Ilustração: Pedro Matallo.

CAPÍTULO 4


A acolhida.

A rodoviária do Tietê, às margens do rio de mesmo nome, em São Paulo, é a segunda maior do mundo em fluxo de pessoas — perde apenas para o terminal de Nova York, nos Estados Unidos. Por dia, cerca de 90 mil pessoas circulam pelo lugar. Arturo nem pôde espantar-se com a imensidão do Tietê, porque estava muito concentrado na tarefa de seguir os haitianos para onde quer que eles fossem. “Nataly, ouvi alguém falar em albergue, vamos atrás deles”, orientou à moça. A perseguição ao grupo, porém, foi interrompida diante da catraca da estação Tietê, da linha azul do metrô: não tinham dinheiro para comprar os bilhetes. Um haitiano que conheceram no ônibus resolveu ficar para ajudá-los a chegar ao albergue.

Da mesma forma que na viagem de ônibus, onde Arturo e os filhos contaram com a solidariedade dos outros passageiros para conseguirem comer algo nas paradas, o jeito agora foi sair pedindo dinheiro a um e outro até inteirar o valor das três passagens. Seguiram direto para a Missão Paz, complexo que envolve a Igreja Nossa Senhora da Paz e o Centro de Estudos Migratórios. O espaço fica no Glicério, bairro do centro de São Paulo que, nos últimos anos, tornou-se um reduto de imigrantes. Com capacidade para 110 pessoas, o abrigo já chegou a abrigar 270, quase todos haitianos. A Missão é desenvolvida pelos missionários scalabrinos de São Carlos e, além de acolhida, oferece ajuda psicológica, médica e jurídica para os estrangeiros.

Parecia o ambiente ideal para Arturo começar a vida na cidade com os filhos, mas havia um problema: estruturada para que as crianças fiquem com as mães, na ala feminina, a Missão não recebe pais solteiros. Apenas Nataly poderia ficar. Mesmo tentada a descansar em uma cama, preferiu seguir com o pai e o irmão para um albergue da Prefeitura que atende a moradores de rua no centro da cidade. No lugar, os três dividiram espaço com prostitutas, viciados em crack e bêbados. “As mulheres ficavam nuas na nossa frente. Alejandro ainda é menino, via coisas que não eram para a sua idade”, conta Nataly. Arturo levava as mãos à cabeça. “Sentia-me muito mal. Eu estava sem dinheiro, não conhecia ninguém, não entendia o que falavam para mim”.

Os três poderiam dormir no local, mas não passar o dia. Quando acordavam, pegavam as mochilas e saíam andando sem rumo. Nas caminhadas, Nataly surpreendia-se negativamente com o aspecto da cidade. “Ouvi falar que o Brasil é um país lindo, mas não é verdade. Aqui é feio”, diria, meses depois. Visitavam os centros de acolhida na expectativa de conseguir uma moradia temporária, mas só ouviam negativas. Eventualmente, sentavam no chão, próximos a outros sem-teto, para conseguir alguma ajuda. Com o dinheiro, compravam lanches de bancas de rua. Das poucas frases que começava a conseguir compreender, uma marcou Arturo. Um comerciante, depois de dar o troco de um pedaço de bolo, disse: “Vocês, estrangeiros, não deveriam vir para São Paulo. Aqui não tem lugar para mais ninguém”. O colombiano pensou que, talvez, o vendedor ambulante tivesse razão.

Arturo caminha pelas ruas da região central de São Paulo. Foto: Pedro Matallo.

Nataly começara a notar, nas andanças pelo centro, que atraía olhares masculinos. Sentia um misto de medo e asco. “Eram homens drogados, com cheiro de cachaça, sujos”, descreve. Ouvia adjetivos que, embora não entendesse o significado exato, imaginava conter obscenidades. Num fim de tarde, quando descansavam embaixo do viaduto do Glicério, um homem tentou jogar-se sobre ela. Arturo pôs-se diante do agressor para evitar o ataque, e pressionou as palmas das mãos contra seu peito, empurrando-o para longe. Enfurecido, o homem partiu para cima de Arturo, devolvendo-lhe o empurrão. Alejandro, que assistia à cena com os olhos arregalados, ficou nervoso ao ver o pai trocar sopapos com o brasileiro. Enquanto tentava desvencilhar-se do homem, chegavam ao ouvido de Arturo palavras incompreensíveis em português, ditas pelo seu rival na luta, e os gritos de Alejandro. Quando finalmente conseguiu pôr o sujeito para correr — embora alucinado, ele parecia cambaleante, provavelmente bêbado e drogado –, os três resolveram sair dali. Estavam arrasados. Arturo lamentava sobretudo o fato de Alejandro presenciar tanta miséria humana. Até então, por mais pobre que tivesse sido sua vida, o garoto nunca havia tido contato com o fundo do poço.

Imagens: Daniel Motta.

No terceiro dia, já sem forças para andar de um lado a outro, Arturo sentou-se em um banco de praça para descansar. Sentiu uma tristeza profunda, cortante. Então, desabou a chorar. Ali, decidiu que o melhor a fazer era procurar o consulado colombiano e pedir ajuda para embarcar os filhos de volta para o seu país. Eles ficariam na casa de Lus, sua irmã, enquanto as coisas se ajeitavam.

Arturo maturou a ideia por algumas horas, mas voltou atrás. Não seria justo tê-los submetido a tanto sofrimento para nada. Nataly queria ficar no Brasil, por mais que chorasse continuamente de saudades da mãe. Acima de tudo, Arturo não suportaria viver longe de Alejandro. “É meu menino. Por ele, corto as duas pernas e os dois braços, se for preciso”.

No dia seguinte, no que compreendeu como um sinal da chegada de dias melhores, Arturo conseguiria duas vagas no Crai, o Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes da Prefeitura de São Paulo. Não havia lugar para Nataly, mas o mais sensato a fazer era convencê-la a ficar na Missão Paz. Logo, a família voltaria a se reunir. Assustada depois de tudo o que passara na rua, a moça concordou com o acerto.

Localizado em uma rua calma do bairro da Bela Vista, o lugar tem duas alas, uma masculina e outra feminina, e capacidade para 110 pessoas. Arturo e Alejandro acomodaram-se em um quarto com beliches, na companhia de outros imigrantes, a maioria haitianos. O pai foi orientado a matricular Alejandro em uma escola próxima — o garoto cursa o quinto ano do ensino fundamental. À tarde, depois dos estudos, o menino brincava com outros pequenos imigrantes nas áreas comuns do prédio. Faziam uma verdadeira algazarra, gritando e correndo de um lado a outro. Alejandro encantou-se por um bebê gorducho de pouco mais de um ano, filho de haitianos, que vivia de fraldas e sandálias com motivos do Super-Homem.

Enquanto isso, na Missão Paz, Nataly tentava estabelecer contatos para conseguir um emprego. Um colombiano hospedado na igreja deu-lhe a dica de um trabalho: Maria Cruz, colombiana proprietária de uma pequena lanchonete no Glicério, precisava de uma garota para ajudá-la na cozinha aos domingos. Nataly candidatou-se à vaga e foi aceita de imediato. Por dia de trabalho, faturava 50 reais.

Dona Maria comentou com Nataly que, no imóvel vizinho ao seu restaurante, funcionava uma lan house. O ponto, porém, estava fechado, para alugar. Como mexia com celulares e informática, quem sabe o pai da moça não se interessasse pelo negócio? Naquela noite, Nataly comentou a proposta com Arturo. “Se Dona Maria me emprestar o dinheiro, aceito”, respondeu entusiasmado. Dona Maria adiantou 3 000 reais ao compatriota, cobrando juros de 20% ao mês. Arturo estava confiante no sucesso: além de ter conhecimentos administrativos, também entendia de computadores. Por aquela época, Nataly conseguiu uma transferência da Missão Paz para o Crai. A família voltou a ficar reunida. Finalmente, parecia que tudo começava a entrar nos eixos.

Imagens: Daniel Motta.

Em março, Arturo assumiu o negócio e estabeleceu uma nova rotina. Levantava às 5h, calçava os tênis e ia até o salão do Crai fazer alongamentos e abdominais. Às 6h, estava de volta ao quarto para acordar Alejandro. Às 6h30, depois do café da manhã, saía com o menino até a escola. De lá, voltava ao Crai para buscar Nataly — que se demorava um pouco mais penteando os longos cabelos e passando batom. Seguiam para a lan house, no Glicério, numa caminhada de 1,7 quilômetros, que levava cerca de 20 minutos. Às 8h, subia a porta de enrolar da lan house e começava o expediente, cujo primeiro turno terminava às 11h30, hora em que deixava o comércio aos cuidados de Nataly e voltava para pegar Alejandro na escola.

Da escola, os dois seguiam até o Crai, onde almoçavam — Nataly comia na lanchonete de Dona Maria. Depois, pegavam o caminho da lan house, ocasiões em que Alejandro, invariavelmente, queixava-se da vida. “Andar, papai? Não quero mais andar”. Além de impressão e acesso à internet, Arturo passou a oferecer consertos de celulares. Por isso, à tarde, pelo menos duas vezes por semana, Arturo caminhava mais cerca de 2,5 quilômetros até a rua 25 de Março e ao viaduto Santa Ifigênia para comprar peças –e, de certa maneira, matar as saudades dos tempos de Sanandresito. Às 18h, Nataly e Alejandro encerravam o expediente e voltavam para o abrigo. Arturo prosseguia no batente até por volta das 23h. Era preciso dar duro para recuperar o dinheiro que devia para Dona Maria.

Os fins de semana da família eram dedicados ao lazer. Visitavam os principais pontos turísticos de São Paulo, como a Catedral da Sé, e posavam para fotos. As amigas colombianas de Nataly aprovavam o que viam no Facebook. Comentavam que os ares brasileiros haviam deixado a garota mais bonita, com aparência de mulher. Os tempos de autoestima baixa haviam ficado para trás. “Depois de tudo o que passei, deixei de ser uma menina”, ela concorda.

A tranquilidade familiar, porém, ficava só na aparência. Como a hospedagem no Crai era provisória, em breve, os três deveriam liberar as vagas para novas famílias. Arturo se angustiava. Por causa da dívida com Dona Maria, não sobrava dinheiro para alugar um apartamento. Em meados de julho, a bomba explodiu. Os três foram mandados embora do Crai e não tinham para onde ir.

Com as mochilas mais cheias do que quando chegaram a São Paulo, Arturo, Nataly e Alejandro andaram da Casa de Acolhida até a lan house. Pensavam passar apenas uma noite. Ficaram um mês. Dormiam no chão, entre as cadeiras e sobre os cobertores. Tomavam banho de balde no lavabo e, depois, passavam longos minutos puxando a água com o rodo para um ralo minúsculo. Faziam todas as refeições na lanchonete de Dona Maria, que, de patroa de Nataly e financiadora de Arturo, se transformou em uma espécie de matriarca da família.

Em agosto, Arturo conseguiu alugar um quarto e sala com mobília no prédio vizinho à lan house. Retomou a rotina de trabalho com mais conforto — em vez de caminhar 1,7 quilômetros até o trabalho, simplesmente descia dois lances de escada e caminhava 20 metros pela calçada. Mais uma vez, tudo parecia, finalmente, sob controle.

Alejandro brinca com colega perto do apartamento onde mora com Arturo e Nataly. Foto: Pedro Matallo.

Menos de um mês depois, Arturo foi ao banco e sacou 1.700 reais. Usaria o dinheiro para despesas gerais e também para pagar o primeiro aluguel. Do banco, seguiu para a lan house e entregou o dinheiro a Nataly. Disse à garota que iria tomar uma cerveja com uns amigos, mas voltaria em um instante. Nataly guardou o bolo de notas de 50 e 100 reais em uma gaveta e despediu-se do pai. Na sequência, dois colombianos entraram na lan house e pediram à garota que imprimisse alguns documentos. Quando ela se levantou para buscar o papel na impressora, os rapazes pegaram o dinheiro da gaveta e saíram em disparada. A menina ficou lívida.

Quando recebeu o telefonema de Nataly noticiando o furto, Arturo entrou em pânico. Não acreditava que o fantasma do despejo pudesse voltar a assombrar os seus dias. Explicou a situação para a proprietária do imóvel e pediu mais uns dias para tentar levantar algum dinheiro com agiotas que atuam no Glicério, a juros que batem os 30% ao mês.


Acordei no dia 16 de outubro, um sábado, com uma notificação no WhatsApp. Era Nataly. “Já estamos fazendo arepas”. Aquele era o dia do Bazar da Adus, dedicado a arrecadar dinheiro para refugiados no Brasil. “Rua Rodesia, 398, Vila Madalena. Hasta 10”, escreveu, a seu modo corriqueiro, misturando as palavras em espanhol e português.

Fazia tempos que Arturo me falava sobre o bazar. “Vou mandar o endereço para você ir”, ele me disse, mais de uma vez. Estava ansioso porque, ali, poderia voltar a exercer uma de suas habilidades, que julga estar entre as maiores: preparar massas. No caso, arepas, quitute tipicamente colombiano, espécie de mini pizza feita com massa de milho e que leva recheios variados: queijo, frango ou carne são os mais comuns.

Cheguei ao bazar por volta das 15h. A feira estava funcionando em uma ampla casa da Vila Madalena, bairro boêmio e de alto padrão de São Paulo. Avistei Arturo no fundo do quintal, quase irreconhecível em vestes de chef, atrás de um balcão, virando discos de arepa de um lado a outro. Quando me viu, levou as costas da mão direita à testa, como se limpasse o suor, ao mesmo tempo em que flexionou os joelhos, simulando uma queda. “Está muy duro”, disse, num contentamento disfarçado de queixa. “Não paro de fazer arepas”.

Nataly e Alejandro ao lado de Arturo, na lan house do pai. Foto: Pedro Matallo.

Nataly ajudava o pai na tarefa, enquanto Alejandro flanava de um lado a outro, bisbilhotando o trabalho dos outros refugiados: havia gente tocando música, vendendo bijuterias e comercializando itens doados, como roupinhas infantis compradas na Disney.

Arturo me preparou uma arepa de queijo enquanto eu conversava banalidades com Nataly. Ela comentou que estava empenhada em aprender inglês, habilidade que considera importante para destacar-se no mercado de trabalho. “Você vai ver. Vou aprender e logo vamos conversar em inglês”, garantiu rindo — nos cinco meses em que conversamos quase diariamente durante a apuração para esta história, Nataly divertia-se diante de minhas tentativas fracassadas de falar e escrever em espanhol. Despedi-me dos três rapidamente para não os distrair, e já estava a meio caminho da saída quando Arturo me chamou, num quase grito. Queria me entregar um cartão, onde se lia: “Es Rico, cozinha colombiana”. No verso, acima de um número de telefone, o nome em extenso: Robert Arturo Cardenas.

O colombiano percebera o potencial de negócios do bazar: aquela seria uma oportunidade e tanto para divulgar uma empresa, se tivesse uma. E, já que não tinha, por que não a criar? Foi assim que surgiu a ideia de se especializar na produção de arepas por encomenda. A sede da empresa é a própria quitinete onde Arturo mora com os filhos, ao lado da lan house. A página da empresa no Facebook contava, no final de outubro, com 72 seguidores. “Agora, só preciso dos fregueses. Todo o resto já tenho”, brincou.

Nataly está empenhada em fazer o Es Rico vingar. Divide o seu tempo entre a produção de arepas, os cuidados com a casa — ela prepara as refeições da família e cuida da limpeza — e a recepção da lan house. Depois do furto, passou a ficar mais atenta ao entra e sai de clientes. Tem poucos amigos e não namora, embora confesse já ter recebido algumas propostas. “Mas não gostei de nenhum rapaz”, encerra o assunto. Tem saudades da Colômbia e, todos os dias, fala com a mãe pelo WhatsApp. No dia 6 de outubro, quando completou 21 anos, fez um desabafo no Facebook. “Não posso evitar as lágrimas por estar longe da minha família e dos meus amigos”. Seu sonho é conhecer o mar do Brasil. “Ouvi falar que, de perto, é bem azul”.

Alejandro começou a usar óculos para correção de miopia e é um aluno aplicado. Tem amigos na vizinhança do Glicério e, bonito e gentil, faz sucesso com as garotas na escola. Gosta de ler os gibis da Turma da Mônica e desenhar nos cadernos. Quando passa por uma papelaria, cobiça as diversas canetinhas coloridas à venda. Dos três, é quem melhor fala português. Nunca mais mencionou os passarinhos azuis do Rio de Janeiro, mas ainda sonha em subir ao topo do Cristo Redentor.

Arturo continua no aguardo da concessão do visto de refugiado para ele e os filhos. Trabalha 15 horas por dia para levantar o dinheiro do aluguel da casa (800 reais), da lan house (2.600 reais) e das dívidas que contraiu desde que começou a pegar dinheiro emprestado com agiotas — em outubro, o montante era de 1.500 reais. Por sorte, o movimento do negócio não caiu por causa da crise econômica — ao contrário, aumentou a procura por consertos de celulares. De vez em quando, abre uma cerveja, bota uma música colombiana para tocar no celular e sente saudades da terra natal. Diz que ainda não teve tempo de arrumar uma namorada brasileira. Está oito quilos mais gordo do que quando saiu de Bogotá. “Acho que preciso fazer umas caminhadas”, brinca.

Alejandro pode ter se esquecido das araras azuis, mas Arturo, não. “A viagem não acabou. Ainda não chegamos ao Rio de Janeiro”.


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Adriana Negreiros é jornalista freelancer. Foi chefe de sucursal da revista Veja em Fortaleza e Salvador e editora das revistas Playboy e Claudia. Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, também cursa Filosofia na Universidade de São Paulo. Venceu o Prêmio Fiat Allis de Jornalismo Econômico e foi três vezes finalista do Prêmio Abril de Jornalismo. É uma das idealizadoras do Fale com Estranhos, projeto de entrevistas com anônimos. Está escrevendo seu primeiro livro-reportagem, a ser publicado em 2016 pela Editora Objetiva.