Ilustração: Pedro Matallo.

CAPÍTULO 3


A chegada.

Às 15h40 do dia 31 de dezembro de 2014, Arturo, Nataly e Alejandro entraram no Brasil, como turistas, pela cidade de Assis Brasil, no Acre. Arturo deu um suspiro de alívio: o pesadelo do Panamá, daquela vez, não se repetira. Porém, tiveram, na sequência, um primeiro impacto negativo. Até então, apesar de todas as dificuldades, contavam com uma facilidade considerável. Na Colômbia, Equador e Peru, todo mundo falava o mesmo idioma. No Brasil, à primeira tentativa de estabelecer contato, tomaram um susto. “Meu Deus. O que estas pessoas estão falando?”, espantou-se Nataly. Eles mal faziam ideia de que o português pudesse ser tão diferente do espanhol.

De Assis Brasil, seguiram de ônibus até Brasileia. Ainda tinham uma sobra do dinheiro apurado em Cusco, com a qual esperavam passar alguns dias, mas foram surpreendidos pelo alto custo de vida brasileiro. Conseguiram uma tarifa dentro do orçamento no Hotel Baiano, localizado no município de Epitaciolândia, à beira do rio Acre, a poucos minutos de distância do centro de Brasileia. Escolheram o quarto mais simples, com cama e ventilador. Quando deu meia-noite, estavam em sono profundo. Naquele ponto distante da movimentação urbana, os barulhos dos festejos da virada soavam como um murmúrio de chuva. Não ouviram nada.

Nos cinco dias na região, os três tentaram, com muito esforço, se fazer entender pelos moradores locais. Conheceram outros imigrantes, a maioria haitianos, que começaram a chegar à cidade em 2010 após o terremoto que matou 316 mil pessoas e deixou outras 1,5 milhão desabrigadas no país. Em 2012, o governo brasileiro concedeu visto humanitário para os atingidos pela tragédia, incentivando o fluxo para o país.

Arturo foi aconselhado a tomar um ônibus até Rio Branco, onde poderia solicitar o status de refugiado. Nataly conseguira alguns trocados em Brasileia vendendo pulseiras feitas com os elásticos coloridos que ganhara no Natal em Cusco. Com o dinheiro, pagaram a passagem até a capital.

Pela janela do ônibus, Arturo observava a paisagem da BR-317. Tentava decifrar o significado das palavras dos outdoors, que deveriam ser anúncios de colchões, hotéis e calças jeans. De repente, deu-se conta de como o tempo passara rápido: dali a dois dias, completaria 45 anos. Fazia quase dois meses que deixara tudo para trás para tentar a vida em um país estranho, onde não conhecia ninguém e cujo idioma lhe soava como um código indecifrável. Olhava para Alejandro, adormecido a seu lado. Era pelo menino que fizera tudo aquilo.

Desde o abandono por Paola, Arturo adquirira um senso de responsabilidade tamanho em relação ao garoto que chegava a perder o sono. Pensava no que seria de Alejandro caso ele, o pai, morresse precocemente — o que, acredita, aconteceria em breve se permanecesse na Colômbia, desafiando traficantes e paramilitares. Aos 10 anos, obviamente, uma criança não tem condições de se virar sozinha. Aos 10 anos, um menino também tem muitos desejos de consumo, e Arturo se sentia sem ar sempre que dizia não para algum pedido do filho. A sensação era justamente essa, de sufocamento, como se no fundo do peito uma tampa fechasse a passagem de ar. “Alejandro só tem a mim”, pensava o pai. “Logo, Nataly se ajeita e vai embora. É a lei da vida”, resignava-se.

Quando desceram na rodoviária de Rio Branco, eram quase 10 da noite. Acomodaram-se nos bancos e adormeceram. Despertaram antes do raiar do sol. Tinham cinco reais no bolso e uma agenda a cumprir. A primeira tarefa seria encontrar uma lan house onde pudessem entrar na internet para obter informações sobre concessão de refúgio no Brasil. Arturo já tinha conhecimento que os colombianos eram os segundos maiores beneficiados pela condição, perdendo apenas para os sírios. Não sabia, porém, que pelo Estatuto dos Refugiados qualquer estrangeiro (com exceção dos criminosos de guerra) pode procurar a Polícia Federal e expressar sua vontade de permanecer no Brasil com esse carimbo — ainda que a entrada pela fronteira tenha sido ilegal.

O pedido é então encaminhado ao Comitê Nacional para os Refugiados, o Conare, órgão do Ministério da Justiça que analisa os casos. A lei, de 1997, reconhece como refugiado todo indivíduo que, “devido a fundados temores de perseguição por motivo de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, encontre-se fora de seu país” e não se sinta seguro para voltar para lá. De acordo com dados de outubro de 2014, o Brasil tem mais de 7 mil refugiados, de 81 nacionalidades distintas e, cada dia mais, desperta interesse nos estrangeiros: entre 2010 e 2013, houve um aumento de 930% no número de solicitações.

São diversos os aspectos que explicam a expansão. Muitos procuraram o Brasil atraídos pelas oportunidades criadas com a aceleração da economia de 2003 a 2010, quando o PIB cresceu a uma média de 4% ao ano. O país se transformou em uma opção viável diante de outras nações que tornaram o controle migratório mais rígido, como Estados Unidos, Canadá e parte da Europa. Para os refugiados da América do Sul, há ainda a vantagem da distância. Apesar do boom da última meia década, o Brasil ainda está longe de figurar na lista dos países que mais recebem estrangeiros no mundo. De acordo com dados de 2013 da Organização das Nações Unidas, 51% de todos os migrantes internacionais vivem em dez países do mundo. Em primeiro, vêm os Estados Unidos, com 46 milhões. Depois, a Rússia (11 milhões) e a Alemanha (10 milhões). No Brasil, vivem modestos 600 mil imigrantes.


A terra prometida

A procura pela lan house estendeu-se por toda a manhã. Arturo, Nataly e Alejandro andaram por horas a fio, sob o sol tórrido do Acre, sem saber se seguiam na direção certa. Tentavam pedir ajuda, mas ninguém compreendia as palavras em espanhol que pronunciavam. Alejandro dizia a cada cinco minutos que estava com fome. Arturo sentia o estômago revirar, como se dentro dele houvesse uma mão vasculhando em busca de algum resquício de comida. Nataly não reclamava, mas o pai podia ver em seus olhos impacientes o quanto estava faminta.

“Eu não sabia o preço da hora em uma lan house, por isso evitava gastar o dinheiro. No Brasil, tudo é caro demais”, afirma Arturo. Quando avistou um vendedor de pastéis, decidiu arriscar-se e comprar dois, um para cada filho. “Não quero, estou sem fome”, mentiu. Deixou dois reais com o vendedor e continuou a caminhada, com uma nota de dois reais e uma moeda de um no bolso. Por volta das 13h, finalmente, encontrou uma lan house no centro da cidade. O tempo de espera para usar um computador era de três horas — havia uma fila extensa de jovens esperando para fazer os novos currículos de 2015. Aquilo era o Brasil, “a terra prometida”, como pensara antes de sair de Bogotá. Sentia tanto pavor que mal conseguia reconhecer o desapontamento. “Poucas vezes, senti-me tão assustado”, conta Arturo.

Depois da longa espera, sentou-se diante de um PC com teclado encardido e deu uma busca rápida no Google. Verificou que deveria ir até a superintendência da Polícia Federal para dar entrada no pedido de refúgio. Deixou os três reais no caixa e saiu andando até a sede da PF, desta vez, com a ajuda dos mapas consultados na internet. Contou a um agente os principais momentos de sua história: a denúncia dos traficantes, o assédio dos paramilitares, os tiros em casa e o flagelo econômico. Nataly falou sobre a dificuldade de se sustentar no campo com a rotina prejudicada pela ação dos guerrilheiros. Com os papéis dos pedidos em mãos, foram encaminhados à Chácara Aliança, principal abrigo dos haitianos que chegam ao Brasil pelo Acre. Era hora do jantar. “Comemos um arroz delicioso”, diz Arturo, levando as mãos à boca, como se tentasse conter uma salivação inesperada. “Também tinha pão. Foi o melhor que já comi na vida. E olha que os pães brasileiros são horríveis, não se comparam aos colombianos”. Aquela era a primeira refeição de Arturo desde que chegara à cidade.

A Chácara Aliança fica em uma área de cinco hectares cercada por árvores. Tem capacidade para receber, com conforto, 200 pessoas, mas já chegou a abrigar 1.600 de uma só vez. Arturo calculou a quantidade de hóspedes em 800, quase todos haitianos. O lugar é basicamente frequentado por eles, que se espalham pelos quartos e demais cômodos da casa — até setembro do ano passado, 42.181 imigrantes tinham passado pela Chácara, sendo 37.357 haitianos.

Os colombianos dormiram em um amplo salão, em colchões no chão. Alejandro gostou do ambiente. Havia comida e um parquinho, cujo principal enfeite é uma réplica do Cristo Redentor. Arturo estava preocupado porque, sem dinheiro, não conseguia se movimentar — e, confinado na chácara, ficava difícil levantar qualquer grana. Também não se sentia à vontade ali, apesar de gostar do contato com a natureza. Os funcionários se revezavam em dois turnos. “Um, com pessoas boas; outro, uma gente má, grosseira e sem paciência”, diz. Todos os dias, via saírem dali ônibus para São Paulo, mas nenhum para o Rio de Janeiro. Com a convivência, Arturo aprendeu algumas palavras em crioulo, língua originária do francês falada por quase toda a população do Haiti. Havia também alguns que se arriscavam no espanhol. Conversando com eles, foi convencido a ir para a capital paulista. Ouviu que a cidade tinha mais dinheiro, acolhida e oferta de trabalho do que qualquer outro lugar na América do Sul.

A família recolheu as mochilas e embarcou para aquela que seria, na lembrança de Arturo, a pior das travessias — mais dura ainda do que os longos trechos a pé pelo Peru. O desconforto, dessa vez, não era apenas físico, mas principalmente emocional. Os três não tinham uma única moeda. Estavam totalmente zerados. Quando o motorista fazia as paradas para lanche, o olhar de Alejandro procurava o de Arturo. Eles ficavam dentro do ônibus para evitar ver os “banquetes” com os quais se fartavam as famílias de haitianos.


Clique aqui para ler o capítulo final de “A Travessia”.

Quer ser avisado de nossas futuras histórias? Mande um e-mail para info@brio.media com o assunto “Quero BRIO”, ou siga nossa página aqui no Medium, onde você pode encontrar outras grandes reportagens que já publicamos.

Para voltar ao primeiro capítulo, clique aqui.

Para ir ao capítulo 2, clique aqui.


Adriana Negreiros é jornalista freelancer. Foi chefe de sucursal da revista Veja em Fortaleza e Salvador e editora das revistas Playboy e Claudia. Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, também cursa Filosofia na Universidade de São Paulo. Venceu o Prêmio Fiat Allis de Jornalismo Econômico e foi três vezes finalista do Prêmio Abril de Jornalismo. É uma das idealizadoras do Fale com Estranhos, projeto de entrevistas com anônimos. Está escrevendo seu primeiro livro-reportagem, a ser publicado em 2016 pela Editora Objetiva.