Ilustração: Pedro Matallo

ATO 1: A FÉ


Reza.

Com as mãos erguidas Lúcia pede a benção cada vez mais rara que só pode vir de cima, seja pelas leis da Terra, seja pelas do céu. “Mandai chuva para nós, meu santo!”, entoa junto com outras pelo menos cinco mil pessoas que participam da procissão em homenagem ao padroeiro de Bodocó, cidadezinha de 37 mil pessoas nos confins de Pernambuco. Fica no Sertão do Araripe, oeste pernambucano, na ostra do cada vez mais desértico semiárido brasileiro, lá onde o vento faz a curva entre Piauí, Ceará, Sergipe, Rio Grande do Norte, Alagoas, Pernambuco, Bahia e Paraíba. É a região mais seca do Brasil.

Todo o comércio está fechado e o município está parado para o evento neste 19 de março de 2016. “Meu divino São José, manda chuva, meu santo!”, insiste a procissão puxada por uma beata idosa que vai dentro do carro de som munida de um microfone. Como Lúcia, as pessoas levantam as mãos para o céu e fecham os olhos, enquanto os 15 membros da orquestra sinfônica da cidade (basicamente, uma fanfarra) conduzem a dança da chuva dos sertanejos, cadenciando o coro de socorro às divindades ao som de tambores e metais. O tom é de lamúria e, na horda que serpenteia pelas ruas da cidade, há gente de todas as idades.

Comerciantes em trajes para ocasiões especiais, com camisas sociais bem passadas, calça de linho e bem lustrados sapatos de couro preto, caminham lado a lado com meninas de vestidos de festa e laço no cabelo. Senhoras igualmente bem arrumadas equilibram mal o corpo em saltos altos sobre os paralelepípedos do calçamento. O povo da cidade parece rumar para uma festa. Ali no meio também estão fazendeiros ricos e camponeses humildes vindos da zona rural para participar do evento. Os que não têm carro, caminhonete ou moto chegaram de jegue, bicicleta, a cavalo, a pé ou em paus-de-arara — como Lúcia e sua família —, estes ainda muito comuns nas vezes do transporte público que não existe.

Em dia de festa, procissão ou feira (todas as segundas) na cidade, caminhões de vários tipos, D-20s enormes e surradas e até tratores com reboques, tudo arranjado por empreendedores locais, viabilizam a necessidade do povo do campo de ir à cidade. Uma perna de ida ou volta ao centro custa de R$ 2 a R$ 5 por pessoa. A maior parte da população de Bodocó vive na zona rural. De acordo com o último levantamento do IBGE, 22.334 habitantes viviam no campo e 12.824 na cidade. Por todo o Sertão nordestino, de um lado e de outro do Rio São Francisco, as proporções são parecidas. E as pessoas também pedem chuva.

Não que haja notícia de alguma demanda diferente aos céus em outras edições da procissão centenária, que percorre a cidade todos os anos em 19 de março, dia de São José. O sertanejo que vive na terra antiga torrada pelo sol, calcinada por cima e rochosa por baixo, só tem um pedido, desde sempre o mesmo. Mas com a pior seca dos pelo menos últimos 55 anos em curso, o clamor por chuva é mais forte.

“Desde 2012 que não chove direito no Sertão. É a pior sequência de anos secos na história desde que começaram as medições sistemáticas, em 1961.”

A estiagem secou açudes e barreiros, torrou plantações, rachou a terra, matou de fome e sede o gado, estagnou a quebradiça economia do Sertão e mandou embora do campo famílias que dependem dele. Os sertanejos sentem que o clima está mudando para pior, saudosos das chuvas do século passado. A ciência comprova que os “invernos” — como são conhecidas as estações chuvosas no Sertão — estão cada vez mais curtos, intermitentes e com menos água. Se antes iam de dezembro ao fim de abril dependendo do lugar no interior do Nordeste, nos dias de hoje, se duram com consistência de janeiro a março, todos ficam felizes. Não é o que anda acontecendo.

Desde 2012 que não chove direito no Sertão. É a pior sequência de anos secos na história desde que começaram as medições sistemáticas, em 1961. É o que mostra levantamento inédito feito pelo Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) a pedido do BRIO. O segundo pior período prolongado de seca no Nordeste registrado cientificamente aconteceu de 1990 a 1993. “Há relatos de secas prolongadas também na década de 1930, final dos anos 1940 e 1950”, diz Fabrício Daniel dos Santos, pesquisador do instituto. “Não havia metodologia e coleta de dados, então não temos uma base para comparar”, explica.

O ano mais seco já registrado no Sertão foi 1993 e o segundo, 2012. Os anos de 1998, 1983 e 1990 ocupam o terceiro, quarto e quinto lugar, respectivamente. Fecham a lista em sequência 2013, 2014 e 2015. Dos oito anos mais secos já registrados na história do semiárido nordestino, quatro aconteceram de 2012 para cá. Entramos agora no quinto ano.

É por isso que Lúcia e família fazem questão de vir à procissão. Viriam de qualquer jeito, mas o sofrimento da seca é um estímulo a mais. Ao longo da noite anterior e madrugada, ela fez vigília e participou das rezas da novena do santo na igreja. Tem 34 anos, mas parece ter mais. Rechonchuda, de cabelos longos e vestindo saias longas e a camiseta temática produzida e vendida na paróquia, está descalça. Não é a única e não é por falta do que calçar, já que carrega chinelos na sacola plástica em um dos braços. É por devoção. Os paralelepípedos de pedra irradiam o calor recebido ao longo de todo o dia. Às 16h, o sol ainda está quente. Não venta e a sequidão do ar ajuda a aguentar uma temperatura que seria insuportável, pelo menos para alguém que não está acostumado, em um ambiente mais úmido. Faz mais de 36 graus e só não está pior por causa do céu nublado.

Lúcia vive em um sítio no Alecrim, a cerca de 30 quilômetros da Praça da Igreja da Matriz, de onde acaba de partir o cortejo que percorrerá a cidade na próxima hora até voltar ao local de partida e ser encerrado com uma missa. O povoado de sinhá Lúcia é considerado o mais seco de Bodocó, onde mesmo quando chove no centro e no resto da zona rural não é comum as nuvens encorajarem-se a seguir até ali. Quando não chove, a maior parte do tempo, água lá só de caminhão-pipa, poços artesianos e cacimbas de água salobra e, mais recentemente, de um dessalinizador instalado pela prefeitura que melhorou a vida da comunidade.

Lúcia é casada com Jorge do Cajueiro e tem dois filhos. O menino mais velho está com 12 e o mais novo, com 4 anos — este nascido mais ou menos junto com a chegada da seca brava de agora. Os últimos quatro anos foram muito ruins para eles. Perderam vaca leiteira, bezerro, porco, galinhas e todas as economias. Perderam também a pequena roça de milho e feijão que alimentava a criação e parcialmente a família. Também tiveram de se desfazer da moto de Cajueiro. A esta altura passariam fome não fossem os cerca de R$ 500 do Bolsa Família que recebem do governo federal todo mês, o que garante que as crianças estejam na escola em vez de estarem na mata caçando calango com o pai.

Era o que acontecia quando Lúcia ainda era menina moça e as coisas apertavam na sequidão da roça, nos anos 1990. Depois que as arribações voadeiras e até os urubus haviam abandonado a Caatinga em busca de sobrevivência, e findas as palmas que alimentavam primeiro o que sobrou do gado e depois os famélicos da terra, caía na estrada junto com os pais e os irmãos maltrapilhos. Pela terra eles iam até alcançar o asfalto das rodovias próximas à cidade, onde estacionavam a carcaça maltratada de sol, sede e fome nos acostamentos. Com as trouxas ficavam à espera de serviço, caridade e carona para Fortaleza, Recife, Brasília ou São Paulo — o que aparecesse primeiro. Depois de um tempo, voltavam. Da cidade grande, onde deixou irmãos, não gosta nem de lembrar. Essa época triste passou, nunca mais faltou nem que fosse arroz em casa de Lúcia.


A multidão carrega imagens de vários santos, não apenas São José. Representam o padroeiro de dezenas de povoados da zona rural de Bodocó, cada vila com o seu. Junto seguem estandartes com imagens e dizeres religiosos, impressos em material plástico que, apesar do caráter sagrado, poluem o quadro da procissão e tiram algo de sua poesia. Na frente do cortejo segue o padre Zé Barros, pároco de Bodocó, acompanhado pelo bispo Dom Magnus Henrique, da Diocese de Salgueiro, cidade de quase 60 mil habitantes a 113 quilômetros dali. Careca, corpulento, branquelo, rechonchudo e com óculos redondos pequenos encaixados perfeitamente sobre o nariz mesmo nas condições mais adversas, o padre está em Bodocó há quatro anos. Padre cantor, performa sempre que tem uma oportunidade desde a festa em que foi empossado, em 2011. Costuma apresentar-se com a banda da paróquia. Canta e anima o público enquanto entoa músicas gospel em ritmo de rock-pop, sertanejo e clássicos românticos. No YouTube é possível conferir sua versão de “Quem me tocou?” na Praça da Matriz de Bodocó, alguns anos atrás, em dueto com uma cantora local. Sua dança com palmas ritmadas e passos rodados em “Jesus Cristo, eu estou aqui”, de Roberto e Erasmo Carlos, costuma levantar plateias. Com uma agenda tumultuada entre missas, shows, reuniões e exorcismos, é natural que ele viva de um lado para o outro na vasta área do município.

Padre Zé Barros (à dir.) lidera procissão ao lado de bispo. Foto: Fernando Naiberg.

Quando chegou a Bodocó, o padre encontrou um Volkswagen Gol 1.0 como carro oficial por lá. Logo percebeu que o veículo não era o mais adequado para as atribuições constantes em povoados distantes, acessíveis apenas por complicadas e poeirentas estradas de terra. Começou então a promover shows e eventos como bingos e rifas para arrecadar dinheiro e assim conseguir comprar um carro novo para a paróquia. A melhor relação custo benefício foi logo anunciada por Zé Barros. Uma picape Fiat Strada, de até R$ 65 mil, atenderia as necessidades da Igreja Católica naquela jurisdição. Finda a campanha, que contou com extensa agenda de shows do padre por toda a região do Araripe, o negócio deu tão certo que Zé Barros resolveu trocar logo o Gol por uma caminhonete Nissan Frontier, na faixa dos R$ 130 mil na versão zero quilômetro. O carro novo provocou controvérsia em Bodocó e dividiu os católicos. Afinal, precisaria o padre de carro tão suntuoso, mais associado aos fazendeiros da região do que a uma das paróquias mais pobres da Diocese? É o que reclamam alguns. Agora o padre sempre chega na hora das missas e shows sem os atrasos antes constantes, e o carro é patrimônio da Igreja, não do padre. Quando ele for, a Frontier fica. É o que defendem outros.

Essa não é a única polêmica que envolve o nome do padre Zé Barros em Bodocó. Quando chegou, percebeu que mesmo com a maioria da população declaradamente católica — eram 31,5 mil pessoas em 2010, segundo o IBGE — , nas missas diárias na Igreja da Matriz quem comparecia era aquele mesmo grupo de meia dúzia de beatas, entre elas aquela anciã que agora puxa a reza no carro de som à frente da procissão. Ele começou então a “cortar a farra” e chamar a atenção da comunidade para suas responsabilidades eclesiásticas, num verdadeiro choque de gestão dos negócios de Cristo por ali. Com sermões duros que sempre alertavam a juventude contra as tentações do WhatsApp, da moto e da cachaça e admoestações pessoais nas ruas, as missas encheram mais ao longo dos últimos anos.

Zé Barros conta com o apoio incondicional do bispo Dom Magnus na cruzada evangelizadora, que caminha ao seu lado na procissão de São José todos os anos e que também tem fama de durão. Ele é acusado de ter ordenado a proibição da prefeitura da cidade de organizar a “festa profana”, que historicamente acompanhava a semana de festejos do santo padroeiro, já fazem seis anos. Com shows populares de música sertaneja regados a álcool, a festa interferia na novena e procissão de São José. Na visão do clero, dividia o público e trazia uma tentação desnecessária para quem deveria passar as madrugadas rezando na igreja. Hoje a festa acontece uma ou duas semanas depois das homenagens ao santo. A Diocese diz que a interferência do divino nas farras dos homens começou na gestão anterior. No boca a boca das praças, ninguém tem dúvida de quem proibiu os eventos em conchavos velados com políticos. Na verdade, corre a história de que bispo e padre estão indo além e ameaçando proibir a romaria do Pau da Bandeira de Bodocó em 2017 — tradição que abre os dez dias de novena de São José, existe há quase um século e mobiliza gente em todo o Sertão do Araripe.


Mito.

Faz 93 anos e quatro gerações que o machado da família Puluca assovia e trova no bojo da Macaíba — e também da Cajaíba, Aroeira ou qualquer outra árvore forte e comprida. Todo ano, a Caatinga ecoa o tombo de um gigante da mata em nome da devoção de uma família que não sabe o que é viver sem fé, a ponto de ter criado a própria mitologia, capaz de contagiar povos por todo o Sertão. É que, de acordo com a tradição cultivada pela descendência de seu Zé Puluca, o Pau da Bandeira tem sempre que ser um pau verde do mato virgem, de pelo menos 60 palmos de comprimento com lenho duro mas flexível, para envergar sem quebrar na hora que for içado. Todos os anos, o mastro é fincado na frente da Igreja da Matriz em Bodocó depois da romaria de cerca de quatro quilômetros e duas horas que parte do sítio Carambola, de propriedade dos Puluca. Ao cortejo juntam-se cavaleiros em trajes típicos, bandas de pífanos e berrantes, peregrinos, fogueteiros, motoqueiros, carreatas, povo do campo e da cidade, políticos, religiosos e toda a sorte de gente.

Paisagens da zona rural de Bodocó, um dos lugares mais secos de todo o Brasil. Foto: Fernando Naiberg.

A edição deste ano foi pequena, teve apenas umas duas mil pessoas segundo a organização, mais alguns milhares de participantes ao longo do caminho e na praça. Em bons anos passa de dez mil o número de romeiros. Os Puluca começaram com a tradição do Pau da Bandeira em 1923, quando o saudoso Zé Puluca levou nos ombros pela primeira vez, ajudado por outros cinco parentes, o mastro pintado de branco com algumas centenas de quilos até a cidade e o içou na frente da então capela de São José, onde hoje é a Praça da Matriz. No alto, uma bandeira do santo padroeiro foi hasteada. Diz a história bodocense que naquela noite começou a chover e encerrou-se uma seca severa e doída que assolava a região. Foi o início da lenda.

Atormentado por visões, seu Zé Puluca decidiu naquele ano levar a cabo a missão autoimposta pelo irmão mais novo, morto de morte morrida pouco antes. O caçula de seu Puluca havia enfiado na cabeça, após revelação de Nossa Senhora Aparecida durante um sonho, que tinha de ir na mata do Sítio Carambola cortar uma árvore e erguer um mastro de 60 palmos em homenagem a São José em frente à então capela da vila. Assim, o padroeiro local protegeria os filhos daquela terra queimada de desgraças maiores do que as que poderiam suportar, havia prometido a visão. Seu Zé não deixou. Não queria que tombassem as árvores boas do sítio por causa de um delírio do sono. O irmão foi mesmo assim e, no dia que limpava o mastro no terreiro com a ajuda de outro matuto, caiu duro com um infarto fulminante. Pouco depois começaram os pesadelos de seu Zé, que só pararam quando ele pegou o Pau da Bandeira, àquela altura esquecido no terreiro em frente de casa, e cumpriu a promessa do irmão.

A história do cortejo mistura-se com a de Bodocó e a da própria Igreja da Matriz. Afinal, as origens do município remontam à primeira década do século XX. Ao longo das décadas, os Puluca — Siqueira Amorim de batismo, renomados marceneiros da região — ajudaram a ampliar a pequena Capela de São José até se tornar a Igreja da Matriz de hoje com o próprio trabalho. Mais que isso, transformaram a romaria do Pau da Bandeira em oportunidade de pedir contribuições para a reforma da igreja. Reafirmaram a fé católica com um evento respeitado em toda a cristandade sertaneja. Conforme a devoção dos Puluca pegava fama e se espalhava que nem poeira pelo Sertão, sobejou também a paróquia com os forasteiros atraídos pelo fenômeno de fé. Com o tempo, passou a ser considerado bom agouro encostar no mastro e, se possível, ajudar a carregá-lo. Ninguém crava a origem da crença, mas o Pau também tem fama de trazer bons casamentos para quem pega nele na procissão.

Cazuza Puluca é hoje, aos 83 anos, o patriarca da família e guardião da romaria do Pau da Bandeira. O filho de Zé Puluca ainda faz questão de entrar na Caatinga junto com sobrinhos, filhos e netos todo começo de março para escolher e cortar a árvore que, depois de ceifada, descansa uns dias no terreiro do Sítio Carambola, no mesmo ponto onde tombou o tio iluminado.

De uma ou duas décadas para cá os Puluca têm enfrentado dificuldades na hora de achar o pau certo. Os do Sítio Carambola há muito acabaram. A fé teve de encontrar a burocracia e as regras do ambientalismo. Contam que em alguns anos conseguiram autorização do Ibama para retirar a madeira da Floresta Nacional do Araripe, reserva ecológica federal que começa no pé da Chapada do Araripe, ali perto. Em anos recentes, o Pau teria sido oferecido por fazendeiros e camponeses da região que possuem árvores à altura da responsabilidade.

Cazuza, o ancião caboclo pequenino, magrelo, de pele curtida e arisco, veste camisa social vermelha de mangas curtas impecavelmente passada quando recebe visitantes no Museu Dona Luiza Lopes de Siqueira Amorim, que inaugurou no terreiro do Sítio Carambola em 1995 em homenagem ao pai e à mãe. Com movimentos ligeiros e fala mais ainda, exige atenção quando conta uma história e fica ofendido quando alguém não lhe demonstra o devido respeito. De papo reto e olhar duro, seu Zuza é tudo que se espera de um ancião sertanejo cabra macho. O filho mais novo, de 26 anos, é o mais devoto dentre os vários de Puluca, e naturalmente vai assumindo as funções do pai, que ao seu lado mais parece o avô. Além dos Puluca, o cortejo do Pau da Bandeira envolve várias famílias de Bodocó. Como a de dona Rita Bezerra Alves, que desde 1938 costura e fornece a bandeira de São José que é colocada no mastro em sua primeira parada na área urbana.


É por tudo isso que causa espanto entre a população de Bodocó a suposta vontade do bispo Dom Magnus de proibir o cortejo do Pau. Uma traição, daquelas que enche de revolta o coração do bodocense. Os problemas na romaria começaram faz alguns anos, é verdade. Muita gente embriagada conduzindo veículos pela rodovia, menores de idade em motos e a cavalo, entre outras bagunças mal vistas pelo clero — e quiçá por Nossa Senhora Aparecida que ordenara o início de tudo aquilo. Pior que isso para os Puluca, grupos políticos rivais aproveitaram a romaria em ano de eleição e transformaram o evento em palanque. “Todo o povo sabe que no Pau da Bandeira não pode ter política, sempre foi assim”, diz Cazuza. “Todo mundo é bem-vindo desde que não fale de política”.

Um grupo ligado ao ex-prefeito Brivaldo Alves, do DEM, convocou para a procissão deste ano uma “passeata pela paz”, pedindo às pessoas que fossem de branco — a cor histórica da família e grupo político do ex-prefeito, que tenta voltar ao comando da cidade neste ano. Atento ao movimento nas mídias sociais, o prefeito Danilo Alves, do PSB, não deixou por menos e apareceu com uma legião de amarelo — cor de sua facção política. Em meio ao clima de franca provocação, o Pau da Bandeira em si passou como coadjuvante. Para quem não é ligado a um grupo nem outro, o que os adversários fizeram foi subestimar a inteligência dos eleitores — opinião corroborada pela ampla repercussão negativa do assunto no Facebook e Twitter. Apesar de tudo, não é nada que não seja possível corrigir e disciplinar na visão da família organizadora.

“Ele não pode proibir o Pau”, diz um jovem Puluca. “Não tem como proibir a devoção do povo, é uma coisa muito forte. Fazemos isso por amor e fé ao nosso santo, respeito e tradição à nossa família e igreja”. BRIO não encontrou uma só pessoa dentre literalmente dezenas de questionados que não tivesse ouvido falar da ideia de proibição ou que a aprovasse. Ou que acredite que vá vingar.

Dom Magnus devia saber que o povo no interior do Pernambuco, quando enfia uma profissão de fé na cabeça ninguém tira, acredita Lúcia, por exemplo. Pela maioria das cidades nos caminhos entre Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro no Norte, no Ceará, é comum ver estátuas que homenageiam Padre Cícero, o santo informal do Sertão que quase foi excomungado pela Igreja Católica (em 2015, foi oficialmente perdoado). Em Juazeiro do Norte, uma estátua com 27 metros de altura recebe as centenas de milhares de romeiros que vão ao local pagar ou fazer promessas. Todas as ameaças feitas pela Igreja ao messianismo do padre, mesmo em vida, só fizeram aumentar sua fama. A Pedra do Reino, assim batizada depois que Ariano Suassuna escreveu o “Romance d`A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta”, é uma história real de sebastianismo. O episódio terminou em banho de sangue e é comemorado com uma cavalgada todos os anos. Questionada se intenciona proibir o Pau da Bandeira ou sugerir isso às autoridades de alguma forma e sobre a Frontier nova da paróquia em Bodocó, por telefone e e-mail, a Diocese de Salgueiro não respondeu.


Fezinha.

Depois do bingo promovido pela paróquia no qual foi sorteada uma moto 50 cilindradas com a cartela a R$ 5 — e bem mais cheio que a missa e a procissão que o antecederam — a noite é caída, venta fresco finalmente e o povo começa a dispersar da Praça da Matriz. Apesar da ausência de festas públicas naquela noite, muitos continuam recebendo os amigos e familiares em convescotes particulares. O forró ecoa por toda a cidade. Na praça, lavradores desgarrados ainda comem e bebem nos diversos arremedos de food truck espalhados em volta. A praça é grande e a cidade, espalhada. Por toda a parte vendedores ambulantes com bancas e araras oferecem brinquedos de plástico coloridos e fluorescentes de toda a sorte, além de doces, capas de celular, algodão doce rosa e azul, balas, roupas, milho verde. Uma das coisas que chamam a atenção em Bodocó é que todas as árvores da cidade, cujo porte permite, tem suas copas podadas quadrado, no formato de um cubo. O arranjo, de acerto estético questionável, apequena a área de sombra já escassa que poderia esparramar-se sobre as ruas. No ponto mais alto da cidade, a 443 metros de altitude em relação ao nível do distante mar, está a Praça e Igreja da Matriz, com um campanário de 50 metros de altura. A igreja é a única edificação visível de todo o município, já que não há nenhuma outra com mais de três andares para atrapalhar a visão.

Homens reunidos para rodada de bingo em Bodocó. Foto: Fernando Naiberg.

O menino mais velho de Lúcia, Ronoaldo, está com uma camiseta branca puída alvejada de um uniforme escolar de anos passados, bermuda jeans, tênis, cabelo cortado e no geral um jeitão de meninão bem cuidado, com cara de dois anos a mais que os seus 12. Após separar-se do pai e do irmão na Praça da Matriz durante o bingo, corre para o parque de diversões duas quadras distante. Com uma nota de R$ 2 e uma moeda de R$ 1 no bolso traseiro da bermuda, faz uma parada em uma das bancas de tiro com espingardas de chumbinho. Investe a moeda em dois disparos, 50 centavos cada. Com trejeito experiente, escolhe uma carabina de mira ajustável dentre as esparramadas pelo balcão de tábua corrida coberta com feltro vermelho, queimado de cigarro por toda extensão. Apoia os cotovelos, faz a visada e dispara.

A distância de pouco mais de dois metros em relação à prateleira de alvos parece insignificante para um espectador inexperiente nas artes do chumbinho. Algumas tentativas revelam, porém, quanto o Efeito Coriolis de rotação da Terra, gravidade, vento, pausa da respiração, tremedeira das mãos e a maldição do rifle de cano empenado, dentre tantos fatores que atormentam atiradores experientes, dificultam a missão de derrubar os doces no pano vermelho atrás da prateleira. No primeiro estalo, Ronoaldo derruba uma pastilha de hortelã genérica daquela Garoto verdinha. Meio machucada pelo impacto do disparo, cai no fundo do pano e ainda dá para o gasto. Enquanto recarrega o rifle com o segundo tiro e masca uma pastilha do pacote que acaba de receber do senhor de bigodes brancos dono da banca, o jovem avista um grupo de meninas e meninos de sua classe na escola pública lá do Alecrim. Com pose de vaqueiro e pés trançados, derruba uma cartela com quatro chicletes.

Satisfeito, larga a espingarda no balcão e sai serpenteando entre as pessoas atrás da turma da escola para oferecer doces às meninas e gastar a nota que ainda tem no bolso em algum brinquedo, provavelmente o Barco Viking ou o Twister, ainda não decidiu.


Lúcia, naquele momento, está com os cotovelos apoiados junto com vários apostadores na banquinha do Caipira, ou Pano de Jogo, como também é conhecido. No Sertão nordestino os jogos de azar são coisa comum por todo canto onde tem gente aglomerada. Acontece em praça ou parque público, abertamente. É tradição mambembe que ninguém mexe. Fora o Caipira, no parque de diversões em Bodocó ainda tem a barraca do bingo, com cartela fixa no balcão a R$ 1 e que paga R$ 20. É declarado o vencedor quando alguém fecha um quadrado, linha ou transversal na cartela de números cantados. Em algumas rodadas especiais, o prêmio ainda pode incluir uma garrafa de caninha 93, aguardente Kariri, Senador ou algo que o valha — nas mais especiais ainda o prêmio inclui um uísque Red Label ou White Horse.

O jogo que toma a atenção de Lúcia é uma espécie de bozó de dados com roupagem futebolística. O interessado pode apostar em um ou até três dados a cada rodada, a partir de R$ 1. No dado branco, o dos times — São Paulo, Flamengo, Palmeiras, Corinthians, Vasco e Fluminense — , a banca paga o dobro do apostado. No vermelho, também faceado com o brazão dos clubes, as apostas são a partir de R$ 2, mas o vencedor recebe o quádruplo do investido. Por fim, há o dado numérico puro e simples, que também paga um para um na aposta certa. Lúcia, depois de gritar ao menino mais velho para não gastar todo dinheiro de uma vez e não sumir, reinveste os R$ 2 que acaba de ganhar, de novo no Flamengo branco.

“Tá jogando, Lúcia?”, questiona às suas costas, em tom de reprovação, uma vizinha e companheira de missa lá do Alecrim. Sem graça, sinhá sorri enquanto ajeita o rabo de cavalo. É um presságio de má sorte e, desta vez, depois que o crupiê chacoalha o balde pequeno com os dados dentro e os espalha pela mesa coberta com as escuderias de futebol, dá o Corinthians branco. Ela se afasta e vai juntar a família espalhada pelo parque.

Os mandacarus espinhosos e altos como árvores florescem roxo e vermelho tinto por todo o caminho nos acostamentos entre Exu e Bodocó, distantes 70 quilômetros uma da outra. As festas seguem noite adentro nas inúmeras cidades da Caatinga devotas de São José. Roncos surdos ecoam boas novas distantes por caminhos tortuosos na vegetação hiperxerófila.

Naquela noite, Lúcia rezou e Lúcia jogou. Pediu bênçãos de toda a sorte.

Naquela noite, choveu em Bodocó.


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Ao todo, serão publicados cinco capítulos. Se quiser ser informado sobre as publicações das próximas partes ou sobre nossas futuras histórias, envie um e-mail para info@brio.media com o assunto “Quero BRIO”.


Aiuri Rebello é repórter. Formado em Jornalismo pela PUC-SP em 2003, trabalhou como repórter especial do portal UOL na sucursal de Brasília e em São Paulo, foi repórter e redator do site da revista Veja e dos jornais Folha de S. Paulo, Agora SP e Diário de S. Paulo. Publicou trabalhos nas revistas Trip e Forbes e nos jornais O Globo e Extra. Cobriu a Copa do Mundo de 2014 e tem experiência na cobertura política e da administração pública, judiciário, cidades, polícia, internacional e esportiva.