sinobras produziu os vergalhões de aço que acabariam no estádio da Copa do Mundo.

Um exemplo são as empresas D. A. Pinto e J. S. Comércio e Transporte de Carvão, que forneceram carvão para a siderúrgica em 2012. Elas combinavam as fraudes entre si, burlando o sistema de controle do governo federal. O esquema parece complexo, mas é simples.

O governo desenvolveu um sistema eletrônico, o Sistema de Comercialização e Transporte de Produtos Florestais (Sisflora), capaz de rastrear todas as empresas que trabalham com madeira e seus derivados. Isso incluiu desde a empresa que planta ou derruba árvores, até a companhia que compra a madeira para fabricar carvão. A própria empresa digita tudo no sistema: quem recebe a madeira, a quantidade, como é transportada, se são toras ou se está cortada, e até se sobrou algum resíduo ou material que não foi processado e ficou para estoque. Em tese, um sistema ótimo.

Mas é nesse resíduo — a madeira não aproveitada — em que quase sempre ocorre a fraude.

Os agentes do Ibama observaram que o Sisflora registrava vendas entre cidades muito distantes e em quantidades enormes. Carregamentos que levariam dias para serem feitos, que exigiriam três ou quatro caminhões, eram finalizados em questão de segundos. No sistema, tudo muito claro: eram carvoarias comprando resíduos. Os fiscais, contudo, logo aprenderam que se tratava de um transporte falso. Descobriu-se que a madeira real era vendida ou repassada ali por perto, na região da madeireira, enquanto o Sisflora era usado apenas para o crédito virtual.

Era exatamente o caso da D. A. Pinto e da J. S. Comércio e Transporte de Carvão. Controladas pela mesma família, ambas declaravam resíduos como crédito de madeira vindas de madeireiras espalhadas pela rodovia Transamazônica, mas o Ibama descobriu que a venda era feita apenas para acobertar o desmatamento ilegal.

De julho de 2010 a setembro de 2011, a Sinobras já havia recebido carvão ilegal (…). Nesse mesmo período, a Sinobras estava fornecendo aço para a Arena da Amazônia, informação confirmada pelo governo estadual e pela construtora Andrade Gutierrez.

Outro caso que envolveu a Sinobras foi em Ipixuna do Pará, onde a siderúrgica continuou comprando de uma carvoaria mesmo seis meses após ela ter sido oficialmente interditada, conforme mostram documentos do Ibama e do Instituo Carvão Cidadão (ICC), uma ONG que também monitora condições de trabalho na cadeia carvoeira da Amazônia. A empresa Magno Santos & Antonio Almeida Ltda foi fechada por vender carvão vegetal sem licença. A mesma empresa também foi flagrada fornecendo documentos e notas fiscais para acobertar transportes clandestinos.

De julho de 2010 a setembro de 2011, a Sinobras já havia recebido carvão ilegal por meio de uma fornecedora que acobertava a produção da Campos Belo, empresa que estava na lista negra do Ibama. Nesse mesmo período, a Sinobras estava fornecendo aço para a Arena da Amazônia, informação confirmada pelo governo estadual e pela construtora Andrade Gutierrez.

Agente fiscal do Ibama na região amazônica, Roberto José Scarpari reconhece que, apesar de todos esses elementos, a Sinobras é, entre as três empresas em atividade hoje no polo siderúrgico de Marabá, no Pará, foco da atividade carvoeira na região, a que mais se esforça para se tornar autossustentável. Mesmo assim, carvoarias ilegais ainda conseguem contaminar sua cadeia produtiva.

“Isso acontece porque o produtor fica implorando para os outros: ‘Compra meu carvão, compra meu carvão’, até alguém dizer ‘tá bom’ e acobertar para ele”, explica Scarpari. “É responsabilidade da empresa fiscalizar”.

A Sinobras, após receber por e-mail a lista de seus fornecedores que cometeram infrações enquanto a empresa fornecia aço para a Arena, enviou ao BRIO uma resposta também por e-mail. A companhia limitou-se a afirmar que as situações em que os produtores são autuados não significam prontamente que sejam irregulares. Não houve resposta sobre os casos em que o Ibama embargou seus fornecedores de carvão. O fato é que os vergalhões de aço da Sinobras viajaram de Marabá até o porto Chibatão, em Manaus, para serem recebidos e transportados 11 km ao norte, para a Arena da Amazônia.

Outras investigações mostram que a Arena da Amazônia também tem nas suas entranhas aço vindo de fornecedores investigados em Minas Gerais por também se abastecerem de carvão fruto de desmatamento ilegal. A fornecedora é a gigante ArcelorMittal, maior do mundo. Sua unidade brasileira usa, para o processo de fabricação, ferro gusa da Siderúrgica Mineira (Sidermin), baseada em Sete Lagoas (MG).

Durante dez anos, todo o ferro gusa (resultado da fusão entre ferro e carvão) produzido pela Sidermin ia exclusivamente para a ArcelorMittal, incluindo a fábrica da multinacional em Piracicaba (SP), de onde saiu o aço enviado para a Arena da Amazônia. Em 2011, o Ibama descobriu outro esquema de fraude no sistema eletrônico do governo. Um dos donos da Sidermin foi preso.

Um documento entregue pela própria ArcelorMittal à construtora Andrade Gutierrez, responsável pelas obras da Arena, a Declaração Ambiental de Produto, mostra que o ferro gusa da Sidermin representa 26% da composição do aço que a multinacional forneceu à Arena da Amazônia.

A empresa diz que as acusações jamais foram comprovadas, mas o processo ainda não foi encerrado — espera as alegações finais para o julgamento. A Sidermin também afirma que o ferro gusa produzido é baseado em madeira de eucalipto extraída legalmente.

Durante a apuração desta reportagem, a Sidermin foi novamente autuada e pelo mesmo motivo. Em junho de 2014, a Operação Metástase, feita numa cooperação entre Ibama, Ministério Público Federal e Polícia Federal, encontrou 89 carvoarias ilegais nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Bahia, Paraná e Pernambuco. Em Minas Gerais, 36 siderúrgicas foram autuadas, entre elas, a Sidermin.

Em nota, a ArcelorMittal declarou seguir padrões de procedimento para cadastrar e qualificar seus “fornecedores críticos”. Ela alega pedir documentos ao fornecedor, e uma gerência de Meio Ambiente da empresa os analisa. No caso de dúvida, uma auditoria checa in loco a veracidade das informações. Fornecedores regulares são fiscalizados com prazos de até dois anos de intervalo. De acordo com a empresa, não foram identificadas irregularidades durante as auditorias de 2013.

Entre os órgãos governamentais, quase nenhum assume a responsabilidade por ter fiscalizado a origem dos insumos utilizados na construção.

A Unidade Gestora do Projeto Copa, mais conhecida como UGP Copa, órgão do governo estadual responsável por organizar a Copa do Mundo no Amazonas, afirmou que uma empresa chamada Sustentech foi contratada para “acompanhar a execução da obra”. O escritório da empresa, em São Paulo, não tinha informações sobre o aço feito para o estádio. Recomendou que as perguntas fossem feitas diretamente aos analistas ambientais da construtora, a Andrade Gutierrez. A construtora repassou à reportagem as Declarações Ambientais de Produto, que mostravam a origem dos materiais fornecidos pelas aciarias. No caso da ArcelorMittal, o documento confirmava o nome da Sidermin como fabricante. A declaração da Sinobras não relacionava os seus fornecedores de carvão.

O fato é que, vindos de Marabá e de Piracicaba, os vergalhões que preenchem a Arena da Amazônia chegaram ao porto Chibatão, às margens do rio Negro, em Manaus. Na capital amazonense, o magnífico estádio da Copa do Mundo se tornou um nítido contraste com a estrutura velha do futebol local — que não ganhou nem tintas novas.


Cartolas Que Passam Chapéu.

Tombada pela Prefeitura de Manaus em novembro de 2013, de frente para a bem cuidada, florida e recanto dos apaixonados Praça da Saudade, a sede do Rio Negro guarda parte da história do futebol local. Embora “guardar” não seja bem a palavra exata.

Ali existe uma porta de ferro preta entreaberta. Nem fechada por completo, inibindo qualquer estranho, nem escancarada, convidando os curiosos. Nada de vigia, segurança, guarda ou qualquer tipo de bedel. Aliás, uma alma viva sequer. Debaixo das colunas gregas, a fachada branca pomposa, o símbolo no ponto mais alto e central.

Outra porta, alguns metros adiante no terreno, essa sim, toda aberta, também preta, mas de madeira velha, pendendo levemente para a parede, introduz um corredor estreito, curto, que dá para as piscinas do clube. Duas, com raias em preto e branco. O suficiente para insistirem, mais tarde, ser esse o “parque aquático” do clube.

Em busca da secretaria ou de qualquer orientação, encontramos escadas, subimos para o andar de cima e outro corredor, este ladeado por salas que parecem não ter fim. Todas vazias, em reforma. Uma delas denuncia o processo em andamento com a lata de tinta no canto, pincel e rolo. As duas últimas, ocupadas, parecem mais depósitos do que local de trabalho de alguém, com todo tipo de quinquilharia. No fim da linha, uma espécie de hall, como que avisando ser um espaço privado e nobre. Parece que um sofá já passou por ali para confortar os que aguardam atendimento. A plaquinha da última porta não deixa dúvida: “Presidência”. Como nas outras salas, batida na porta e pedido de licença, antes de entrar. Finalmente, alguém. Uma cabeçorra grisalha, de tamanho realmente fora do comum, sentado diante da mesa espadaúda, no canto da sala vazia e de pintura branca envelhecida.

- Com licença, o senhor é o presidente?

Escondido entre pilhas de papel, protegido, de um lado, por um cofre do tamanho de uma geladeira e, do outro, por pôsteres de antigas misses do Rio Negro, em roupas decotadas, a resposta vem curta e grossa:

- Sim, sou eu.

Na réplica, o pedido de entrevista, assentido de cara amarrada, sem palavras.

Thales Verçosa, presidente do Rio Negro, em seu gabinete na sede do clube. Foto: Raul Andreucci.

Thales Verçosa ajeita-se na cadeira cor de creme, com o símbolo do Rio Negro na altura da nuca, e, mesmo sisudo, sem perder a pose, sorri de canto de boca, deixando o lábio dar uma leve tremida. Enche o peito para dizer que é o clube mais bem estruturado da região, dando atenção não só para o futebol, mas também para outros esportes, como vôlei, natação, handebol, futsal e tênis de mesa. E como estão indo financeiramente? Bem, as atividades tiveram de ser interrompidas. Corte de gastos para o pagamento da dívida de R$ 4 milhões.

Considerando que a receita acumulada pelo Rio Negro este ano jogando em casa não passou de R$ 10 mil (todos os jogos acabaram em prejuízo, na verdade, aumentando ainda mais a dívida do clube), entende-se o motivo de tantas salas vazias. A tendência é esvaziar ainda mais, já que o time foi rebaixado com três rodadas de antecedência no campeonato deste ano, com direito a goleada de 8 a 1.

- A quantia, pelo menos aqui, é substancial. Encontramos uma situação pré-falimentar. Peguei quatro penhoras da sede, com leilão marcado. Tiramos e estamos pagando.

Thales, que foi presidente da Federação Amazonense de Futebol por dez anos, acreditava, quando conversamos, que daria para sanar tudo em três anos. Projetava também um plano de sócio-torcedor e pretendia aproveitar o fato de, historicamente, a torcida “barriga preta”, como são chamados os torcedores do Rio Negro, ser formada principalmente pela elite da cidade e do Estado (embora o maior público do time no campeonato deste ano tenha sido de 118 pagantes). Seria uma boa forma, na sua visão otimista, de fazer caixa com ingressos, camisa, produtos licenciados, aquele ziriguidum todo. Ou aproveitar os fãs para lucrar com quota de TV e patrocínio. Só faltava um detalhe.

Os sócios do clube estão ficando pelo caminho. Segundo o cartola, de 5.223 títulos, não há nem 3 mil associados ativos. “A maioria morreu. Dos vivos, 60% estão acima de 40 anos, e destes, ainda, 60% estão acima de 60 anos”.

O dia de baile no Salão dos Espelhos, com seu auge nas décadas de 1940 e 1950, era um acontecimento em Manaus. Reduto da alta sociedade, de acordo com Thales, “não era qualquer um que entrava, não podia nem ir de tênis. Era uma frescura da porra”. Coisa do passado. As festas também entraram na economia.

O auge passou. E nem porteiro sobrou.

Não que a situação esteja muito melhor para os rivais. O Fast, uma dissidência do Nacional, amarga um jejum de 44 anos sem título, a despeito de investimento em jogadores relativamente famosos. O campo de treino (e estádio improvisado, com troncos de árvores cortados no meio dos lances de arquibancada) é fruto de uma parceria com o Centro Universitário Luterano de Manaus (CEULM/Ulbra). O São Raimundo, aquele de maior sucesso recente, evitou o rebaixamento em 2014 apenas na última rodada. A sede em forma de cubo tem referências ao tricampeonato da Copa Norte em todos os lados e uma caseira de idade avançada firme na ordem de impedir qualquer visita.

O único time amazonense que ainda consegue pagar salários mais altos (para os padrões locais, claro) é o Nacional. No campeonato de 2015, o time teve uma folha de pagamento de R$ 300 mil mensais, dez vezes maior do que a do Rio Negro.

O centro de treinamento nacionalino não só tem porteiro como um bocado de caciques. Manoel do Carmo Chaves Neto, o Maneca, um dos diretores, é o escolhido para falar em nome do clube por sua vasta experiência. Com os cabelos penteados e uma camisa azul engomada pra dentro da calça jeans, é um típico vovô. “Oi, meu amor, o que é que o seu avôzinho querido pode fazer por você?”, pergunta a uma neta, por telefone, durante a entrevista. Aquele professor de matemática do Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal do Amazonas, com dificuldade de conter as mãos que insistem em tremer e o celular pendurado no cinto, é um velho lobo do futebol local.

Jogadores ouvem preleção do técnico antes de partida pela semifinal do Campeonato Amazonense de 2015. Foto: Danilo Mello/Foto Amazonas.

Fez carreira no futebol apoiado em partidos conservadores, tanto no período democrático quanto na ditadura militar. Foi deputado estadual por 16 anos, até 2003. Durante os anos de chumbo, conseguiu o terreno do centro de treinamento do Nacional numa doação “através de amizades”.

Não à toa, os rivais do Nacional, política e esportivamente, apontam um certo favorecimento ao clube. Omar Aziz, ex-governador do Estado (2010–2014), um dos poderosos da região, é um dos torcedores mais fanáticos e, dizem as más línguas, responsável por “captar” recursos. O centro de treinamento foi construído na sua gestão como dirigente do time. O assunto incomoda Maneca. Ele revira os olhos como quem se prepara para repetir uma resposta já decorada e diz: “é assim que funciona aqui, com acusações desse bando de medíocres”.

O fato é que Omar, atual senador da República, gosta de se meter, mesmo longe da administração. “Se você voltar daqui uns dias, logo ele estará aqui de novo. Ele gosta de dar um pitaco”, diz Maneca.

Os laços políticos bem posicionados do Nacional é que fazem surgir as dúvidas, diante da penúria geral e irrestrita do futebol local, sobre como o clube consegue dar conta dos R$ 300 mil de despesas mensais. Para o dirigente, a explicação é simples: “Você sabe que o [ex] governador, sendo nacionalino, todos conhecendo, evidentemente que aquelas pessoas que nós procuramos, indústria, comércio, enfim, aqueles que podem dar [dinheiro], o nome do governador é importante”, afirma Maneca. “Temos alguns patrocinadores, uns do nosso distrito industrial [Zona Franca de Manaus], mas muitos não querem revelar o nome. Quando o clube não está nas primeiras divisões [nacionais], nem todo mundo quer sua marca aparecendo”.

Thales Verçosa, o presidente do rival Rio Negro, prefere explicar de outra forma: “Vamos lá. Quem é que constrói com o governo? As empresas. As empresas não elegem os governadores, os deputados? Pois, então. Ela banca tua campanha por que gosta de ti? Não, é porque depois de eleito tu vais arranjar alguma coisa pra ela, obras pra ela”.

Quando pergunto se haveria algum pedido especial por parte de Aziz para que empresários invistam no rival, Verçosa responde de pronto: “Isso, pô! Mas ele [Omar Aziz] dizia: ‘Tu vai dar tanto pro Nacional’. E a empresa continua fazendo obras pro Estado. É assim que funciona, rapaz. O [ex] governador faz tudo pelo clube. Só pra você ter uma ideia, em 2013, quando o Nacional disputou a Série D do Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil, dava R$ 1,5 milhão por mês pro clube. O que eu vou fazer, brigar com o governador? O Brasil funciona assim”.

O funcionamento das federações de futebol Brasil afora também segue um padrão já praticamente estrutural. No caso do Amazonas, os cartolas não fogem à regra. A última vez que eles ganharam destaque nacional foi em 8 de abril de 2014. Naquele dia, em audiência da Câmara dos Deputados, em Brasília, Dissica Valério Tomaz rebatia a acusação de cumplicidade dele ou da FAF com casos de abuso sexual contra adolescentes. Uma reportagem do jornal local “A Crítica” acusava treinadores de clubes amazonenses de oferecerem dinheiro ou a titularidade em troca de sexo.

“Durante esse tempo em que eu estou à frente da Federação Amazonense de Futebol, nunca chegou ao nosso conhecimento nenhuma denúncia. Há o interesse de que todos esses fatos citados e denunciados sejam devidamente apurados e de que, quem tiver culpa, que vá pagar por ela. E nós fazemos parte desse contexto também”, declarou Dissica aos deputados.

Quando se encontrou com BRIO, deixando de lado qualquer ponderação, reclamou foi dos clubes. “Tem clube aqui que contrata veado para ser [treinador], para cuidar de categoria de base, por isso que deu a matéria que a gente tinha feito pedofilia nas categorias [de base]”, completa.

Dissica Tomaz durante reunião da Federação Amazonense de Futebol. Foto: Alberto César Araújo/Foto Amazonas.

Um sujeito parrudo, cabelos negros, marcados por um grisalho que começa a se destacar, Dissica, hoje com 62 anos, é um dos presidentes mais longevos de federações de futebol no Brasil. Está no cargo desde 1993. No ano passado, foi candidato a deputado estadual pelo PMDB, mas acabou tendo sua candidatura indeferida.

Seu poder de influência é inegável, assim como sua incapacidade de elevar o futebol do Amazonas a patamares dignos. O campeonato local é transmitido pela afiliada local da TV Record, comandada por um dos seus filhos.

O presidente da FAF é também amigo do atual presidente da CBF e ex-presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo Del Nero, de quem teve emprestado um flat em São Paulo para que a filha estudasse Medicina na cidade. Até chefe de delegação da seleção brasileira já foi, mostrando intimidade com José Maria Marin, o antecessor no comando da instituição máxima do futebol brasileiro, que agora amarga a prisão em Zurique, na Suíça. No celular, orgulhoso, mostra a foto com os jogadores que estiveram no amistoso em terras alpinas, em agosto de 2013, só que na gélida Basel. Não recorda do resultado — uma derrota de 1 a 0, encerrando uma sequência de 11 partidas sem derrotas.

Talvez por conta dessa proximidade, os cartolas-mestres do futebol brasileiro deram uma canetada amiga e recomendaram o alongamento do atual mandato de Dissica Tomaz de quatro para seis anos. A justificativa, embora carente de uma lógica clara, era a Copa do Mundo.

Dissica diz que aceitou ficar no cargo por ser uma missão. “Eu não ia disputar, mas agora, com essa estrutura [Arena da Amazônia], decidi que vou. E agora eu quero ver, porque muita gente vai querer [assumir o comando da Federação], você vai ver”.

Talvez, ele tenha mesmo que suar a camisa para completar a terceira década à frente da federação, mas suas batalhas mais duras são mesmo é com a Justiça — e em diferentes casos.

Sua longevidade à frente da Federação foi considerada irregular pelo Ministério Público. Em dezembro de 2008, a promotora de Justiça Kátia Maria Araújo de Oliveira pediu seu afastamento por irregularidades no comando da Federação. Segundo ela, Dissica exercia ilegalmente o cargo.

A Justiça aceitou a tese e determinou a nomeação de um administrador temporário que pudesse adequar o estatuto à nova legislação civil e eleger outra diretoria. O administrador temporário era… o próprio Dissica. Em 15 dias, ele deveria adotar todas as medidas necessárias e passar o bastão para outro cartola.

A promotora, então, voltou à carga em 2010 apontando novas irregularidades nos documentos apresentados por Dissica e, dessa vez, sugerindo um administrador temporário específico: o advogado Alcebíades de Leiros Cavalcante, então presidente do Nacional. Para o Ministério Público, o cartola havia aproveitado a liminar para seguir no cargo ao invés de convocar novas eleições.

Alcebíades, o breve, até assumiu o cargo, mas não durou uma semana, pois uma liminar do Tribunal de Justiça do Amazonas determinou a volta de Dissica ao comando da FAF. O caso segue nos escaninhos da Justiça, aguardando julgamento da apelação do Ministério Público.

Não é apenas o cartola Dissica que enfrenta problemas na Justiça. O político também. Ele responde a processos por conta do período em que foi prefeito de Eirunepé, cidade de pouco mais de 30 mil habitantes, a 1.160 km de Manaus, já na divisa com o Acre. Ele acumulou o comando da cidadezinha e do futebol amazonense por quatro anos, de 2005 a 2008.

Em setembro de 2013, o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas apontou 35 irregularidades na prestação de contas do ano de 2005 e determinou que Dissica devolvesse R$ 1,1 milhão aos cofres públicos — por isso, ele não pôde disputar as eleições para deputado estadual, no ano passado. Entre os principais deslizes: não comprovou gastos de recursos federais repassados para a educação e a saúde, comprometeu mais de 60% do orçamento permitido para o pagamento de pessoal e fez licitações sem moldes legais. O político é como o cartola, e tem as respostas na ponta da língua.

Sacola com chuteiras de jogadores do Penarol. Foto: Danilo Mello/Foto Amazonas.

- Sabe por que aquela cidade me fez virar prefeito? Eu ia passar férias, levava bola, camisa, colete e distribuía. Ia pro estádio e mandava fazer umas traves de madeira, botava aquela corda. Arrumava tudo e ficava jogando bola com o pessoal o dia todinho. De repente, meu irmão foi candidato, perdeu, e aí disseram que eu tinha de ir.

Nossa conversa acontece em um restaurante famoso de Manaus. Dissica chega a bordo de um SUV vendido nas concessionárias por cerca de R$ 100 mil. Durante a entrevista, admite problemas financeiros na FAF, que estaria devendo R$ 280 mil ao INSS. Explica que o montante já foi bem maior, chegando a ser de R$ 1,2 milhão.

Segundo ele, as dívidas eram resultado das despesas com arbitragem e quadro móvel (todos os funcionários que trabalham num jogo de futebol, de bilheteiro a pipoqueiro). Com o público que não enche nem uma sala de cinema, as rendas das partidas não são suficientes para bancar os custos e, se os clubes não pagam, como era o caso, o pagamento passa à Federação.

- Antes, eu tinha apartamento em Miami, Mustang na garagem, duplex no Rio [de Janeiro], tudo! Agora que me meti em política…

Segundo sua declaração de bens, apresentada ao Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas, seus bens, entre um terreno em Eirunepé, participação em duas empresas que levam seu nome e 305 cabeças de gado, somam R$ 467.859,00.

Enquanto limpa a farofa de banana do colo, o presidente da FAF ouve atentamente as perguntas. Tudo não ficaria mais difícil com a construção da Arena da Amazônia? Ele se sentia injustiçado pelas críticas?

- Não, porra nenhuma, eu tô porque eu quero. Agora, tá entendendo o que eu quero dizer? Se o governo não dá esse dinheiro, uns seis clubes nem entravam, aí fica difícil fazer futebol por aqui.


Tão Perto, Tão Longe.

O atacante carioca Fabiano, de 29 anos, reserva do Nacional no campeonato de 2014, está desanimado como tantos outros jogadores do futebol amazonense. Ao contrário de Dissica, que continua em seu cargo de comandante do futebol local porque quer e pode, Fabiano pensa em abandonar o sonho e buscar outro destino qualquer.

“Vou ser bem sincero, cara. Tem horas que dá vontade de parar. Vejo amigos fazendo faculdade, tendo a própria vida, tudo sólido, sabe? E a gente nessa incerteza”.

Fabiano ainda estava na quarta rodada do segundo turno, e seu Nacional colocaria no peito mais uma vez, a faixa de campeão local. Um privilegiado, diriam alguns. Mas quem passasse em frente ao complexo do Sesi, na zona leste de Manaus, na tarde daquele 5 de abril de 2014, conseguiria entender com clareza a incerteza expressada pelo jogador.

Ao lado do estádio do Sesi, o ginásio abrigava uma matinê, com adolescentes fantasiados como personagens de quadrinhos e animes japoneses, e outros com a indumentária clássica de fãs de rock pauleira — quase que um oposto do fã de futebol. O evento reunia mais gente do que o confronto entre o Nacional e o Fast, a poucos passos dali.

De dentro do estádio, os cantos racistas e homofóbicos das duas torcidas rivalizavam com as caixas de som que traziam para o gramado as vozes dos dubladores oficiais do desenho Cavaleiros do Zodíaco. O calor intenso ajudava a criar um clima de tensão diante daqueles grupos de torcedores rivais. Não era exatamente um ambiente como o que seria com torcidas organizadas como a Gaviões da Fiel e a Mancha Verde sem isolamento policial, mas… são rivais.

A reportagem pergunta a um dos policiais do Choque: “Não dá confusão misturar?”. Ele ri, balança a cabeça negativamente e diz: “Fica tranquilo, aqui, o pessoal não é disso”. Depois de um primeiro tempo monótono, o segundo incendeia. O Fast marca e a torcida do Nacional não se conforma. O bode expiatório é o bandeirinha. A grade de ferro que garante sua integridade física parece muito fácil de se derrubar. O Nacional empata e salva a pele de todos. A torcida de maior número explode num misto de alegria e raiva. Com a igualdade, o Fast vai para a última rodada praticamente desclassificado, dependendo de pelo menos mais dois resultados que não viriam. O Nacional, por sua vez, consolidava a ponta de seu grupo que o levaria mais tarde ao título.

A volta para casa reserva as dúvidas e angústias de cada um. No estacionamento, onde alguns param para conversar, um grupo do Fast surge, vindo da rua para provocar. Voa uma pedra, outra. Começam os gritos. Corre-corre. Voadoras, punhos cerrados, turma do deixa disso e a polícia, como barata tonta. Um oficial joga spray de pimenta no colega.

Apenas um ferido mais sério, com o pé esquerdo ensanguentado. O choro de dor e o susto no meio-fio. A atadura improvisada para aguentar até o pronto socorro. Uma cena que parecia rara, nas palavras da polícia, repetia as de outros jogos daquele Estadual e terminaria, na fase de grupos, com o Sul América e a reportagem trancafiados no vestiário após uma confusão com a arbitragem e o policiamento. Mais bárbaro, só o desfecho daquela edição, na decisão do título entre Nacional e Princesa do Solimões, com uma pancadaria generalizada envolvendo os dois times.

Torcedor acompanha jogo pelo Campeonato Amazonense pelo rádio de pilha. Foto: Danilo Mello/Foto Amazonas.

Do lado de fora do estádio Colina, o taxista José Ribamar dos Santos testemunhou os momentos de ouro do futebol do Amazonas — pelo menos os momentos em que as televisões dos bares ao redor do estádio não arregimentavam mais público do que as arquibancadas, como na tarde do dia 6 de junho de 2015, em que, ao mesmo tempo em que Nacional e Penarol se enfrentavam pela semifinal do amazonense, Barcelona e Juventus decidiam o título da mais importante competição de clubes do mundo, a UEFA Champions League.

“Hoje, eu me sinto até constrangido de falar do futebol daqui, porque, na década de 1970, eu me lembro de que, para assistir ao Rional [apelido carinhoso dos locais para o clássico entre Rio Negro e Nacional] nesse mesmo estádio, eu tinha que sair de casa ao meio-dia para poder pegar lugar para assistir ao jogo. Hoje, nada. Não dá nem 10% daqueles torcedores que vinham para o estádio”, diz Ribamar.

Do lado de dentro, a constatação é ainda mais sintomática. Há sete anos vendendo refrigerantes e cervejas nos estádios, o ambulante Rodrigo não tem dúvidas quando perguntado sobre o público no campeonato: “Onde a gente ganha mais dinheiro é no Peladão [a liga amadora local], mais do que no Campeonato Amazonense”.

No campeonato profissional, “quando o jogo é bom”, diz, “a venda bruta não passa de R$ 400 (o preço de cem cervejas)”.

Espécie de guru do futebol local, mas sem maiores poderes para fazer o esporte local avançar, Aderbal Lana, técnico do Nacional, espera que a devassa promovida na FIFA possa acontecer também na federação amazonense. Ele fala com o tom de resignação de quem sabe que a esperança de melhora surge mais da boca para fora.

“O campeonato está sendo trabalhado de uma forma complicada para os clubes. É um campeonato longo, com muitos prejuízos. Mas está chegando ao fim. O importante é que está chegando ao fim”.

Visto de perto, todo o caos descrito nesta reportagem torna-se compreensível. Afinal, pense bem. O governo estadual está louco para entregar a Arena da Amazônia de bandeja à iniciativa privada. A FAF parece mais interessada no seu lucro percentual. Os dirigentes dos clubes conformam-se e pedem esmola. Os torcedores sequer comparecem aos jogos. Jogadores ou voltam para seus Estados de origem ou sofrem com um calendário de três meses de trabalho por ano.

A maior floresta do mundo não tem mesmo nada a ver com futebol. Há muito tempo, os protagonistas do esporte na região resolveram tomar um caminho lamacento, como o de Renato Benigno, para fugir da patrulha, saindo pela rota alternativa — todos livres e impunes. Deram de ombros com o cenário de improvisação, precariedade e violência que viram instalado ou ajudaram a instalar. Fizeram-se e fazem-se de surdos para os problemas e as críticas. E continuam sem querer enxergar, agora, o óbvio: o elefante no meio da selva. A selva do futebol.


Raul Andreucci é repórter freelancer. Trabalhou cinco anos no diário esportivo LANCE! Também contribuiu com as revistas Brasileiros, Caros Amigos, Placar e o jornal Folha de S.Paulo. Atualmente divide-se entre a gestação de projetos de jornalismo mais longos e profundos, e estuda sobre a relação entre cidades e Copa do Mundo no Mestrado em Ciências Sociais na PUC-SP.

Tulio Kruse é repórter de O Estado de S. Paulo. Estudou Jornalismo e Mídia Digital por um ano na New York University, onde iniciou a investigação sobre a cadeia produtiva do aço utilizado na Copa do Mundo. O projeto foi concluído e apresentado na Universidade Federal de Santa Catarina, onde se formou em 2014.


Publicado originalmente em 6 de julho de 2015, em http://brio.media