LOBOS

VS

COIOTES

por María Verza


O Julgamento.

Os Cavaleiros Templários deveriam ser brutamontes musculosos, tão assustadores quanto o cartel para o qual trabalham. Eles não deveriam ser garotos mirrados como o que está em uma rua suja no vilarejo de Cobanera (parte da comunidade indígena de Ostula, uma área de 194 quilômetros quadrados, no município de Aquila, no estado mexicano de Michoacán).

Ele não aparenta ter mais do que 18 anos e está praticamente engolido por um boné de baseball e calças largas. Nem mesmo as sombras lançadas pelo pôr do sol atrás das montanhas que cercam a costa do Oceano Pacífico dão a ele qualquer aparência ameaçadora. A cena é iluminada por uma lâmpada que funciona graças a uma gambiarra no sistema elétrico. O rapaz ouve uma voz e levanta um pouco o olhar, com o rosto ainda obscurecido pelo boné. As mãos estão irrequietas — talvez, porque ele saiba que está sendo observado. Mas é difícil imaginar o que poderia assustar um suposto membro de um dos cartéis mais violentos do México e do mundo.

Embora o cenário não sugira o que está prestes a acontecer, o garoto está ali para ser julgado. O vilarejo de Cobanera, uma comunidade pobre, formada por 187 pessoas da etnia Nahua, sofreu por muito tempo com a violência dos Templários, que aterrorizou todo o estado de Michoacán durante anos. O cartel cobiçava especialmente terras longe de áreas urbanas movimentadas, como as dos Nahuas, para serem usadas como bases clandestinas de operações. Mas, no início de 2014, Cobanera pegou em armas para lutar contra os chefões do narcotráfico, unindo-se à onda de rebeliões em comunidades locais que havia se espalhado pelo estado desde fevereiro de 2013, principalmente entre os mestiços. Agora, os moradores locais estão ansiosos para se livrar dos últimos Templários — e querem manter sua vila segura usando o tipo de justiça que acreditam ser adequado.

Os mais velhos foram os primeiros a chegar e se acomodaram nas laterais da rua — alguns sentaram-se sobre pedras espalhadas em frente a um muro baixo, de um lado, enquanto outros sentaram-se ou ficaram de pé perto do jardim da escola, do outro lado. Logo, toda a comunidade se reuniu no local. O líder de fato da comunidade indígena de Ostula é Cemeí Verdía, que usa roupas normais, mas que mostra orgulhosamente, a quem pedir, o distintivo da polícia indígena de Aquila. Ele veio para ajudar no julgamento e é o primeiro a falar:

“Todos vocês sabem o que acontece aqui na comunidade”, ele diz para o grupo reunido em assembleia. “Então, vocês têm que me dizer tudo. Me digam o que está causando problemas aqui”.

Os presentes dizem suspeitar que o garoto trabalhava para os Cavaleiros Templários. Por isso, elas se reuniram para fazer queixas e definir, coletivamente, se o rapaz era realmente um associado do cartel.

“Muitos garotos ingressaram nos Templários no passado”, Verdía me contou depois. “Eles achavam que o cartel iria dominar para sempre, mas esses mesmos garotos foram os primeiros a fugir depois do nosso levante”.

Eles fugiram porque os Templários usavam a força, e não inspiravam coragem e lealdade verdadeiras. Quando seu poder e impunidade foram desafiados, não sobrou nada para manter entre eles os jovens que foram atraídos pelo grupo como mariposas fascinadas pela luz.

O jovem murmura algo, mas ninguém consegue entender. A multidão fica curiosa. Do outro lado da rua, uma mulher encosta sua cadeira em um dos carros de polícia (que, na verdade, são apenas caminhonetes adaptadas) e se inclina para a frente para ouvir melhor.

“Você estava usando um ‘super’ (um revólver de calibre 38) ou uma pistola ponto 45”, acusa um homem na multidão. “Não tenho certeza qual era, mas era uma arma de grosso calibre. É por isso que não confiamos em você”.

“Nunca tive uma arma de verdade”, o rapaz se defende. “Eram armas de brinquedo”.

“Como assim? Eu vi você. As pessoas viram você”.

“Eu também o vi”, diz uma voz no meio das sombras. “Ele tinha um AK (fuzil AK-47)”.

Uma mulher que estava atrás do rapaz dá um passo à frente, trêmula.

“Você é a mãe dele?”, pergunta Verdía.

“Sim”.

“O que você quer dizer?”.

“Deixem que ele fique”.

“Senhora, eu entendo (porque você não quer que o expulsemos). Mas… e se ele matar alguém? A senhora assumirá a responsabilidade por essa morte?”.

A mulher abaixa a cabeça. Um burburinho emerge da multidão.

“Ele está nos Templários desde que tinha 14 anos de idade”, sussurra um homem. “Até os pais têm medo dele”.

“Ele vendia cocaína”, diz outra voz abafada.

Suposto integrante do cartel Cavaleiros Templários é julgado em praça pública, na vila indígena de Cobanera, em Michoacán. Imagem: Erik Meza.

A cocaína é uma droga popular entre os jovens criminosos atualmente — na maioria das vezes, para consumo pessoal.

O toque distante de um sino interrompe a excitação geral. Ao longe, uma ladainha pode ser ouvida. Aos poucos, uma procissão religiosa aparece da escuridão. No centro está um padre. Em volta dele, mulheres carregam velas acesas e estandartes com a imagem da Virgem de Guadalupe, a padroeira do México, venerada pelos católicos do país. Crianças acompanham a procissão cantando. O cortejo passa bem pelo meio do “tribunal” e se vai, de volta ao escuro da noite.

“Bem, temos que decidir”, diz Verdía para a multidão.

“Ele tem que ser investigado!”, uma pessoa grita. “Não queremos que ele perturbe a paz”.

Hoje, Cobanera aparenta calma, mas, até janeiro de 2014, a vila sofria com uma onda interminável de assassinatos e extorsões que assolavam toda Michoacán. Agora, mesmo com os Templários declarados tendo sido expulsos, muitas pessoas ainda temem falar sobre o assunto, temendo a volta do cartel.

“Sim!” grita a multidão, apoiando a proposta anônima. “Investigação! Investigação!”

O interrogatório e a discussão levaram mais de três horas. Mas isso não é nada do ponto de vista indígena, a partir do qual as coisas acontecem a seu próprio ritmo e demoradas reuniões comunitárias são a norma. No final, eles decidem iniciar uma investigação e colocam o rapaz em uma caminhonete. Ele é levado de volta para a prisão da vila — na verdade, apenas um pequeno barraco ao lado do prédio da administração local.

“Você está marcado para morrer”, o homem na traseira da pick-up diz para o rapaz, de uma maneira que não soa ameaçadora, e sim realista.

Se houver testemunhos suficientes na comunidade vinculando o acusado aos Templários, será realizada outra assembleia para decidir sobre seu destino. Mas apesar da sentença dada ao colocar o rapaz na caminhonete, os moradores do vilarejo nunca realizariam eles mesmos a execução. Se for descoberto que o rapaz era um assassino a mando do grupo criminoso, o caso será encaminhado para as forças federais alocadas na região. Se o resultado da investigação for que ele apenas colaborava com os Templários, será adotada uma decisão unilateral de expulsá-lo permanentemente de Cobanera, para manter o vilarejo livre de maus elementos, ou de perdoá-lo e seguir em frente. Mas em casos como esse, a absolvição não é vista com bons olhos por muitas pessoas, incluindo Verdía.

“O perdão só traz problemas”, costuma dizer.


A Festa Da Epifania.

Verdía é um Nahua baixo e jovial, que aparenta ter metade dos seus 35 anos, com olhos expressivos e uma barbicha rala. A assembleia o deixou muito cansado, mas recupera a energia quando chega em casa, após 30 minutos de carro em direção à serra, na vila de Ostula, o coração da comunidade indígena de mesmo nome. A casa dele tem dois andares, formados por paredes de concreto bruto e cortinas que fazem as vezes de portas. É dia 6 de janeiro de 2015, a Festa da Epifania do Senhor para os cristãos, e a rua principal ainda está decorada com luzes coloridas e outras decorações natalinas.

“Não deixe de assistir ao jornal hoje”, ele diz para a mulher, Laura, quando entra em casa.

Ninguém tem que perguntar sobre o que ele está falando. Aqui, as notícias voam. A mãe de Verdía, Marta, vem do quintal– onde fica a torneira de água da casa –e começa a preparar ovos para o jantar.

“Dos meus filhos, foi o que menos estudou”, explica Marta, olhando para Verdía, líder incontestável da vila e comandante da polícia comunitária indígena de Ostula, eleito em 2009. “Ele só fez o primário. Mas se tornou o mais inteligente de todos!”

Às dez da noite, Verdía está descansando na cama ao lado de seu filho David, de quatro anos. A filha de dez anos, também chamada Marta, ajuda a mãe e a avó na limpeza. Um fuzil AK-47 está ao lado da cama. Quando começa o noticiário na TV, todos param para escutar. O apresentador conta os detalhes de um violento confronto ocorrido de manhã em Apatzingán, capital da região de Tierra Caliente — até bem recentemente um reduto dos Templários.

Cemeí Verdía assiste ao noticiário ao lado de seu filho, em Ostula. Imagem: Erik Meza.

De acordo com a televisão, nove pessoas morreram no conflito com as tropas federais. Verdía sorri, claramente satisfeito, apesar de aquele ter sido um dos mais violentos combates na região após meses de silêncio e relativa paz.

“Finalmente o governo decidiu nos ouvir e atacar os Viagras”, ele diz. “Rá!”

É verdade que os Viagras, um grupo formado por cerca de meia dúzia de irmãos da família Sierra Santana, originários do sudeste do estado de Michoacán, além de uma quantidade de amigos e aliados em constante alteração, já vinham sendo acusados de ser matadores de aluguel, pagos por diversos grupos criminosos e cartéis do estado. Mesmo assim, a felicidade de Verdía é desconcertante, porque, mais recentemente, esse grupo havia se juntado ao movimento vigilante na cidade de Buenavista, no norte de Michoacán, unidos pelo combate aos Templários, considerados por eles extremamente violentos.

Acontece que, após algum tempo, os Viagras subiram de patamar institucionalmente falando e acabaram se aliando diretamente ao governo federal, ingressando nas forças especiais dedicadas a caçar os líderes Templários em seus esconderijos. Contudo, há pouco tempo, pelo menos segundo o governo, os Viagras também haviam se tornado brutais. Tal afirmação e várias outras críticas e demonstrações levaram pessoas, como Verdía, a dizer que os Viagras sempre foram apenas bandidos, e que se infiltraram no movimento vigilante como muitos outros criminosos: com o objetivo premeditado de usurpar as terras, laboratórios de metanfetamina, rotas de narcotráfico e recursos dos Templários.

“Na verdade, os Viagras são todos ex-Templários”, afirma Verdía.

Agora, em sua busca por controle, os Viagras lutam contra os Templários remanescentes e enfraquecidos, e também contra seus antigos aliados — os outros grupos vigilantes e as forças federais.

Verdía acredita que esses conflitos sejam os mais difíceis desafios para o novo estado de Michoacán que está sendo formado depois de anos de domínio explícito do narcotráfico e seus métodos pouco delicados.

Mas o governo federal não reconhece que Michoacán ainda é palco de confusão e turbulência. Em vez disso, autoridades como o Ministro do Interior, Miguel Angel Osorio Chong, insistem que os Templários foram totalmente derrotados, que a paz e a ordem foram plenamente restauradas e que o estado se recupera rapidamente.

“Não existe mais crime organizado (no estado)”, declarou o Procurador de Justiça de Michoacán, Jose Martin Godoy, após a prisão, em 27 de fevereiro de 2015, de Servando Gomes, também conhecido como “La Tuta”. Gomes era o carismático porta-voz dos Templários e um dos últimos importantes foragidos da organização. “Agora só existem alguns criminosos isolados”.

Michoacán, entretanto, não concorda com a ideia.

Em janeiro de 2014, diante da pressão pública para deter a violência crescente e a paramilitarização dos vigilantes em Michoacán, o governo central enviou milhares de soldados e policiais federais para o estado sob o comando do comissário Alfredo Castillo, cuja missão era levar a ordem à região conturbada.

No entanto, de acordo com Edgardo Buscaglia, pesquisador da Universidade de Columbia e Diretor do Instituto Mexicano de Ação Cidadã, Castillo chegou ao estado sem intenção de neutralizar os Templários e os outros grupos (e sem um plano efetivo sobre como lidar com os vigilantes que agiam com essa finalidade), mas com o único objetivo de negociar com os criminosos para estabelecer uma espécie de pax mafiosa — uma trégua entre as partes locais que permitiria, de forma tácita, que o governo controlasse o crime organizado. Com esse plano, ele iria conter a violência galopante e restaurar um senso de segurança e de supremacia governamental.

Mas, de acordo com Buscaglia, Castillo não respeitou os acordos.

“Algumas pessoas foram presas, outras foram marginalizadas, e outras foram incentivadas”, explica Buscaglia sobre o sistema de punições e incentivos usado pelo Exército, pela Polícia Federal e pela Polícia Militar, sendo que cada uma das instituições negociou separadamente com os diferentes agentes locais.

“(O resultado foi a) fragmentação dos grupos armados e o caos total”.

O governo prometeu paz aos cidadãos que diretamente pegavam em armas desde fevereiro de 2013 para garantir a segurança de suas comunidades. Mas só conseguiram uma incerteza maior. No início de 2015, determinados tipos de violência haviam diminuído (alguns dizem que isso foi muito mais mérito dos vigilantes do que do governo), mas ainda persistia uma sensação gradual de medo e paranoia — a população achava que outras coisas ruins ainda poderiam acontecer.

Presidente Peña Nieto discursa na TV, em base vigilante, em Coahuayana. Imagem: Erik Meza.

O enfrentamento na manhã da Festa da Epifania foi apenas uma manifestação daquele novo estado de caos. Não houve consenso sobre os motivos ou os resultados do confronto e, olhando de fora, tudo parecia aleatório. Inicialmente, informações oficiais diziam que nove civis (sem esclarecer se eram vigilantes, criminosos ou simplesmente transeuntes) haviam morrido em um tiroteio com o Exército. Depois, disseram que havia sido a Polícia Federal, não o Exército. No dia 10 de janeiro, foi divulgada uma nova versão oficial — que o conflito não havia envolvido nenhuma força militar, e sim dois grupos civis fortemente armados. Em março, uma reportagem investigativa finalmente revelou provas de que, na verdade, policiais federais haviam realizado a execução extrajudicial não de nove, mas de 16 pessoas desarmadas. Os mortos seriam aliados do grupo Los Viagras.

Verdía sorri porque ele sabe a verdade — ou pelo menos, a verdade local. As pessoas na região insistem que os assassinos eram das forças federais e que as vítimas eram membros desarmados dos Viagras, assassinados no que ele acredita ter sido um ato de justiça.

Verdía não se importa se os Viagras estavam ou não armados. Ele está satisfeito. Da maneira que ele interpreta as coisas, esse é um sinal de que o governo está finalmente reconhecendo o problema dos falsos vigilantes na região, que seriam criminosos que ingressam no movimento de autodefesa apenas para se aproveitar do declínio dos Templários. Para Verdía, as autoridades apenas não querem reconhecer o fato publicamente.

De muitas formas, ele enxerga isso como o final da missão do governo: um ano após ter entrado na região, os mesmos criminosos que o governo prometeu eliminar ainda agem com impunidade em seus antigos redutos, simplesmente disfarçados com nomes diferentes e em organizações diferentes. Talvez agora eles estejam acabando com os velhos bandidos — por meio de execuções extrajudiciais e brutalidade ilícita. Ou talvez tenha sido, como diria Shakespeare, apenas um ato de som e fúria, vazio de significado.

Verdía e todo o estado de Michoacán estão acostumados a promessas não cumpridas e falsos começos. A alegria de Verdía em ver o ataque aos Viagras não é completa, pois carrega a amargura desse conhecimento. Agora, é difícil para todos na região sentirem a mesma empolgação e esperança que tinham em fevereiro de 2013, quando os primeiros grupos de vigilantes insurgiram nas cidades de Tepalcatepec e La Ruana, criando uma reação em cadeia de ações populares que se espalharam para a terra natal de Verdía um ano depois. É difícil lembrar dos dias quando os vigilantes podiam se encontrar no La Ganadera, um mercado de pecuária em Tepalcatepec, reunindo-se para coordenar suas forças unidas em marcha para liberar as vilas que haviam pedido a ajuda deles.

Nos dias de hoje, já se foi até mesmo o rosto mais conhecido do movimento vigilante forte, unido e fundamentado em princípios. José Manuel Mireles, um médico de Tepalcatepec que era ovacionado por multidões nas ruas, está agora na cadeia. Moradores locais como Verdía acreditam que a prisão de Mireles, em junho de 2014, foi uma tática do governo federal para sabotar e controlar os vigilantes.

Nas cidades de Michoacán, as pessoas têm saudade dos dias quando os grupos originais de vigilantes, aparentemente sem a presença de criminosos e independentes das forças federais, expulsaram os Templários e restauraram a paz e a segurança. Eles acreditam que os vigilantes fizeram o que o governo demonstrou ser totalmente incapaz de fazer: proporcionar ao estado segurança real, duradoura e confiável.

Os líderes Jose Mireles e Hipolito Mora, em reunião de grupos vigilantes, na Cidade do México. Imagem: AP Photo/Rebecca Blackwell.

“Passamos anos subjugados pelos Templários”, explicou-me, em 2013, confiante e orgulhoso, um agricultor de limões e também vigilante de Tepalcatepec, com um rifle descansando sobre seu ombro. “Eles matavam famílias inteiras. Enforcavam quem não pagasse La Cuota (uma taxa de extorsão). E faziam tudo isso com a conivência das autoridades. Finalmente, chegou um dia em que o medo se esgotou (e reagimos)”.

Um ano depois, em 2014, aquela atitude já tinha mudado. Os grupos que surgiram da convicção de agricultores como esse homem se fragmentaram, e membros de antigas facções se uniram a eles. Os vigilantes são agora como um corpo esquartejado em guerra contra integrantes do mesmo grupo, contra seus antigos aliados e contra antigos adversários. Há um clima de profunda desconfiança em Michoacán — um temor de que o breve período de calma irá acabar logo e que todos os esforços dos últimos dois anos terão sido em vão.


Alvo: Cemeí Verdía.

O conflito em Apatzingán não foi o primeiro no estado de Michoacán após a intervenção federal. Em 16 de dezembro de 2014, outro confronto aconteceu a 45 minutos de distância, em La Ruana, entre dois grupos vigilantes rivais — um sob o comando do polêmico Luis “El Americano” Antonio Torres, apontado como criminoso, e outro comandado por Hipólito Mora, um dos idealizadores do levante ao lado de seu amigo e aliado, José Manuel Mireles. Depois da briga, que deixou 11 mortos (incluindo o filho de Mora), as forças federais prenderam os dois líderes por dois meses e meio, mas o caso não foi adiante — não houve uma investigação sobre a culpa pelas mortes. A versão do governo é que houve uma disputa pessoal, embora moradores da região ainda acreditem que Mora e El Americano brigassem pelo controle de La Ruana.

No mesmo dia, quase simultaneamente, um grupo de agressores desconhecidos tentou assassinar Verdía, atirando em um carro que achavam que era dele. Felizmente para o líder comunitário, ele não estava na estrada naquele momento, mas logo ficou sabendo sobre o incidente.

“Sim, foi…. muita coincidência”, diz Verdía numa manhã, enquanto anda por seu pomar de mamão papaia, localizado numa área montanhosa a 15 minutos de carro de sua casa. Ele aplica fertilizante nas fileiras de arvorezinhas com menos de três centímetros de altura, enquanto desce uma ladeira.

“Mas eles atiraram na caminhonete errada. Ninguém mais morreu, graças a Deus. Muita gente me quer morto, mas a morte não me quer”.

Verdía continua sorrindo, mesmo contando como chegou tão perto da morte. Seu rifle está sempre ao seu lado.

“Minha paixão é a terra”, ele confessa. “Terra e futebol. Mas estou sempre preparado, esperando pelo menor sinal (de problemas)”.

Um walkie-talkie preso a seu cinto emite mensagens ocasionais, entrecortadas e cheias de ruídos de estática. O único outro som é dos grilos e da música que vem do rádio em uma casa próxima.

“Cemeí, Cemeí, Cemeí. Cemeí, Cemeí”, a voz cheia de estalidos sai do walkie-talkie, “você está na escuta?”.

Verdía responde e depois ouve que vigilantes locais querem realizar uma reunião informal naquele dia, no município vizinho de Coahuayana, na fronteira com o estado de Colima, a uma hora de carro indo para o norte pela estrada litorânea. O objetivo da reunião seria conversar sobre as possíveis consequências causadas pela violência dos Viagras na Festa da Epifania do Senhor. Os antigos vínculos dos vigilantes poderiam representar problemas para outras forças de autodefesa ainda ativas em toda a região.

As valetas laterais da pequena estrada no sentido norte estão repletas de árvores e arbustos recém-podados. Após alguns quilômetros, eles dão lugar à beirada de um penhasco íngreme de onde se pode ver praias desertas e intermináveis que, no passado, já foram tomadas por hippies americanos em busca de seu próprio paraíso perdido. Verdía admira a paisagem e sorri.

“A emboscada contra mim aconteceu ali”, ele diz.

“Depois que isso aconteceu, decidimos podar as árvores para melhorar a visibilidade, para não sermos surpreendidos novamente”.

Um pouco mais adiante, existe um lugar que as comunidades indígenas chamam de Xayakalan, um termo na língua nahuatle similar à palavra “máscara”. (A mãe de Verdía passou muito tempo vivendo fora do mundo indígena, por isso ele cresceu falando espanhol, mas ele quer que seus filhos aprendam o idioma nativo dos antigos astecas para conectarem-se com suas origens). Apesar das raízes antigas, o local também assumiu um simbolismo moderno. Quando as comunidades indígenas locais reagiram contra os grupos criminosos, em 2009, a primeira barricada foi erguida em Xayakalan para evitar avanços em seu território — uma barreira que não deveria ser ultrapassada pelos membros dos cartéis.

Praia de Michoacán, deserta desde que vigilantes e cartéis começaram a se enfrentar. Imagem: Erik Meza.

“Nossa luta não é nova”, diz Verdía, novamente com seu sorriso irônico.

Ele se refere ao momento em que, em junho de 2009, nove comunidades indígenas de várias partes do país (as etnias Nahua, Wixárika, Huichol, purepechas, Binnizá, Coca,Tzeltal, Hñahñuu, Ñu Sabi e Rarámuri) redigiram e divulgaram de forma conjunta o “Manifesto Ostula”. O documento, uma reação a séculos de abusos cometidos por todos os regimes que governaram o país e à desconfiança crônica em relação à polícia local e às autoridades federais, declarava o direito desses povos e sua intenção de criar forças de autodefesa (um direito concedido a eles por uma emenda à constituição mexicana em 1992) do mesmo tipo que a força liderada por Verdía. Armados com espingardas, e por conta própria, eles começaram a recuperar milhares de hectares de terras roubadas pelos cartéis.

Retaliações — que lá significam essencialmente assassinatos e sequestros — contra as forças de autodefesa surgiram rapidamente, vindas de todos os tipos de criminosos que estavam explorando as terras. Verdía, como um líder do movimento, teve que fugir em 2010, quando seus rivais abriram fogo contra um jogo de futebol do qual ele participava com seus colegas. (Felizmente, não houve mortes). Ele se escondeu nas montanhas e depois deixou a região por completo.

Naquele momento, todo o México estava lidando com epidemias cada vez mais avassaladoras de violência criminosa. Enquanto o povo de Michoacán já tinha aprendido a aceitar as dificuldades da convivência com os cartéis, outras comunidades (não indígenas) contrataram guarda-costas e formaram pequenas unidades de segurança. Contudo, quando os Templários de Michoacán começaram a atacar os rancheiros não indígenas do estado, eles decidiram parar de apenas contratar capangas e lideraram uma rebelião em grande escala, iniciando o movimento vigilante, de forma nunca antes vista no país. Bem armados e liderados por um porta-voz eloquente, eles cativaram a imprensa mundial, atraindo muito mais atenção para a violência em Michoacán do que Verdía jamais havia conseguido. No entanto, o movimento também levou a especulações de que a formação desses grupos ilegais (pessoas não indígenas não têm os mesmos direitos de manter forças locais e autônomas de autodefesa) era um sinal da perda do controle do Estado e da rápida paramilitarização do México.

“Durante meus quatro anos de exílio”, diz Verdía, “conheci muitos vigilantes em Tierra Caliente (a região de criação de gado perto de Tepalcatepec). O movimento me encorajou e eu sabia que quando voltasse para casa poderia libertar meu povo”.

Verdía voltou a Ostula no começo de 2014 — quando o movimento vigilante se espalhava em direção à região litorânea — e foi eleito líder do movimento local, tornando-se o vínculo entre a força indígena de autodefesa, mais antiga, e o movimento vigilante. Ele convenceu um grupo renovado a se unir ao levante não indígena. Suas forças indígenas nunca tinham recebido o mesmo nível de atenção que os novos vigilantes ganhavam da imprensa naquele momento. E, devido a seu papel — uma ponte entre esses dois mundos –, ele foi convocado para a reunião em Coahuayana que discutiria o confronto com os Viagras.


O Nascimento De Um Narco-Estado.

As raízes das crises que motivaram a insurreição dos vigilantes estão muito além da virada da década. Michoacán é um estado ligeiramente maior do que a Paraíba, com pouco mais de quatro milhões de habitantes, cortado por plantações de abacate e de limão, rebanhos (principalmente de gado), minas de ferro e florestas de árvores folhosas que cobrem as montanhas, inclinando-se sobre vales com riachos de águas lentas e praias calmas e isoladas. Uma região bravia e rural sempre difícil de ser administrada. Nos tempos pré-colombianos, os astecas não conseguiram derrotar os povos independentes e radicais que viviam ali e, em 1814, o estado tentou até mesmo declarar independência em relação ao governo central e formar um novo país.

Os moradores locais começaram a cultivar maconha na década de 1950, em reação ao aumento da demanda pela droga do outro lado da fronteira, nos Estados Unidos — que se tornavam mais liberais. A procura cresceu regularmente (assim como o cultivo) até a década de 1970, e aumentou na década seguinte com o crescente cultivo de papoula na região — base para a produção de heroína. Então, nas décadas de 80 e 90, o governo decidiu abrir os mercados mexicanos para importações agrícolas e privatizar terras agrícolas comunitárias. O choque causado pelo preço das commodities e o desmantelamento de técnicas agrícolas tradicionais forçou as pessoas a se concentrar nos plantios mais lucrativos e viáveis. E, nas planícies e colinas bem irrigadas de Tierra Caliente naquele momento, os plantios mais vantajosos eram os de maconha e de papoula, sem dúvida alguma.

Cidades e vilarejos de Michoacán onde ocorreram alguns dos principais conflitos entre vigilantes e cartéis.

“Na década de 1990, todos aqui plantavam maconha”, explica Verdía. “Quem disser o contrário está mentindo. Mas eram outros tempos”.

Era a época dos narcos.

Para quem vê de fora, todos os traficantes de drogas se parecem, mas qualquer morador de Michoacán sabe que existe uma grande diferença entre os narcos e os malandros. Os narcos matam qualquer pessoa que tente roubar alguma coisa deles, mas cuidam das pessoas nas comunidades onde atuam. Os malandros, por sua vez, são bandidos que extorquem, matam, estupram e, de forma geral, aterrorizam a todos.

É uma distinção reconhecida não apenas pelos moradores locais, mas (implicitamente) também pelas autoridades, como Antonio Mazzitelli, representante do México e da América Central no Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.

“Existem grupos que geram trabalho e dinheiro, ganhando o apoio dos moradores nos locais onde realizam suas operações (narcos)”, declarou ele recentemente para jornalistas.

Contudo, outras gangues (malandros), como La Familia Michoacána, os Templários ou os Zetas, que agora desfrutam de reconhecimento mundial por sua crueldade, “prosperam graças ao parasitismo e às ações predatórias”, apenas buscando o acúmulo do máximo possível de dinheiro e poder durante boas relações de longo prazo — e, por essa razão, são rejeitados pelas comunidades que sofrem em suas mãos.

Alguns especialistas acreditam que a diferenciação entre narcos e malandros caiu por terra quando a pressão do segundo grupo fez com que o primeiro se tornasse mais violento. Em Michoacán, porém, a diferença ainda importa porque, apesar da ação do narcotráfico há décadas no estado, os malandros só entraram em cena poucos anos atrás.

Na era dos narcos, o crime organizado poderia ser considerado ordeiro e o terror ainda não era a norma. A maconha representava dinheiro fácil e o povo de Aquila, algumas vezes, recebia pagamentos por suas colheitas até mesmo em dólares, uma moeda estável e cobiçada.

“Era o tempo de (Rafael) Caro Quintero (o fundador do cartel de Guadalajara, o antecessor do famoso cartel Sinaloa, que dominou a região na década de 1980)”, explica Verdía, recordando como algumas pessoas penduravam abertamente lâmpadas em fios nas colinas para estimular o crescimento vigoroso da maconha com a luz artificial.

“Eles (os narcos) chegaram a dizer que o governo tinha legalizado a maconha e que os cartéis estavam dividindo os lucros com eles”.

Até os primeiros anos do século XXI, os narcocartéis de Michoacán passaram por ciclos de rixas e alianças, brigas e resoluções. Contudo, na maior parte do tempo, eles agiam sem muitos esforços e sem violência indiscriminada ou generalizada.

Nos anos 1990, a região era dominada pela família Valencia, que tinha vínculos de distribuição com todos os principais cartéis do México — o Cartel do Golfo, o de Juárez e o de Sinaloa — e também com grupos colombianos que usavam o litoral de Michoacán como uma estação intermediária para o envio de cocaína para os Estados Unidos. Quando perceberam o valor da região, os cartéis decidiram, na virada do milênio, tomar o controle.

Enquanto o Cartel do Golfo tentava se estabelecer na área, a maioria dos Valencias resistia, com o apoio do Cartel de Sinaloa, que era inimigo do pessoal do Golfo. Um dos chefes da família Valencia, Carlos Rosales, aliado ao Cartel do Golfo, no entanto, convocou sua nova unidade de guarda-costas, os Zetas, para auxiliá-los na luta contra o resto da família. E, desta maneira, abriu as portas para um conflito que fez esse novo grupo crescer de forma paulatina, mudando de vez a cara do crime organizado mexicano.

Os Zetas são um subproduto dessa época de mudanças nos mercados de drogas e de aumento da concorrência e de conflitos entre os cartéis. Formado por desertores da unidade de operações especiais do exército mexicano, o grupo desenvolveu uma nova marca de crime organizado no México, definida pela brutalidade sem precedentes. Ou seja, eles podem ser considerados os primeiros malandros. Quando Carlos Rosales os levou para Michoacán, foram levados também a violência e o totalitarismo desses bandidos.

Uma casa usada pelos Cavaleiros Templários vandalizada pelo cartel rival Zetas. Imagem: AP Photo/Alexandre Meneghini.

Os Zetas começaram também a inovar a maneira como o crime organizado agia no México. Na mesma época da sua rebelião, a ressurgente guerra contra as drogas dos Estados Unidos começava a fechar os corredores de tráfico para o norte, reduzindo drasticamente a lucratividade da maconha e das papoulas de heroína, que eram as principais fontes de renda dos cartéis. Grupos como os Zetas descobriram que a melhor maneira de levantar fundos para substituir seus prejuízos seria assumir o controle direto das terras — controle que havia sido tirado das autoridades locais por meio de suborno ou força. Os Zetas instituíram, então, um esquema de extorsões (primeiro, cobrando propinas de outros grupos criminosos, mas, depois, cobrando-as também dos moradores locais) para manter uma renda constante.

Mais tarde, grupos como o La Familia e os Templários ampliariam essa ideia de que terra é poder, lucrando com recursos naturais roubados, como o ferro. Os Templários, por exemplo, enviavam carregamentos legais de minério de ferro para a China em troca de produtos químicos precursores usados para a produção de metanfetaminas de uso recreativo — drogas de crescente rentabilidade no México e nos Estados Unidos.

Em meados dos anos 2000, os Zetas estavam ganhando a guerra contra as antigas famílias de narcotraficantes (apesar de nunca as terem substituído totalmente). E, em 2005, eles estabeleceram um cenário novo e aterrorizador no estado. Em 2008, a situação estava tão descontrolada que criminosos atiraram uma granada, sem motivos aparentes, em uma cerimônia do Dia da Independência na capital do estado, Morelia. Oito pessoas morreram e outras centenas ficaram feridas no ataque, tido como o primeiro caso de narcoterrorismo no México.

“Quando os Zetas invadiram, um cartel chamado La Familia ofereceu sua ajuda”, explicou Mireles quando conversamos em novembro de 2013.

La Familia, registre-se, é um grupo paramilitar formado em oposição aos Zetas que anunciou sua existência ao mundo em 2006 atirando cinco cabeças humanas cortadas numa pista de dança com a seguinte mensagem: “Não matamos por dinheiro, não matamos mulheres, não matamos inocentes — só morre quem deve morrer. Saibam todos: isso é justiça divina”.

Aproximadamente na mesma época, em dezembro de 2006, o recém-eleito presidente, Felipe Calderón, lançou uma guerra contra as drogas em todo o país, focando nos cartéis com extrema força, mas a operação só conseguiu dividir ainda mais as organizações criminosas, pois a morte de líderes levou a violentos confrontos entre facções. Nesse clima de instabilidade e com pouca esperança restante no governo, muitos em Michoacán estavam ansiosos por qualquer tipo de ajuda, por isso eles aceitaram La Familia de forma tácita.

Mas esse novo grupo era da mesma estirpe que os Zetas (que eles haviam conseguido enfraquecer, mas nunca erradicar completamente no estado) e rapidamente adaptaram e aprimoraram as técnicas usadas pelos malandros. E o mesmo foi feito pelos Templários quando eles brotaram das cinzas de uma disputa dentro das fileiras da La Familia em 2011.

Os Templários acabaram aperfeiçoando as artimanhas dos malandros. De acordo com o governo federal, eles se tornaram o primeiro cartel cuja receita principal era baseada na extorsão, mineração ilegal e contrabando (eles tinham muito apreço pela exploração ilícita de sangualica, uma madeira rara, da mesma espécie do jacarandá, usada na construção de iates, instrumentos musicais luxuosos e painéis de carros da Roll-Royce), ao invés do cultivo e tráfico de narcóticos. As extorsões se tornaram tão agressivas que eles chegaram ao limite máximo que podiam cobrar das outras organizações criminosas e começaram a assediar os civis em um nível absurdo e jamais visto antes.

“Em Tepalcatepec, uma cidade com 23 mil habitantes, houve um momento em que todos os açougueiros, vendedores de tortilhas e pequenos pecuaristas estavam dando 30 milhões de pesos mexicanos (cerca de US$ 2 milhões) por mês aos Templários”, afirmou Mireles em 2013.

“Mas quando começaram a levar nossas mulheres, violentar nossas jovens e as mandar de volta grávidas, nós dissemos basta”, contou Mireles sobre o ponto decisivo que finalmente levou as pessoas a pegarem em armas contra os Templários. “(Percebemos que) somente o povo poderia defender o povo.”

Vigilante não legalizado em Coahuayana, na base montada pelo movimento. Imagem: Erik Meza.

Naquele momento, no início de 2013, o governo mexicano estava enfraquecido. Após sete décadas de hegemonia do Partido Revolucionário Institucional (PRI), o país tentava a transição para uma democracia mais robusta, com a eleição no ano 2000 de Vicente Fox, do oposicionista Partido Ação Nacional (PAN). Mas o PRI sempre tinha controlado o México fazendo uso de arranjos e instituições não muito democráticas e, por isso, o PAN enfrentava um desafio quanto ao desenvolvimento institucional e também uma luta interna pelo poder. Tais problemas criaram um espaço no qual os malandros puderam entrar e proliferar facilmente. Em 2012, o PAN saiu do poder nacionalmente, mas deixou o novo governo do PRI, do presidente de Peña Nieto, com o pesado fardo da guerra contra as drogas e com a confusão causada por uma década de tentativas de reorganização das fracas instituições estatais numa reforma que nunca se concretizou e ainda de conseguir o controle completo do território mexicano.

Essas gangues atraíram instituições fracas (juízes, policiais e políticos no estado e especialmente no nível local; segundo um documento da ONU publicado em 2011, 79 dos 113 municípios de Michoacán já haviam sido infiltrados por membros dos grupos de crime organizado) utilizando suborno e força. No final de 2011, os Templários conseguiram até mesmo controlar as eleições estaduais. Em Michoacán, de acordo com o livro Batallas de Michoacán, de José Gil Olmos, publicado em fevereiro de 2015, o então presidente Felipe Calderón reconheceu que os Templários conseguiram impedir a campanha de 50 candidatos dos três principais partidos políticos do México, ameaçando desaparecer com eles. O autor afirma que o cartel apoiou os candidatos do PRI graças à reputação do partido — antes da eleição de 2000 — de negociar com o crime organizado ao invés de combate-lo diretamente. Esse tipo de poder leva Olmos e outros a dizerem que Michoacán é o primeiro narco-estado do México.

Dois anos depois, em novembro de 2013, a situação estava tão desesperadora que, após ter visto a revolta dos pecuaristas contra os malandros, mais um grupo decidiu se juntar à batalha: a Igreja Católica. Miguel Patiño, que era Bispo de Apatzingán, enviou uma carta aberta pelos canais de mídia em fevereiro daquele ano, causando controvérsia em todo o país devido ao resumo franco que fez da situação em Michoacán, além de ter manifestado seu apoio aos vigilantes.

“Grupos criminosos, principalmente o La Familia, o Zetas, o Nova Geração (um cartel baseado no estado de Jalisco ligado ao cartel de Sinaloa) e os Cavaleiros Templários estão disputando (Michoacán) como se fosse um tesouro”, diz a carta, que chama a região de estado falido.

A carta diz ainda que eles buscam o controle do litoral para vigiar “a entrada de drogas e de insumos para a produção de metanfetamina”. E que eles buscam o controle da “Serra Madre del Sur e das regiões de produção de abacate para o cultivo de maconha e de papoulas para extrair ópio, para o estabelecimento de laboratórios para a produção de drogas sintéticas e para o esconderijo dos próprios membros das gangues”. Eles também buscam o controle das “cidades mais importantes e de todo o estado para o transporte (seguro) e para o tráfico de drogas, extorquindo pessoas e praticando sequestros e roubos”.

Segundo a carta, “os governos municipais e a polícia estão sob o jugo desses criminosos ou são seus cúmplices. E, cada vez mais, crescem os rumores de que o governo estadual também está a serviço do crime organizado, provocando desespero e desilusão na sociedade em geral”.

Após a carta ter sido divulgada, o bispo, de 75 anos, desapareceu por quase um ano. Quando saiu do esconderijo, aposentou-se. Mas a Igreja insistiu em seu confronto institucional com os novos demônios de Michoacán.


Em Nome De Deus.

Anoitece em Apatzingán, uma cidade de 120 mil habitantes, descrita por muitos como apodrecida pelo crime. Uma freira baixinha e idosa sai da catedral localizada na praça principal, andando rápido, porém sorrindo. Fora da praça, as ruas estão desertas. Existe um senso comum, e não um toque de recolher. Todos conhecem alguém que desapareceu quando estava na rua à noite.

“Adiantamos o horário das reuniões na igreja porque se fossem mais tarde, não viria ninguém”, diz a freira Josefina Gutierrez, de 82 anos, com um forte sotaque espanhol e um tom de plena confiança. “Mas eu não tenho medo. Pego o ônibus para casa de noite, mas se um vizinho estiver por aqui, eu aceito uma carona de carro.”

Muro com frase de Emiliano Zapata em San Pedro Naranjestil. Imagem: Erik Meza.

Ela pontua cada sentença com uma risada contagiante, apesar de sua história não ser engraçada. Os olhos da religiosa são brilhantes e cheios de vida. A irmã Gutierrez chegou a Apatzingán em 2012 (antes da criação dos vigilantes) e passa a maior parte do tempo visitando os ranchos próximos.

“Muitos rancheiros têm medo do que está acontecendo”, ela diz sobre o temor de que algo terrível possa acontecer a qualquer momento, mesmo sob o controle das forças de segurança estaduais, que possivelmente foram cooptadas.

Ela lembra que, no início de 2014, havia uma espécie de paz na cidade, apesar de nunca ter sido totalmente liberada (como dizem os vigilantes) dos criminosos. As pessoas, normalmente silenciadas pelo medo, começaram a se manifestar, incentivadas pela carta do bispo Patiño e pelos vigilantes.

“Tivemos alguns meses de segurança”, explica a freira. “As pessoas confiavam nos vigilantes. Mas hoje, ninguém confia neles porque ninguém sabe quem é quem. Todos estão aflitos”.

O confronto durante a Festa da Epifania deixou claro que Apatzingán ainda é uma zona de guerra.

Nos últimos anos, a Igreja tem sido um ponto de apoio para a população profundamente religiosa de Michoacán. Após a carta de Patiño, o padre Gregorio Lopez, mais conhecido como Padre Goyo, atraiu a atenção da mídia ao celebrar uma missa usando um colete à prova de balas e apoiando abertamente os vigilantes (ao invés de apenas simpatizar com eles). O padre afirmou que um levante armado seria a única maneira de provar ao governo que o povo não podia mais suportar a violência dos malandros. As palavras foram diretas, fortes e provocadoras.

“O crime organizado nos governa… Um pastor que fica em silêncio quando seu rebanho é oprimido não é pastor”.

Ele também criou o Conselho Cidadão para a Recomposição Integral da Estrutura e da Ordem Social (CCRISTOS, conforme a sigla em espanhol), uma associação que tentou por algum tempo atuar como um tribunal do povo, expulsando criminosos com base nas decisões tomadas por seus vizinhos, em um sistema parecido com o tribunal indígena encabeçado por Verdía nos arredores de Cobanera. O tamanho da cidade tornou esses tribunais comunitários impraticáveis, mas o CCRISTOS sobrevive como uma organização que incentiva as pessoas a se manifestar e denunciar crimes.

Até o Vaticano se envolveu na confusão de Michoacán quando nomeou o então Arcebispo de Morelia, Alberto Suárez Inda, como o primeiro cardeal do estado, em fevereiro de 2015. A posse de uma importante figura religiosa fez com que muitos na comunidade acreditassem que a Igreja realmente se preocupava com eles.

“Esta crise estava se desenvolvendo há anos com a conivência das autoridades — servidores corruptos que ajudavam os criminosos”, diz o Cardeal, com um tom honesto de arrependimento em sua voz. “E a Igreja falhou na missão de apoiar as pessoas”.

Inda, que tem a reputação de ser um mediador, entende o que causou a revolta dos vigilantes. Mas, diferentemente do Padre Goyo, ele não acredita que os esquadrões de autodefesa sejam a resposta definitiva para os problemas.

“Precisamos de instituições e autoridades nas quais possamos confiar”, diz ele. “Não podem ser essas milícias alternativas, muitas delas infiltradas por criminosos”.

Quando pergunto se ele acredita que isso seja realmente possível em Michoacán, ele faz uma pausa antes de responder.

“Eu rezo por isso”, diz ele.


O Reino Templário.

Os Templários remanescentes, que se dispersaram em meio ao povo, incontáveis e desconhecidos, mas sempre à espreita, também rezam, mas por uma visão diferente do futuro. Eles pedem o retorno de seu antigo império, que sempre teve o aspecto de um regime semi teocrático.

Na vila de Buenavista, os Templários ergueram uma pequena capela em honra de seu padroeiro ideológico, Nazario “El Chayo” Moreno (A capela foi destruída por vigilantes e substituída por um tradicional santuário à Nossa Senhora de Guadalupe).

São Nazario conseguiu morrer duas vezes: em 2010, foi morto a tiros pelas forças do então presidente Felipe Calderón e, em março de 2014, foi alvo das forças do atual presidente Enrique Peña Nieto. Aparentemente, a última morte foi verdadeira.

El Chayo, primeiro como membro de La Familia e depois como um dos fundadores dos Templários, promovia a crença de que ele e seus capangas tinham sido escolhidos por Deus (algo que a Igreja Católica dizia ser uma perversão da religião) para expurgar os (outros) criminosos da região, como os Zetas, numa nova cruzada. El Chayo escreveu até sua própria Bíblia, usando o pseudônimo El Más Loco (O Mais Louco) a fim de doutrinar milhares de seguidores em clínicas de reabilitação de dependentes químicos.

La Tuta, por sua vez, nunca atraiu uma devoção tão calorosa, mas era o membro do cartel mais famoso, e agia como porta-voz, primeiro, para o La Familia e, depois, para os Templários. Por esse motivo, sua prisão, em fevereiro de 2015, atraiu tanta atenção.

O nome dele havia se tornado sinônimo de impunidade. Em 2011, o professor que virou barão das drogas ainda estava na folha de pagamento do Ministério da Educação, mesmo após ter entrado na lista dos traficantes mais procurados do país em 2009. Ele dava entrevistas, fazia declarações à nação, oferecia tratados e pactos ao governo, dava dinheiro aos sem-teto e negociava acordos com jornalistas e políticos locais. Muitos de seus vídeos estão disponíveis na internet. Há rumores de que as forças federais encontraram muitos outros vídeos em um armazém na cidade de Arteaga.

Jorge Luis Ostria, um repórter de Lázaro Cárdenas, um importante porto regional e reduto dos Templários, compreendia La Tuta muito bem.

(Ostria afirma que nunca aceitou dinheiro dos Templários, mas admite que algumas vezes deixou de publicar reportagens que poderiam lhe causar problemas).

“Eles colocaram os reféns restantes em fila, ajoelhados, e atiraram na cabeça deles, enquanto eu gravava as imagens. Passei doze dias com eles. No décimo primeiro dia, eles me forçaram a ajoelhar, engatilharam o revólver e… nada aconteceu.”

“Ele era conhecido por muitos”, conta o jornalista. “Andava livremente por todos os lugares, como se não houvesse nenhum problema”.

“Em 2009, fui vítima de um levantón (um rapto sem cobrança de resgate)”, continua Ostria, em uma sala silenciosa e protegida. “Trinta e nove pessoas foram levadas. Eu era uma delas. Mataram a maioria porque achavam que éramos membros dos Zetas. No terceiro dia, perceberam que eu não tinha vínculo com ninguém, mas decidiram que eu deveria ficar para documentar as execuções. Eles colocaram os reféns restantes em fila, ajoelhados, e atiraram na cabeça deles, enquanto eu gravava as imagens. Passei 12 dias com eles. No décimo primeiro dia, eles me forçaram a ajoelhar, engatilharam o revólver e… nada aconteceu.”

“Depois eles me deram um presente: a bala que poderiam ter usado para me matar”.

Em qualquer outro lugar, a frieza usada por Ostria para contar estes fatos tornaria esta história inacreditável. Em Michoacán, ela parece real e aterrorizante.

O jornalista passou a maior parte do tempo vendado, mas tem certeza de que La Tuta estava lá.

“A voz dele é inconfundível”, aguda, porém melódica, emotiva e amarga, explica Ostria. Havia boatos de que, antes de ser preso, La Tuta planejava fazer uma cirurgia plástica não somente para mudar a aparência, mas também para mudar sua voz peculiar, para que pudesse ficar incógnito.

No entanto, os vídeos divulgados por La Tuta nunca foram intimidadores. Frequentemente, eles tentavam inspirar a empatia do público. La Tuta se retratava como o barão das drogas bom e honrado. Mas aquela imagem santa foi menos importante quando o La Familia surgiu pela primeira vez em 2006. As pessoas acolheram o grupo simplesmente porque ele prometeu expulsar os odiados Zetas.

“Não sabíamos que tínhamos assinado um pacto com o demônio”, disse Mireles, em 2013.

“Somos um mal necessário”, declarou La Tuta em um de seus vídeos. “Feliz ou infelizmente, estamos aqui. E se não fôssemos nós, seria algum outro grupo”.

Cocinas.

No caminho para a reunião em Coahuayana, Verdía para o carro com o objetivo de me mostrar algo. Toda sua comitiva, formada por várias pick-ups personalizadas, o segue para a pista lateral. Atualmente, o líder nunca vai a lugar nenhum desacompanhado. As caminhonetes estacionam logo depois na estrada suja perto de um ponto para a travessia de um rio, onde aguardam mais pick-ups e homens fortemente armados. Eles foram alertados pelo rádio sobre a chegada de Verdía e orientados a se reunir naquele lugar, em frente a uma cerca de arame. Eles se cumprimentam calorosamente, pulam a cerca e avançam pelos campos e plantações até chegarem a uma espécie de grande vala.

Ali dentro estão vários tambores de metal empilhados, sendo que o maior deles comporta cerca de 200 litros. Um pouco mais adiante, há outro buraco cheio de tubos de alguma espécie. Tudo está coberto de ferrugem e cheira a produtos químicos. A maioria dos tambores e tubos está vazia — o mau cheiro vem de uma piscina de líquido no fundo dos buracos. Trata-se dos restos desmantelados de uma cocina, termo local usado para definir um laboratório de metanfetamina.

Comboio de vigilantes em Michoacán. Imagem: Erik Meza.

“O governo não quer isso como prova”, reclama Héctor Zepeda, um homem de pele clara com a barbicha aparada e unhas bem cuidadas, também conhecido como “Comandante Tetos”, um dos bons amigos de Verdía e líder da Força Rural de Coahuayana. “Eles dizem que não podem usar estas coisas para fazer acusações. Eles dizem que não é possível provar nada!”.

Tetos tem uma oficina mecânica, mas, desde que os Templários mataram seu irmão — na frente dele — por ter organizado um grupo vigilante, ele é o líder do grupo na área fronteiriça ao estado de Colima (incluindo Coahuayana). Ele está de jeans e um colete à prova de balas que cobre a camiseta estampada com a bandeira do México e as palavras Polícia Rural, tem uma pistola presa ao cinto e segura um rifle.

“Prendemos (um Templário) depois que eles atacaram o Cemeí, e esse prisioneiro nos trouxe até aqui”, explica Tetos. “Eles controlavam todo este desfiladeiro, onde produziam sua metanfetamina. É um grande laboratório, onde todo o trabalho químico é realizado. Quando a bomba explodiu (uma referência à rebelião dos vigilantes), eles acharam que viríamos atrás deles, por isso enterraram tudo e fugiram. Mas, agora, estes tambores não servem para o governo como prova de narcotráfico”.

Doña Luz Sandoval, uma vigilante de Aquila, de 53 anos, cabelo louro e curto, tez pálida e unhas vermelhas, une-se ao grupo. Fora Tetos, ela é a pessoa que recebeu o cumprimento mais entusiasmado de Verdía, e a admiração é mútua.

“Ela é a mulher mais corajosa do mundo”, brinca Verdía.

“Não toquem em nada”, ela avisa a todos.

Luz Sandoval está usando um colete à prova de balas, uma pistola Glock na cintura e uma bolsa pendurada no braço. Seu grande anel e pulseiras femininas formam um grande contraste diante das armas pesadas.

“Caiu uma gota em mim. Olha só!”, diz ela enquanto levanta a manga para mostrar uma feia queimadura química. “Ainda está doendo.”

Ranchos isolados como esse eram muito visados para a instalação de cocinas no auge da era dos Templários, por isso os cartéis mandavam e desmandavam neles. Muitas vezes, os ranchos eram simplesmente tomados à força, mas outras, o roubo chegava a ser legalizado, quando um advogado era coagido a assinar uma nova escritura — o que complicou o processo de devolução das terras aos donos originais.

Os moradores contam que, quando as cocinas estavam em operação, o cheiro fétido podia ser sentido a quilômetros de distância e as folhas das árvores ficavam queimadas. Eles dizem que os empregados do cartel ficaram tão loucos que tiveram que ser encarcerados em celas com proteção especial, para evitar que fugissem e fizessem um escândalo em outro lugar. Mas agora o lugar não poderia estar mais calmo, apesar do fedor.

“Os bandidos que eram donos deste lugar fugiram”, diz Tetos. “Aparentemente, foram eles que planejaram o assassinato de Cemeí. Mas tudo deu errado e eles acabaram emboscando uma família inocente. Ninguém morreu, graças a Deus. Mas eles atiraram em uma garotinha de três anos”.

Minas.

Todas as pessoas reunidas na cocina querem nos mostrar uma mina, a 40 minutos de carro, na serra litorânea perto de Aquila. Eles dizem que a mina era outro elo importante no imenso império de negócios dos Templários (e sua cadeia de fornecimento de metanfetamina).

“Esta é nossa terra”, suspira Luz Sandoval, enquanto observa correias transportadoras retirando as entranhas de uma montanha e despejando os minérios em caminhões. “Somos 465 (proprietários de terrenos comunitários). E todo mundo rouba da gente há muito tempo. Em 2008, ficamos firmes e (a empresa mineradora que explorava as terras) concordou em nos pagar parte dos royalties. Mas eu ainda acho que estamos sendo roubados”.

Passamos por uma placa que diz Mina Aquila. Os trabalhadores cumprimentam Luz Sandoval, imperturbáveis pelas armas portadas por ela, os filhos dela e Tetos. Todas as minas clandestinas (empreendimentos muito mais nocivos) abertas pelos Templários perto dessas minas legais foram fechadas quando o governo entrou na região no ano passado, restabelecendo a ordem.

“Os Templários exploraram essas minas (ilegais) por muito tempo”, explica Omar Valdés, um dos filhos de Luz e ex-motorista de caminhão nas minas, que se tornou vigilante.

Os Templários também lucraram com as minas legais na região. Não é claro como eles faziam isso. Contudo, muitas vezes eles confiscavam suprimentos, extorquiam pessoas em troca de proteção ou se impunham aos donos das minas como guardas de segurança. As empresas mineradoras cooperavam por medo e coerção ou porque queriam ganhar gordos subornos.

O ferro tirado ilicitamente das minas dos Templários — hoje inoperantes — era transportado para o porto de Lázaro Cárdenas, onde recebia licenças para ser embarcado legalmente para a China. Poucos entendiam realmente o sistema burocrático e de propinas que conseguia embarcar o ferro ilegal, mas Verdía explica de forma simples:

A vigilante Luz Sandoval sai de casa acompanhada pela neta. Imagem: Erik Meza.

“O governo trabalhava com os cartéis. Cada mina legal tinha três minas ilegais em seu entorno e o governo tinha que tirar sua fatia dos lucros. Caso contrário, como seria possível para os caminhões chegarem ao porto carregando produtos roubados?”

Uma das maiores prioridades do governo federal era romper esse ciclo de corrupção. No final de 2013, as forças armadas ocuparam o porto e colocaram oficiais da Marinha no controle. Naquele momento, vigilantes aplaudiram a intervenção, uma atitude que o governo interpretou como um sinal de que Michoacán não era mais um paraíso do crime. Hoje, no entanto, moradores da região dizem que, mesmo com a presença dos militares, os negócios (do mercado negro) seguem como de costume.

“Em Lázaro Cárdenas, tudo que fizeram foi organizar a corrupção”, diz Edgardo Buscaglia. “Não existem (salvaguardas de combate ao tráfico como) apreensões nem investigações sobre origem de bens. Nada.”

Mais tarde, visitamos o imponente escritório da Capitania dos Portos, um órgão federal, para tentar conseguir uma resposta quanto à veracidade das acusações de Buscaglia. Mas só conseguimos falar com uma porta-voz, que afirmou que a chefia não poderia falar sobre aqueles assuntos. Ela passou meia hora tagarelando sobre o nível decompetitividade do porto no mercado internacional detransporte marítimo. Mas,quando perguntamos sobre remessas ilegais, a resposta foi curta:

“Qualquer embarque ilícito acontece longe do porto. Não nos diz respeito. (O monitoramento dessa atividade) é função da Marinha”.

“Mas o chefe da Capitania dos Portos é membro da Marinha”, pressiono.

“Mas ele está ocupando um cargo comissionado na esfera civil”, responde ela. “Este é um porto importante, que atrai investidores”.

“Mas se alguém testemunhar atividades estranhas, deve denunciar às autoridades federais, correto?”

“Não. O que acontece lá (ela aponta para uma cerca a quase 200 metros de distância) não nos diz respeito”.

“É lá”, ela gesticula novamente em direção à cerca “onde tudo acontece”.

“Mas ainda acontece?”

“Somos um importante porto e atraímos investidores. O que acontece do lado de fora não é de nossa competência”.

E assim começou um ciclo interminável de respostas repetitivas e vazias. Fomos embora sabendo tanto quanto sabíamos quando chegamos.

Casas.

Tetos espia através de uma janela no porão de uma mansão abandonada que um dia pertenceu aos Templários, iluminando o vasto interior com uma lanterna.

“Acho que era aqui que eles torturavam as pessoas”, diz Tetos despreocupadamente.

A mansão luxuosa fica em Coahuayana, uma vila de 15 mil habitantes com amplas alamedas cercadas por palmeiras. A casa com colunas e uma grande piscina coberta é um dos 160 imóveis do cartel, incluindo hotéis, ranchos e casas noturnas que foram tomados à força durante a insurreição dos vigilantes.

“Queremos transformar este lugar em um asilo para idosos”, diz Tetos, embora não saiba se as autoridades tentarão tirar o imóvel dos vigilantes no futuro.

Depois de entrar na casa, seguimos Tetos para a parte inferior, passando por uma série de salas com teto baixo, sem saber qual o destino.

“Nunca tinha me atrevido a entrar neste lugar até agora”, Luz Sandoval diz nervosamente, com sua AK-47 no ombro. Agora não há sinais de perigo aqui– somente energias muito negativas.

Mas a curiosidade venceu. Tetos, com sua arma em riste, tenta abrir uma gaveta embaixo de um espelho no banheiro, mas acaba derrubando todo o armário. Atrás do móvel (como nos velhos e previsíveis filmes de espionagem), encontramos uma escadaria escondida, que leva para um porão escuro. À medida que descemos os degraus, nossos passos ecoam no silêncio sepulcral. A única fonte de luz vem da lanterna de Tetos.

Mansão abandonada pelos Cavaleiros Templários, em Michoacán. Imagem: Erik Meza.

“Parece uma casa totalmente diferente aqui embaixo”, diz Sandoval, passando por alguns quartos vazios e sem porta.

“Não tem nada, nem mobília. Só uma escultura de um tigre ali. Mas vejam isso”, diz ele, apontando sua lanterna para uma piscina no final do corredor. No meio dela, está uma cisterna.

“Sabe-se lá quantas pessoas eles prenderam aqui”, ele pensa alto.

Os tetos baixos e as colunas curvadas no final das paredes criam uma sensação de claustrofobia perturbadora em todos, só de estar ali por pouco tempo.

“Acho que este lugar era usado para torturar pessoas”, reitera ele.

“Ou talvez fosse um esconderijo”, sugiro.

Tetos me lança um olhar sério.

“Não”, diz ele. “Os Templários não se escondiam (quando podiam agir impunemente).”

Todos em Coahuayana sabiam quem era o dono dessa mansão, que destoa completamente na vila de casas modestas.

Os demais concordam. Quem tem impunidade não precisa de um esconderijo.

“Eles matavam pessoas”, sussurra Luz enquanto deixa o porão, “e depois cumprimentavam os oficiais da Marinha nos postos de controle (como se não fosse nada)”.

Esse lugar é sufocante.


Duelo De Comandantes.

Um homem uniformizado está sentado ao lado de Tetos em uma mesa longa e elegante, feita de madeira nobre, em outra das antigas mansões dos Templários (No entanto, essa não tem um porão secreto). Hoje, essa é a sede dos vigilantes de Coahuayana. Alguns deles, como Tetos, fazem parte agora da polícia rural, uma expressão usada para identificar os grupos de vigilantes regularizados pelas autoridades federais. Na manga da camisa do homem, um emblema diz: Forças Federais.

Ele é Carlos Carrión, o chefe da Polícia Federal em Michoacán, que chegou inesperadamente à cidade apenas 24 horas após o confronto da Festa da Epifania. O conflito preocupou o governo federal e Carrión está aqui para assegurar que Tetos não esteja planejando provocar uma luta contra as autoridades, como os Viagras fizeram. Tetos pode até ser membro da polícia rural (o que significa que o governo pelo menos acredita que ele não tenha vínculos com o crime), mas as cautelosas tropas federais ainda temem que qualquer um dos vigilantes possam se voltar contra eles a qualquer momento.

“Não se envolva com provocações”, ele aconselha. “Não perca o que você já ganhou.”

“Sejamos claros, comandante”, diz Tetos. “Isso é culpa do comissário Castillo. Ele foi avisado que teria que confrontar os Viagras (porque eles são vigilantes de mentira), mas o governo não quis fazer isso e permitiu que eles ficassem e os legalizou. E veja o que aconteceu: agora, eles estão atacando vocês”.

“Você tem que se reunir com as outras forças vigilantes na área. Deixe claro que não teve nada a ver com aquele incidente, que você não vai entrar em conflito com o governo”, insiste Carrión, que provavelmente tem tido esse tipo de conversa com todos os outros comandantes das autodefesas na região, sondando o ambiente para descobrir como está o relacionamento do governo com os diversos grupos vigilantes. “Não entre nesse jogo”.

Atualmente, o relacionamento entre as várias agências de segurança do México e os vigilantes (tanto os grupos legais quanto os ilegais) é um complicado labirinto de pactos e traições. Essa reunião em Coahuayana é perfeitamente cordial, mas as coisas podem facilmente escalar para a violência, como aconteceu em Apatzingán. É por isso que os homens de Carrión gostam de Tetos tanto quanto gostam dos Viagras ou dos Templários.

“Não confio neles”, admite um dos agentes de Carrión, Lorenzo Toxteco, enquanto lava sua viatura em uma antiga base policial da cidade, do outro lado da rua.

A caminhonete ainda tem o emblema no qual se lê Polícia Local, apesar de essas forças (ou aquelas que não fugiram durante a era dos vigilantes) terem sido dissolvidas durante a intervenção federal, com base no pressuposto de que todas já tinham sido contagiadas pelos Templários infiltrados.

“Assim que formos embora, os bons vigilantes irão agir exatamente como os marginais”, diz Toxteco. “Todos os grupos abrigam malandros em suas fileiras. Alguns são honestos, mas outros não.”

Vigilantes disputam uma queda de braço em base do movimento em Coahuayana. Imagem: Erik Meza.

Na antiga mansão dos Templários, todos parecem trabalhar conjuntamente em comum acordo. Mas as forças federais interpretam sua missão como algo independente dos vigilantes, mesmo com os dois lados ostensivamente querendo enfrentar juntos a remanescente ameaça templária.

“Eles estão procurando os malandros. E nós… estamos mais perto do povo”, explica Toxteco.

Vincente Corenjo, um rancheiro mais velho, não acredita nessa história de “forças federais do povo”. Quando o agente está lavando a viatura, Corenjo passa por ele sem dizer uma palavra e segue para a base dos vigilantes, a fim de informar sobre um tiroteio em sua propriedade. Ele confia na justiça dos vigilantes.

“São eles que podem me ajudar. Os outros nunca se importaram com meus problemas”, ele diz.


Falsa Lua De Mel.

Em 2013, antes mesmo da intervenção federal, a relação entre as tropas do governo central e os vigilantes já era complexa e turbulenta. Na Cidade do México, as autoridades determinaram que civis não poderiam ter armas e que o Estado deveria manter seu monopólio característico de força e justiça. No entanto, diante do caos em Michoacán, ninguém queria desarmar os vigilantes ainda — muito pelo contrário.

No auge de seu levante, quando os vigilantes passavam por postos militares armados até os dentes e normalmente em comboios de 20 a 30 caminhonetes, os soldados baixavam as armas e olhavam para o outro lado, simulando não perceber a passagem de civis armados. Em novembro de 2013, a Polícia Federal e os vigilantes estavam operando em uma colaboração tão regular que as forças civis se comunicavam em frequências de rádio usadas também pelas autoridades, mantendo o governo informado sobre suas ações com total transparência.

Mesmo agora, ninguém tem certeza se as forças federais simplesmente apoiavam os vigilantes como um aliado prático (comunicando-se regularmente entre eles e liderando missões complementares de forma não oficial), ou se eles orientavam secretamente os vigilantes para realizar o trabalho sujo, como os comandantes de fato. Tudo o que sabemos é que, de acordo com os moradores de Michoacán, Mireles, Mora e outros líderes vigilantes foram de helicóptero para a Cidade do México em 2013 para participar de reuniões convocadas às pressas com os principais oficiais federais.

Gil Olmos acredita que o governo mobilizou os vigilantes como uma ferramenta para desgastar os Templários, abrindo espaço para que o PRI criasse sua pax mafiosa, restaurando o equilíbrio e a ordem perdidos pelos grupos criminosos menos radicais durante a ascensão do PAN e o início da guerra do próprio governo mexicano contra os cartéis, em 2006. O jornalista afirma que o Presidente Peña Nieto passou meses elaborando planos para financiar e armar os vigilantes e também para conduzir suas ações em conjunto com o General Oscar Naranjo, o militar colombiano apontado como o responsável por desmantelar o cartel de Medellín e por eliminar Pablo Escobar (mas também condenado por muitos por desrespeito aos direitos humanos), e que foi o principal assessor de segurança de Peña Nieto durante a campanha eleitoral. As autoridades negam categoricamente a teoria de Olmos, mas os moradores locais entendem a lógica dessa especulação. Alguns também observam que Naranjo deixou o México em janeiro de 2014, coincidentemente durante a intervenção em Michoacán, sugerindo que ele teria permanecido no país para ajudar a organizar o movimento e foi embora assim que sua missão foi concluída.

Só uma coisa era óbvia: nos discursos públicos, Peña Nieto menosprezava os vigilantes e negava que o México estava passando por uma paramilitarização. No entanto, no mundo real, ele aparentava valorizar os civis armados como a maneira mais fácil e eficaz de enfrentar os Templários em sua terra natal.


A Guerra Muda As Pessoas.

Em 2013, enquanto o governo refletia sobre seu relacionamento com os vigilantes, Tierra Caliente, em Michoacán, a região ao redor de Apatzingán, era uma zona de guerra. Os Templários montaram uma barricada na entrada da cidade, cortando o acesso dos rancheiros do interior aos mercados agrícolas e impedindo o recebimento de suprimentos vindos do litoral. O bloqueio durou aproximadamente seis meses, com violentos e constantes confrontos. Os vigilantes iam de vila em vila, tendo à frente (se tivessem sorte) um rinoceronte — um tanque de guerra improvisado blindado com placas de ferro.

“(Os cidadãos das vilas em Tierra Caliente) pediram nossa ajuda”, disse Mireles naquele ano, mostrando cartas de moradores que solicitavam a intervenção.

Mas à medida que a guerra se espalhava e crescia, começaram a surgir perguntas sobre de onde vinha o dinheiro e os armamentos militares dos vigilantes (especialmente porque muitos deles tinham abandonado seus empregos, mas pareciam estar sempre bem abastecidos). Algumas pessoas começaram a suspeitar até mesmo que os comandantes dos vigilantes estariam negociando com marginais e membros de cartéis infiltrados em seus grupos.

“Utilizamos recursos que seriam usados para a extorsão”, Mireles disse a jornalistas em 2013, tentando explicar a origem do dinheiro suspeito. “Milhões de pesos (mexicanos) foram doados voluntariamente para o movimento”.

Também vinha dinheiro dos Estados Unidos. Michoacán não exporta somente drogas, mas também pessoas. Apesar de existirem apenas um pouco mais de quatro milhões de cidadãos no estado, algumas estimativas dizem que dois milhões de michoacános vivem nos Estados Unidos e que muitos deles realizam campanhas entre os conterrâneos para levantar fundos, enviados como remessas bancárias para os vigilantes. Alguns deles decidiram até mesmo emigrar de volta para o México para ajudar a causa rebelde.

Quanto às armas, Mireles afirmou que todas pertenciam às próprias pessoas, o que faz sentido, já que, segundo as Nações Unidas, 23% de todas as armas que entraram no México via mercado negro, de 2006 a 2010, acabaram em Michoacán, onde eram normalmente vendidas por valores menores do que os pagos para se comprar uma vaca. No entanto, o fato de que essas armas eram traficadas pelos cartéis, novamente faz surgir perguntas sobre sua aquisição pelos vigilantes, que agiam ostensivamente no combate aos cartéis. Mais tarde, Mireles esclareceu que os grupos de autodefesa estavam assim tão bem armados porque haviam saqueado arsenais em vilas e acampamentos dos Templários.

“Quando as pessoas se rebelaram para o enfrentamento, os Templários fugiram e deixaram tudo para trás. No final, eles se revelaram um bando de covardes”, ele disse.

Outros, como Olmos, sugeriram que Mireles e seu pessoal estavam recebendo dinheiro e armas do governo. Também há quem suspeite que eles estariam recebendo apoio do cartel Nova Geração, de Jalisco — que era adversário dos Templários e, portanto, um potencial amigo dos vigilantes, que precisavam de recursos.

Possivelmente, existe algo de verdade nessas histórias. Mesmo assim, uma das explicações mais fascinantes e abrangentes sobre a renda dos vigilantes em 2013 vem da Deputada Estadual por Michoacán, Selene Vázquez, ex-integrante do Partido da Revolução Democrática (PRD, que domina no estado) e atual candidata independente esquerdista ao governo, indicado pelo Partido do Trabalho (PT) para as eleições estaduais programadas para junho de 2015. Sem meias palavras, ela afirma que a corrupção no movimento foi responsável por esse período de total beligerância em Tierra Caliente.

Selene Vázquez é defensora da igualdade de oportunidades de gênero e uma figura política da confiança de Mireles (que definiu essa linha de atuação para ela) e de outros vigilantes. Ela diz que os vigilantes receberam alguns poucos fundos da Cidade do México, mas não foi suficiente. O movimento foi bem-sucedido no começo, mas a região acabou sendo isolada do resto do país pelos Templários, o que aumentou drasticamente o preço dos caminhões, da gasolina e dos suprimentos básicos necessários pelas tropas e pelas vilas que eles haviam liberado.

Sem uniforme para todos, vigilantes de Coahuayana improvisam camisetas. Imagem: Erik Meza.

Para conseguir mais dinheiro, muitos (mas nem todos) vigilantes começaram a vender anistias de fato.

“Em todos os ranchos ou vilas, os vigilantes identificavam uma ou duas pessoas como os encarregados e ofereciam poupar a vida deles em troca de uma taxa”, explica Vázquez. “No começo, era um milhão de pesos mexicanos (US$ 65.700) por cabeça”. Lembro de que Mireles já tinha mencionado aquele valor.

“Mas aí alguns comandantes dos vigilantes disseram: ‘A gente pode pegar o milhão e depois os matamos’. E foi o que fizeram — mataram muitos (criminosos anistiados). Era uma guerra”.

“Então, os criminosos que restaram disseram: ‘Darei dois ou cinco milhões (US$ 130 mil ou US$ 330 mil) se vocês me deixarem em paz’. Eles tinham muito dinheiro (e, além disso, suas famílias e fontes de subsistência estavam na região, e havia poucos lugares para onde fugir), então, eles pagaram o dinheiro e receberam o indulto”.

Vídeos publicados na internet mostram eventos públicos nos quais os vigilantes concedem tais indultos, mas não existem provas irrefutáveis de que eles lucravam com isso.

“Esses Templários e bandidos ‘perdoados’ começaram a entrar nos grupos dos vigilantes que os anistiaram, por isso o movimento foi contaminado muito rapidamente”, acrescenta Vázquez.

Mas os vigilantes achavam que precisavam desses anistiados em suas fileiras para conseguir informações sobre a localização e as táticas de seus inimigos Templários.

Dois líderes rechaçaram essa estratégia, de acordo com Vázquez: Mireles e Mora. Mais tarde, ambos foram também duros críticos da estratégia de negociação do governo federal.

No entanto, apesar das tentativas de dissuadir os outros comandantes, pessoas como Mireles eram, na realidade, apenas testas de ferro que podiam influenciar a opinião pública, mas não tinham o poder verdadeiro para persuadir outros vigilantes. No final de 2014, a pureza e unidade do movimento já haviam começado a se esfarelar. Em algumas áreas, tornava-se cada vez mais fácil encontrar ex-Templários e jovens fãs das narcocorridos — músicas glorificando os traficantes de drogas, espécie de “proibidões” — sem fazer nada e fumando maconha antes de invadir vilas.

Mireles e Mora tiveram algum sucesso além de Tierra Caliente, principalmente nas regiões costeiras (como no território de Verdía), quando o movimento chegou até lá no início de 2014. Mas, naquele ponto, o movimento já havia sido definido — na imprensa e na prática — pelos eventos em Tierra Caliente. E Mireles, que se recuperava de uma queda de avião — tida por muitos como sabotagem –, não estava em condições de manipular as informações. Não é muito claro como esses acontecimentos internos dos grupos vigilantes afetaram as decisões federais, mas foi mais ou menos nessa época que o governo começou sua intervenção em Tierra Caliente.

Mireles e Mora tiveram algum sucesso além de Tierra Caliente, principalmente nas regiões costeiras (como no território de Verdía) quando o movimento chegou até lá no início de 2014. Mas, naquele ponto, o movimento já havia sido definido — na imprensa e na prática — pelos eventos em Tierra Caliente. E Mireles, que se recuperava de uma queda de avião — tida por muitos como sabotagem — não estava em condições de manipular as informações. Não é muito claro como estes acontecimentos internos dos grupos vigilantes afetaram as decisões federais, mas foi mais ou menos nesta época, em Tierra Caliente, que o governo começou sua intervenção.


O Levante.

Em 15 de janeiro de 2014, o presidente Peña Nieto nomeou Castillo como comissário plenipotenciário para a segurança de Michoacán — um cargo que ele ocupou pelos 12 meses seguintes, até ser afastado sem motivos oficialmente declarados.

Aos 39 anos de idade, Castillo atuava há muito tempo como confidente e aliado próximo de Peña Nieto. Ele o acompanhou durante seu período como governador do Estado do México, entre 2005 e 2011. Mas antes de assumir esse cargo, sua única ação de destaque havia sido na investigação do desaparecimento de uma menina no Estado do México. Após quatro dias de buscas, a indignação pública forçou a renúncia do procurador estadual e Peña Nieto o substituiu por Castillo. Logo depois, o corpo da menina foi estranhamente encontrado em seu próprio quarto. O desfecho do caso solidificou a reputação de Castillo como o “gestor de crises” de Peña Nieto — um homem que fazia seus problemas desaparecerem usando qualquer meio necessário.

A missão oficial de Castillo em Michoacán era clara: ele tinha que garantir a volta da ordem no estado, enfrentando todas as partes armadas na região, incluindo algo entre 15 mil a 20 mil vigilantes ativos. Dessa forma, o monopólio governamental seria restaurado e o México não iria acabar numa situação de paramilitarização como a Colômbia.

Alfredo Castillo entrega um fuzil para um vigilante em Tepalcatepec, em maio de 2014. Imagem: AP Photo/Eduardo Verdugo.

O levante em si começou, na verdade, poucos dias após a nomeação de Castillo, com a chegada de aproximadamente 10 mil membros das forças federais (que complementaram os poucos milhares que já estavam alocados na região), decididos a forçar o caminho de volta à ordem. A pressão pública de resistência à paramilitarização tinha chegado a um ponto decisivo para o governo, e as autoridades estaduais haviam enviado um pedido de ajuda explícito, suplicando por medidas imediatas, abrangentes e decisivas para restaurar o estado de direito.

Em 13 de janeiro, as forças federais fizeram a primeira tentativa de desarmar alguns vigilantes no vilarejo de Antunez, 20 quilômetros ao leste de Apatzingán (ninguém sabe porque o lugar foi escolhido, ou se esse foi um esforço honesto ou se foi apenas uma amostra teatral de força). Mas os civis (incluindo mulheres e crianças) resistiram, rejeitando o Exército em favor de seus próprios vigilantes.

“A situação fugiu do controle”, escreveu o Bispo Patiño, de Apatzingán. “(Os militares) foram cercados e começaram a atirar — primeiro para cima, e depois contra a multidão (de civis desarmados)”.

Duas pessoas morreram na escaramuça.

“As pessoas querem que o governo, antes de mais nada, confronte o crime organizado no estado. (Mas) ao invés de perseguir os marginais, eles atacaram os defensores do povo. Eles não entendem que estamos numa situação desesperadora?”.

Parece que ninguém entendeu. O restante do México e o mundo, de forma geral, ficaram confusos diante dos eventos em Michoacán, especialmente porque no mesmo dia dos conflitos em Antunez, uma entrevista com José Manuel Mireles foi transmitida por um canal de TV nacional, promovendo o programa de desarmamento do governo. Mais tarde, Mireles afirmou que suas declarações haviam sido manipuladas. Mas o precedente da manipulação proativa de informações durante o levante já havia sido estabelecido.

Todavia, também se tornava evidente que a força bruta não iria funcionar — a quantidade de vigilantes já era incontável e eles controlavam 20 cidades liberadas, o que representava um terço do estado. Em 14 de janeiro, um grande posicionamento de tropas ao redor de Apatzingán — em uma amostra de força — não surtiu nenhum resultado efetivo.

Foi quando enviaram Castillo — o solucionador de problemas. Ele chegou acompanhado por 80 pessoas de confiança: advogados do Estado do México, policiais à paisana e oficiais da agência de inteligência (número que já havia aumentado para 700 em dezembro do mesmo ano). As negociações foram iniciadas enquanto Castillo se gabava de ser um emissário de paz (mas, desde o começo, os moradores locais o chamavam de Vice-Rei, dizendo que ele era um intruso arrogante, referindo-se às autoridades da época da colonização espanhola).

Por um curto período, parecia que ele fazia progressos liderando uma operação que recuperou Apatzingán das mãos dos Templários. Mas a operação, que nunca conseguiu consolidar seu controle na vila, envolveu a primeira cooperação ativa do governo com os vigilantes (apesar de detalhes do acordo não serem conhecidos). Isso gerou uma série de perguntas sobre a tática e o comprometimento de Castillo em restaurar o controle do governo. Enquanto isso, a ausência de Mireles como porta-voz fez com que os Templários fossem vistos como um grupo que se fragilizava, enquanto as atenções da opinião pública tinham se voltado para as ações de Castillo.

E o relacionamento entre Castillo e a opinião pública azedou ainda mais quando a primeira página do jornal Diario Reforma estampou fotos dele com Juan José Farías, conhecido como “El Abuelo” (o Avô), em 8 de fevereiro de 2014. Aquele homem de aparência gentil e bigode ao estilo de Clark Gable não era muito conhecido, mas seu passado foi rapidamente investigado e descobriu-se que Farías, um rancheiro de Tepalcatepec e agitador local, era um dos líderes (discretos) dos vigilantes e também um pretenso narcotraficante vinculado ao cartel da Nova Geração. Ele havia sido preso em 2009 por causa desses contatos circunstanciais, passou um período na prisão mas acabou sendo solto por falta de provas.

Auxiliar de Tetos desce de caminhonete em Michoacán. Imagem: Erik Meza.

Apesar de Farías insistir que não tinha mais pendências com a Justiça, a associação de Castillo com esse homem fez as pessoas questionarem se o comissário plenipotenciário estava verdadeiramente dedicado a esmagar os cartéis, e também se os vigilantes eram tão nobres quanto afirmavam ser. O incidente fez com que as pessoas olhassem com mais atenção para outros líderes vigilantes e seus antecedentes criminais — algumas acusações eram bobagens, mas outras eram legítimas — da época que o estado era um paraíso do narcotráfico e todos estavam, de alguma forma, envolvidos com os cartéis benevolentes e as famílias criminosas. Esses vínculos começaram a manchar a imagem do movimento diante da opinião pública e causaram suspeitas de que o PRI estaria apenas repetindo suas velhas políticas de pax mafiosa do crime controlado.

Por sua vez, os vigilantes ficavam cada vez fragmentados e, ao verem as fotos e as notícias divulgadas pelo jornal, começaram a suspeitar que muitos malandros e narcotraficantes estavam infiltrados massivamente em seus grupos.

Eles também desconfiavam de Castillo, já que ele deixava de tentar realizar negociações e cooperações conciliatórias e agia com autoritarismo, como se dissesse: “Ou vocês estão comigo ou estão contra mim”.

Em março (e novamente em dezembro), Castillo mandou prender Mora — que era um crítico veemente do fogo baixo do governo contra os criminosos. Mas, após um curto período na cadeia, Mora foi libertado por falta de provas. Em maio, Mireles também foi preso por dizer que o comissário havia traído o movimento vigilante por não ter sido mais agressivo na busca por La Tuta e outros Templários. Ele até mesmo acusou Castillo de se encontrar e negociar com o chefão dos Templários. Após a acusação, Castillo sugeriu que Mireles havia perdido a sanidade mental e o enviou para uma prisão de segurança máxima, onde ele continua mesmo após a despedida do comissário em 22 de janeiro de 2015.

Segundo Vázquez, quando Mora foi solto pela primeira vez, Castillo fez um ultimato direto:

“Colabore com o governo ou volte para a cadeia”, teria dito ele.


O Expurgo.

O escritório do Diretor de Polícia Investigativa em Michoacán era decorado por uma peça notória: uma espada presenteada pelos próprios Cavaleiros Templários.

Castillo citou esse pequeno detalhe como um exemplo do nível de corrupção e conivência com o crime organizado das forças de segurança de Michoacán. Ele abordou o assunto em uma entrevista para a revista Nexos, em dezembro de 2014, antes de deixar o cargo. Segundo ele, a corrupção estava tão espalhada que, quando assumiu o posto, em janeiro de 2014, foi necessário fazer uma limpeza no funcionalismo público estadual, especialmente nas forças de segurança.

José Martín Godoy, um colaborador de Castillo que o havia acompanhado em grande parte da carreira profissional, foi escolhido para substituir o Procurador de Justiça local, e ordenou mais de 6 mil prisões somente em um ano. Entre os presos, estavam 350 servidores, incluindo gestores, prefeitos e policiais. Até mesmo o governador interino Jesús Reyna foi detido e permanece na prisão por ter colaborado com os Templários, de acordo com acusações feitas em um dos vídeos de La Tuta.

Muitos funcionários públicos não foram presos, mas sim demitidos. Departamentos inteiros de forças policiais foram os primeiros a sair, o que deixou muitas vilas sem qualquer proteção oficial. Alguns policiais não precisaram nem ser demitidos, já que deixaram seus postos assim que os grupos vigilantes locais se formaram, abrindo espaço para substituições com sangue novo.

“Claro que temos medo”, um policial de Tepalcatepec me disse em 2013, sussurrando em frente a um prédio do governo. “Todos aqui estão armados, menos nosso grupo de 50 homens (a polícia local havia sido desarmada). Eles podem nos matar quando quiserem”.

Era impossível saber se esse policial havia colaborado com os Templários e se isso teria sido feito por medo ou por ganância (o salário dele era inferior a US$ 250 por mês).

Provavelmente Castillo agiu corretamente ao despedir os policiais locais, mas eles nunca foram substituídos por uma força nova e confiável. Mesmo assim, o comissário interviu também nas tropas do Exército baseadas no estado. Dos 1.400 soldados, restaram apenas 400. Toda a segurança de Michoacán ficou nas mãos de tropas federais e de um grupo de oficiais desconhecidos vindos do Estado do México, acusados por Selene Vázquez de serem espiões e policiais à paisana.

“Não temos informações e não há nenhuma transparência (da parte deles)”, diz Vázquez. “Recebemos cada vez mais reclamações sobre abusos cometidos por agentes não identificados — relatos de prisões arbitrárias e torturas. As histórias são que os agentes espancam as pessoas e as entregam às autoridades federais, que não podem ser culpadas por nada.”

‘La Cubana’, recrutadora de vigilantes, recebe hóstia em missa em Tepalcatepec. Imagem: Erik Meza.

Entre essas pessoas duvidosas estava uma mulher conhecida como “La Cubana,” uma psicóloga e sexóloga com função nunca esclarecida, mas aparentemente o braço direito de Castillo. Jornalistas dizem que ele a nomeou como Vice-diretora Geral de Análises e Informações.

“Supostamente, ela controlava a infraestrutura de inteligência, mas ela negava isso”, completou Vázquez.

O nome real da assessora é Maria Imilse Arrue. Em novembro de 2013, ela participava de um seminário sobre erotismo e fantasias sexuais, enquanto promovia seu novo livro,Mi Cuerpo(Meu Corpo),sobre sexualidade na adolescência. Apenas dois meses depois, ela tinha se tornado uma figura importante na intervenção em Michoacán — ninguém sabe como.

Mesmo com a ajuda de todos esses forasteiros, no início de 2014, já era inegável o vácuo de poder criado pelo expurgo da polícia local.

As negociações eram espinhosas, mas a necessidade da presença de pelo menos alguns vigilantes era óbvia. Então, em abril de 2014, Castillo chegou ao seguinte acordo com os líderes vigilantes: até 10 de maio daquele ano, os vigilantes teriam de entregar suas armas e se desmobilizar ou, então, entrar para a polícia rural sob o comando total de Castillo. Contudo, nos meses seguintes, nenhuma das opções funcionou da maneira desejada.

“Ele disse que seríamos bem-vindos na polícia rural”,explicaTetos, em seu escritório em Coahuayana. “Ele disse que todos os municípios iriam escolher seus próprios oficiais de polícia, o que significava que poderíamos continuar fazendo o que fazíamos. Castillo prometeu que só teríamos que trocar nossas camisas e que ninguém seria deixado de fora”.

Entretanto, não foi assim que as coisas funcionaram.


Legalize Já.

“Tire a roupa”, diz Luz Sandoval. “Eles mandaram, não sei por quê. E eu tive que ficar lá, nua.”

Suas duas filhas estão sentadas em frente a ela na sede dos vigilantes em Coahuayana, escutando com atenção, apesar de já terem ouvido tudo antes. O exame físico era parte das provas de confiança do governo, uma das formalidades pelas quais os vigilantes tinham que passar para a admissão na polícia rural de Castillo.

“A mulher encarregada era La Cubana”, diz Sandoval, com evidente desprezo. “Não sei o nome dela. Era assim que todos a chamavam”.

Luz Sandoval começou o processo de legalização em novembro de 2014, seis meses após o anúncio da polícia rural. Ela passou dois dias em Morelia, sendo submetida a diversos interrogatórios e inspeções que lhe dariam o consentimento para entrar no esquadrão.

“Tive que passar por um teste no detector de mentiras, exames psicológicos e todos os tipos de exames de sangue, de urina e outras coisas”, ela enumera.

Em janeiro de 2015, o governo declarou que 5.700 pessoas haviam passado por exames psicológicos e ideológicos, além de análises de tatuagens (que normalmente têm um profundo significado nas diversas organizações criminosas). Desse total, apenas 926 pessoas foram aprovadas na triagem.

“Ninguém me disse se fui aprovada”, diz Sandoval, que ainda é uma vigilante ativa no início de 2015. “Disseram que ninguém seria deixado de fora, mas sei que ainda sou ilegal. Se decidirem vir atrás de mim, eles podem”.

O governo também afirmou ter registrado 8.631 armas declaradas por todos os vigilantes que buscaram a legalização (mesmo aqueles que não quiseram entrar na polícia rural, mas queriam ter boas relações com as forças federais). No entanto, nunca foram emitidas licenças de porte de armas para eles. Essas armas registradas, como a de Luz Sandoval, poderiam, portanto, ser usadas para rastrear os vigilantes, para desarmá-los ou para processá-los por porte ilegal.

Muitos vigilantes estavam dispostos a registrar pelo menos algumas de suas armas para agradar ao governo. Contudo, ninguém queria desistir completamente de seu arsenal. O maior medo era de que, assim que estivessem desarmados, os Templários voltariam com seus ataques, sem se importar com a presença das tropas federais. A possibilidade de que as forças federais poderiam retornar para confiscar suas armas pairava sobre suas cabeças como a Espada de Dâmocles, da mitologia grega.

Héctor Zepeda, conhecido como ‘Comandante Tetos’. Imagem: Erik Meza.

Tetos conseguiu ser legalizado, mas ele ainda ri ao se lembrar dos exames.

“Perguntaram o quanto amo minha família, quantos filhos tenho, quanto eles valem para mim… O que eu poderia responder? Perguntas cretinas. Não existe uma prova de confiança melhor do que ouvir o que os outros têm a dizer sobre uma pessoa. Normalmente as pessoas ao nosso redor nos conhecem bem.“

Em janeiro de 2015, apenas 45 dos homens de Tetos, incluindo ele, tinham sido legalizados e puderam entrar na polícia rural, enquanto 180 permaneciam como vigilantes ilegais. Como nem todos ganharam camisas uniformizadas, tiveram que fazer suas próprias, em azul, com letras brancas (mas eles colocaram o nome aleatoriamente em diferentes partes da camisa — e alguns continuaram a usar as camisas oficiais ao lado de seus pares, vestidos de forma caótica).

Hoje, 7 de janeiro de 2015, todas essas 225 pessoas — vigilantes regularizados e irregulares — reuniram-se em sua sede. Durante toda a manhã, o rádio anunciava a chegada dos cheques de pagamento, vindos da capital Morelia. Somente a polícia rural regularizada ganhará o salário, mas seus companheiros vão junto, transformando o dia de pagamento em um motivo de festa. Alguns, ficam na rua fazendo churrasco, outros, jogam sinuca ou assistem à TV dentro do prédio, e alguns homens limpam suas armas. Todos estão ávidos para receber o pagamento, mas Tetos tem certeza de que eles não estão em seu grupo de vigilantes pelo dinheiro, porque a quantia é irrisória.

Na posição de chefe do esquadrão, Tetos recebe apenas 5.400 pesos mexicanos (US$ 385) por mês, menos do que ele paga aos mecânicos em sua oficina automotiva. E ninguém pode ao menos ter certeza de que receberá seu pequeno pagamento. Os cheques frequentemente chegam com atraso. E alguns nunca chegam.

“Isso é outro detalhe”, diz Verdía após cumprimentar seus colegas. “Não foi reservado dinheiro suficiente para pagar pela legalização dos vigilantes”.

Ele e Luz Sandoval não recebem nada do governo porque não fazem parte da polícia rural — a situação de legalização dela ainda é muito nebulosa e Verdía, como membro da força policial indígena, junto a 250 homens em Ostula, não entrou no esquema de regularização estabelecido para vigilantes.

Mesmo assim, Verdía quer encontrar uma forma de legalizar os homens que lidera. Ele diz que não é uma questão de dinheiro, e sim de colaboração. As forças de Verdía não podem pegar em armas fora de Aquila (assim como a polícia rural teoricamente não pode usar suas armas fora de seus próprios municípios). Mas ele ainda deseja algum tipo de solidariedade com Tetos e seus comandados. Agindo de forma antecipada, ele até mesmo mandou fazer camisetas para uniformizar seu grupo, para que os membros se sintam mais unidos aos vigilantes.

“Gostaríamos de agir legalmente (além de nossa vila) mesmo que eles não possam nos pagar”, afirma ele. “Mas só conseguimos legalizar dois (policiais indígenas)”.

Alguns vigilantes não somente foram mantidos na ilegalidade, como também foram presos. Selene Vázquez chama o episódio de A Grande Traição: um dia antes do início dos processos de legalização, pelo menos 100 vigilantes — que haviam manifestado sua intenção de obter o reconhecimento legal — foram presos como criminosos.

“Por que um bandido entraria numa fila para registrar suas armas?” pergunta Vázquez. “Porque foi assim que eles foram presos! Enfileirados para registrar as armas!”

Castillo apenas insiste na teoria de que eram vigilantes falsos — marginais disfarçados.

Após 10 de maio, muitos membros desses grupos de autodefesa ficaram ressentidos. Era grande o número de vigilantes rejeitados ou presos, mas La Tuta ainda estava foragido, o que era um importante indício de que o governo não havia derrubado os Templários, como o prometido, antes de pedir a eles o desarmamento e a adesão ao controle federal. Ninguém sabia qual outra força de segurança seria criada ou qual seria o papel dos vigilantes. Mas o pior de tudo é que havia suspeitas de que as primeiras pessoas legitimadas por Castillo eram, na verdade, criminosos e colaboracionistas do governo se fazendo passar por vigilantes para tirar vantagem de suas novas conexões estaduais.

Vigilantes fazem fila para receber pagamento em Coahuayana. Imagem: Erik Meza.

Ninguém pode afirmar se Castillo validou essas pessoas porque não conhecia a situação verdadeira ou por meio de acordos de bastidores baseados em corrupção. De qualquer maneira, as repercussões foram negativas, porque, muitas vezes, esses homens eram os únicos a saber que haviam sido legalizados. Muitos vigilantes viviam na incerteza.

“Pouco a pouco, começamos a perceber que muitos vigilantes achavam que tinham sido legalizados”, conta Vázquez, “mas eles não estavam na folha de pagamento do Ministério de Segurança Pública. Mesmo assim, eles eram pagos pelos comandantes locais com dinheiro que só Deus sabia de onde vinha. E todos tinham charolas (distintivos de identificação) e uniformes. Frequentemente, esses aparatos eram falsos (e apesar de a origem ser desconhecida, assim como o dinheiro usado para pagá-los), mesmo assim, todos apenas acreditavam que era perfeitamente legal”.

O resultado final de tantas traições, confusões e acordos duvidosos foi a formação de uma massa amorfa e mal controlada de homens e mulheres armados com objetivos desconhecidos, legitimidade questionável e sem uma posição clara na cadeia de comando. Esse certamente não seria o produto final imaginado pelas autoridades quando falaram sobre o desmantelamento ou regularização dos vigilantes no estado — um sinal de que a gestão de Castillo não estava dando certo.

“Castillo, não divida Michoacán mais do que você já fez”, disse La Tuta (justamente ele) em um dos últimos vídeos divulgados antes de sua prisão. “Você está causando caos.”

“Mais da metade de seus vigilantes lutaram ao meu lado nos Cavaleiros Templários até pouco tempo atrás. Vocês estão dando armas a criminosos! A polícia estadual, a polícia rural e as forças cidadãs são um bando de criminosos filhos da p*** — piores do que eu! Eles estão envolvidos em mais roubos do que eu, saquearam ranchos inteiros e levaram o gado dos donos. Claro que a gente fazia esse tipo de coisa, mas nós éramos os criminosos! Vocês deveriam ser as autoridades!”.


Os Descartáveis.

Castillo não esclareceu se havia algum tipo de ordem no processo de legalização. Tudo o que ele disse foi que suas forças rurais foram divididas em duas categorias: um grupo escolhido pelos moradores locais para defender suas comunidades, conhecido como polícia rural, e um grupo totalmente operacional formado por 250 indivíduos especialmente selecionados, uma espécie de Bope vigilante: o G-250, que incluía os Viagras. Castillo disse que esse último grupo faria o trabalho pesado, com liberdade para viajar por toda Michoacán com a missão de capturar a liderança dos Templários, entrando nos seus redutos nas montanhas para tirá-los de seus esconderijos mais secretos.

Mas antes que qualquer pessoa pudesse entender a função dos G-250, o comissário desfez o grupo em dezembro de 2014, após seis meses de perseguições aos Templários.

”A situação de segurança é diferente hoje em comparação ao ano passado”, disse Castillo na época. “A partir de agora, qualquer pessoa agindo como vigilante fora de sua própria comunidade será detido e levado à justiça.”

Foi uma mudança fundamental na relação do Estado com o movimento vigilante. Com a declaração, Castillo transformou publicamente o status do G-250 — de aliados do Estado, eles passaram a ser criminosos foragidos.

Naquele dia, ex-membros do G-250 (alguns deles integrantes dos Viagras), sentindo-se traídos, queimaram os uniformes, vestiram as antigas camisetas brancas dos vigilantes e montaram barricadas em estradas perto de Apatzingán. Poucos dias depois, aliados dos Viagras ocuparam a prefeitura em protesto contra a dissolução do G-250, até serem retirados pela polícia na manhã da Festa da Epifania, o que teria provocado o conflito misterioso que deixara Verdía tão contente.

Se você tivesse que escrever um anúncio nos classificados, querendo recrutar novos membros para o G-250, o texto seria mais ou menos assim:

Procuramos homens bem treinados e sem escrúpulos para matar Templários. Não oferecemos salário, mas dividimos os resultados dos saques. Garantimos total discrição diante de seus atos covardes e cruéis. Contrato de seis meses para fazer parte de uma equipe formada por 250 fanfarrões com o mesmo tipo de mentalidade. O final do projeto ainda não foi definido, mas certamente será desagradável para todos.

Nunca foi publicado um anúncio para explicar a função do G-250. Na verdade, ninguém tem muita certeza de como os integrantes eram selecionados.

Alberto Gutierrez, ex-comandante de caçadores de Templários, mostra documentos do seu porte de arma. Imagem: Erik Meza.

O ex-líder da unidade, Alberto Gutierrez (conhecido como “Comandante Cinco”, um homem de 40 anos, nascido em Tepalcatepec e membro da insurreição vigilante desde o início, elogiado por muitos, mas apontado por outros como traficante antes de 2013), afirma que a formação era resultado de um pedido feito pelas forças vigilantes quando Castillo chegou a Michoacán.

“Pedimos ajuda (ao governo). Queríamos ter um grupo especial para continuar a agir contra os Templários (após o levante), então Castillo formou um grupo. Sabíamos que iria durar por pouco tempo — de três a seis meses. Não éramos pagos por ninguém, mas era assim também quando éramos vigilantes. Odiávamos os Templários, então valia a pena apenas pelo gosto de ter autorização para persegui-los.”

“E não éramos criminosos”, ele acrescenta, quase como se fosse um pequeno detalhe, rejeitando as suspeitas de que seu esquadrão era apenas um bando de marginais à solta contra outro bando de marginais. “O governo investigou nossos antecedentes criminais”, conclui.

Isso significa que, se os membros do G-250 tivessem fichas criminais ou se fossem ligados a organizações ilegais, o governo teria ficado sabendo antes do alistamento.

Gutierrez é um dos poucos homens fora do governo que gosta de Castillo.

“Eu trabalhava muito bem com ele porque eu seguia as regras. Castillo era honesto”, conta ele.

“Hoje em dia (o governo) só vai atrás de quem se recusa a entregar as armas”, diz ele, defendendo os confrontos do Estado com os vigilantes ilegais — incluindo os Viagras, seus primeiros companheiros no G-250.

Gutierrez nos mostra sua plantação de limões, nas cercanias de Tepalcatepec, o orgulho de sua vida após o G-250. Mesmo aposentado, ele sempre mantém um rifle automático na traseira do caminhão e uma pistola na cintura, para qualquer eventualidade.

“Todas as minhas armas estão legalmente registradas”, ele esclarece, mostrando as licenças. “Isso evita problemas (como os enfrentados pelos outros vigilantes)”.

A mulher dele emigrou para os Estados Unidos há algum tempo, graças a uma carta do governo que dizia que ela precisava de asilo devido ao caráter perigoso das atividades de Gutierrez. Ele também queria ir, mas, por enquanto, cinco seguranças fornecidos pelo governo mexicano o mantém a salvo de retaliações, apesar de serem raramente necessários. Na posição de ex-comandante da unidade e simpatizante de Castillo, ele não é exatamente um homem muito querido por aquelas bandas.

“Tenho que estar sempre esperto”, diz ele.

Gutierrez afirma estar feliz por ter se aposentado da polícia rural do estado (mas, tecnicamente, ele ainda é reservista da unidade especial do Exército, o que permite que ele e outros ex-líderes vigilantes mantenham suas armas). Ele gosta de contar histórias de guerra, como, por exemplo, a vez em que suas tropas mataram 21 Templários em San Juan de los Plátanos. Ele também adora as canções escritas em homenagem à sua valentia, e mostra uma em seu celular.

“Beto (seu apelido) se veste com estiiiiiiiilo”, geme um cantor de 16 anos, que escreveu a música especialmente para ele. “É o jeito dele. / Ele é ótimo com a pistola. / É sua especialidade. / Ele está sempre nas linhas de frente, / limpando Michoacááááán. / E se a situação ficar realmente difícil, / Beto não vai se acovardar!”.

No entanto, mesmo com todo o charme, recordações saudosas e músicas compostas sobre sua bravura, nem todos os membros do G-250 compartilham da mesma opinião que Gutierrez sobre a unidade.

“A gente era bucha de canhão”, diz Juan, antigo membro da força especial que pediu para não ter o nome verdadeiro revelado por temer uma retaliação.

“Primeiro eles criaram e armaram o grupo, depois nos deram uniformes e nos legalizaram. Agora que não precisam mais da gente, dizem que somos criminosos foragidos. Fomos usados. No começo, Castillo nos mandou agir sem controle nenhum, à velocidade máxima. Mas depois ele voltou atrás, se livrou da gente e nos tornou criminosos. Eles nem ao menos apoiam as famílias dos que morreram ou foram feridos”.

“A gente ia na frente do Exército, da Marinha, das forças federais. A gente ia na frente de todos. Éramos a tropa de choque.”

Encontrei Juan, um homem alto e corpulento, na rua principal e empoeirada de um vilarejo perto de Apatzingán. Ele chegou atrasado e se desculpando, sofrendo de ressaca, mas com extrema lucidez. Ele me olhou diretamente nos olhos, em silêncio, antes de falar com uma voz surpreendentemente aguda, contrastando com seu físico robusto.

“A gente ia na frente do Exército, da Marinha, das forças federais. A gente ia na frente de todos. Éramos a tropa de choque”.

Eram eles, Juan admite, que faziam o trabalho sujo do governo no estado.

Diferentemente de Gutierrez, Juan não era vigilante quando entrou no G-250, na Páscoa de 2014. Ele não tinha nenhum apreço pelos Templários, mas lutar contra eles não representava a realização de uma vendeta pessoal — era apenas um emprego fixo.

“Um velho amigo dos tempos do Exército me visitou, porque ele sabia que eu era bom com armas. Então, ele achou que eu seria ideal para o grupo”, conta Juan.

Ele não sabe de onde vinha o dinheiro para a sua unidade. Tampouco sabe se os meses passados perseguindo os Templários foram bem organizados ou conduzidos com lisura.

“O Exército encontrou La Tuta na vila de El Socorro em setembro de 2014”, diz Juan, “mas uma das mulheres dele (o chefão diz ter várias esposas) pagou um suborno e ele não foi preso”.

O Exército nega esse rumor persistente. Gutierrez diz não ter participado daquela operação, mas afirma que é tudo fofoca e boato. Juan insiste que a história é verdadeira, apesar de também não ter estado lá.

“A gente estava quase morrendo naquelas montanhas”, ele bufa, “e deixaram La Tuta ir embora por um punhado de dólares. Para este governo, o único valor é o dinheiro.”

“Meu destino já está selado, como o da maioria dos outros membros do G-250”, diz Juan resignado, e completa: “Só existem duas hipóteses: ou o governo nos acusa de algo como homicídio ou qualquer outra coisa e nos joga na cadeia, ou os bandidos nos matam, como mataram um de nossos colegas na semana passada”.

Ele mostra a foto do amigo morto no celular, “El Oso” (O Urso).

“Por isso eu nunca baixo a guarda”, justifica.

Juan acredita que uma das pessoas que o querem morto é seu antigo comandante do G-250, aquele velho colega do Exército que o recrutou para a unidade, e que agora é membro do novo cartel baseado em Apatzingán, chamado La Nueva Linea — um dos muitos pretendentes ao legado dos Templários. Os malandros não se preocupam muito com fraternidade marcial.

“Não me arrependo de ter entrado no G-250”, garante Juan. “Só me arrependo de duas coisas na vida: de não ter estudado e de um erro que cometi há muito tempo, que me fez parar na cadeia”.

Juan não revela por que foi preso, mas insiste que era um exemplo de integridade moral antes de entrar no G-250. Mesmo assim, admite que muitos de seus companheiros na unidade eram ex-Templários para os quais o governo fazia vista grossa, dando a eles licença para matar. Era assim que conseguiam informações sobre os esconderijos dos cartéis. Como o governo precisava desse tipo de gente, os protocolos normais de legalização foram dispensados.

“Só pediram para ver nosso título de eleitor”, relembra Juan. “Eu era guarda de prisão, mas tinha sido despedido porque não passei na prova de confiança (processos de rotina em inscrições e avaliações para empregos na área de segurança no México). Mas isso não era problema para o G-250. Eles sabiam que havia um mandado de prisão em nome de um de meus colegas por homicídio e sequestro, mas, mesmo assim, ele foi alistado. La Cubana riu para ele e disse: ‘Não é nada, não é nada, meu filho! Agora, você pode limpar seu nome porque você vai trabalhar para o governo!’”.

La Cubana aparece em muitas histórias sobre a confusa organização de tropas de elite e unidades de inteligência em Michoacán durante a intervenção de Castillo. Na minha cabeça, ela era uma figura enigmática e manipuladora, por trás de todas as ações. Isso até 24 de fevereiro de 2015, quando a conheci em uma festa que celebrava o segundo aniversário da revolução dos vigilantes em Tepalcatepec.

Segundo ela, Castillo a incumbiu de fornecer apoio psicológico e de realizar os testes de confiança dos vigilantes no processo de legalização. Durante a nossa conversa, ela confirmou, involuntariamente, partes da história de Juan sobre o G-250.

Vigilantes regularizados no dia do segundo aniversário do levante, em Tepalcatepec. Imagem: Erik Meza.

“Tínhamos um grupo especial para recrutar pessoas que já haviam se envolvido com o crime, mas que estavam dispostas a perseguir os Templários nas montanhas”, contou ela. “Eles ajudaram, mas sabiam que essa colaboração seria temporária. É como em qualquer outro país, chega uma hora em que todos se erguem para decidir quem fica e quem sai. Mas eles sabiam que não poderiam permanecer institucionalizados. Claro que alguns resistiram (no final)”.

Poucos dias depois, em uma entrevista realizada em Morelia, José Martín Godoy confirmou a versão de La Cubana:

“É verdade. Muitos daqueles colaboradores tinham fichas criminais por terem participado de atividades ilícitas. Alguns foram presos por posse de drogas, outros pela prática de extorsão.”

Mas ele não esclareceu quantos foram presos e quando as prisões ocorreram.

Durante o mandato de Castillo, Selene Vázquez enviou várias solicitações a seu gabinete pedindo informações sobre a composição e as atribuições das diversas novas unidades de segurança criadas em Michoacán, mas as tentativas de conseguir um número confiável sobre os membros do G-250 ou de qualquer outra organização existente na era Castillo não tiveram resposta.


Sonhos De Justiça.

Hoje em dia, Michoacán é um lugar cheio de histórias nebulosas, em que os valores se misturam numa névoa espessa. O bem e o mal, mocinhos e bandidos, justiça e impunidade, tudo parece se fundir numa coisa só. É verdade que a justiça é um conceito maleável na maior parte do México, mas, em Michoacán, isso é especialmente evidente. Por essa razão, Tetos acredita que o povo precisa que os vigilantes façam justiça com as próprias mãos.

“O filho da puta que matou meu irmão”, conta Tetos em seu escritório, entre lágrimas e com um olhar distante, “não conseguiu nem voltar para o carro dele (vivo)”.

Ele guarda na memória muitas histórias que ilustram o fracasso da tão propalada restauração do estado de direito em Michoacán nos dias de hoje.

“Uma vez, a polícia tentou me acusar de assassinato porque encontrei um cadáver enquanto fazia uma ronda”, ele conta. “Outra vez, civis me ofereceram um milhão de pesos (mexicanos — valor equivalente a US$ 66 mil) para que eu deixasse a mãe de um Templário morar em Coahuayana. E outro dia mesmo, umas pessoas — supostamente do governo — vieram me prender, mas eu disse, com uma granada na mão, que não me levariam com vida. Depois, telefonei para (os oficiais em) Morelia para saber por que haviam mandado me prender, e disseram que não sabiam de nada. Os ‘agentes do governo’ eram Templários!”.

Verdía ouve atentamente. Ele demonstrou excessiva tolerância no julgamento em Cobanera, mas é aberto sobre o fato de que mataria um criminoso, de bom grado, antes que o criminoso pudesse matá-lo. Para ele, essa é a única maneira de assegurar que eles não voltarão para causar mais problemas agora.

Verdía também está ciente de que ele e os outros vigilantes podem ser presos por qualquer motivo, a qualquer momento. Ele sabe que essa é a carta na manga do governo para controlar os vigilantes — a mesma ferramenta usada contra Mireles e Mora.

“Eu estava com o Mireles no dia de sua prisão”, diz ele.

Mireles tinha sido avisado para amenizar o tom de seus discursos contra Castillo, mas nunca deu atenção aos conselhos. Um dia antes de ser preso, o jornal La Jornada divulgou um vídeo de Mireles perto de Lázaro Cárdenas, no qual ele expressava o desejo de atacar a cidade, chamada por ele de “ninho de Templários”, apesar da presença militar no porto. “Fui informado sobre um tiroteio em um rancho (perto do povoado de La Mira). Em cinco minutos, eu já tinha 40 caminhonetes armadas e prontas, mas os soldados não nos deixaram agir porque estávamos armados!”

“Fui informado sobre um tiroteio em um rancho (perto do povoado de La Mira). Em cinco minutos, eu já tinha 40 caminhonetes armadas e prontas, mas os soldados não nos deixaram agir porque estávamos armados!”.

“Aí eu disse: ‘Então, venham com a gente, seus idiotas! É seu trabalho!’. Mas eles responderam que não tinham permissão para deixar o posto. E sabe o que esses filhos da puta fizeram? Eles tiraram fotos das placas do meu comboio!”.

“Quando finalmente conseguimos passar pelo Exército e chegar ao rancho, um dos nossos carros estava pegando fogo. A filha dele, de 11 anos, estava com um buraco deste tamanho (ele faz um círculo com as mãos) por causa de uma granada de merda!”

“Se o Exército não vai nos ajudar a acabar com estes bandidos, eles deveriam parar de nos atrapalhar. Fácil assim. Sei que vou morrer, mas vou continuar atrás dos Templários até não poder mais.”

Nesse ponto do vídeo, Mireles está bufando.

“Se o Exército não vai nos ajudar a acabar com esses bandidos, eles deveriam parar de nos atrapalhar. Fácil assim. Sei que vou morrer, mas vou continuar atrás dos Templários até não poder mais. Já fui vítima de sete embocadas, já caí da porra de um avião — e ainda estou aqui. O que mais pode acontecer comigo?”.

No dia seguinte, 27 de junho de 2014, as forças de Castillo prenderam Mireles quando ele comia frango em um restaurante em La Mira, um vilarejo perto de Lázaro Cárdenas. A versão oficial é que ele dirigia uma caminhonete carregada com armas de uso exclusivo do Exército, além de maconha e cocaína.

“Eu estava lá porque me avisaram que haveria uma prisão”, diz Ostria, o jornalista de Lázaro Cárdenas. “Vi o Mireles comendo, mas o pessoal da Promotoria não me deixou gravar a cena. Eles o colocaram em uma viatura e foi só quando estavam partindo que consegui tirar algumas fotos”.

A advogada de Mireles, Talía Vázquez, insiste que ele é um prisioneiro político. Ela afirma que o Estado violou seus direitos humanos durante a prisão e que as drogas foram plantadas pelas autoridades.

Mireles foi apenas uma entre 83 pessoas presas naquele dia, incluindo cinco menores de idade. Quando Castillo deixou o cargo, ele havia prendido mais de 300 vigilantes. Segundo diversos relatos, a maioria desses presos era composta apenas por opositores do governo Peña Nieto, e não ex-membros dos Templários, já que muitos deles ainda estavam em liberdade. Alguns políticos da oposição estão pedindo a anistia dessas pessoas, argumentando que foram presas apenas por serem vigilantes. Mas Castillo, em seu último discurso no Parlamento, pouco antes de deixar o posto de Comissário, assegurou aos deputados que nenhum dos encarcerados havia sido preso apenas por fazer parte do movimento. Todos eles haviam sido acusados pelo porte de armas militares sem autorização (o que é comum hoje em dia entre os moradores da região, como Luz Sandoval, que andam com elas para cima e para baixo abertamente e sem problemas em muitas partes de Michoacán).

“As coisas ficam cada vez piores”, lastima a mulher de um dos homens presos com Mireles. “Ninguém defende a gente hoje em dia. No dia seguinte ao da prisão, (os Templários) começaram a atirar na gente e não foi possível fazer nada”.

Essa mulher é uma das viúvas de fato em Caleta de Campos, uma vila litorânea no caminho entre Lázaro Cárdenas e Coahuayana, na qual muitas famílias são agora sustentadas pelas mulheres porque os homens foram capturados junto a Mireles (e algumas outras cujos maridos desapareceram nas mãos dos Templários). Em 8 de janeiro de 2015, ela viajou a San Pedro Naranjestil, uma vila com 144 casas, que Sandoval afirma ser uma área segura, para conversar com Verdía.

“Os grupos de vigilantes de Caleta foram infiltrados (pelos Templários)”, explica Sandoval. “As mulheres estão com medo. Temos que tirá-las de lá”.

Três mulheres, sendo que duas estão na faixa dos 20 anos, e a outra tem cerca de 50 — todas com familiares presos com Mireles –, chegam para a reunião. Luz Sandoval diz que a mais velha está em maior perigo. O ex-marido dela era Templário, mas ninguém sabe o que ele fazia exatamente e ela tampouco parece querer esclarecer. Durante quatro anos, ele abusou da filha dela, fruto de um relacionamento anterior. Ela se separou do Templário depois que a filha o denunciou e, logo depois, a jovem desapareceu. A história é de arrepiar.

“Foi em 2012”, diz a mulher. “Minha filha tinha 19 anos. Uns homens a levaram de casa diante de mim. Vi a cara deles. Eles me vigiam desde então para ter certeza de que não falarei com as autoridades. Tentei registrar o desaparecimento de forma anônima, mas a queixa nunca chegou a ninguém que pudesse fazer algo”.

“Nunca mais tive notícias da minha filha desde que a levaram. Pessoas do governo dizem que ela ainda está viva, mas não sei de nada. Eles dizem extraoficialmente, sem dar detalhes. Isso me deixa ainda pior”.

O governo sabe sobre o destino de sua filha, acusa a mulher, porque as autoridades ainda estão cooperando com os Templários e outros criminosos. Ela não tem fé na justiça.

“Meu filho estava nos Estados Unidos quando minha filha foi raptada. Ele voltou para me ajudar nas buscas. Mas um Templário pagou 30.000 pesos (mexicanos, quantia equivalente a US$ 2.000) ao governo para prendê-lo. Agora, ele está na cadeia, e o irmão dele também, com Mireles”.

A mulher faz uma pausa para recuperar o fôlego, fungando o nariz enquanto seca as lágrimas que descem pelo rosto. Estamos no meio da praça principal, longe de todos. Mesmo assim, e sabendo que muitos já conhecem sua história, ela fala baixinho.

“As ameaças não acabam nunca”, continua ela. “Os Templários dizem que vão voltar e me matar primeiro. Depois eles vão matar qualquer garota que estiver comigo. Muitas de nossas pessoas queridas desapareceram, foram assassinadas ou presas. E o que o governo faz? Desarma a gente. Eles querem o povo submisso e desarmado diante dos Templários.”

“São os Templários que pagam o Castillo. O crime organizado está dentro do governo! Basta olhar para o que aconteceu aos 43 estudantes de Guerrero (estado fronteiriço com o sul de Michoacán). A polícia local (da cidade de Iguala) desapareceu com eles (em setembro de 2014). Eu disse que devemos nos unir para que nossas vozes sejam ouvidas, mas há muito medo”.

Verdía planeja fazer um discurso na praça central de San Pedro Naranjestil com o líder local, Don Amador Valencia, numa tentativa de amenizar os temores e encorajar a população a denunciar a situação.

“Não podemos dormir tranquilamente em nossas camas à noite por causa do medo”, diz ele, no coreto da praça. “A menos que os Templários sejam presos ou mortos, eles continuarão voltando. É por isso que temos que ficar unidos. Não podemos permitir o fracasso de nosso movimento. E agora (quando muitos vigilantes caíram na corrupção e no crime organizado) é o momento mais importante. Agora, podemos dar um exemplo aos outros. Temos que mostrar que o povo de San Pedro pode ser corajoso”.

Toda a vila ouve, reunida nas esparsas sombras da praça, escondendo-se do sol brutal. Verdía é um orador nato — direto, intenso e cativante. Ele afirma que a união é a única maneira de evitar a infiltração de elementos mal intencionados. As pessoas precisam dizer umas às outras tudo o que acontece e tudo que que sabem sobre qualquer morador de sua comunidade que esteja no caminho do crime.

Mas San Pedro está relutante. O lugar já sofreu muito desde a insurreição dos vigilantes. De acordo com Valencia, bandidos que fugiram dos levantes no norte e no leste em 2013 cruzaram as montanhas e se estabeleceram em vilas como esta.

“Era muito perturbador”, diz Valencia, “ver tantas armas — granadas e até mesmo morteiros. Todos estavam aterrorizados. Havia confrontos nas montanhas onde os Templários se escondiam. Os vigilantes venceram uma batalha lá, mas as pessoas não tinham armas para se unir à luta, e também estavam muito assustadas para tomar qualquer atitude. Então, depois da batalha, os Templários voltaram e começaram a torturar a população, para que as pessoas desistissem de se unir aos vigilantes. Foi quando percebemos que não poderíamos sobreviver por nossa própria conta, por isso ingressamos na luta dos vigilantes”.

A vila ficou sitiada por seis meses. Os Templários cercavam o lado das montanhas e os bandidos bloqueavam o lado da estrada que leva ao litoral. Em um determinado momento, lembra uma mulher, 600 (sim, seiscentas) pick-ups dos Templários entraram na pequena vila, em uma amostra desproporcional de força. A única forma de receber provisões era por uma pequena passagem em meio à serra, a oito horas de distância — de carro — do próximo sinal de civilização.

Durante alguns confrontos, a Marinha também apareceu, mas não interveio. De vez em quando, eles tentavam ir à vila com a intenção de desarmar aqueles que tinham se unido aos vigilantes ilegais, mas as mulheres não permitiam que eles entrassem.

“(Os Templários) sequestraram um de meus sobrinhos”, conta uma mulher, “e disseram que ele só seria solto se nossos vigilantes fossem expulsos. Caso contrário, o corpo do meu sobrinho iria voltar dentro de um saco”.

Vítima relembra terror dos carteis e Michoacán. Imagem: Erik Meza.

“Já sofremos demais, demais”, acrescenta um idoso, que não quer dizer seu nome (como todas as pessoas na multidão) por medo de represálias. “Famílias inteiras foram mortas — crianças e tudo. Ainda não estamos seguros. Eles voltarão quando não tiver mais ninguém aqui cuidando de nós. Se pelo menos o governo nos ouvisse…”

“(O Presidente Peña Nieto) não tem uma estratégia de segurança”, diz Edgardo Buscaglia, refletindo sobre a lista de absurdos, como os que aconteceram em San Pedro, que surge de Michoacán nos dias de hoje. “A intervenção do governo foi um fracasso total. Algumas autoridades corruptas estão presas, mas não foi realizada uma ação judicial, apenas militar. Ele não fortaleceu as instituições, não levou juízes, professores, assistentes sociais ou auditores. Ele enviou esquadrões de forças paramilitares para limpar o estado”.


O Show Continua.

Birria, um cozido mexicano típico e apimentado, ferve furiosamente em imensos caldeirões sob as arcadas da prefeitura de Tepalcatepec. É 24 de fevereiro de 2015, “nosso Segundo Dia da Independência”, afirma uma mulher em um carrinho que vende sucos na praça. E a cidade está em clima de festa — dez vacas foram abatidas para celebrar o segundo aniversário do primeiro levante dos vigilantes de Michoacán, que foi centrado aqui e na vizinha La Ruana.

“Agora temos paz”, diz a animada vendedora.

A praça principal de Tepalcatepec está lotada de pessoas de todos os tipos. Ao lado da prefeitura, foi montado um palco, adornado com luzes coloridas e várias fileiras de cadeiras dobráveis — os assentos com melhor visão foram reservados para as autoridades locais e estaduais. Também foram colocadas cadeiras ao lado de duas pequenas tendas com água, refrigerante e cerveja. No entanto, há muito mais público do que assentos e a multidão se espreme pela praça de pé.

Vigilantes também estão presentes, legais e ilegais, de todas as partes de Michoacán. A maioria está ali para comemorar, apesar de 80 homens da polícia rural de Tepalcatepec estarem montando guarda nas entradas do evento, armados e vestindo os uniformes oficiais. Mas, mesmo com a segurança ostensiva, não há tensão no ar.

Luz Sandoval e Cemeí Verdía chegam com suas famílias. Verdía cumprimenta todos calorosamente, incluindo Farías, o homem forte de Tecapaltapec.

Alguns dias antes, Farías tinha participado de uma reunião com vigilantes em Ostula, convocada por Verdía para discutir maneiras de demonstrar a continuidade da força e a relevância do movimento. No encontro, Verdía defendeu que o governo deve autorizar a presença de forças regularizadas no estado vizinho de Colima, para que persigam os Templários, e ficou satisfeito em ver por ali alguém tão influente quanto Farías.

“Deveríamos ter apoiado Verdía desde o começo”, diz Salvador Farías, irmão do chefão. “Ele é um dos poucos vigilantes realmente honestos por aqui”.

Mas no evento ninguém reclama sobre as políticas governamentais ou fala sobre a situação dos vigilantes. Símbolos silenciosos do poder dos vigilantes estão à mostra em toda a praça. Homens usam camisetas com frases estampadas como “Sou vigilante” ou “Polícia Comunitária”, em estado de alerta como seguranças do evento, espalhados por todos os lados. O próprio Farías veste uma camiseta com a frase “Por Michoacán Livre”, e discretamente administra esses homens com acenos e olhares de sua posição no centro da praça. Alguns dos homens trazem pistolas presas ao cinto e sob as camisas, mas, mesmo assim, bem visíveis.

Também há vigilantes falsos em meio ao público, de acordo com um espectador anônimo.

“Eles pediram permissão ao Farías para participar da festa”, sussurra o homem. “Ele deixou porque controla todos os grupos de Tepalcatepec com firmeza e mantém a calma na cidade”.

Tepalcatepec tem sido uma ilha de tranquilidade no estado conturbado há meses, graças, principalmente, à influência da respeitada família de Farías e ao fato de que todos os ex-vigilantes do lugar conseguiram ser legalizados. Os rumores são de que Farías teria usado suas relações de cooperação com o comissário Castillo para que o governo fosse mais leniente nas provas de confiança aplicadas a seus homens e a outras pessoas ligadas a ele.

“O detector de mentiras enlouqueceu quando me conectaram”, conta um integrante da polícia rural de Tepalcatepec. “Mas vejam só — estou aqui”.

Além dos 80 vigilantes de Tepalcatepec que ingressaram na polícia rural, outros 60, a maioria rancheiros importantes das cercanias, receberam permissão (como Gutierrez) para se unir à reserva militar em uma unidade especial de ex-vigilantes. Também receberam cursos de capacitação do governo, e alguns até viajaram para a Colômbia, onde passaram por um treinamento especial.

No palco, vigilantes e autoridades fazem discursos venerando a memória do levante e glorificando o papel do governo na luta contra os Templários, elogiando Castillo abertamente. O Comissário havia sido exonerado do cargo há pouco mais de um mês.

“Um estado quase falido não pode ser transformado na Disneylândia em apenas 12 meses”, ele disse ao repórter de uma emissora de rádio pouco antes de seu afastamento, defendendo seu mandato e tentando passar a ideia de que Michoacán estava se recuperando.

Ouvindo os elogios, o público resmunga e critica Castillo. O contraste dá a impressão de que as pessoas no palco estão realizando uma dança cuidadosamente coreografada, transmitindo uma mensagem clara, porém sutil, aos oficiais e civis na plateia:

“Tudo bem, governo, estamos juntos, mas, se você nos trair, podemos nos erguer novamente e resolver os problemas com nossas próprias mãos, com as mesmas pessoas, os mesmos lemas e as mesmas armas”.

“O tempo dos coelhos nas tocas acabou!”, berra o padre local Miguel López, que está no palco. “Acabou o tempo de se esconder, o tempo da escravidão. Não quero mais celebrar missas por assassinados ou desaparecidos”.

Ao lado dele está o Padre Goyo de Apatzingán. Apesar de o Padre Goyo sempre ter sido muito mais solidário aos vigilantes e cético em relação ao governo do que o Padre López, os dois religiosos rezam lado a lado e oferecem a comunhão.

As pessoas fazem fila para receber a hóstia, incluindo La Cubana. Ela é alta e forte, com cabelos escuros, muito bronzeada e usa saltos altos que não são adequados ao calçamento rachado das ruas. Não está acompanhada por sua habitual escolta de guarda-costas, que apenas a observa de longe.

Depois da missa, os discursos continuam. Sandoval, Verdía, e uma das mulheres de San Pedro Naranjestil estão na lista dos oradores, assim como Farías. Até mesmo La Cubana toma a palavra para agradecer muita gente (que poucos dias antes, tinha levantado dúvidas sobre seu caráter) pelo apoio recebido.

Apesar de seu importante papel no G-250, Gutierrez não discursa, e ninguém lhe agradece publicamente — o trabalho dele é sujo demais para ser citado nessa cerimônia.

Juana “Juanita” Reyes, que é uma comandante da polícia rural na cidade, praticamente se derrete em elogios açucarados a Castillo, enquanto algumas pessoas no fundo da plateia riem e fazem piadas. Todas as vezes que Juanita cita o nome do Comissário, uma pessoa grita “Vai se foder!”. Mas a maioria dos críticos costumeiros fica de boca fechada.

“Castillo era horrível”, disse Salvador Farías antes da festa. “O pessoal dele veio e complicou tudo. Mas agora é hora de seguir adiante e ver o que vai acontecer. Vamos ver como tudo se reajusta” (um termo usado frequentemente pelos narcotraficantes para se referir à redistribuição de território quando uma família é derrotada, alterando o equilíbrio do poder local).

No palco, alguém aborda o problema dos vigilantes que foram presos, mas ninguém menciona Mireles. Em vez disso, um de seus antigos admiradores apenas diz que ele não obedecia às regras, e alguém no público vai ainda mais longe, dizendo que ele é um vigarista. Claramente, o assunto desperta muitas suscetibilidades.

Juanita Reyes também sobe ao palco para agradecer Farías por ter arquitetado a insurreição dos vigilantes. Ele, que não gosta de aparecer, apenas balança a cabeça e se recusa a pegar o microfone, apesar dos pedidos do público.

Depois de tanta falação, as pessoas começam a comer e a dançar. Verdía não quer falar sobre as festividades, mas, quando pergunto o motivo de tantos elogios a Castillo, ele ergue as sobrancelhas e esboça um pequeno sorriso. Hoje, todos têm que parecer unidos, explica ele, mesmo que isso signifique aplaudir seu pior inimigo.

Vigilante sentado nos fundos da base vigilante em Coahuayana. Imagem: Erik Meza.

Apenas três dias depois da festa, em 27 de fevereiro de 2015, o governo teve sua maior vitória na guerra contra os Templários: La Tuta foi finalmente capturado. Eufóricos com essa vitória, agentes do governo levaram a imprensa estrangeira para a gruta onde o líder do cartel havia se escondido por meses, de onde, enquanto evitava a prisão, divulgava seus vídeos.

De acordo com o governo, a prisão de La Tuta foi a cereja do bolo em uma estratégia bem sucedida para a obtenção da segurança em Michoacán. Em uma entrevista no dia da prisão, Godoy disse que iriam tentar exportar o modelo de Michoacán para outros estados mexicanos vitimados pela crescente violência dos cartéis.

No estado, porém, nem todos estão convencidos de que o governo tenha vencido a batalha e que Michoacán é um lugar melhor do que um ano atrás, quando começou a intervenção. Ninguém confia em ninguém. Os vigilantes temem constantemente que serão desarmados, que não mais terão o poder de proteger seus entes queridos ou que serão presos pelo mero capricho de algum político.

“Sem dúvida, tudo isso será mostrado como um sucesso do governo”, diz Guillermo Valencia, ex-prefeito de Tepalcatepec, no dia da prisão de La Tuta. “Eles conseguiram o que queriam, independentemente de seus métodos questionáveis”.

Valencia afirma que o presidente Peña Nieto deu poderes a um grupo de vigilantes para atacar os Templários de forma definitiva. Os novos criminosos que surgiram em seu lugar são muito menos ameaçadores e mais fáceis de controlar. É como uma volta ao narco-sistema.

“A captura de La Tuta foi o capítulo final daquela história”, conclui.

“É claro que a prisão foi uma coisa boa”, diz o Padre Goyo. “Mas acho que os Viagras foram os que ficaram mais felizes. Eles irão aproveitar esse vácuo de poder para se fortalecer. E ainda há muitos cartéis ativos. Já circulam panfletos em Apatzingán mobilizando as pessoas contra as forças federais. É muito preocupante. Mas não existe vontade política para prender esses novos criminosos”.

Eleições locais estão previstas no estado para o próximo dia 7 de junho. Muitos temem que, após o voto, o crime será mais uma vez institucionalizado por meio da pax mafiosa ao estilo do PRI e que a história se repetirá. Alguns dizem que o PRI será vitorioso — Padre Goyo e outros suspeitam que, na verdade, a prisão de La Tuta foi orquestrada e cronometrada para evitar que ele divulgasse vídeos mostrando políticos do PRI, como Castillo, colaborando com ele. Já outras pessoas são a favor do PRD, de esquerda, argumentando que o PRI não quer arcar com os problemas e custos políticos de tentar administrar Michoacán — um estado em situação de impaciência.

De volta ao litoral, Verdía tenta se manter otimista sobre as próximas eleições, mas lamenta francamente não poder ver Mireles concorrendo ao cargo de governador.

“Ele venceria”, garante Verdía. “Por isso ele não será solto até o final da eleição”.

Sentados na casa que já foi dos Templários e que agora é a sede dos vigilantes em Coahuayana, os amigos de Verdía não são tão confiantes. Tetos não teve ânimo para participar da comemoração conjunta em Tepalcatepec. Agora, avaliando a situação em uma longa mesa de madeira, ele não consegue disfarçar a tristeza.

“Às vezes, eu choro à noite”, confessa. “Se soubesse o que iria acontecer, não teria participado (do levante) de jeito nenhum”.

Luz Sandoval senta-se em silêncio, com um olhar distante. Após alguns minutos, ela murmura: “Não sabemos quem é quem. Estamos sob constante ameaça”.

“Os Templários voltarão”, acrescenta Tetos. “O governo irá ajudá-los. E nós? Podemos morrer qualquer dia”.

* * *

Nos dias que antecederam a publicação desta história, a situação em Michoacán evoluiu de forma importante:

- Cemeí Verdía sofreu um novo atentado, no dia 25 de maio. Seu motorista se feriu, mas o líder comunitário saiu ileso mais uma vez. Os responsáveis pelo ataque foram remanescentes dos Cavaleiros Templários. Cerca de 400 vigilantes, ilegais e regularizados, revidaram e conseguiram matar quatro integrantes do cartel. Dois vigilantes morreram — entre elas o sobrinho de Sandoval Luz.

- No dia 22 de maio, no norte de Michoacán, 43 pessoas morreram em um tiroteio em uma fazenda quase na divisa com o estado de Jalisco no pior confronto da história recente na região. De acordo com o governo mexicano, 42 deles eram supostos integrantes do cartel Nova Geração, de Jalisco. O outro morto era um policial. A investigação sobre o incidente continua. Até o dia 27 de maio de 2015 ainda havia a suspeita de que pudesse ter sido mais um caso de execuções extrajudiciais por parte das forças federais, como no dia da Festa da Epifania, em Apatzingán.


María Verza é repórter da Associated Press baseada na Cidade do México. Durante uma década, comandou seção internacional da agência espanhola Fax Press, por onde cobriu uma eleição nos EUA, a retirada de tropas de Gaza, a guerra no Iraque e o tsunami na Indonésia. Trabalhou para o jornal espanhol El Mundo e colaborou com TVs internacionais, como ESPN e ABC.


Originalmente publicado em 27 de maio de 2015.