Ilustração: Pedro Matallo.

Por mais inacreditável que esta história pareça, todos os documentos citados nesta reportagem, em mais de 6 mil páginas de processos, foram verificados pelo BRIO.


Parte 1: Carreiras

Havia poucos meses que o empresário carioca José Germano Neto, 48 anos, assumira um passivo milionário de uma revendedora da BMW na Barra da Tijuca quando um baixinho marrento entrou no saguão da concessionária. Parecia ser o começo de uma bela amizade entre ele e o dono da loja.

Cheio de rapapés, o emergente Germano, um homem de voz grossa condizente com seus 1,83m de altura, saltou da cadeira e foi ele mesmo fazer a venda a Romário. O ex-jogador era um habitué da loja. Quando seus carrões davam defeito ou precisavam de um acessório novo, era para lá que ele levava.

Germano gostava dessa entrada no mundo dos famosos. Quem também abria bastante o bolso na concessionária era Galvão Bueno, entre outros rostos conhecidos.

A revenda adquiriu força vendendo carros importados da África do Sul para a nata da sociedade carioca. Estava numa rota fácil para elas. A Barra da Tijuca, paraíso do consumo no Rio de Janeiro, tinha uma placa clássica na saída do túnel para quem vem da Zona Sul. “Sorria, você está na Barra”, pedia o anúncio.

À esquerda, descortina-se, nos tantos dias de sol por aquelas bandas, o azul esverdeado do mar da Barra. Logo abaixo, na mesma direção, na Avenida Ministro Ivan Lins, estava o logo azul, branco e preto gigante da BMW. A única outra loja da montadora alemã no Rio, naquela época, ficava em Botafogo, mas era menorzinha.

Era de costas para o mar que Germano fazia seus negócios. A lábia do empresário desovava veículos encalhados do outro lado do oceano por falta de clientes africanos.

O sucesso de vendas fez o presidente da montadora alemã no Brasil, Axel Mees, ir ao Rio conhecer o dono da concessionária, naquele momento figurando entre os melhores vendedores mundiais da marca. Tornaram-se amigos e Germano foi introduzido ao jet set internacional.

No carnaval de 1998, o bambambam quarentão da BMW trouxe vários compas para festiar, ciceroneados pelo empresário. Este fazia sua parte enchendo o camarote da Sapucaí com passistas — o alemão gostava de banhá-las em champagne. Viram desfiles exuberantes da Mangueira e da Beija Flor, que acabaram dividindo o título de campeãs.

O presidente da BMW gostava tanto de Germano — de seus serviços de vendedor de carros e de fornecedor de mulatas — que retribuiu presenteando o empresário com uma viagem a Nova York para assistir Gustavo Kuerten jogar no US Open. Guga, assim como Germano, estava no auge.

Tudo pago pela BMW. Ingressos na primeira fila, hotel 5 stars, limousine da marca — o show completo para quem chegava ao topo. Lá, ele se encontraria com seus pares, os top vendedores.

Germano, todo faceiro, voou para NY em 1º de setembro de 1998, no que seria a consagração de sua carreira. Sua agenda de compromissos estava cheia. Além das partidas de tênis, tinha contratos a assinar com a BMW North America. Os chefões da montadora queriam ouvir sobre a experiência de Germano na concessionária prodígio no terceiro mundo. E repassariam para ele métodos comprovadamente bem-sucedidos em outras partes do planeta, para que a unidade da Barra da Tijuca passasse a implementar.

Ilustração: Pedro Matallo.

Três dias depois, tudo parecia fantástico demais. A turma da BMW bebericava no happy hour do New York Marriot East Side, um hotel de garbo na prestigiosa Lexington Avenue. O presidente da marca nos EUA ia dar seu speech em minutos. O ambiente estava decorado com belas modelos ucranianas.

Nosso carioca, sem falar inglês, circulava meio zonzo de tanto flash, e se dirigia ao elevador, para onde retornaria por alguns instantes ao seu quarto, quando dois homens engravatados se aproximaram dele e perguntaram: “Mister José Germano Neto”?

Ele só soube dizer, e só teve tempo de dizer, yes.

Germano foi algemado no meio do salão.

Os papéis nas mãos dos policiais diziam que o empresário carioca era um traficante internacional de cocaína e um dos maiores barões ocultos do mundo das drogas no Brasil.


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Renan Antunes de Oliveira é, com orgulho, jornalista freelancer. Trabalhou para os principais veículos brasileiros, como as revistas Veja e IstoÉ, e foi correspondente em Nova York do Estado de S.Paulo. Em 2004, venceu o Prêmio Esso de Reportagem com o trabalho “A Tragédia de Felipe Klein”, publicada no Jornal Já, de Porto Alegre.