Ilustração: Pedro Matallo.

O repórter Aiuri Rebello passou uma semana convivendo com os operários apresentados nesta reportagem, sem se identificar como jornalista. Por razões de segurança do profissional e para proteger as adolescentes retratadas nesta história, optamos por usar apenas nomes fictícios. Todos os eventos a seguir são reais.


ATO 1

Atrás do matagal.

Calor, poeira, pernilongos e urubus não perdoam ninguém no km 240 da obra de duplicação da Estrada de Ferro Carajás, no interior perdido do Maranhão. A impressão é de que se está no lugar mais remoto do Brasil. Às 18h15 de uma sexta-feira no fim de setembro não é diferente. Os 33 graus desse fim de tarde primaveril coroam o inferno privê vivido pelos 1.140 trabalhadores de empreiteiras contratadas pela gigante mineradora Vale, todos eles escondidos debaixo de macacões vermelho-operário de tecido pesado e grosso — uma mistura de algodão e linho envolta por uma camada sintética emborrachada — , todo fechado dos pés ao pescoço e com faixas reflexivas nas mangas, tronco e pernas.

Ao meu redor, um grupo de uns 300 operários encerra naquele momento mais uma semana de trabalho extenuante em um dos trechos da duplicação dos 892 quilômetros da ferrovia que liga Carajás, no Pará, a São Luís, no Maranhão — parte do maior empreendimento minerador da Vale em todo o mundo, o S11D. A obra naquele ponto começou já faz quase dois anos. A missão ali estará terminada até o começo de 2016, e a maioria dos operários já foi ou está indo embora, seja para casa ou para uma nova frente de serviço em outro lugar, talvez, em outro trecho da própria EFC. O clima é de fim de festa, mas o que esses homens mais querem após o turno de trabalho é justamente festa, com bebida gelada e mulheres.

Tudo parece inadequado para a inclemência do calor no oeste maranhense, no limite do fim do Cerrado e início da Amazônia. Mesmo com o sol quase completamente posto, a temperatura não dá mostras de que irá arrefecer nas próximas horas. Os trabalhadores conversam, caminham ritmados e os mosquitos começam a zunir no ouvido. Todos suam bastante e urubus voam baixo em círculos ao longe. Um bafo de sauna seca domina a atmosfera, apesar do vento.

Com os rostos cobertos de poeira, fuligem e sujeira, capacetes brancos embaixo dos braços e alguns ainda sobre as cabeças, os operários serpenteiam entre máquinas pesadas espalhadas a poucos metros dos trilhos no canteiro de obras principal, sob os cuidados de uma das três empreiteiras ainda instaladas naquele trecho, a Lucena Infraestrutura.

Mesmo pela noite, é incessante o movimento dos longos comboios de composições carregadas de minério de ferro vindos das minas em Carajás rumo aos navios atracados no litoral do Maranhão, e daqueles que voltam vazios para pegar mais ferro. Ao longo do dia, circulam por ali cerca de 35 composições, deixando no ar um discreto rastro negro pelo caminho. O barulho é grande e apitos constantes característicos de caminhão quando dá marcha a ré acentuam a cacofonia no formigueiro de homens e máquinas.

Ônibus parqueiam e estacionam para deixar mais gente, vinda de outros pontos da obra a alguns quilômetros de distância. Com o movimento ininterrupto de veículos da Vale e empreiteiras associadas, a poeira da terra seca é alta e constante. Ao longo do dia, dezenas de caminhões-pipa molham o caminho para amenizar a nuvem embaçada que toma conta de tudo, mas não parece adiantar muito, e o vento mais ou menos constante não ajuda a acalmar as coisas.

Conforme desembarcam, os homens — só há homens — seguem para o depósito para largar equipamentos, como cintas com ferramentas, rádios, botas e luvas pesadas de construção. Alguns, lavam o rosto e as mãos sobre o cascalho na soleira da entrada do complexo com galões de água. Muitos fumam. São de todas as idades. Há jovens de 20 e mais velhos, de 40, 50 anos de idade. Ato contínuo passam por seus armários, recolhem mochilas, deixam coisas e, em fila, seguem para o RH. A maior parte do salário deles cai em conta corrente, mas os bancos mais próximos ficam em Santa Inês, cidade com cerca de 83 mil habitantes, a 60 km de lá. Muitos preferem receber um pouco em espécie para não ficar sem dinheiro vivo. Cartões magnéticos têm pouca serventia no local.

Trecho da rodovia que corta a cidade de Tufilândia, no Maranhão. Foto: Aiuri Rebello.

Parado ali, alguém que não conhece a região e assiste ao movimento neste fim de tarde típico de canteiro de obras não tem qualquer pista de que a menos de um quilômetro, do outro lado dos trilhos, logo atrás de uma espécie de matagal, existe uma cidade. É para lá que segue a romaria de operários enquanto o sol se põe.

A cidadezinha fica espremida entre a estrada de ferro, que corta seu território por 14 quilômetros em linha reta, o Rio Pindaré e a terra indígena que leva o mesmo nome do rio, dos índios Guajajara.

Mesmo entre aqueles que estão trabalhando por lá, poucos já tinham ouvido falar de Tufilândia e seus 5.716 habitantes, segundo a projeção de população do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para 2015. Fica a 278 km de São Luís, mas parece muito mais — olhando no mapa, não há como ter a dimensão real da distância e isolamento. A sensação é de que fica muito longe de qualquer lugar. Uma viagem de carro da capital até lá leva entre cinco e seis horas.

Ao longo das estradas, vindo de São Luís, é comum ver placas “Vende-se peixe vivo” escritas a mão e papelões ao lado de barraquinhas nos acostamentos, que vendem também algumas frutas e mandioca. Açougues com peças de carne expostas em ganchos no balcão sem refrigeração e cercadas por nuvens de moscas são comuns. Nas cercanias da cidade, a paisagem dos dois lados da pista de mão dupla esburacada é dominada por arbustos, árvores pequenas e toda a sorte de vegetação baixa dos pastos, sempre vazios de gado na época da seca, que dura de junho a novembro por ali. O cenário de isolamento é completado por fileiras de palmeiras de babaçu a perder de vista plantadas nas fazendas intermináveis. O solo, infértil após séculos de más práticas de cultivo e desmatamento (a cidade já teve alguma importância econômica em eras passadas, com a extração de madeira que hoje não existe mais), não propicia grandes plantações além da clássica roça de mandioca e algumas outras poucas variedades de subsistência, como o milho e o arroz. Açudes para criação de peixes são muito populares e espalhados pelos ranchos da região.

A desolação nos arredores de Tufilândia é quase total e nenhuma operadora de telefonia celular, fora a Oi, funciona desde a saída de Santa Inês, lá atrás. O cenário de terra de ninguém é reforçado por montes de carcaças de gado, cavalos, burros, jumentos e outros animais grandes que apodrecem nos acostamentos e matagais próximos à pista, atraindo nuvens de urubus.

Após algumas dezenas de metros ladeira abaixo, depois do matagal que esconde a linha do trem, está a rua principal, à direita. Em torno dela, e ao longo dos próximos três quilômetros, está organizada toda a parte urbana da cidade. A Rua da Pista e a Rua do Comércio, as principais, concentram boa parte da atividade econômica local. Em 2013, indica o IBGE, eram 23 pequenas mercearias e mercados, lojinhas de capas de celular e outros penduricalhos, pequenas lojas de roupas e botecos (dezenas deles), entre outros pequenos negócios. Esses locais empregavam 302 pessoas com renda média de 1,3 salário mínimo.

Percorrendo as ruas, é possível ver que a situação pouco mudou desde então. No geral, o clima é pacato. Alguns grupos de operários passam para lá e para cá, assim como jovens, senhores e senhoras. Em nada o clima do lugarejo lembra a efervescência econômica que poderia se esperar de uma cidade colada a um dos maiores empreendimentos de logística da história do Brasil. Nada daquele clima de cidade em construção dos filmes de Velho Oeste norte-americanos. Não há hotéis, pousadas ou qualquer outra forma de hospedagem por lá. Apenas o Dormitório Tropical, uma provável espelunca cujo letreiro luminoso com a ilustração de um coqueiro — em um poste na calçada anunciando que o local está aberto 24 horas — é a única coisa que distingue a casa térrea simples, pintada de azul claro, das outras. O local funciona como alojamento para algumas dezenas de operários da obra. Também não há em Tufilândia restaurantes regulares, apenas poucas lanchonetes e locais que servem refeição aos trabalhadores. Não há postos de gasolina, centros comerciais ou supermercados.

Os moradores, resignados, assistem ao desfilar de trabalhadores de fora da comunidade através da Rua da Pista — do alto de seu costume interiorano arraigado de sentar à frente de casa com a família e os amigos para papear enquanto espiam o movimento no fim de tarde e começo de noite. Alguns, desmembram-se do bando ao longo do trajeto em direção à hospedaria, bares e estradinhas de terra. Outros, já de banho tomado, juntam-se aos dez homens que, num desfile mais ou menos coeso, segue firme para a Praia do Jacaré.

Na altura da praça principal, a noite já é escura e o movimento pela rua cresce um pouco. Grupos de adolescentes de várias idades conversam, riem e ouvem música de celulares nas esquinas, e idosos sentados em cadeiras de praia e de plástico olham para a rua em silêncio. Crianças correm de um lado para o outro e brincam no meio-fio, ruas e calçadas — onde há alguma. Homens e mulheres bebem cerveja pelos botecos.

A maioria das ruas é de terra batida. Quase todas as construções são térreas, e as casas de alvenaria alternam-se com outras de pau-a-pique que, nem por isso, deixam de ostentar no pequeno quintal antenas parabólicas. Algumas dessas construções possuem telhados de cerâmica de verdade ao invés de palha e as paredes de barro são cobertas de massa corrida e pintadas de branco, amarelo e cor de tijolo. Apesar de a maioria das casas possuir fossas sanitárias cavadas no quintal, algumas despejam esgoto diretamente na rua, e sempre há um filete de líquido escuro escorrendo pela sarjeta.

Cada vez mais barulhentos, os homens seguem até o fim da rua em uma bifurcação: à esquerda, desce uma ladeira tortuosa e, à direita, sobe outra que vai dar em uma escola lá em cima, as primeiras no caminho até então plano. Eles descem.


Ladeira abaixo.

— Hoje o negócio vai pegar lá em baixo na praia, hein! — diz do nada um homem baixo que se aproxima trotando do grupo que desce a ladeira, sem dar “oi”. — Dessa vez, tá arregado de gelo. A cerveja tá gelada e os uísque já tão lá também — continua animado, enquanto acerta o passo com os colegas.

Ele aparenta ter uns 40 e poucos anos, mas na realidade possui 33. A pele clara curtida pelo sol ao longo de muitos anos ganhou uma coloração vermelha puxada para o couro cru, e o boné vermelho da grife da moda entre jogadores de futebol John John esconde olhos pequenos e sobrancelhas grossas.

— Lauro disse que as caixa de som tão consertada também. Então, vai ter mesmo a seresta. Vi na TV que hoje tem lua cheia grandona — comenta com um tapa no braço de alguém. Ele está de banho tomado e com roupas limpas — uma bermuda marrom cargo de bolsos largos nas pernas e uma camisa polo verde, com as pontas das mangas e da gola brancas. No pulso, relógio digital enorme e quadrado. Nos pés, as clássicas Havaianas.

— O que nóis quer saber é das novinha. Cadê? — pergunta um jovem de uns 20 e poucos anos, em tom de gozação e desafio. Os outros riem e alguém diz que falou com não sei quem e que também acha que vai ter mulher. Outro aproveita a deixa e diz que está com três novinhas atrás dele e não sabe mais o que fazer para dar conta do recado. “Saí com duas ontem! Hoje, só quero beber sossegado!”.

Ilustração: Pedro Matallo.

David, mais conhecido como Gambiarra entre os colegas, pela criatividade na hora de improvisar uma solução rápida para qualquer coisa (os gatos), aproveitou que estava de folga nesta sexta-feira e foi mais cedo até a Praia do Jacaré, à margem do Rio Pindaré, para onde segue de volta, descendo a ladeira, depois de encontrar os colegas neste começo de noite. No fim de semana anterior, tinha dado tudo errado. Faltou gelo, não tinha som e a maioria das garotas acabou não aparecendo. Foram a uma festa em um dos povoados afastados do centro da cidade. Desta vez, estava tudo certo para uma “ostentação boa”, ele garante ao pessoal.

Gambiarra trabalha faz mais de 15 anos em uma das três empreiteiras — além da Lucena Infraestrutura, estão ali a ECB (Empresa Construtora Brasil) e a Marka — que estão na cidade a serviço da Vale. Vive em Tufilândia e participa da construção do viaduto na entrada da cidade desde novembro de 2014, quando as empresas assumiram o contrato depois que a empreiteira Camargo Corrêa, que iniciou o projeto, largou a obra e deixou o local com seu batalhão de homens. Pintor de ofício, na S11D, é um dos coordenadores de segurança de um dos canteiros de obras. Gosta mesmo é de pintar, mas viaja por aí e faz o que tem de fazer nas frentes de trabalho espalhadas Brasil afora.

Ele saiu de casa em Ananindeua, na região metropolitana de Belém, no Pará, quando tinha 16 anos. Se jogou no mundo atrás de mulher e aventura.

— Eu estava completamente apaixonado por uma menina — lembra, rindo, suspirando meio saudoso, quando conta a história. — Ela usava droga. Eu nunca usei nada, mas também não me importo com quem usa. Aqui, por incrível que pareça, tem muita maconha, pó, pedra, enfim… Mas não interessava, gostava muito dela.

Largou a escola, deu tchau para a mãe e caiu no mundo. O pai já era morto. Arrumou emprego como servente de pedreiro em Belém e, por um tempo, as coisas foram bem. Um dia o vício em crack da namorada, que era um ano mais velha, tinha 17 anos, acabou de forma trágica. Ela foi assassinada. Gambiarra não gosta dessa lembrança e muda de assunto sem explicar direito o que aconteceu. Depois disso, continuou viajando e trabalhando pelo país. A maior parte do tempo no Pará, Amazonas, Mato Grosso e Maranhão. Nunca mais voltou a viver em casa.

— Já rodei de Belo Monte ao Piauí seguindo canteiro de obra.

Ele nunca esteve no Sudeste ou Sul do Brasil, e não foi por falta de recursos.

— Hoje, eu tô tranquilo, ganho bem [apesar de não revelar exatamente quanto, está na faixa dos seis a oito mil reais], gasto pouco. Não fui até São Paulo ou Rio de Janeiro por falta do que fazer por lá mesmo.

Recentemente, ganhou uma folga acumulada de 15 dias — não tinha saído de Tufilândia desde o início da obra, nove meses antes —, e foi visitar a mãe e as filhas, de 15 e 12 anos de idade, na casa que comprou para a família em Ananindeua. “Cheguei, fiquei agarrado com as minhas filhas, jantei com a minha mãe e dormi com as meninas”.

Em seguida, ele expressa aquilo que é uma constante entre muitos outros operários da obra em Tufilândia e em muitos outros rincões do país.

— Passou dois dias, me deu um negócio e não aguentei mais ficar lá parado. Voltei correndo para a obra.

A turma termina de descer a ladeira e, após mais cerca de um quilômetro serpenteando entre os casebres que rareiam e o mato alto que aumenta, chegam à praia. Uma faixa de areia com uns 100 metros de largura até as águas barrentas do Rio Pindaré, com cerca de 200 a 300 metros de comprimento. Na outra margem, do outro lado do rio, que tem no ponto máximo ali quase 20 metros de largura, um barranco alto impede a vista da reserva indígena.

Ao longo de toda a faixa de areia, quiosques de palha fecham o contorno da praia. São sete, mas apenas os dois das pontas e um no meio funcionam regularmente. Os outros estão abandonados e conferem um clima fantasmagórico ao lugar. Toda a praia some e fica alagada durante a época de chuvas, quando o rio enche. Os quiosques de palha são reconstruídos todo ano. Bandos grandes de urubus ficam pousados por ali, no barranco do outro lado do rio e na areia da praia. Fora o grupo de uns 12 trabalhadores da obra que chegou agora e algumas outras pessoas nos três quiosques, não tem ninguém em volta e o cenário é desolador.

Música, brega ou forró, ecoa abafada vindo do quiosque mais distante, na ponta oposta da praia, e também de uma caixa de som que parece rachada no quiosque do meio.

— Vocês sabem que hoje eu tô merecendo dar uma descarregada, né? — diz aos colegas um homem curto e gordo enquanto caminha pela areia fofa e branca em direção à música.

Um poste é ligado e ajuda a iluminar os fundos da praia. Já está bem escuro. No quiosque, uma luz difusa azul dá o clima. Enquanto os clientes espalham-se numa espécie de salão coberto com teto de palha sem paredes, uma varanda sem piso de uns cinco metros de lado, Gambiarra segue para o balcão, uma abertura em um cubículo nos fundos do lugar. Rente ao balcão, na parede feita de cipó, juta e galhos retorcidos, um muro com oito caixas de som grandes empilhadas pintadas com spray rosa-choque e barras de luz neon verde e rosa, que haviam silenciado um pouco assim que os clientes chegaram para troca do disco, volta a tremer com uma mistura de forró e arrocha que faz vibrar sobre as mesas os copos de plástico cheios de cerveja. “Vai, vai, vai correndo atráaais, que eu já estou em outraaaa, vai correndo atráaais… Escuta vagabunda!”, dispara o vocalista do Cavaleiros do Forró, ou pelo menos é o que dizem os convivas, em coro com o público numa gravação ruim de apresentação ao vivo.

Gambiarra vai para uma das mesas de plástico com um pequeno balde de gelo e uma surpreendente garrafa de uísque 12 anos Old Parr na mão, quadradinha e marrom, que parece deslocada ali naquele ambiente e calor. Ele grita algo ininteligível em meio ao som alto enquanto caminha e um outro colega rapidamente aparece com um punhado de latas do energético Red Bull na mão e copos de plástico.

Na mesa ao lado, alguém saca uma garrafa de uísque Johnny Walker Red Label da caixa vermelha de papelão debaixo da mesa. Um outro balde de gelo aparece. Cascos de Nova Schin, a seis reais cada um, também começam a desfilar para lá e para cá no quiosque. A animação e o som aumentam. Aos poucos, mais gente chega e estaciona motos e carros nos fundos da praia. Várias caminhonetes brancas iguais às das empresas que atuam na região — mas sem os adesivos de identificação nas portas — estão por ali.

— O pessoal tira os adesivos na hora de ir pra farra, pra não dar problema depois com os patrão — explica Gambiarra. Tem casais, turmas de adultos, algumas crianças e jovens de ambos os sexos. Tem muitas mulheres e muitas adolescentes, ou as “novinhas”, como gostam de chamar os operários da obra. A confusão é grande e a altura do som impede as pessoas de conversar normalmente. Todos berram e conversam ao pé do ouvido com quem está ao lado.

Em meio a uma troça dos colegas, Gambiarra saca o celular Samsung Galaxy S3 grande do bolso enquanto dá uma talagada no copo de plástico comprido cheio de uísque, gelo e energético, e mostra uma lista de conversas com garotas no WhatsApp.

— Tá vendo? Essa, essa, essa, essa… — desfila ele uma lista de pelo menos oito ou nove meninas enquanto cita o nome e a idade de cada uma. A mais velha tem 16 anos.

— Tudinho elas ficaram de vir aqui hoje pra beber com a gente, tô te falando — comenta com um barrigudo baixo de cara inchada e de “quase 40” anos de idade, que bebe cerveja.

Gambiarra está certo. Elas vêm.


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Aiuri Rebello é repórter. Formado em Jornalismo pela PUC-SP em 2003, trabalhou como repórter especial do portal UOL na sucursal de Brasília e em São Paulo, foi repórter e redator do site da revista Veja e dos jornais Folha de S. Paulo, Agora SP e Diário de S. Paulo. Publicou trabalhos nas revistas Trip e Forbes e nos jornais O Globo e Extra. Cobriu a Copa do Mundo de 2014 e tem experiência na cobertura política e da administração pública, judiciário, cidades, polícia, internacional e esportiva.