Ilustração: Pedro Matallo.

CAPÍTULO 2


“Um lugar lindo, com muito dinheiro”

Na noite anterior à viagem, Arturo e Nataly não conseguiram pregar os olhos. O homem repetia para si, a todo instante, que a decisão estava tomada, mas eventualmente se flagrava cogitando se aquilo tudo não era uma loucura grande demais para ser colocada em prática. Como eles conseguiriam atravessar mais de 7.500 quilômetros entre Bogotá e o Rio de Janeiro com apenas dez dólares? Como Alejandro se comportaria? Teria saudades da mãe? Não era uma loucura levar consigo uma garota que nem era sua filha? E se algo acontecesse a ela? Seriam assaltados, passariam fome, morreriam atropelados? Seriam deportados de volta para a Colômbia pelas autoridades brasileiras, como ocorrera, antes, no Panamá? No pensamento de Nataly, alternavam-se imagens carregadas de saudades da mãe e fantasias sobre um país do qual mal ouvira falar. “Não fazia a mínima ideia do que seria o Brasil. Já tinha ouvido falar que era um lugar lindo, com muito dinheiro, mas eu não sabia de quase nada”, lembra.

Arturo e Nataly passaram a manhã seguinte colocando os móveis de casa na rua. Enfrentaram uma tarde soporífera, exaustos com o esforço físico e a noite mal dormida, em contraste com a excitação de Alejandro. Ao cair do sol, saíram andando, com as mochilas nas costas, até a casa de Lus, a irmã de Arturo, que depois recolheria todos os móveis e guardaria os demais pertences dos três em sua casa. Sentaram à mesa para a última refeição antes de pegar a estrada: pão, arroz, ovo e refrigerante. Ao final, despediram-se de Lus aos choros, beijos e abraços, e seguiram, de ônibus, para o terminal rodoviário de Bogotá.

O plano de Arturo era conseguir convencer os assistentes sociais da rodoviária a conceder passagens de graça para a família até Nariño, na fronteira com o Equador, a 800 quilômetros de distância. Ouviu dos funcionários que, como Alejandro participava de um programa social do governo — passava o dia em uma escola pública —, não podia receber mais um benefício. “Então, nós vamos andando até lá”, disse Arturo, sabendo que não o levariam a sério. Como a noite estava avançada, acomodou-se como pôde entre os bancos do saguão, na tentativa de dormir. Nataly fez o mesmo. Alejandro tirou o Ben 10, o outro boneco e o carrinho da mochila para brincar um pouco, antes de cair em sono profundo.

Ilustração: Pedro Matallo.

No dia seguinte, às seis da manhã, os três saíram da rodoviária de Bogotá com uma primeira meta: atravessar a ponte Rumichacha, que liga Colômbia e Equador. Andaram, sem parar, por 25 quilômetros até pouco depois das 13h, quando alcançaram a cidade de Soacha, e foram abordados por um motorista de um pequeno ônibus intrigado com aquela cena inusitada — dois adultos e uma criança carregando mochilas pesadas, arrastando-se pelo acostamento, com o sol a pino. O motorista estava a caminho da cidade de Armênia, mais a oeste, e prontificou-se a levar os andarilhos até lá de graça. Até alcançarem a fronteira com o Equador, pegariam mais três caronas em caminhões.

Quando desceram na rodoviária de Armênia, decidiram passar a noite por ali. Transformaram a coincidência (segunda noite nos bancos de um terminal) em um hábito — a partir de então, sempre tentariam finalizar o dia em uma rodoviária, onde poderiam usar o banheiro e dormir ao abrigo da chuva, com alguma segurança. Deitavam-se sobre o chão, cobrindo o corpo com plástico, para proteger-se do frio. O plano B eram os postos de gasolina. Em todos os lugares, Alejandro seguia o ritual de sacar o Ben 10, o carrinho e o boneco para brincar um pouco antes de aconchegar-se perto do pai e adormecer.

Arturo, Alejandro e Nataly em uma das noites em rodoviárias. Foto: Arquivo pessoal.

Os momentos de prazer de Alejandro eram resumidos àqueles pequenos instantes com os brinquedos. O ânimo do menino, que começara a viagem entusiasmadíssimo ante a possibilidade de conhecer as araras azuis do Rio de Janeiro, arrefecia a cada dia. “Não aguento mais andar, papai”, ele reclamava durante as longas caminhadas pela estrada com a mochila nas costas — a do garoto pesava cerca de cinco quilos. As queixas logo se transformariam em algo fora de controle. O cansaço acumulado provocava crises de choro no menino. Ele andava e chorava ao mesmo tempo e, a todo instante, pedia água e comida. Algumas vezes, com dor nas pernas, simplesmente desabava e permanecia no chão, sentado, por longos e tristes minutos. “Anda, Alejandro, temos que chegar ao Brasil”, o pai incentivava.

Para garantir o café da manhã e o almoço, Arturo colhia frutas pela estrada. Comprava algum alimento salgado — geralmente, pão — no fim do dia, para que, pelo menos, dormissem de barriga cheia. Nessas ocasiões, Arturo não comia. “Eu dizia que estava satisfeito com as frutas e salivava ao sentir o cheiro do pão. Mas preferia que os dois se alimentassem”, diz. Quando a garrafa plástica de água esvaziava, batiam à porta de alguma casinha na estrada e pediam para abastecê-la. Mais de uma vez, sentiram uma sede insuportável ao percorrer longos percursos ermos, em que não havia uma única construção à vista. Para ir ao banheiro, usavam o mato ou os sanitários públicos. Raramente, tomavam banho — apenas quando conseguiam juntar algum dinheiro e pagar pelo uso do chuveiro em um pequeno hotel de estrada. Nessas ocasiões, aproveitavam também para lavar as roupas.

Os três começavam o dia andando, torcendo para conseguir alguma carona que encurtasse a distância restante. A presença de Alejandro despertava compaixão nos motoristas que cruzavam as estradas — e também, de certo modo, a de Nataly. Apesar dos 20 anos, ela poderia passar por uma adolescente de 14. É magra, de baixa estatura e tem as feições do rosto infantis. Muitos perguntavam qual era o destino daquela caminhada lúgubre. Quando ouviam que estavam viajando para o Brasil a pé, espantavam-se. Alguns, os ajudaram com comida, água, refrigerante e dinheiro.

Os 20 mil pesos colombianos acabaram quando os três chegaram à Popayán, faltando 280 quilômetros para chegar a Nariño. A partir daí, passaram a bater às portas das casas pedindo, além de água, também pão, para garantir a cota de sal do dia. Eles ainda nem tinham saído do país e a situação parecia insustentável. “Eu só pensava na loucura que estava fazendo”, conta Nataly.

Ilustração: Pedro Matallo.

“Alejandro não parava de chorar. Dizia que estava com fome, que queria pão, que os pés doíam. Aquilo era muito duro para mim”, lembra Arturo.

Quando alcançou a fronteira com o Equador e, finalmente, atravessou a ponte Rumichaca, Arturo sentiu como se tivesse deixado um peso enorme para trás. Finalmente, não estava mais em território colombiano. Mesmo sem dinheiro e sabendo que ainda faltavam quase 4.000 quilômetros até a fronteira com o Brasil, procurava manter o otimismo e o vigor. Tinha sentimentos confusos: ao mesmo tempo em que comemorava internamente o fato de os paramilitares e traficantes terem ficado para trás, pensava na segurança da mãe, irmãos e sobrinhos que ainda viviam na Colômbia. O que seria deles? E será que algum dia poderia voltar para o país? No horizonte, Arturo vislumbrava uma enorme incerteza. Mais do que euforia, sentia medo, muito medo, mas também excitação.

Sufocado pelas próprias contradições, Arturo posou para fotos ao lado dos filhos, como turistas previsíveis fazem diante de placas fronteiriças.


“A meta é o Brasil”.

Pouco tempo depois de cruzar a fronteira com o Equador pela Ponte Rumichaca, a pé, os três viveram o momento mais feliz da viagem. Na cidade de Esmeraldas, Alejandro, finalmente, viu o mar. Não era o do Rio de Janeiro, mas era o mar, e tudo o que ele precisava, naquele instante, era de alguma expectativa correspondida. Nataly, que também nunca tinha ido à praia, jogou as mochilas ao chão tão logo avistou uma nesga de oceano e saiu correndo em disparada, com o irmão no seu encalço. Arturo carregou as bolsas como pôde sozinho e correu atrás dos dois, com medo de algum acidente em meio às ondas. Desde que perdera o irmão na selva colombiana, nutria pânico de afogamento.

Arturo e Alejandro apontam no mapa a cidade de Esmeraldas, e o trajeto vencido até lá. Foto: Pedro Matallo.

Em Esmeraldas, Arturo conheceu o dono de uma padaria, que se ofereceu para abrigar a família em um galpão do prédio. A presença do mar e a garantia de um lugar seguro para dormir foram um estímulo para eles passarem três dias na cidade, descansando e se permitindo algum turismo — Nataly posou para a câmera do celular de Arturo de top, short e cabelos molhados, com uma sutil sensualidade,andando pelas ruas da cidade com uma toalha sobre os ombros. Embora dormindo no chão de concreto e alimentando-se de forma precária, os três lembram daqueles dias como uma temporada privilegiada de lazer.

A rota de Arturo não tinha coerência. Não era necessário passar pelo litoral para chegar ao Brasil. Havia, porém, dois principais motivos para que ele fizesse um traçado de tantas idas e vindas. Em primeiro lugar, aceitava caronas que o faziam desviar do caminho, às vezes, porque não aguentava mais andar e precisava descansar minimamente, mesmo que fosse preciso ir a oeste quando o destino era a leste. A segunda razão era uma consequência da primeira: o mapa com que deixara Bogotá, em função das mudanças de rotas, já não era mais útil. Nas cidades onde chegava, tentava imprimir novos mapas em lan houses, mas, muitas vezes, cometia erros na interpretação das rotas e caminhava por horas e horas na direção errada.

Explorando a geografia da América no sentido sul do Equador, o trio chegou a Naranjal, na província de Guayas. Mais magros por causa das longas caminhadas (Arturo já havia perdido três quilos) e, sobretudo, pela falta de comida, eles sentiam as roupas folgadas. Os tênis brancos de Alejandro haviam se transformado em pisantes encardidos, com as solas desgastadas e o tecido rasgado na parte frontal. Arturo, que antigamente se orgulhava de nunca pedir nada por caridade, a cada dia, libertava-se mais de seus pudores. Levou os filhos à igreja da cidade e apelou ao padre para que os ajudasse com roupas e sapatos. Conseguiu agasalhos e um tênis para Alejandro, deixados na paróquia por moradores do município a título de doação — ele e Nataly experimentaram alguns pares, mas nenhum coube em seus pés.

Dias depois, o trio chegou a Machala, quinta maior cidade em população do Equador, famosa pela produção de bananas. Como em Esmeraldas, eles resolveram passar um tempo no local — sentiram-se bem acomodados em um parque da cidade, onde dormiam e descansavam durante o dia, sob o sol, para espanto dos frequentadores.

À medida que iam ficando mais magros, cansados e queimados de sol, Arturo, Nataly e Alejandro despertavam mais piedade nos transeuntes. Em Machala, resolveram tentar a sorte outra vez na igreja, desta vez, uma evangélica. Deu certo. Um pastor entregou a eles 45 dólares para pagar a passagem de ônibus até a cidade de Piura, 360 km adiante, já no Peru. Nataly não podia prever que aquelas sete horas de descanso durante a viagem seriam decisivas para o seu organismo — sem aquele sono revigorante, talvez, não tivesse forças para enfrentar o que viria logo à frente.


“Quero a menina”.

Com a sobra dos 45 dólares que recebera do pastor evangélico de Machala, Arturo conseguiu pagar uma noite em um pequeno hotel de Chiclayo, cidade peruana de meio milhão de habitantes conhecida como “a capital da amizade”. Os três tomaram banho e lavaram algumas peças de roupa antes de apagar nas camas. A madrugada já avançava quando Arturo despertou com os murmúrios de Nataly ao telefone. Estava impaciente. Ao ver que o pai acordara, passou o telefone para ele. “Quero a menina. Passe de novo para a menina”, disse uma voz masculina.

Com o raciocínio embaçado por causa do sono, Arturo custou a entender o que o homem queria: passar a noite com Nataly, a quem vira pouco antes na recepção do hotel e por quem se encantara. “Tenha respeito por minha filha”, enervou-se o colombiano. “E isso não são horas de telefonar para o quarto de ninguém”, disse, dando a conversa por encerrada. O homem voltou a telefonar, o que fez levantar a suspeita de que estivesse bêbado. Arturo tirou o telefone do gancho, mas não conseguiu voltar a dormir bem. Passou a noite entre o sono e a vigília, certificando-se, a todo instante, de que Nataly estava no seu campo de visão. Sentia-se a mais fragilizada das espécies: tinha duas pessoas sob sua responsabilidade em um país estrangeiro e aparentemente hostil, ao mesmo tempo em que enfrentava um cansaço tão imenso que o impedia de reagir.

No dia seguinte, sonolentos, os três voltaram para a estrada. Caminharam por 11 horas, com paradas a cada três para breves descansos. No Peru, as caronas tornaram-se escassas e os percursos vinham sendo vencidos quase completamente a pé, salvo pequenos trechos em veículos de passeio. Quando chegaram à capital Lima, 20 dias depois, sentiam-se tão sombrios por dentro que mal podiam falar. Alejandro ultrapassara seu limite. Já não sentia vontade de criar situações com seus três brinquedos, ria pouco e chorava muitíssimo, de fome, sede e saudades dos amigos colombianos. Mas, principalmente, de cansaço. Ele simplesmente não podia mais andar. Ali, na primeira capital que os três visitavam desde a saída de Bogotá, o menino decretou: “Daqui não vou para lugar nenhum”. Arturo, que até então se mantinha firme no incentivo para que mirassem o futuro nas praias cariocas, pela primeira vez verbalizou uma fragilidade. “Vamos ficar por aqui, já está bom. Vamos esquecer o Brasil”.

Arturo e a enteada Nataly durante a viagem. Foto: Arquivo pessoal.

Até aquele instante, Nataly vinha bancando a forte. Ouvira da mãe, minutos antes de deixar Bogotá, que era uma “menina valente”, portanto deveria seguir seu pai na aventura sul-americana. Nos raros momentos de privacidade (geralmente, no banheiro), porém, chorava copiosamente. “Não era de arrependimento. Sempre soube que queria conhecer o mundo. Era de saudades da minha mãe”, ela narra. Ver Arturo naquela situação, prestes a desmoronar, talvez fosse um convite para que, enfim, baixasse a guarda e reconhecesse que também estava arrasada. Nataly, no entanto, fez o contrário. Chamou Arturo a um canto e esbravejou, a seu modo terno. “Nada disso. A meta é o Brasil e não vamos desistir dela. Temos que ser fortes”.

“Nataly se converteu no apoio moral de que eu precisava”, confirma Arturo. A garota cuidou para que descansassem e esfriassem a cabeça em Lima, antes de seguirem viagem. Foram três dias na rua, tempo em que arrecadaram, com a ajuda de estranhos, dinheiro suficiente para pagar quatro noites em uma pousada. Revigorados ao fim de sete dias, retomaram o caminho para o Brasil. Levaram dois dias para vencer os 450 quilômetros entre a capital e Nazca. Das 48 horas de viagem, andaram por cerca de 20.


Presente de Natal.

O caminhoneiro Don Luis dirigia um caminhão com carregamento de ferro e cimento quando avistou, no acostamento, um homem e duas crianças sentados sobre mochilas, fazendo sinal de carona. Com cinco quilos a menos e as roupas folgadas, sem mostrar as formas do corpo, Nataly assemelhava-se mais ainda a uma pré-adolescente. Alejandro, magro e abatido, era uma sombra pálida do garoto forte que vivia em Bogotá.

Don Luis, um senhor bonachão de cabelos grisalhos, ofereceu-se para levar a família até Cusco. Seria uma viagem de dois dias, e os quatro teriam que se espremer na boleia do caminhão, inclusive durante a noite para dormir. Mal o caminhão deu os primeiros sacolejos, porém, Nataly começou a sentir o estômago embrulhar. Quanto mais o veículo subia, mais a menina empalidecia. Cusco é famosa não apenas pelo rico patrimônio histórico, mas também pela sua altitude de 3.400 metros, o que faz da cidade um dos lugares com menor pressão atmosférica do mundo. Os efeitos das grandes altitudes variam de pessoa para pessoa. Os mais sensíveis sentem falta de ar, taquicardia, dor de cabeça, náuseas e vômitos. Era o caso de Nataly. Antes mesmo de chegar à antiga capital do Império Inca, já colocava para fora qualquer coisa que lhe fosse à boca.

Don Luis não apenas dividiu chocolate, caldo de carne e água com os três, como pareceu pouco se importar com os constantes vômitos de Nataly, que deixavam a cabine com um cheiro azedo quase insuportável. Na verdade, ele estava preocupado com a saúde da moça. Toda a força que ela resgatara para incentivar Arturo a seguir viagem parecia ter se esvaído. A garota tinha olhos e pele opacos e, mesmo desidratada, não conseguia beber água. Nada lhe parava no estômago. Quando finalmente chegou a Cusco, Nataly exibia uma aparência cadavérica. “Eu pegava nos meus braços e não os reconhecia, de tão finos”, recorda. Pela primeira vez durante toda a viagem, achou que pudesse falecer.

Arturo entrou em pânico. Decididamente, voltar a caminhar por 11 horas, na estrada, enfrentando sol e chuva e passando a noite em um chão duro e sujo estava fora de cogitação. Era preciso fazer algo para tornar o fim da viagem minimamente confortável — ou corria o risco de ver os filhos morrerem. Ele pensava sobre o tamanho da confusão na qual se envolvera quando Don Luis lhe presenteou com uma pequena quantia de dinheiro para pagar uma noite em um hotel simples. Ali, Nataly poderia tomar um banho e dormir em uma cama, antes de enfrentar o trecho final até o Brasil.

Foi o que fizeram. Na manhã seguinte, Arturo ofereceu seu smartphone Samsung ao dono do hotel, Matias, como pagamento por mais algumas noites. O homem fez uma contraproposta: ao invés de deixar o celular, o colombiano pintaria um apartamento de um conhecido, serviço pelo qual receberia 350 soles, algo em torno de 100 dólares. Com o dinheiro, pagaria a hospedagem e ainda sobraria um troco para as despesas de alimentação. Matias também apresentou o colombiano a um policial, Juan, cuja esposa caiu de amores por Alejandro. A mulher deu ao menino um novo carrinho e pistolas de brinquedo. Nataly ganhou um saquinho com pequenos elásticos coloridos, com os quais fez pulseiras, uma moda entre as crianças e adolescentes naquele fim de ano. O policial convocou alguns amigos e, juntos, fizeram uma vaquinha para que a família colombiana pudesse comprar as passagens até Iñapari, na fronteira com o Brasil.

Arturo só podia atribuir tanta solidariedade ao espírito natalino. Estavam em fins de dezembro. Na noite do dia 24, os três não tiveram uma ceia, mas se sentiam bem, seguros e descansados. Andando a esmo pelo centro histórico de Cusco, eles conversavam sobre os dias que estavam por vir. Sabiam que se aproximavam do fim daquela aventura insana. Faziam-se perguntas. No próximo Natal, estariam reunidos em torno de uma mesa? Montariam uma árvore e trocariam presentes? Morariam no Rio de Janeiro?

O futuro era uma incógnita.


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Adriana Negreiros é jornalista freelancer. Foi chefe de sucursal da revista Veja em Fortaleza e Salvador e editora das revistas Playboy e Claudia. Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, também cursa Filosofia na Universidade de São Paulo. Venceu o Prêmio Fiat Allis de Jornalismo Econômico e foi três vezes finalista do Prêmio Abril de Jornalismo. É uma das idealizadoras do Fale com Estranhos, projeto de entrevistas com anônimos. Está escrevendo seu primeiro livro-reportagem, a ser publicado em 2016 pela Editora Objetiva.