Esta reportagem foi produzida pelo jornalista Guilherme Lazaro Mendes, inclusive as fotos que a acompanham, como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, em São Paulo. A história foi a grande vencedora de um concurso realizado no início deste ano pelo BRIO e que tinha como objetivo valorizar a produção de grandes reportagens por jovens talentos do jornalismo em todo o Brasil. Ela concorreu com centenas de outros trabalhos. A versão publicada é idêntica à original.


Parte 1. A Cidade.

A cidade de São Luís ergue-se, durante a madrugada, como uma mancha colorida sobre as terras arenosas do Nordeste: no extremo sul da ilha as lâmpadas incandescentes amareladas dos postes formam umas linhas aqui e ali, cada vez mais frequentes, mais ou menos como um grande pisca-pisca onde os bairros ficam pendurados às avenidas, cercadas pelo breu da mata pré-amazônica; lá no fundo o amarelão se intensifica, vai ficando condensado e mais vibrante devido ao estreitamento de suas ruelas centenárias do Centro Histórico.

O amarelado aqui tem o mesmo tom da borda da National Geographic, mas não é tão intenso. Então há uma escuridão por causa do rio Anil, ofuscada apenas por duas finas linhas — duas pontes — e então a claridade amarelada retorna, dessa vez mais forte, forte como o amarelo dos tubos de mostarda, na cidade nova, em uma mancha um tanto quanto ovalada (a laguna que em seu nome homenageia Ana Jansen, uma das primeiras oligarcas do Estado) que vai acabar lá em cima, bem longe, quase que como do nada, quando os postes encontram com as sempre mornas águas do atlântico equatorial. Aí então tudo passa a ser o roxo enevoado das águas que, na curvatura da Terra, vão se fundir com o azul do céu escuro e suas constelações, que são incrivelmente fáceis de serem vistas por aqui.

Os passageiros do Airbus da TAM, que tem o pouso autorizado no Aeroporto Internacional Cunha Machado (uma placa o indica como “o menor Aeroporto Internacional do país”), têm essa visão do lado esquerdo da cabine. Já passa das duas da manhã e eles estão, em sua maioria, acordados — o comandante já os lembrou do tempo abafado e quente na capital, primeiro em português e depois naquele suposto inglês no qual as empresas membros da OneWorld são obrigados a dizer — um léxico que nem os ingleses entendem; a luz geral da cabine está apagada, um breu interrompido por luzes de celulares que deveriam estar desligados, e pela fileira de luzes do cinto, acesas ao mesmo tempo daquele blip único e irritante. A última comissária já passou rumo à galley no fundo da cabine.

Agora a fusão de amarelos fica mais e mais horizontal, até um momento onde os postes são visíveis separadamente, quase que na altura dos olhos, e um caminhão pode ser compreendido em mais detalhes no meio da janela. As luzinhas da pista de pouso já são uma realidade e a luz do terminal ilumina um avião da Gol e um da American Airlines parados próximos a um hangar.

Em segundos, todos vão pousar naquele aeroporto estilo base militar, com as pistas em X, na zona sul daquela cidade na qual uma mestre em turismo definiu como a “Atenas brasileira”; uma das três cidades mais violentas do país e uma das 15 mais inseguras do planeta, segundo dados da ONG mexicana Seguridad, Justicia y Paz; lar de jornais que não colocam borrão nas imagens dos mortos da capa; terra do último oligarca do país; e também de um povo que sentiu todas as suas esperanças serem erodidas por um saudosismo meio estranho, fruto dos dez anos mais conturbados dos 402 da cidade.

E vão pousar na cidade do Presídio de Pedrinhas. Mas isso pouca gente para pra pensar. No fim das contas, é até melhor.


De pé, Roniele não chega a 1,60m de altura. Ela aparenta muito mais que seus 25 anos, o cabelo crespo com formas irregulares, brincos simples nas orelhas e seios bastante erguidos, formando um volume na camiseta laranja. Dali mesmo, na beirada da cama, ela vê sua mãe, Emanuela, 47, andar a passos lentos. É uma cena, obviamente, de encontro — que passa longe de conter alguma emoção, como se fosse algo corriqueiro, mesmo naquele ambiente.

Ali naquele lugar amanheceu o dia como todo dia de verão em São Luís: nessa região mais ao norte do país, quase encontrando-se com a linha do Equador, o sol é impiedoso, pesado, onipresente. E o calor não leva o mesmo conceito de calor que se tem em regiões mais amenas: enquanto no Rio de Janeiro o calor é algo seco, penetrante na pele, o calor de São Luís é ao mesmo acolhedor e irritante. Ele te abraça, por todos os poros, sem ser desagradável jamais. Aqui neste quarto para bebês, no entanto, o calor faz as paredes suarem. Elas parecem mais inchadas por causa da unidade — talvez seja ou talvez não seja esse o problema. Mas mesmo naquele cômodo exíguo, formado por camas, uns guarda-roupas e dois berços, o calor é uma entidade abraçando a tudo e a todos. Inclusive Emanuela.

Quando ela chega perto da cama, Roniele a ajuda a se sentar. Não é dia de visita e ambas vestem o mesmo uniforme. As duas foram parar ali juntas, há quase dois meses. As duas dormem juntas. Então não é de se surpreender com ambas vestindo as camisetas laranjas com “Interno” nas costas e um short com o símbolo do Presídio de Pedrinhas.


A pele das ludovicenses é como nenhuma outra no país: sua beleza é diferente, mas em nenhum momento superior ao de outras partes do território. A face quase sempre é redonda, com as bochechas sempre bastante marcadas e protuberantes, sorrisos quase eternos que parecem rasgar as maçãs do rosto. Mas a pele é algo inexplicável.

Mesmo a metros de distância é fácil distinguir uma nativa de um turista. Independente de raça e cor, a sua textura parece como a de uma fruta. Pouquíssimas delas têm espinhas. Apelar ao clichê da pele de pêssego é talvez uma injustiça — dá pra pensar na estranha maciez dos figos como um comparativo com as sempre sedosas e relaxadas peles femininas maranhenses.

O homem parece lembrar muito mais as raízes do que seu gênero oposto: desde a juventude o calor parece cobrar na pele de cada um o seu preço um tanto quanto inclemente. Além dos contornos impiedosamente sulcados, as linhas de expressão são pesadíssimas, alguns bolsões sob os olhos em alguns casos, as pálpebras quase sempre parecendo ser forçadas, como se estivéssemos vendo uma legião de lenhadores em pleno esforço. Um bom ludovicense, mesmo às oito da manhã, parece ter sofrido por horas de trabalho nas mais forçosas atividades, dada a crueza de suas formas faciais. Não chegam a dar medo, mas independentemente da idade, é um espetáculo interessante de se notar.

***

Enquanto escrevo, no primeiro semestre de 2015, a cidade de São Luís respira os seus tempos mais calmos desde novembro de 2014, quando a Grande São Luis registrou 129 mortes violentas no seu perímetro, um novo recorde, e a última série de rebeliões no Complexo de Pedrinhas assombrou seu milhão de habitantes — o que não significa que os anos mais violentos desde sua fundação pelos franceses, em 1602, tenham se acabado: eles apenas mudaram de foco. Nos primeiros 19 dias do ano de 2015 o Ministério Público já anotava 90 casos de homicídio, pouco mais de cinco por dia . Arma de fogo e facadas lideram as estatísticas. “Saímos da vigésima-segunda cidade mais segura do país, há coisa de cinco anos, para uma das quinze mais violentas do planeta”, tenta explicar Pedro Lino Silva Curvelo, promotor penal no Ministério Público do Maranhão.

Isso na São Luis conhecida por ser, me confidencia um jornalista na casa dos 40 anos, um típico recanto de veraneio, onde a noite oferecia aos nativos e turistas as mais variadas formas de esbórnia e diversão. Andar pelo centro histórico da cidade era uma das experiências favoritas não só do jornalista, mas como de muitos outros cidadãos comuns que se pode encontrar nas escadarias da Igreja Matriz, nos terminais de ônibus, nos táxis. O motorista que nos acompanha meneia com a cabeça: aqueles eram bons tempos.

Aqueles bons tempos de dez anos atrás. Desde então, o Centro Histórico continua lá, com um clima que mescla a melancolia de Havana com as ruas de pedra de Paraty — mas não é preciso esperar até as onze da noite para presenciar um assalto em frente a uma pizzaria. Alguns casarões abandonados, com seus vários andares, viraram suntuosas mansões onde viciados em drogas se escondem.

Em um deles, vizinho ao Convento das Mercês , é possível ver, a uma e meia da tarde, um casal de viciados sair pelos escombros de um antigo galpão- ela, aparentando uma daquelas barrigas extremamente circulares e extracorpóreas que só as mulheres grávidas de alguns meses sabem ter. E na Igreja Matriz — na praça Dom Pedro que concentra, ao mesmo tempo, o Tribunal de Justiça, a Capitania dos Portos, o Palácio dos Leões (sede do governo estadual) e o Palácio de la Ravardière (governo municipal) — é possível ver moradores de rua e pobres e em andrajos, sempre com baldes cheios d’água na mão. Essa cena é muito comum pela cidade. Com esses mesmos baldes os homens de rua lavarão os carros ali estacionados, em busca de um trocado. Neste momento, hora de almoço, estão parados de ré na frente da Igreja dois utilitários e uma BMW azul marinho, provavelmente de algum juiz, desembargador ou promotor. O rapaz que cuida dela está fazendo um ótimo trabalho.

Caxias e seus homens trabalham no centro de São Luís. Foto: Guilherme Lázaro Mendes.

Em outro casarão, na esquina da rua da Palma com a João Vital, trabalham três serventes na limpeza do entulho. Ao que tudo indica, ali existia uma farmácia, deixada pra trás de maneira provavelmente tão repentina que frascos verde-escuros ainda estão empilhados em algumas prateleiras. O líder da limpeza, de nome Caxias, não soube explicar quantos anos o casarão tem, nem há quantos ele estava abandonado, mas alguns casarões da mesma quadra têm 150 anos e estão em condições de uso.

Esse aqui não segue a regra. O chão de madeira, bastante podre, range e vai cair a qualquer momento. Janelas estão com os vidros quebrados, lá no alto do terceiro andar — mesmo que não haja maneira de subir até lá. O responsável pela obra conta que a reforma aqui é difícil, desde que a cidade foi tombada pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade. Para colocar o prédio de pé, há sempre a mão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ao qual as críticas sobre a burocracia bem ao estilo russo, do tipo faça a sua parte que eu cuido da minha, foram ouvidas mais de uma vez.

Esse casarão teve a mesma utilidade do seu par próximo ao Convento: era uma morada para viciados antes da reforma e, em uma parede, ficou um relato em datas anotadas a lápis que remetem sempre ao dia 24, durante vários meses do ano de 1991, como se alguém estivesse vivendo ali — o que faz aquele provavelmente o pioneiro dos centros de droga na capital, mesmo que sua entrada efetiva (a entrada do crack) tenha ocorrido quase dez anos depois . Mas hoje eles foram realocados, sejam para outros casarões, pra rua, ou então tiveram a chance de engrossarem as estatísticas de homicídios do Estado.

Seja lá pra onde foram, aqui agora não estão mais. Os rapazes já vão retirando o último carrinho de entulho, ouvindo uma FM Gospel e trabalhando animados. Quando pergunto ao Caxias por que a cidade é tão violenta, todo o tempo que ele passa pensando é sobreposto por um ah. “Ahhhhhhhhhhhhhhh, é Pedrinhas, certeza”. Quando explico que vou entrar no presídio, ele não se consola: “Ahhhhhhhhhh mas rapaz, por mim pode matar tudim ali. Só tem alma sebosa lá.”


Até mais ou menos o começo de dezembro do ano passado, Roniele e sua mãe não eram almas sebosas. Talvez elas pensassem o mesmo do servente, ou também morressem de medo de se meterem com o crime, como tanta gente de bem em qualquer canto procura uma vida simples, casta e sem vícios, ganhando dignamente o seu sustento.

A mãe de Roniele, a Emanuela, sentada ali na cama, pés quase balançando no ar de tão pequena que é, está encarando fixamente a filha. A tristeza existente no rosto de Emanuela é natural, não forçosa, puramente real. O quadril é largo, as mãos grossas, a perna aparentando uma força descomunal que parece vir de qualquer lugar, menos dali. Apesar de bem mais clara que a filha, que é negra, Emanuela tem um corpo bem mais estruturado que Roniele, um corpo cansado como o de muita gente de bem, gente de bem como eu e você, que lê as páginas nesta tela agora mesmo.

Mas, ao contrário de eu e você, além da prisão, conta para Emanuela o fato de ser cega graças à diabetes. Quando o assunto ecoa, Roniele apenas assente, com uma depressão intrínseca, acoplada. Lembra da irmã que ficou cuidando em casa, no interior do estado, de todos os rebentos que ficaram e, em algum momento, se lembra dos dois mil reais que faltavam — e que as trouxeram aqui.


Se levarmos o conselho da turismóloga a sério, podemos considerar o centro histórico de São Luís como a “Atenas Brasileira”. A cidade conta com dispositivos culturais variados, que vão desde as chamadas radiolas de reggae a um festival de cinema para a produção local (o festival conhecido como “Maranhão na Tela”, em sua edição de 2015, apresentou gratuitamente 370 filmes), passando ainda por bandas de rock que compõem suas próprias músicas e os tradicionais poetas, que podem ser desde o tipo janota-irritante como o paulista Paulo Bomfim ao escrachado-mesa-de-bar como um Xico Sá.

O bairro central da capital, chamado também de Reviver, ainda conserva algumas de suas ruas mais antigas, datadas de sua fundação no século XVI. Travessas asfaltadas, tendo o seu calçamento feito com pedras quadradas enterradas na areia. As ruas da Palma, do Giz e da Estrela, paralelas umas às outras, em momentos-limite conseguem manter dois carros paralelos em simultâneo. As perpendiculares, em direção nordeste-sudoeste, em sua maioria sofreram o mesmo processo, mas ruas como a Jacinto Maia e a travessa da Lapa se mantêm como estreitíssimas vielas, onde um Celta praticamente joga o pedestre para dentro das casinhas ao redor, tal como foi projetada lá nos tempos da fundação da cidade.

Todas essas ruas exalam uma beleza estranha, a mesma beleza que parece existir em uma morte shakespeariana. Um bom número dos 4000 prédios do Reviver são centenários, alguns reformados sob a tutela do Iphan, e ainda mantêm sua arquitetura original: prédios predominantemente civis, térreos ou com no máximo um andar, pés-direitos que podem passar facilmente dos 4 metros. O tradicionalismo que une São Luís a lugares como a cidade de Paraty também parece uni-la com Havana, a capital cubana, dada a melancolia bastante leve que circunda suas ruas. Um domingo abafado de janeiro, por exemplo, onde vivalma se encontra vagando pelas ruas, é cenário perfeito para uma caminhada onde o indivíduo vai cruzar com varais de arame tomando a paisagem; sacadas minúsculas, com menos de meio metro de avanço contra os calçamentos de pedra; senhoras mulatas sentadas nas calçadas discutindo algum assunto extremamente importante e eterno, pois ali elas parecem que ficarão, ensimesmadas, até o final dos tempos. A cada cem ou duzentos metros você pode até encontrar um Celta vermelho ou um Palio prata parado, fazendo tanto barulho quanto o bairro ao redor, mas a sensação que se tem mesmo é de que, ao virar a próxima direita, você na verdade estará no coração da capital cubana, e um Bel Air 1958 creme de rodas e retrovisores cromados e teto rígido irá buzinar, pedindo que você tenha mais prudência, como pedestre, em sua próxima conversão.

Durante as manhãs, nem os ônibus se atrevem a fazer barulho, nem os catamarãs se atrevem a aparecer. São Luís, apesar de ser uma ilha, está inserida quase que por todos os lados dentro da Baía de São Marcos, um braço do Atlântico Equatorial. O que a teoria cartográfica entedia a prática vai revelar como um dos espetáculos mais sensacionais e inacreditáveis ao olho nu: o recuo das águas dos rios Anil e Bacanga, que cercam São Luís, vai até onde os olhos não veem.

Em meu primeiro chute, quando vi o solo do rio Bacanga como um areal sujo e escuro, sob um céu nublado e pré-chuva, calculei o recuo em uns quatro ou cinco quilômetros ou mais, até onde deu pra enxergar. Poucas horas depois, ao estar apenas de passagem pelo mesmo local — e, no mesmo local do banco de areia de outrora, um catamarã branco balança, primeiro proa-popa, depois bombordo-estibordo. O porquê da natureza aprontar uma dessas no exato momento em que eu saio sem a câmera eu jamais voltaria a saber, mas a tábua de marés na cidade, que varia em até 7 metros em poucas horas, é capaz de jogar as águas contra as paredes de pedra da avenida beira-rio com um quê de violência — e com a beleza inerente às cenas mais agressivas vistas na natureza.

Essa cena é vista facilmente do Terminal de Integração da Praia Grande, construído à beira do Bacanga. Como qualquer terminal de ônibus das grandes cidades brasileiras, o Praia Grande segue uma arquitetura um quanto cafona que, independente do fato de estar localizado no Maranhão, dá a entender que muito dinheiro foi desviado para aquela obra ao mesmo tempo funcional e antiestética. As plataformas são ligadas por faixas de pedestres gastas nos pontos onde os pneus dos ônibus infinitamente passaram e passarão; as linhas, distribuídas em alguma ordem muito particular, são pontos com bancos para quatro pessoas; aqui e ali estão senhoras vendendo algum quitute, de pipoca a calda de ovos. Encará-las (i.e. as vendedoras vendendo seus quitutes sem anunciar) é a mais profunda epifania que um ser pode ter sobre a própria finitude e sobre como, em algum ponto da sua existência, a idade começa a castigar a sua pele com extrema força.

E lá no fundo, fora do telhado que cobre o terminal, longe da fila de pessoas que aguardam suas linhas sentadas na calçadas, do lado oposto à entrada do terminal, onde duas atendentes liberam as catracas mediante o pagamento dos atuais R$2,40 (uma delas não se dava ao luxo de olhar nos olhos dos clientes, liberando a catraca com um cartão magnético ligado em uma longa régua e preso por elásticos de borracha; a outra atendia o bom dia de brasileiros e estrangeiros, e tinha o livro “50 Tons de Cinza” sobre a mesa), enfim, longe de tudo mas ainda dentro da dependência do terminal, após a área de manobra dos ônibus, há uma plataforma de trem, com aproximadamente 1,20m de altura. O piso é feito com uma cerâmica cinza, resistente, e a faixa voltada para deficientes visuais, mesmo ao ar livre, ainda não perdeu seu amarelo natural.

Esta plataforma, entendem os ludovicenses, constitui uma das maiores lendas de gastos públicos da cidade. Naqueles trilhos ali embaixo, presos nos dormentes de concreto, deveria correr o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), um projeto que iria unir a cidade sob a égide de um dos mais inovadores e eficientes veículos do planeta. O site da Transparência dos governos municipal, estadual e federal não exibe em seus resultados o quanto custou o projeto, mas repórteres de política no Estado publicaram, em 2014, que o VLT fazia parte do aporte de R$ 245 milhões destinados pelo Governo Federal para a mobilidade urbana em todo o estado. As duas locomotivas do VLT, compradas cada uma pelo preço de R$ 3,5 milhões de reais, foram usadas, inclusive, na viagem de teste, onde os 800 metros entre o terminal Praia Grande e o Mercado do Peixe foram percorridos. E desde então a coisa parou. De garrafas pet a guardanapos, o lixo começou a se acumular em pequenos volumes entre os dormentes dos trilhos. As duas locomotivas, segundo o site de notícias G1, foram para a garagem de uma empresa de ônibus lá no bairro do Tirirical e estão paradas, sem condições de uso. E o beiral da plataforma, hoje, é utilizado quase que sempre por casais que querem esperar o horário de pico passar e se deixam ficar ali, mãos dadas, os pés balançando no ar, vendo a tarde cair sobre o Bacanga e sua bipolar e eterna maré.

Fora o fato de não existirem VLT’s na cidade, nem metrôs, e raras serem as bicicletas em uma cidade litorânea como essa, curiosamente São Luís conta com um trem interestadual de qualidade. A cidade recebe a estação final da Estrada de Ferro Carajás, um projeto de trem de passageiros da mineradora Vale que existe mais por obrigação contratual — já que a ferrovia também é usada para escoar o minério da cidade de Carajás para o Porto de Itaqui, no extremo oeste da capital maranhense — do que como uma forma de lucro per se. Uma das três últimas linhas de trens de passageiros do Brasil (as outras estão no Paraná e entre Belo Horizonte e Vitória, esta operada pela Vale em esquema semelhante ao de São Luís), a E.F.C conecta a capital a Parauapebas, no interior do Pará, às segundas, quintas e sábados .

Mas na região metropolitana dominam mesmo carros e ônibus e, por ser uma das 16 cidades brasileiras com mais de um milhão de habitantes, a capital parece um exemplo de sucesso na gestão de seus fluxos: mesmo em horários de pico, o que existe é o trânsito intenso, com grande número de veículos mas sem pontos de parada, exceto em faróis. Os carros, em sua maioria, são novos, refletindo o bom momento que viveu a indústria automobilística nos últimos anos. Os motoristas parecem um tanto quanto relaxados ao andar de carro pela região metropolitana.

O que é uma experiência perversamente oposta a andar de ônibus pela mesma região – uma experiência capaz de alargar os limites do medo humano. A frota, em tamanho, não atende a população com dignidade mínima e não são raros os casos de superlotação como nas grandes metrópoles do Sudeste. A qualidade é questionável: entre os veículos em si, em porcentagem preocupante, estão os assustadores Caio Amélia, produzido no Brasil entre 1980 e 1988 e ainda em circulação, o que fere a lei sobre a idade máxima para os veículos de transporte coletivo. Estes carros se assemelham àqueles ainda usados no interior da Rússia, quadradões, barulhentos e rústicos; muitos carregam amassados em para-choques, fruto de batidas anteriores em datas desconhecidas — podem ter sido há muito ou há pouco tempo. O desconforto aumenta quando se listam bancos sem encosto que rangem, pichações das mais variadas origens e formas de grafia, janelas emperradas ou com manchas de ferrugem, catracas com parafusos soltos que tremem mesmo nas ruas mais lisas.

O calor dentro do veículo faz com que os motoristas, sentados ao lado do motor, dobrem as calças até parecerem bermudas.

Nos ônibus mais novos, com até dez anos de idade, os problemas são outros. Os modelos utilizados — Mascarello Gran Via; Caio Apache Vip I e II; Caio Apache S22; Ciferal Citmax e Busscar Urbanuss, além de dois ônibus articulados, aqueles com sanfona no meio, comprados de segunda-mão e vindos de Belo Horizonte — ainda mantêm um grau de conforto presente na maioria dos ônibus das capitais brasileiras, mas então o externo passa a agir como uma força nem sempre dominante, mas totalmente presente. Em uma viagem de rotina entre os bairros de São Francisco e o centro da cidade, uma distância tão curta que é percorrida em sete minutos, não é raro a porta de desembarque se abrir e algum rapaz entrar, apenas para ficar parado na porta, imóvel. Um deles, caucasiano de cabelos curtos, entrou pela porta de trás, justamente no início da Avenida Castelo Branco, e ali ficou, olhos vidrados em alguma coisa que os passageiros, parte distraídos e parte extremamente assustados, não conseguiram descobrir o que era afinal de contas. O ônibus vai atravessando lentamente a ponte José Sarney, diminuindo gradativamente a velocidade, devido ao trânsito do final de tarde.

Ali no final há um semáforo. Ninguém se mexe. O ar está como sempre esteve em São Luís, quente e maciamente pesado. O rapaz continua de olhos fixados. Um homem sentado a duas cadeiras de distância faz alguns movimentos sutis com a mão e esconde o celular no bolso. O ônibus para no farol e a porta se abre para aquele cara, agora tão mudo como quando entrou, pular fora e seguir para uma direção não-visível, seguindo o branco da parede da avenida beira-rio.

São Luís é uma linda cidade — e a insegurança, a sombra de seu véu enfunado. Não dá pra saber quem segue quem.


Diferentemente de Bacabal: ela, dá pra notar pelas fotos, é uma daquelas cidades típicas do filme Central do Brasil (1998), que cresceram com a óbvia ação do tempo e de um governo que incentivou o consumo na região Nordeste. Como quase toda a cidade do interior do país, Bacabal parece um pedaço de carne no meio de um espetinho — espeto esse que é a BR-316, que corta a cidade de oeste a leste.

Distante 240 km de São Luís, a Princesa do Mearim, assim conhecida graças ao rio que corta a cidade, não chega a ser um símbolo, mas uma versão reduzida, incubada, do que aconteceu com o Maranhão nos últimos vinte anos. O Estado misturou a já galopante desigualdade, surgida antes (mas fomentada durante os 49 anos) da dinastia Sarney, com um crescimento do poder de raros comparativos. Em pouco tempo não apenas todos poderiam ter seu carro como os mais ricos teriam sua picape com ar-condicionado. Desde 2012, a cidade, de casas térreas, ganhou planos para cinco novos condomínios e um shopping, o Pátio Avenida, localizado na João Alberto, avenida na zona sul da cidade.

Mesmo com o aumento da renda nos últimos anos, a desigualdade jamais foi tratada como um assunto sério, não apenas em Bacabal (lugar onde se dá a Bacabeira, palmeira-símbolo do estado), como em todo o Maranhão. No dicionário de clichês era como a dizer que o elefante continua ali na sala, sendo ao mesmo tempo ignorado e alimentado. Em São Luís, por exemplo, quase não existem bairros pobres — o que ocorre é que as favelas, ali chamadas de invasões, nascem em qualquer terreno esquecido ou viela mais estreita, mesmo que seja no meio de bairros ricos como a Ponta d’Areia. A cidade de São Luís, que se verticalizou rapidamente, viu suas favelas crescerem no mesmo ritmo.

Bacabal parece não seguir um modelo de desigualdade diferente. Ali moravam Roniele e sua mãe, Emanuela, sua irmã e uma quantidade de crianças que ambas divergem — e o enredo que as trouxe até aqui, na Penitenciária Feminina de Pedrinhas, que ao mesmo tempo é banal e comum. E suscita das maiores dúvidas — antes fossem dúvidas sobre essas duas.


A desigualdade traz violência. A violência deturpa, destrói — e não falamos apenas de carros roubados ou famílias ceifadas: falamos de uma violência tão infiltrada na vida cotidiana de cada indivíduo que aquilo que antes era considerada uma benção em pouco tempo passou a uma maldição insustentável, horripilante, desanimadora. Morar em São Luís, para os ludovicenses, em menos de dez anos passou mais a ser um fardo — o mais pesado dos fardos.

Antes conhecida como “Ilha do beijo”, a capital virou a “Ilha do medo”, e mais certeira que a maré do Bacanga, são os seus dados: segundo dados da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) relativos ao ano de 2014, de cada 100 homicídios na ilha de São Luís, 82 ocorrem na capital, 11 na cidade de São José do Ribamar (a leste), 6 em Paço do Lumiar e 1 na cidade litorânea de Raposa (ambas a nordeste). 26 em cada 100 ocorrem no meio da rua; 96% dos acusados são homens — assim como 93% das vítimas; e uma em cada três mortes provém de execuções. Como boa cidade brasileira, todas as raças se encontram, e quase 70% dos habitantes da cidade são negros. O que não explica a razão de serem eles 88,9% das vítimas fatais. 31,6% dos ludovicenses são jovens, e são eles as vítimas de 61% dos homicídios. Destes, 90,9% são cometidos contra negros.

Não à toa alguns blogs especializados em política no estado contavam, durante a campanha eleitoral de 2014, com um pequeno chiste misturando fatos locais e internacionais:

VÍRUS MORTAL CHEGA AO MARANHÃO:

Autoridades da Secretaria de Saúde informam o crescimento desenfreado do Vírus EBALA. Ebala no Barreto, Ebala na Vila Palmeira, Ebala no Buraco da Onça, Ebala no Bairro de Fátima, Ebala no Coroadinho, Ebala na Ivar Saldanha, Ebala no João Paulo, Ebala na cidade Inteira!

Rodando pela cidade, um taxista me interpela sobre o perigo dos bairros periféricos — e meu avião tinha pousado há menos de 40 minutos; outro taxista alertou para o mesmo problema; um morador recordava como, em seus tempos de jovem, podia (e gostava) de dar caminhadas pelo centro histórico durante as madrugadas mais quentes, e como hoje evita ao máximo essa atividade.

De quase 40 entrevistados na cidade, apenas duas pessoas alegaram não sentir absolutamente nenhum medo de andar pela cidade. Uma era funcionária do Ministério Público, uma jovem um tanto quanto baixinha formada em direito. O outro, Murilo Andrade de Oliveira, assumiu poucos dias antes a Secretaria de Administração Penitenciária. “Eu estou dentro da minha rotina de vida. Agora, eu não sei o que a população acha, como eu tenho pouco tempo aqui”, explicou, ainda em seu primeiro mês. “Mas eu não tenho essa mesma sensação”.

Sensação essa que foi comprovada doze horas antes de Murilo dar esta entrevista, a poucos metros do seu escritório na avenida João Pessoa. Bastante à vontade na manhã de sexta de janeiro, Murilo, um homem em seus quarenta anos, de aspecto bonachão, talvez se sentisse parte de uma fatia da São Luís segura da situação, tranquila de andar pelas ruas da cidade. Mas na quinta à noite, uns 300 metros abaixo do seu escritório, o caldo fervia no estádio Governador João Castelo, o popular Castelão . Era a noite do chamado Superclássico, e ludovicense de respeito não ia perder a chance de ver o primeiro Sampaio Corrêa x Moto Club do ano.

O campeonato maranhense foi apresentado pelos torcedores aos turistas como O Último, ou seja, começa apenas quando todos os outros campeonatos estaduais já estão bastante avançados. Para aquecer os motores nessa pré-temporada em específico, a Federação Maranhense de Futebol (FMF) criou a Super Copa Maranhão 2015, um quadrangular com o Sampaio (Tubarão), o Moto (Papão), além do Vitória da Bahia e o Náutico do Recife. Ao campeão, cem mil reais de prêmio. Ao vice, oitenta. Aos dois outros, sessenta — parte vindo da renda e parte talvez vindo dos cofres da TV Esporte Interativo, que transmitiu os jogos.

E na calorenta noite sem nuvens de quinta, enquanto o Vitória ia empatando com o Náutico por 1 a 1, Guy estava sentado em um dos bancos do terminal da Praia Grande. Como muitos turistas que visitam a cidade, Guy passará pouco tempo aqui, o suficiente para, na manhã seguinte, estar sem percalços numa van rumo à cidade de Barreirinhas, o portal dos Lençóis Maranhenses. Como distração, resolveu me acompanhar ao jogo entre Sampaio e Moto.

Aos 25 anos, Guy era um ex-engenheiro da Airbus em um ano sabático conhecendo o mundo pela maneira mais roots possível (ele preferiu começar a conhecer o Brasil não pelo aeroporto de Cumbica mas pelo Amapá, cruzando o Oiapoque, vindo da Guiana Francesa). Esse mochileiro que achou o Amapá lindo e Belém barulhenta, ainda estava um pouco perdido com a terra de José Sarney. Então como apresentá-la melhor do que um jogo de futebol?

O ludopédio, ao menos no Brasil, congrega classes sociais, cores e, em uma medida muito reduzida, gêneros diferentes. Estão todos ali, na porta daquele estádio reformado recentemente e com capacidade para 40.000 pessoas sentadas, vestindo suas camisas ou amarelas, verdes e vermelhas (Sampaio) ou vermelhas e pretas (Moto). Ao contrário do resto do país, as duas torcidas se cruzam, cumprimentam, tiram sarro uma da outra, sem que a polícia se preocupe muito caso a violência descambe (até porque ela não descambou, em momento algum).

Guy, que assistiu apenas a um jogo na vida, no Stade Vélodrome do Olympique de Marselha, fica maravilhado com o interior da arena: aquela coisa redonda, um mar de cadeiras vazias (com sorte, cinco mil torcedores compareceram ao jogo) com vendedores vendendo saquinhos de pipoca, sucos em garrafinhas de 250 ml e laranjas descascadas — dez por dois reais. O ingresso, a R$ 40, permitia assistir aos dois jogos, mas quando Guy pode se sentar o Náutico já tinha vencido o Vitória por 2 a 1 e tinha saído de campo — quiçá do estádio — há algum tempo.

Então já passava das 21h quando Raimundo José Chagas Araújo apitou o início de jogo — segundo as contas da FMF este era o 594º entre os dois times, onde o Moto tinha vencido 198 e o Sampaio 177 (um clássico truncado, com 222 empates), onde o alvirrubro já havia chegado aos 719 tentos contra 696 do tricolor.

O Sampaio, do técnico Oliveira Canindé, tinha como destaque o lateral direito Gil Mineiro. Mas foi aos 5 minutos do primeiro tempo que o Moto, em uma cobrança de falta perto da entrada da área, abriu o placar: o meia Kleo, em chute com curva que enganou o goleiro Jean. Do outro lado do estádio, a torcida organizada do Moto Club comemorava com tambores ecoando no nada.

E eles ainda comemoravam quando, cinco minutos depois, Leomar, zagueiro vindo de empréstimo do Maranhão, deu uma cabeçada meio torta, a bola batendo em seu peito e em seguida nas mãos do goleiro do Moto, Felipe Sanchéz, voltando na perna dobeque e em seguida no canto esquerdo do goleiro. É o empate do tricolor, comemorado pela pequena torcida presente ao estádio — é fácil notar que o zagueiro quer sair para a torcida e comemorar, mas atrás do gol do Moto as arquibancadas estão completamente vazias, e a torcida do seu time está do outro lado. Ele apenas abraça um companheiro de equipe.

O Sampaio Corrêa é uma equipe muito melhor estruturada que o Moto — enquanto o Sampaio vai em 2015 disputar a segunda divisão do Campeonato Brasileiro pelo segundo ano seguido, o Moto aguarda sua vaga na série D, a quarta divisão do campeonato brasileiro, o porão do futebol pentacampeão. Para isso, tem de ser o finalista do vindouro campeonato maranhense. O torcedor motense sofre no passar do ano ao não ver seu time jogar — e aqui sofre ainda mais aos 29 do primeiro tempo, quando Edvânio manda aRaí, que cruza e encontra o iluminado Gil Mineiro, que divide a jogada e sobra com a bola limpa, de frente para o goleiro. É a virada do Sampaio.

Daí até o final, Guy vai mesmo é notar como age a torcida, já que o jogo cai em um clima morno, quase sem chutes a gol e com o placar inalterado até o apito derradeiro.

E então é que os efeitos da exposição prolongada à violência começam a aparecer. Alguns torcedores são aqueles tipos clássicos, dos que levam radinhos e ficam com eles grudados na orelha até o final. Mas bastou um gol (e que eu apontasse as lentes em uma foto panorâmica) para que um círculo se formasse numa discussão e posteriormente pai e filho virem em direção aos dois, Guilherme e Guy, e tirar satisfações. “Pô cara, mas tu tá tirando fotos pra quê?”, e nem as melhores explicações parecem satisfazer o torcedor temerário. “Ah, porque você sabe, essa cidade é meio violenta mesmo, a gente fica com um pé atrás qualquer foto que apareça mesmo.”

“Hey cara, o que aconteceu?”, me pergunta em inglês o turista, enquanto eu mesmo jamais soube a resposta.


O jogo acabou. A vitória deixou os torcedores tricolores mais tranquilos e o técnico Oliveira Canindé feliz da vida por não apenas disputar a final do torneio contra o Náutico como ainda abocanhar no mínimo R$80 mil em premiação. No domingo, naquele mesmo estádio, o Sampaio venceria o Timbu pernambucano por uma vitória simples, gol do meia Válber. Os motenses voltavam pra casa conformados — o time tinha muito a evoluir e ficar atrás de uma equipe como o Sampaio parecia mesmo ser o destino natural do esporte.

Mas por ora era hora mesmo de todos juntos tentarem alguma maneira de voltar para casa. O transporte público na capital é 24/7, supostamente não para. Supostamente, já que, às 23h20 de uma quinta pós-jogo, umas 40 pessoas esperam o ônibus no ponto próximo ao estádio. Nenhum coletivo desponta na avenida. Táxis estão cheios, moto táxis não estão passando e, vez ou outra, algum táxi desavisado passa reto, com a luz acesa. São 23h40 já, o jogo acabou há 40 minutos e nenhum ônibus aparece no horizonte escuro da Avenida dos Franceses. Alguns torcedores preferem ir andando, outros ficam ali, aguardando uma condução. Enquanto ela não chegar, são apenas pessoas indefesas na calçada da terceira cidade mais violenta do país, esperando o ônibus depois de um simples jogo de futebol. Horas mais tarde, do outro lado do estádio, o secretário defenderia sua posição.


Aí eu vi uma movimentação estranha no trânsito né, os caras andando de moto assim, sem capacete no meio de uma avenida super movimentada, aí quando a gente parou assim quando a minha mulher saiu — era uma festa né — aí tinha acabado de acontecer…”

Foi um ônibus desses que Eduardo, um jornalista da cidade, viu pegar fogo. Isso foi em 2014 — o ano em que o Brasil se olhou no espelho e, por instantes, reconheceu no Maranhão o seu lado mais sádico, perverso e perturbador.

E antes fosse se estivéssemos falando apenas dos ônibus queimados, dos mortos e dos caracteres cruéis que permearam cada ataque a coletivo e cada cidadão ali presente, uma violência dificilmente imitável mas até que facilmente explicável, por razões que serão explicitadas daqui mais um pouco, capaz de gerar uma escalada de violência que se ergueu como um monstro, alimentado por aviõezinhos de boatos das mais diversas procedências. O caso mais famoso, aquele que ganhou a capa da Veja em um ano de eleição (pense na gravidade disso) cruzou os destinos de Ana Clara, 6, e um rapaz, de 17 anos à época, cuja alcunha “Porca Preta” já era reconhecida na cidade. Naquela noite de sexta-feira, 3 de janeiro do ano da Copa, ela (Ana Clara, a garota dos olhos castanho escurinhos e cabelos negros e ligeiramente crespos) ia acompanhada de mãe e irmã mais nova (Juliane Carvalho Souza, 22 anos e Lorrane Souza, 1 ano e 2 meses, respectivamente), todas sentadas na parte da frente do Mascarello verde-limo pela cidade de São José do Ribamar.

O ônibus para e é possível ver, no circuito de câmeras do veículo, como a ação é rápida. O grupo de bandidos surge apenas 12 segundos depois que o primeiro membro da quadrilha entra pela porta da frente, numa esquina, e já puxa o revólver preso à cintura. Não há áudio na cena, mas a primeira palavra proferida é “parou” e o movimento de mãos protagonizado pelo membro da facção sugere que ninguém poderia sair do ônibus. Porca Preta, autor desta primeira abordagem, revólver apontado para o motorista, se joga para cima do motor, quase caindo no espaço destinado ao condutor — este corre sentido oposto, para fora do ônibus. Ditando as ordens de cima do capô do motor, ele então começa a ordenar a evacuação. Há então a falha de comunicação entre o criminoso e seu bando, o exato instante onde os quatro bandidos do lado de fora ateiam fogo no lado de dentro da cabine. Porca Preta, ainda ali dentro, pula do capô para as catracas, atingido pelo fogo. E Juliana, que estava girando o seu corpo em sentido anti-horário, tentando não dar as costas ao ladrão, já a poucos centímetros da porta, vê o clarão que instantaneamente sobe os dois degraus, o piso e a superfície curvada do capô. Quando Juliana consegue olhar para baixo, um ou dois décimos de segundo após a explosão, sua filha Ana Clara já é uma pequena bola em chamas enquanto Juliana inconscientemente foge do fogo, indo em direção ao fundo do ônibus. São 20 segundos entre o primeiro passo do ladrão dentro do Mascarello até o fogo. Então, dois segundos depois, quando todos já estão no fundo do carro, fora de quadro, é possível ver Ana Clara, como que sentada no último degrau da porta, quase escorada na porta esquerda, tendo a chama sobre si, com o dobro do seu tamanho, e ela pouco móvel além da tentativa de proteger o rosto. Seus movimentos são lentos e sua ação, durante os três segundos seguintes, parece se resumir ao débil mexer das mãos — e ao provável grito, aquele grito que qualquer pessoa desprotegida gritaria quando notasse a própria pele tomada por chamas que surgiram como um fogo de origem desconhecida.

Quando Ana parece tombar à direita, quase batendo na porta oposta, alguém, provavelmente uma mulher, pula sobre seu corpo, movida pelo mesmo instinto de fuga. Ela não pega fogo em nada além de seu cotovelo direito, mas passar por Ana não apenas a incendia a ponto de esta precisar arrancar sua própria regata, como salva a menina, que cai na calçada com quase nenhuma chama sobre si. A camisa da garota pega fogo, agora numa proporção menor do que cinco segundos antes. Ela apenas parece perdida, procurando alguém. Vai para a frente do ônibus, depois recua e volta, em direção ao fundo. Ainda em chamas e com 95% do corpo queimado, Ana Clara está perdida.

Horas mais tarde, no sábado, enquanto a família de Ana se acolhe ao hospital, a imprensa encontra em Márcio da Cruz Nunes, 37 anos, pai de cinco filhos, o herói improvável que sempre aparecem em tragédias como essa. Morador de São José dos Índios, bairro pobre da cidade, Márcio, que sustentava a família com bicos, vê toda a cena do ônibus em chamas. Vê Porca Preta e seus cupinchas fugindo. Vê Juliana escapando do fundo do ônibus segurando Lorrane. E vê Ana Clara, ali, ao lado das chamas de um ônibus, em um final trágico numa sexta à noite.

Este nem era o único ataque daquela noite — outros três ônibus foram queimados na nos bairros da Ilhinha, no Jardim América e no Bairro João Paulo; e o 9º DP, no bairro do São Francisco, foi alvejada com nove tiros, todos motivados por ordens vindas de presidiários, estes ligados a uma das principais facções que estão presentes no presídio de Pedrinhas.

Não seria nem a primeira noite de pânico para os ludovicenses, já que durante as noites seguintes outros veículos foram queimados e, principalmente, os boatos de novos atingiriam a população em cheio, fazendo com que o comércio fechasse a portas mais cedo, que as viações recolhessem seus ônibus antes do horário normal e que cidadãos tão preocupados como qualquer um se vissem sozinhos e longe de casa, no meio de uma guerra de informações onde todos estavam desarmados.

Mas só aquele ataque de São José do Ribamar entraria para os anais do crime nacional quando, dois dias depois, Ana Clara não resiste aos ferimentos causados pelas queimaduras e morre, às 6h30 da manhã da segunda-feira, Dia de Reis, por incapacidade do corpo de responder aos medicamentos aplicados.

Na segunda de manhã, pouco antes do meio-dia, William Teixeira Ferreira, o Porca Preta, já estava detido, graças à ação do serviço de inteligência da polícia. Na foto divulgada de sua prisão, seu braço contém a cor negra de sua pele e a carne do antebraço em vermelho vivo, causado pelas queimaduras; Márcio está respirando por ajuda de aparelhos, 72% da pele atingida pelo fogo — ainda vai levar três dias até que um jatinho médico o leve até o hospital de queimados em Goiânia, virando a principal manchete do dia. No mesmo Hospital Geral de São Luís convalesce Juliane, 40% do corpo queimado, que está lúcida e comunica-se com a família — em quatro dias ela será transferida para tratamento em Brasília. Ela sabe do estado de Lorrane, que tem 10% do corpo queimado e passa bem.

E vai demorar para entender que Ana Clara, que ela julgaria estar internada, agora está deitada no caixãozinho branco forma-de-caixão, tamanho médio, entre um translúcido verde e a vala do Cemitério Jardim da Paz, cercada por parentes e pelo padre, que agora faz a benção final para a alma que desencarna.

O cortejo fúnebre se assemelhou ao de alguém importante. O translúcido, a tenda, a descida automática do caixão. Atrás do ombro esquerdo do padre, há a câmera de Biné Morais. No lado direito, um outro fotógrafo está a esquerda de quatro câmeras de TV que filmam tudo.

Olha só que coisa: Biné vendeu esta foto — a carregada composição de padre benzendo, caixão tamanho-médio, parentes soluçando e ainda uma fileira de câmeras — ao seu empregador, que é a Gráfica Escolar S/A. Apesar do nome, a Gráfica Escolar é uma das empresas do Sistema Mirante de Comunicação, conjunto de empresas que reúne rádios como a Mirante AM e FM, a TV Mirante, afiliada da Rede Globo de Televisão no estado, e o jornal O Estado do Maranhão, o de maior tiragem no estado e responsável por estampar a foto do Biné, junto com mais duas de sua autoria, na página dois do caderno de Cidades, dia 8 de janeiro de 2014.

Até aí nada que corrompa as ordens da vida — fotógrafos vendem fotos assim como jornalistas prostituem suas palavras da maneira mais barata possível, e isso em São Luís, São Paulo, Nova Iorque ou Tóquio. A diferença básica está em para quem se vende toda esta produção cultural pós-moderna — e, no caso maranhense, a chefe por detrás da principal compradora era, à época dos fatos, a chefe do estado.

Roseana Sarney Murad, 60 anos à época, era — é — uma pessoa que poderá contar histórias das mais variadas aos netinhos. A cena mais prosaica — a vó, ao lado da cama, com os netos perdidos entre a atenção da história e a tentação do sono — poderá ganhar tons de fábulas fantásticas se ela se colocar dentro da história e narrar os fatos reais que envolveram a família Sarney nos últimos 49 anos de governo no estado. Ela poderá lembrar-se, na beira da cama, do dia em que, quando o bisavô estava na flor da idade e a vovó tinha 12 anos: ela pode ver ele, o bisa José Sarney, 35 anos, se tornando o governador pela primeira vez. Foi naquela segunda-feira ensolarada, quando todo mundo de São Luís quis ir ver o novo homem a discursar na praça como o mandachuva da região. A chegada dele ao Palácio dos Leões, no centro da cidade, cercado por uma multidão de adoradores e correligionários, muitos segurando guarda-chuvas pretos. As pessoas gritando em uníssono, pela primeira vez, aquele nome “SARNEY SARNEY SARNEY”. E ele ali, um tanto franzino mas jamais abatido, passos retos e despreocupados, num terno escuro bem cortado e uma gravata preta — ternos com cortes perfeitos são dogmas que o jurista Sarney jamais abandonou — o cabelo ajeitado num chupão pra trás como o daquele Drácula bem antigo do Bram Stoker e aquilo que seria a marca, o estandarte de toda a família, o bigode na qual ele apoiaria parentes e amigos, como um imenso cabide, por uma dinastia inteira. Ela, Roseana, a vovó na beirada da cama, poderia maravilhar o neto, por noites e noites, lembrando o rebento do aceno com duas mãos do bisavô para uma praça Dom Pedro lotada, milhares de pessoas entre ele e a Igreja Matriz na outra ponta da praça, enquanto a câmera nas mãos de um certo Glauber Rocha faz um travelling pela frente do púlpito. Seu bisa estava exultante. Ele falava bonito, e o povo gostava daquilo. Ele era bem diferente do Newton, o que estava antes, o homem que ninguém se lembra. Seu bisa eclipsou o vulto daquele Newton. E era muito mais articulado e mais vivido que Costa Rodrigues, o candidato do PDC que ele derrotou nas eleições de 65. O povo gostava daquelas palavras chiques dele. “O Maranhão não quer a desonestidade no governo, a corrupção nas repartições e nos despachos”. Sua voz fina mas assertiva é pausada pelas palmas estridentes. “O Maranhão não quer a miséria, a fome, o analfabetismo e as mais altas taxas de moralidade infantil, de tuberculose, de malaria de sintosoma como interstícios do cotidiano”, Sarney vociferava, e o povo aplaudia, e o Glauber filmava, e a vó Roseana, a garotinha em seus 12 anos, em algum ponto, ali, via aquela balbúrdia protagonizada pelo seu pai, cercado no palco pelo mar de cicerones, talvez visse o próprio futuro.


Aquele discurso filmado por Glauber Rocha em “Maranhão 66”, um documentário de dez minutos presente no YouTube, foi apenas o primeiro respiro do primeiro mandato de Sarney, até então um promissor formando de direito com aspirações à imprensa. Até a derrota de Lobão Filho nas eleições do governo estadual em 2014, os Sarney dominaram o governo do estado por 49 anos quase ininterruptos . Seja pelo próprio patriarca (Sarney se elegeu duas vezes), ou pela figura de sua filha dotada do gene (vide as quatro vezes em que ela esteve no cargo ), os Sarney entraram em 1966 para jamais saírem da história política.

Dado o alcance de suas conquistas é até lógica a expressão de que “o Maranhão é apenas um quintal dos Sarney”. E foi isso que acabou acontecendo e isso mesmo que a população maranhense hoje, quando perguntada, sente. O ludovicense parece sentir-se um intruso num eterno quintal dos Sarney– mesmo que, hoje, alguém sem nenhum laço político-afetivo com o clã esteja no poder em âmbito estadual.

Quem é acostumado a andar por uma cidade como São Paulo já se acostumou ao modo Malufista de homenagem: não há a autorreferência, mas a parentes próximos foram dados os nomes de túneis (Maria Maluf), avenidas (Salim Farah Maluf) ajudando a sedimentar o nome do político de maneira indireta; ou então aos correligionários e celebridades já mortos é dado alguma lembrança viária (Aeroporto Internacional André Franco Montoro, Complexo Viário Aytron Senna, avenida Hebe Camargo). Todas essas nomeações seguem um sistema simples chamado “Príncípio da impessoalidade”, como nos ajuda a entender o §1º do artigo 37 da Constitução.
 
A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos.

Por mais que sejam muitas e complicadas, as leis seguem uma hierarquia simples, na qual a Constituição é a carta mais alta, inviolável e incapaz por ser ultrapassada por nenhuma legislação estadual. Nem mesmo a Constituição do próprio estado do Maranhão, cuja Emenda Constitucional 37, datada de 24 de janeiro de 2003, autoriza a outorga dos nomes de obras e logradouros para “Pessoas vivas consagradas notória e internacionalmente como ilustres ou que tenham prestado relevantes serviços à comunidade”. Uma lei estadual não pode violar uma lei federal, principalmente se tratando de um artigo da Constituição, a mais importante das leis em vigor.

Mas isso realmente bastou. Independente da inconstitucionalidade da Emenda , ela foi usada a rigor desde então: o nome Sarney batiza pontes, avenidas, bibliotecas e bairros da capital, São Luis; Roseana, em um caso talvez único, já chegou a dar seu nome para o prédio do Tribunal de Contas do Estado, durante seu próprio governo, o que, desnecessário pontuar, atraiu atenção nacional para o trabalho ali desenvolvido. O ex-ministro de Minas e Energia e governador do estado em 1991 e 1994 deu seu nome a um item ainda maior — a cidade de Governador Edison Lobão, 20 km ao sul de Imperatriz, no sudoeste do estado. Seguindo pela MA-337, a 30 km a oeste de Pinheiro, é possível chegar em uma cidade menor ainda — a de Presidente Sarney.

Essas são apenas os frutos que levam o nome de pessoas vivas. Kiola Sarney (1910–2004), a mãe de José, também aparece em diversos endereços e à rodoviária da cidade. Em número muito menor aparecem outros políticos de estatura local e nacional. Newton Belo, o último dos governadores antes de Sarney, tem pra si uma rua em São Luís e outra avenida em Imperatriz, no interior. Até mesmo Jackson Lago, o interruptor da dinastia, está imortalizado em itens menos nobres, como uma rua no Itaqui-Bacanga, uma das regiões mais violentas de São Luís, além de uma avenida de terra em Colinas, a 442 km da capital .


O polo do Itaqui-Bacanga não aparece no mapa turístico da cidade de São Luís, e no mapa da cidade ele é lembrado apenas por uma mancha amarela no canto sudoeste da cidade. As únicas atrações desta região, na margem oposta do rio Bacanga em relação ao centro histórico, são a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e algo chamado de Estaleiro Escola. O polo — junção dos dois distritos principais com outras vilas adjuntas — é resultado de uma invasão, iniciada nos anos 70, que aos poucos foi tomando o terreno da Universidade, sendo hoje um aglomerado de grandes bairros, cortados ao meio pela Avenida dos Portugueses, que começa na região central. O polo acaba uns quilômetros pra frente, quando as ruas que saem da avenida simplesmente acabam para a mata fechada voltar e dividir espaço com empresas de gás, com os pátios da Vale e os imponentes galpões do porto de Itaqui, lá no fundo.

Ali no Itaqui-Bacanga moram pessoas tão comuns como todos aqueles sorridentes nativos que atendem os turistas no Centro; ou os motoristas de ônibus que carregam em seu espírito um quê de Indiana Jones, desbravando as ruas da grande ilha todo dia. São bairros de casas térreas, ruas ora asfaltadas, ora de terra ; casas ora feitas de tijolinhos, ora feitas com o pau a pique (mas raramente pintadas). Um bairro de interior como qualquer bairro de interior, com a singela diferença de estar instalado na periferia de uma cidade reconhecida como uma praça de guerra.

E isso faz toda a diferença. Dos 16 bairros que compõem a região, cinco constam no gráfico da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) com alto número de mortos. A Vila Embratel, no extremo oeste da cidade, aparece como um dos bairros mais violentos de toda a cidade — considerando que 12 bairros da cidade registraram mais de 23 mortes entre 2013 e 2014, constar nessa triste batalha de números pode parecer até fácil.

Mas onde o Estado não chega, a população mexe seus pauzinhos. E é daquela região que se irradia a Rádio Bacanga FM, 106,3 Mhz, a voz da comunidade de quase 250 milhões de pessoas.

É. 250 milhões de pessoas. O número 1,125 vezes maior que a população brasileira inteira, me é apresentada por Isaque Pereira, Ezequiel de nascença, 33 anos. Mais pra frente na conversa ele se desculpa e compreende o erro — mas é cabível que ¼ do total ludovicense more pra lá das margens do Rio Bacanga. E Isaque é um deles.

Todos os sábados, das 18h às 20h, Isaque comanda, junto com o MC Alcino, um programa na emissora. O LPC (Lutando pela Comunidade) é o típico produto radiofônico para um público etariamente difuso, mas bastante presente . Apesar das insistentes investidas para que eu ouvisse o LPC na noite de sábado (“vai lá, ela tem alcance sim, seis quilômetros, pega muito bem no Centro”), o que saía dos fones não passava de estática.

Os seis quilômetros de alcance da frequência fazem o programa de rap atravessar a mata fechada da floresta equatorial e parar no presídio de Pedrinhas, onde, me garante Isaque, uma boa parte dos presos ouvem e usam aquelas duas horas no sábado quase de noitinha como um canal de comunicação entre presos e seus familiares. Se por ligação ou carta, ele não quis explicar direito. Por um momento, Isaque parece ter o papel de Xinran, a famosa radialista chinesa que entre 1989 e 1997 mantinha um programa relatando casos de mães e seus problemas familiares na China comunista . O Lutando Pela Comunidade vai na mesma linha, mandando recados de Pedrinhas para mães e parentes aqui fora e tocando sempre as preferidas da galera de lá — os paulistas da Facção Central e da Realidade Cruel são presenças constantes na trilha sonora.

Um dos oito filhos de um casal vindo do interior do estado, Isaque é nascido e criado na Vila Embratel, um dos bairros que compõem a região. Enquanto os pais tentavam forçar o filho ao ensinamento religioso da Igreja, a realidade do bairro o mostrava outras conjunturas, muito menos animadoras e infinitas vezes mais desoladoras.

Ali não tem segredo, é preto no branco, explica Isaque. A sua explicação para o surgimento da violência e do crime em uma comunidade como o Itaqui-Bacanga, e mais especificamente a sua Vila Embratel, é similar a qualquer outra explicação que poderia ser dada por moradores de comunidades no Rio, em Porto Alegre, em Natal ou em Belém. Pois, em uma comunidade/invasão/favela, onde toda a população é nivelada por baixo nos estratos sociais, o crime preenche diversas lacunas. “Quando [duas pessoas] estavam na mesma situação, de uma hora pra outra aparecia com um tênis, uma bermuda que ali, naquele cenário que ele tá, é visível”, pondera.

O consumismo ajuda a ser visto e, não em raros casos, ajuda a se destacar — e quando uma renda familiar não supre tais necessidades, o tráfico parece ser a salvação primária. Quando tênis e roupas não são suficientes, explica, “aí já vem pra arma”.

E é assim, sentindo o cheiro do dinheiro fácil e de uma boa vida para tirar o pé da lama das ruas não asfaltadas que muitos jovens daquela região se entregaram ao tráfico, normalmente aninhando-se nas asas da principal organização criminosa do estado e que domina grande parte da capital. Mesmo que isso cobre, hora mais, hora menos, o seu preço.

Essa tal ferocidade a qual o polo Itaqui-Bacanga está inserida no próprio círculo de amizades de Isaque. Basta perguntar para ele, um negro de altura mediana e uma fala descomplicada, o número de amigos mortos que ele perdeu ao longo dos anos.

“Eu acho que, se a gente for conferir, mais de noventa”.

Por tráfico. Por guerra de facções. Por ações truculentas da Polícia — e do seu temido serviço secreto. Chega a parecer que todas as causas de violência urbana já ceifaram vidas entre os 90 amigos que Isaque perdeu. De companheiros de skate aos que se perderam no tráfico, o número nunca parava de crescer — o último foi poucos meses antes da entrevista

Na lista de Isaque, mais de 90 almas se perderam na vida.

E pra Pedrinhas “o número é bem maior”.


Parte 2. As Sombras.

Não há um ser humano por perto. A estrada — na verdade uma avenida de mão dupla — está grudada no chão, as nuvens como que coladas no céu, uma composição pelo visto inalterada desde o início dos tempos. A cena é imóvel. Se você acordasse, desmaiado, no acostamento, fosse coçando a nuca, abrindo os olhos lentamente como nos filmes, poderia jamais imaginar onde está, que horas são, para qual dos dois lados da avenida seguir até chegar à civilização mais próxima. A mata pesada poderia sugerir uma floresta, mas uma floresta onde? Na Amazônia? No Equador? No Panamá? Na Malásia? Aliás, isso nem é tanta árvore assim, então pode ser qualquer canto.

Não há um ser humano por perto. Mas pistas podem indicar onde você está: o calor não é o calor seco, é o calor que te abraça e te engalfinha por todos os poros — logo, você deve estar numa região equatorial. Uma breve reparada na mata que cerca o asfalto e você vai notar palmeiras muito diferentes — na verdade bacabeiras, palmeiras que aqui estão fortemente varridas para um dos lados, retas em um lado e vistosas em outro, dando um aspecto um tanto quanto peculiar à sua forma. Nem sempre palmeiras próximas estão varridas para o mesmo lado. E, se você se der ao luxo de olhar 360 graus, com certeza vai ver aqueles galpões cor de terra imensos em algum canto.

Não há um ser humano por perto na Avenida dos Portugueses, que liga o centro da cidade de São Luís ao porto de Itaqui, no extremo oeste da ilha. Depois de passar pelo Itaqui, pelo Bacanga e pelo Anjo da Guarda, a mata começa a prevalecer, ficar mais verde e mais presente. No ponto alto a mata é de um verde-oliva bastante opaco, regado por um pouco de marrom-claro e amarelo aqui e ali…E após a entrada do porto a avenida tem uma rotatória, para logo depois um viaduto, e ela então segue como Avenida Engenheiro Emiliano Macieira por mais uns quilômetros, no mesmo esquema de se enfiar numa mata intocada, com um ou outro bairro tão desolador quanto uma cidade esquecida na Sibéria. O Brasil tem seus momentos de Sibéria nesses bairros que beiram avenidas, com suas ruas de terra, bares com telhas de amianto e decorado com placas de cervejas baratas e uma mesa de bilhar quase sempre de madeira pintada de branco sobre um piso de cimento gasto.

A monotonia da cena é então brutalmente quebrada — o motorista do Palio do Ministério Público do Maranhão está agora a 115 por hora numa via cuja última placa era de 60. O caminhão, aparecendo colado lá longe na linha do horizonte poucos segundos atrás, agora está ao nosso lado — ele também não está muito aí pra estas questões de tacógrafo.

O Palio está no comboio de três carros: à sua frente, em velocidade tão desesperadora quanto, outro Palio prata leva a equipe de engenharia do Ministério Público do Estado; nesse carro estão dois jornalistas do órgão e o repórter que vos fala, cara grudada no vidro traseiro olhando pra fora e tomando ocasionais notas mentais inúteis enquanto no rádio um certo Silva Alves, da Difusora AM, invadia o carro com sua voz modulada falando sobre um crime ocorrido no centro da cidade.

Agora os dois carros chegam no final da avenida, que consiste em uma curva te jogando para o sentido sul da BR-135, rumo contrário ao centro da cidade. Centro da cidade que, nesta manhã de terça-feira, 20 de janeiro de 2015, deixamos há cerca de meia hora. A aproximadamente 15 quilômetros do Palácio dos Leões, sede do governo estadual, finalmente o pedal do freio sente algum tranco de verdade desde aquela hora em que passamos num radar há pouco ou muito tempo atrás. Outra curva à direita e os carros estão numa estrada de terra, por uns duzentos metros. Até que surge o portão de ferro e então há que se parar totalmente o carro; após as devidas credenciais, os dois veículos passam esse portão e em seguida outro, contornam uma idílica pracinha com um poste de iluminação no meio e então, finalmente, estaciona atrás de um Palio Weekend da Polícia Civil.

Podemos abrir as portas, deixar o calor insuportável nos abraçar como um urso, ajeitar os óculos e apreciar a primeira visão do Presídio de Pedrinhas, o maior flagelo da cidade de São Luís. Agora é esperar o terceiro carro chegar.


Em cinco minutos o Nissan Livina prata, adesivo do MP/MA nas portas, contorna a pracinha e estaciona. O motivo de se ter vindo em velocidade menor é devido, além do que se espera ser um bom-senso do motorista, a presença do promotor público Carlos Jorge Avelar, um dos responsáveis do órgão pela área penal. No banco traseiro, em sua companhia, vem sua assistente, Apoliana Ferreira. No banco do passageiro dianteiro, seu segurança, vestindo um paletó e camisa social branca sem gravata.

O meio tempo entre a chegada dos primeiros carros e o promotor é providencial para já se quebrar algumas verdades e apresentar alguns dados sobre o sistema prisional maranhense, começando pela sua estrela-mor: o primeiro mito que vira pedrisco é que Pedrinhas não é apenas um presídio, mas sim um conjunto penitenciário, com unidades de todos os tipos: as suas paredes amarelas se estendem por 200 metros no sentido sul da BR-135, além de uns 100 metros no sentido norte, do outro lado da pista. São oito unidades: o Centro de Detenção Provisória (CDP); as Penitenciárias de São Luís I e II; a Casa de Detenção (Cadet), Centro de Custódia de Presos de Justiça (CCPJ), Triagem e a Penitenciária de São Luís. Dentro de uma delas, o Presídio Feminino, vive Roniele Costa Moura. Em meados de janeiro, ela é uma das 200 detentas ocupando as 206 vagas da unidade.

Por mais incrível que possa parecer, o sistema carcerário do Maranhão é o sétimo menos deficitário do país — segundo os dados do 8º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, faltam apenas 2300 vagas no estado. São cerca de 100 presos para cada grupo de cem mil habitantes (o estado de São Paulo tem 616,5 por cem mil, e faltam cerca de 97 mil vagas; o índice do Acre chega a 796/ cem mil). Eram, até o final de 2013, 5.263 presos no estado, 4.263 deles em prisões e penitenciárias (a maioria em Pedrinhas) e outros 1.200 em custódia policial, em delegacias. Desses 4200 presos, apenas 2082 tinham pena definida — quase 55% dos presos no território Timbira é provisório, não sabe quanto tempo vai ficar ali nem ao menos quando será julgado. 94,9% são homens.

Ainda segundo o mesmo relatório, 61% dos presos do estado cumprem pena entre 4 a 8 anos — o tempo que normalmente se dá por crimes como tráfico de drogas. Oito em cada 10 presos tem até 34 anos, e um terço da massa carcerária tem até 24 anos, faixa etária na qual muitos são pegos no mesmo tráfico de drogas.

Aliás: crimes envolvendo entorpecentes envolvem 1/5 de todos os presos já julgados, mais do que crimes contra a pessoa (homicídios, latrocínios e estupros) e menos do que os crimes de patrimônios (roubos e furtos).

Entre 2012 e 2013, o número de brancos dentro da prisão no estado caiu de 22% para 19%, e o de negros subiu de 28% para 29%. Quase metade da massa carcerária é parda e 0,1% dos presos tem origens indígenas.

E dali ao lado do Palio Weekend, mexendo tranquilamente o celular, está um policial: até os promotores do Ministério Público atestaram para a lisura destes membros, e isso se deve ao salário bastante regular, se comparado com a média do país — a média para um soldado é de RS 2.396, e de R$ 2.495 para um cabo. O valor é bem superior aos praticados em estados vizinhos (um soldado no Piauí recebe perto de R$ 1.700) e chega a se equiparar ao de estados com custos maiores: um cabo da PM paulista recebe algo próximo dos R$ 3.100.


Ainda nesse ínterim entre a chegada dos dois primeiros carros e o do promotor, a paisagem se apresenta como um estranho ambiente inerte — é incrível como as coisas mais perigosas ou grandiosas são estranhamente quietas, imóveis. Mas mesmo as coisas perigosas e grandiosas são capazes de dar uma pequena demonstração de sua força simbólica — e isso ocorre quase sempre em um átimo de segundo, uma fração tão rápida que nem a câmera consegue focar corretamente, nem o caderninho vai chegar a uma página limpa.

Foi tudo realmente muito rápido ali, na porta da Penitenciária Feminina, quando Rosimeire Pereira Rodrigues vê sua família pela primeira vez em mais de um mês. Rosimeire faz parte do sem-número de mulheres Brasil afora que, em pleno 2014, pariu sozinha. Sem cesarianas, pré-natal ou cirurgião à espera, 4h da manhã, na casa do patrão, Rosimeire sentiu as contrações. Temendo sujar a casa do chefe, preferiu ter o bebê, sozinha e na madrugada, no quintal da casa. O que acontece a seguir é uma sequência misturando infortúnios e desinformações, que começam no exato momento em que o bebê vem ao planeta, cai no chão de terra e passa a impressão à mãe de que está morto. Um amigo a quem ela ligou pedindo ajuda ligou, por sua vez, para uma prima dele — e ambos foram ao local, acompanhados ainda do marido desta.

Apesar da certeza, por parte da mãe, da morte daquele bebê (que até o momento não tinha chorado e já estava numa caixa de papelão), a insistência da prima levou todos ao hospital, onde se contatou que o recém-nascido estava realmente vivo. “Aí é que começa a loucura”, explica Nonato Masson, defensor público da vítima e militante social conhecido na capital.

No hospital, o boato de que a prima teria desenterrado o bebê de Rosimeire começa a ganhar cada vez mais força — afinal de contas o bebê estava sujo de terra e a mãe em algum estado de choque não conseguindo se expressar.

E então, quando a Polícia aparece, Rosimeire Rodrigues, moradora de um assentamento quilombola na cidade de Bequimão (80 km em linha reta da capital mas a 376 km por terra firme), foi levada para encaminhamento ao 1º Distrito Policial da cidade de Pinheiro, 333 km da capital, acusada do infanticídio de um recém-nascido, seu filho, no quintal de uma casa no assentamento quilombola do Quindiua, zona rural da cidade.

De Pinheiro, onde foi presa, até aquela manhã na porta do centro conhecido como NuEd (que a placa na entrada não se deu ao favor de explicar o que significaria), foram exatas cinco terças-feiras, incluindo aí uma véspera de natal e uma véspera de ano novo. Sua família teve seguidos pedidos de visita negados. E então chegou o momento em que, sentados numa antessala, os parentes veem Rosimeire aparecer por um portão de ferro. No dia da sua prisão, conforme foto divulgada no Jornal Pequeno, um dos principais de São Luís, ela estava vestida com um shorts jeans curto, uma regata amarelo ovo, chinelos de tiras rosa, os peitos ligeiramente para baixo, a barriga ainda inchada e a tez negra abatida, surrada. Tudo nela já irradiava uma derrota antes de entrar na roda do sistema prisional. Hoje, vestindo o uniforme laranja de detenta, quarto dias antes do momento regulamentar de visitas, ela não perdeu a postura encovada — é incrível como ela se assemelha à Roniele .

Em menos de um segundo, ela corre chorando. O abraço é tão forte que o choque de corpos é audível — thomp — e então Rosimeire, uma mulher e um garotinho estão chorando. Um terceiro elemento, um senhor de idade vestindo uma camisa social listrada, se aproxima. Nonato, um negro com a face redonda e extremamente calmo por fora, apenas observa. Pedrinhas precisa de pouquíssimos segundos — e uma cena só — para mostrar seu estrago.


O promotor tem uma estatura baixa e modos gentis. Carlos Jorge Avelar é um senhor de óculos retangulares e cabelos grisalhos em pontos tão específicos que a sensação é de que sua cabeça é geometricamente angular. Há 24 anos no cargo de promotoria, Carlos está em sua última semana no cargo, já que no dia 30 viria a tomar posse como Procurador. Ele estava, portanto, em uma de suas últimas missões: uma sequência de visitas por três dias aos presídios do Complexo de Pedrinhas.

Apesar do parentesco com pares da profissão (seu irmão Paulo e sua mulher Marlene também são promotores), Carlos se considera dono de um papel ativo porém extremamente discreto, evitando grandes entrevistas e mesmo aparecer na TV local. Seu andar é ágil, e ele não se demora muito depois que o Nissan Livina onde ele estava acaba estacionando. Alguns cumprimentos rápidos, alguma anedota e todos partem porta dentro do presídio.

O papel deste senhor, cujos modos em muito parecidos com o de um pastor evangélico (como ele realmente é), está aqui para uma visita de rotina. O papel do Ministério Público, me explica Pedro Lino Silva Curvelo, o outro promotor da área penal, é regido pelo artigo 127 da Constituição Federal: cabe ao órgão “A defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis” — em poucas palavras, a titularidade da Ação Civil Pública. Para um detento, o MP é a visão da mão que bate e afaga, seja quando esta reúne provas contra um acusado, seja quando ela investiga supostos excessos em locais que podem ir de postos de trabalhos a cadeias. Aqui e agora, Carlos e seus acompanhantes fazem esse segundo papel.

Todos ali são experientes em visitas à presídios. De toda a comitiva, apenas um dos presentes jamais tinha ido a uma prisão. Um comboio de doze pessoas assessorava o promotor: sua assistente Apoliana ia bem próxima, prancheta e caneta em uma das mãos, o olhar quase sempre austero. Os membros da equipe de comunicação tiravam fotos aqui e ali, anotando em um pequeno caderno; membros da engenharia discutiam frivolidades entre si; o segurança particular do promotor permanecia sempre ao lado, um senhor de meia idade, de paletó preto e camisa branca. Bombeiros e guardas assessorariam a visita.

O local onde estavam, o corredor de acesso, era inteiro pintado de verde. As paredes, rebocadas de um cimento pouco poroso, pareciam ter vida própria. Na verdade, a sensação real ao entrar na prisão é de se estar em uma grande escola pública, com suas paredes maltratadas, as grades onipresentes, cartazes aqui e ali. De vez em quando, há algum grito em uma outra ala, e a parede ecoa, traz o seu som amplificado até aqui. A luz é artificial e mesmo assim diminuta. Graças ao monocromático da situação toda, o corredor parece ser maior do que é.

Esse verde todo é quebrado lá no final, em uma sala completamente rosa. A julgar pelas grades na porta e na janela, a analogia com a escola indicaria ali uma cantina ou secretaria. Mas ao chegar mais perto, o que se tem são presas ensaiando o ofício de cabelereira em duas cadeiras profissionais, com espelhos de tamanhos diferentes. Ali dentro da Penitenciária Feminina, são três os projetos de ressocialização: limpeza, cozinha e este salão, que por razões auto evidentes é o mais concorrido deles.

Presas em ressocialização aprendem o ofício de cabeleireira — mas nem de longe a prisão brasileira se parece com aquela do Netflix. Foto: Guilherme Lázaro Mendes.

Quando o promotor entra para conhecer, onze presas estão ali, se espremendo entre as cadeiras, em um balé onde uma presa, negra e baixinha, está sentada tagarelando sem parar, enquanto outra se dobra para passar uma tintura preta nos cabelos da nuca desta tagarela. Os fios alisados e escuros de graúna conferem à cabeleira um quê daquele corte clássico do James Brown, e uma parte significativa da tintura está na capa de cetim roxo claro. Uma moça mais parda aguarda a química agir em seu cabelo, com umas mechas loiras, mas já um tanto passadas. O clima entre elas — ladras, homicidas, latrocidas — é de descontração, e há quem diga que aquelas mulheres todas de laranja discutindo as agruras da vida tivesse um clima ameno, como se estivessem no set do seriado Orange is the New Black . Há uma sala adjacente, com carteiras e um armário cheio de livros — mas no momento ela está vazia e com as luzes apagadas.

Ao lado do promotor está a diretora do presídio. Giselle Miranda Léda já foi supervisora neste mesmo presídio, e entra em janeiro no seu segundo mês como a diretora. A responsável pela unidade vestiu-se com aprumo para aquele dia de visita: o vestido tubinho verde, o relógio dourado, o rosto brilhante mas sem suar muito. Se não fosse um rosto conhecido de todos ali, não seria difícil acreditar que ela estava perdida naquele corredor tão ao mesmo tempo inacessível e execrável.

Os dois põem-se, a postos e lado a lado, de frente a uma grade. Após esta grade, começam as celas da ala principal, separadas por mais três grades e uma parede que separa as 17 celas do semiaberto das 6 do fechado. Até o final do corredor são aproximadamente 30 metros de paredes tomadas pelo mesmo verde-piscina da entrada, que esta hora já se tornou um fator depressivo e torturante na visita . O portão se abre. Começa a caminhada.


Relatou Zacarias Castro em sua obra “Apontamentos para a História da Secretaria da Justiça do Estado do Maranhão”: a primeira requisição de construção de uma cadeia para os malfeitores e bandoleiros veio com um pedido da Câmara ao governador para a construção em 1709. Engraçado pensar que, nessa época, também um homem eloquente e apresentável mostrou ao Brasil seu plano para fazer daqui não apenas lugar de futuros pesados, mas também uma terra de prosperidade — Marquês de Pombal encampou aquele discurso da praça Dom Pedro muito antes de virar moda.

Mas, de volta ao caso da cadeia, o governador Cristóvão da Costa Ferreira estava à época na capital, Belém — o Maranhão fazia parte do Grão-Pará e Maranhão -, e sabe se lá por que a planta da construção de uma nova cadeia apareceu apenas em 1830. As obras começaram e em 13 de fevereiro de 1856 os primeiros presos chegaram à cadeia de São Luís, no bairro dos Remédios.

A cadeia, com ares de penitenciária, oferecia oficinas de alfaiataria e sapataria ao internos, no esboço mais antigo de reabilitação dos presídios maranhenses. E ali ela permaneceu por quase cem anos, quando o crescimento da capital cruzou com os planos do governador Sebastião Archer de uma colônia agrícola em uma zona afastada da cidade. Porém o bairro dos Remédios, que em 1840 já era o extremo da cidade, agora era um distrito integrado à mancha urbana, e um local mais ermo acabou sendo encontrado em Alcântara, um vilarejo centenário e tão antigo quanto São Luís, na outra ponta da baía de São Marcos, a 30 km de balsa.

Alcântara, uma cidade turística, recebeu com maus olhos a instalação da colônia penal. Os visitantes do Brasil e do exterior, que se esbaldavam, já naquela época, nos pratos típicos e na excepcional cocadinha da cidade, agora tinham a presença magnetizada de detentos em um casarão colonial. A pressão da alta classe da cidade acelerou o fim da existência das instalações.

Já no governo de Newton de Barros Belo, no início da década de 1960, a volta do presídio para São Luís é aceita, desta vez em uma localidade (à época) ainda mais erma, sem vizinhanças, no extremo sul da cidade, às margens da rodovia. As obras terminam em 1965 e, em 12 de dezembro, o governante entrega ao Maranhão a Penitenciária de São Luís, chamado pelo nome do novo bairro: Pedrinhas.

Foi a sua última obra: um mês e oito dias depois o jovem Sarney subiria no palanque com o Glauber Rocha filmando e cicerones e conterrâneos e parentes dando vivas e coisa e tal.


As primeiras portas do corredor levam a duas salas de encontro. A primeira é ao estilo prisão americana, com janelas de vidro separando o preso da visita — e que no momento estava vazia. A segunda era uma porta de ferro, semelhante às celas, que ostentava uma folha de papel sulfite com os dizeres ENCONTRO ÍNTIMO em letras garrafais e Word art .

As portas de ferro tem algo perto de três metros de altura por um de largura. São de ferro pesado, chapas fundidas. Mas basta o promotor aparecer que mesmo as menores presas se mostram as mais fortes e parrudas. A partir da primeira grade Carlos deixou de ser Carlos, inclusive deixou de ser o 32ª Promotor de Justiça Criminal de São Luís. Era simplesmente o “dotô”. Então ele resolve fazer um esforço: Carlos se abaixa um pouco e procura olhar pela portinhola, um buraco retangular de não mais que 30x15 cm onde as presas estabelecem comunicação com o mundo exterior. Pelo silêncio vindo de além-porta, não parece haver ninguém no momento. A ação do promotor se assemelha a um bom pescador: olhando fundo para dentro da cela, caçando alguma coisa. Então, como se graças ao uso de um bom molinete, dois olhos aparecem pescados próximos ao buraco. Cabe a ele apenas cruzar os braços e ouvir calmamente as lamúrias que irão lhe contar, enquanto Apoliana, sempre ali a Apoliana, tomará notas de tudo o que ouvir.
 
Se conseguir ouvir — pois agora o boato da presença do “dotô” e da diretora chegou ao final do corredor e a algazarra se forma. Os gritos se intensificam. Algumas presas em celas próximas começam a bater nas grades de ferro com uma força incrível. Algumas são mais espertas — alguém na engenharia notou uma detenta falando algo como “faz zona pra eles abrirem aí que nós salta”. Não há tensão — apenas ânimos exaltados dentro daquelas dependências numa manhã abafada.

Uma encarcerada nas celas do outro lado do corredor analisa por um espelho na portinhola, gritando sem parar. Ela, negra, um piercing na sobrancelha esquerda, esperava a chegada do promotor com uma seleção apurada de provocações. “Dona Gisela (sic) tá aqui embaixo hoje? Milagre! Só porque eles estão aí né? Só por isso, só por isso!”.

O promotor chega mais perto. Faz a pergunta padrão — pede que ela conte o que está ocorrendo.

“Eu tô com um problema na cabeça. Eu tô com um caroço aqui [ininteligível devido a gritos de outra detenta], a gente diz ia embora, diz que vai pôr a gente de castigo é uma semana, se eu falar pras monitoras do castigo corre o risco de eu [ininteligível devido aos gritos de outra presa desta vez já do lado de fora da cela continuando a berrar, cada vez mais alto]”.

Apoliana se esforça em anotar.

Uma presa reclama sobre as ações da guarda, sobre o ataque sofrido por ela com gás de pimenta, no meio do pátio, que atingiu também outras companheiras de pena . Por uma abertura escura, Maria Silva Botelho, 36, presa há quatro meses para cumprir pena de cinco anos e seis meses por extorsão, avisa que seu antebraço direito se deslocou há três meses, fruto de uma queda no próprio alojamento, e que ainda não foi atendida — e então o braço deslocado aparece para fora da cela, a ponta do osso da ulna meio que como desalinhada em relação aos metacarpos da mão.

Maria Rivanda Gonçalves de Souza, condenada a 19 anos por um homicídio com faca, já imagina a hora de sua saída — 2023. Mas enquanto esta data não chega, por aquela mínima janelinha ela busca com o “dotô” uma maneira de voltar ao plano de ressocialização, na qual ela era cozinheira desde 2011.

Outra, tão baixinha que dali de fora só se via a testa e um fiapo dos cílios, reclamava de ter sido obrigada a usar o fardamento molhado. Uma outra presa ao lado falava sozinha: “E o que foi que ela disse: ‘eu quero que você morra aí’”, referindo-se à diretora.

Foi então que alguém perguntou, com humildade e um tanto de inocência: “O dotô quer entrar?”. Aceitando o convite, Carlos Jorge olhou para o alto, como quem pedisse ajuda aos céus, e então, segundos depois, a cela à sua frente se abre.

Interior de cela no Presídio Feminino de Pedrinhas. Foto: Guilherme Lázaro Mendes.

Voltando de Pedrinhas, quase uma hora mais tarde, os membros do Ministério Público riem no Palio a jato na rodovia. Entre si, além do boato de que uma presa pediu o telefone de um dos membros da equipe para ligar quando ela saísse (ele reagiu um tanto quanto sério ao chiste dos colegas), havia uma leve discussão sobre o fato da Penitenciária Feminina de Pedrinhas ser um local relativamente tranquilo, limpo, relaxado. “Um mamão”, diz um. “Um hotel”, replica outro.


A julgar por tudo o que o conhecimento popular entende de prisões, a ironia parece um ultraje dos mais fortes. Prisões são lugares onde nada funciona exceto os celulares e todos são corruptos, exceto os detentos; e isso é facilmente comprovado nas capas de jornais, nas revistas, matérias de TV, nos discursos feitos pelas senhoras que amanhecem na porta da penitenciária aguardando a entrada para a visita íntima. Prisões são masmorras, prisões são o chão de piso sujo que ratos, de tempos em tempos, vêm passear. Prisões não são reeducações. São pesadelos.

Mas não é isso a impressão causada aqui. O piso da cela que agora aparece aos olhos do promotor Carlos, quando a porta termina seu deslizar horizontal, é limpíssimo, tão limpo e polido que a janela reflete quase perfeitamente no cimento. As paredes, pintadas de três cores, não estão sujas. Existem cinco camas em cada cela — duas beliches e uma cama simples — e todas estão com os lençóis colocados e devidamente esticados. No alto da cama simples repousa uma pilha de livros ao lado de uma moderna tomada de três pontas, e os livros ali estão todos virados, de maneira que os únicos reconhecíveis daqui são o Nas Mãos de Deus, do bispo Edir Macedo; Casamento Blindado, de Renato e Cristiane Cardoso (filha de Edir Macedo); Nos passos de Jesus, novamente o bispo Macedo; além de um livreto chamado A Única Esperança, do pastor adventista peruano Alejandro Bullón, e dois volumes sobre o cultivo e plantio de hortaliças. Por todo o lado estão equilibrados vidros de perfume, frascos de desodorantes e alguns potes de óleo de amêndoas Paixão.

A infraestrutura desta cela, em especial, não está ruim: há um balde abaixo da pia, pois o cano do sifão está corroído. Sobre ela estavam uma tábua de cortar carnes de plástico e uma panela com uma água amarelada; mas em compensação a privada, um banho turco de inox instalado em um dos cantos da sala, está quase que brilhando. Da janela, vindo de algum lugar, uma extensão vai de encontro à tomada de uma TV. Na falta de rack, um balde de massa corrida de 18 litros virado de ponta-cabeça e forrado com um pano rosa ergue o Philco de 21 polegadas tela plana, tendo ao seu lado um balde menor, também virado mas sem forro, onde fica o DVD rosa. Durante a breve visita do promotor ao alojamento, passam-se cenas de Carandiru (2002) na tela, e a voz do personagem de Rodrigo Santoro preenche o quarto.

A maioria das celas guarda alguma estrutura humana aos seus ocupantes. Longe de parecer uma rotina voltada à reeducação das presas, mas ao menos a degradação parece reduzida, descomposta. Os corredores são úmidos e o ar parece viscoso ali. A acústica, em momentos de barulho extremo, chega a ser atordoante, mas ao menos o chão conta com pouca sujeira.

O jogo de interesses é claro neste campo de batalha– as presas, que reclamam da sujeira um tanto quanto inexistente neste momento, encontram frente na fala da diretora, que garante um cuidado digno àquelas em custódia. Vale lembrar que ela, Giselle, foi avisada de antemão pelo Ministério Público, onde seria até mesmo uma temeridade acreditar que não tenham sido feitos preparativos para tudo parecer, no máximo, apresentável — não existem presídios bonitinhos.

Mas, longe do corredor principal, existe uma ala com corredores com as lâmpadas apagadas, onde a única luz vem do sol batendo num pátio lá fora, fazendo com que tudo o que se veja ali dentro sejam diferentes tons de sombras. Nessa parte do complexo, mães com bebês (e com o histórico de bom comportamento) podem ficar com seus filhos. As sete mães que tem este direito estão por ali, cercadas de andadores, carrinhos de bebês, cadeirões com motivos de ursinhos, banheiras de plástico.

A ala destinada para detentas com filhos é onde Carlos Jorge, em sua parte final da visita, pede para que sejam desligadas as câmeras. E é ali que uma jovem, de tamanho bastante diminuto, o interpela. Ela tem algo para falar com aquele senhor de terno, aspecto um tanto quanto bonachão apesar da sua missão solene neste lugar. Apesar da tentativa da garota de se comunicar, os olhos do promotor tem de se atentar a todos os presentes, aos que os cercam, às outras presas. Em pouco tempo os olhos dele se dispersam e vão para outra pessoa. Roniele então caminha para dentro do quarto novamente.

Um reggae sai de um DVD ligado a uma TV Panasonic. No fundo do grande quarto verde (do tamanho de quase três celas), uma mãe cuida de seu bebê no berço. Os móveis são novos e em bom estado, apesar de serem notoriamente de baixa qualidade. Junto com a TV e o guarda roupa, existem quatro camas, e um par delas está junta para formar uma de casal.

Roniele então chega próxima da cama de casal, próxima à janela. Os lençóis de ambas estão amarfanhados e especialmente neste canto da sala há uma parede creme bastante maltratada, com restos de adesivos, uma marca de dedos laranja e alguns nomes na parede — o seu está ali, em caneta azul, com um OK abaixo, ao lado de Carol é Camila e um EVELYN. Um texto citando diversos nomes aparece na parede ao lado.
Roniele está ali. Sua mãe vem logo atrás.

Quando ela chega perto da cama, Roniele a ajuda a se sentar. Não é dia de visita e ambas vestem o mesmo uniforme.


Pedrinhas hoje tem CEP, tem um comércio e inclusive uma linha de ônibus que sai do terminal Praia Grande que passa na porta do complexo. E também tem um bairro, o Pedrinhas em si.

Andar por estas ruas é a sensação mais próxima de várias coisas. O local está sempre quieto, deserto e vazio. As casinhas térreas cercadas de mato, com ruas de terra por onde aparecem aqui e ali umas galinhas d’angola, dão ao bairro o clima de uma aldeia de ciganos no leste europeu. Não há barulho por minutos — até que um carro passa, ou um passarinho gorjeia alguns quarteirões longe, ou então um caminhão começa a subida da rodovia, reduz a marcha e seu ruído rompe a imobilidade do local.

As casas, me explicam os ludovicenses, surgiram após o presídio — as primeiras residências, no meio do mato, foram construídas por parentes de presos que vinham do interior para ficar mais próximas dos seus familiares. Depois de algum tempo, como toda demanda reprimida, o local passou a ser alvo de pessoas mais endinheiradas, que construíram casas bastante simples para aluguel. Hoje o bairro tem uma torre de celular e um mercadinho à beira da rodovia, que vende Coca-Cola de 600ml a R$1,99 e tem como atrativos desde verduras e legumes jogadas em sacos no chão até um orelhão da Oi . Hoje o bairro não tem asfalto, e o esgoto corre ao céu aberto, serpenteando entre uns matos que crescem no meio-fio.

A menos de 50 metros do presídio, nessa manhã de quarta-feira em que uma única nuvem cinza agia no céu cercada de nuvens brancas, prenunciando uma chuva que jamais viria, estão duas mulheres. As duas, gordas e negras, estão conversando tranquilamente, sentadas no pé de uma escada de dez degraus que levava ao segundo andar da casa. No portão do andar térreo é possível notar oito caixas de luz, indício que ali se tem um cortiço, e de que os três números pichados com tinta vermelha sob um VENDE indicam que aqueles quartos instados no meio do nada, à beira de uma rodovia quilômetros de distância de um bairro urbanisticamente consistente eram voltadas para apenas um tipo de público-alvo: mulheres pobres com filhos e senhoras na porta da terceira idade, prestes a largar tudo, desde bingos ao culto de domingo na congregação local, para poupar viagem e ver seus parentes apenados com mais frequência.

Ao lado, um açougue (que também vende chips da Tim, Vivo e Oi) segue sem movimento nenhum, esperando essas tais pessoas.

Um vira-lata vagueia entre as ruas. Outro está deitado na calçada, jogado na terra, encarando meio que de lado o prédio amarelo de três andares do Presídio de Pedrinhas, lá pro outro lado da rodovia. Estão parados, do lado de fora do complexo, vários carros. Quase sumindo da vista, duas Iveco Ducato travestidas de ambulâncias, com inscrições da Secretaria de Justiça e Administração Penitenciária e do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), do governo federal. Ao contrário dos carros, que tinham apenas manchas de poeira e lama nos para-choques e pneus, as ambulâncias estavam em estado caquético: uma delas estava com a placa traseira quebrada e a marca do que deve ter sido um grave acidente na sua traseira.

Um cachorro dorme às margens da BR-135, próximo ao complexo de Pedrinhas. Foto: Guilherme Lázaro Mendes.

Fora de todo este esquadro, escondido em um estacionamento no extremo sul do complexo, estava o já conhecido Palio prata do Ministério Público, com o já conhecido Silva Alves irradiando pelos alto-falantes entre as janelas fechadas. O esquema, similar ao dia anterior, era o de ficar ali, esperando os outros carros da equipe, incluindo o outro Fiat prata e o station wagon do promotor.

Os adjetivos mudaram em 24 horas. Entre os visitantes, “excelente” e “refresco” deram lugar aos menos lisonjeiros “masmorra” e “inferno”. A singeleza do encontro entre família e presos na entrada da unidade feminina agora não mais ocorre — afinal de contas não é dia de visitas. E a única movimentação procede de dois presos levando o lixo pra fora. Escoltados por um guarda armado, cada um carrega um carrinho de mão, com um balde extragrande em cima, contendo todo tipo de lixo produzido dentro da unidade 2 do Presídio de São Luís. Um deles está devidamente paramentado, com calça, bota de borracha, uma máscara e um chapéu de palha. Talvez para evitar uma segunda viagem, a ele acompanha um segundo detento, vestindo apenas uma bermuda laranja, camisa branca, boné de mesma cor, sem máscara e chinelo, levando a mesma carga de detritos. Sob um sol difuso pelas nuvens, eles caminham uns cem metros, até chegar perto das grades que os separam da sociedade. Ali existem um par de caçambas, e em uma delas eles liberam o lixo. Enquanto voltam, uma fumaça branca começa a sair por entre os sacos de lixo.

Nesse momento de volta já aponta o Livina prata do promotor. Sua tez é tão descansada como no dia anterior, seu ânimo como que renovado para mais uma nova rodada de visitas. Porém, da porta para dentro o cenário é o oposto o visto na Penitenciária Feminina: as condições são muito piores, a violência muito mais descampada e as facções muito, mas muito mais presentes.

Na verdade, quando o diretor apareceu na recepção para saudar o promotor e seu ciceroneado, todos cumprimentavam os homens responsáveis por apartar, no mesmo lugar, duas das principais facções do estado. Com quase nenhuma proteção, matéria e antimatéria estavam guardadas em frascos vizinhos, prontas para aniquilar uma a outra.

(E tudo o que estivesse ao redor).


Tudo começou lá pros idos 2004 com um ventilador.

A peça, um ventilador simples (mas provavelmente como todos os outros do presídio, ou seja, sem a grade protetora, apenas as hélices), estava na cela de um apenado do interior, de apelido Sadam, mas cujo nome de verdade era Moisés Magno Soares Rodrigues, um cidadão moreno, cabelos ralos e olhar baixo, com 26 anos à época, vindo de Pinheiro. Esse dia em questão foi aquele em que o ventilador sumiu da cela de Sadam — o que foi capaz de fazer o preso jurar a morte do ladrão de sua peça um tanto quanto cobiçada . Moisés/Sadam fazia parte de um grupo supostamente conhecido como Povo da Liberdade, que era composto pelos presos advindos do interior do estado.

Estes presos, ao chegarem ao centro do sistema prisional maranhense — o complexo de tijolos amarelos que é Pedrinhas — já sabiam que havia um outro grupo a ocupar os mesmos espaços: membros de pequenas gangues de bairros da capital do estado. As gangues, capazes de se digladiar até a morte nas ruas da ilha de São Luís, acabavam por se encontrar em delegacias, na prisão do Anil, na zona oeste da capital, apesar de sua desorganização, começaram a se conhecer melhor quando postas juntas e por tempo indeterminado atrás das grades. Assim, em um cenário de violação premente de direitos humanos protagonizados por seres humanos não totalmente socializados, a lei do mais forte iria se sobrepor em algum momento.

Na prisão brasileira, esse momento-limite não demora muito a chegar. Presos do interior, mais esparsos e sem conexão, sofriam (e ainda sofrem) maus tratos por parte de presos da capital, já mais conscientes de que se era necessário se mostrar mais forte; de que isso não se era possível sozinho e que alguns presos podiam ser de confiança e outros não. Os maus tratos vindos por parte dos presidiários sempre existiram — em uma sádica competição contra os maus tratos perpetrados pelo serviço público — e este status quo permaneceu por algum tempo no Maranhão.

Esta ordem natural das coisas é quebrada em 2006, quando Sadam mata o ladrão de sua valiosa peça. Quem cai morto é Marinildo, um preso da capital. A morte de um do bando inimigo infla os egos da turma do interior, e aumenta o alerta daqueles que dominavam a área. Agora Sadam faz um segundo lobo uivar no Pátio de Pedrinhas . Já em 2007 a vítima seria Luís Augusto Costa Muniz, a quem Sadam mantinha uma rixa vinda desde que estavam presos em outra unidade. Quando se encontraram no pátio da Casa de Detenção de Pedrinhas, Sadam deu cabo em seu rival com golpes de chuço, uma espécie de arpão com uma lança na ponta.

Os presos do interior passam a se unir, acolher novos presos e influenciar os comparsas que ficaram do lado de fora. Aqueles que antes eram considerados “de segunda categoria”, como conta o promotor Pedro Lino Curvelo, em pouco tempo já tinham métodos, técnicas tão afiadas como os membros da capital. As batalhas por territórios, que passaram a ser constantes, aconteciam em terreno estranhamente aberto: Pedrinhas, apesar de seu gigantismo dentro do sistema prisional, jamais teve separação formal entre gangues, nem mesmo quando tal disputa se acentuou, no começo da década de 2010. As ameaças em grande parte das vezes transformavam-se em atos reais.

A primeira solução encontrada pelo governo Sarney filha, conforme explica Luis Antônio Câmara Pedrosa em um artigo publicado pela SMDH em 2014, é a de remanejar um número cada vez maior de presos do interior para a capital, acabou se provando nociva ad extremam, com os instintos animais afluindo cada vez mais em assaltantes, estelionatários, homicidas, latrocidas e estupradores (muitos são, ninguém jamais diz: um estuprador paga a pena com a própria vida em quase toda prisão do planeta). Então, no final da década de 2000, o governo apostou em um novo movimento compreensível até certo ponto: o envio dos presos mais perigosos de Pedrinhas para presídios de segurança máxima em outros estados. Neste grupo estava Sadam, enviado para a recém-inaugurada prisão de Rondônia.

Ao irem, estes presos voltariam com o que ninguém foi capaz de prever: conhecimento. Entrar em contato com membros do Primeiro Comando da Capital, o PCC — já naquele momento a principal organização criminosa do país e responsável por parar São Paulo em 2006 — foi como mandar os melhores funcionários de uma empresa para um workshop: a troca de experiências foi mútua e instantânea — tão instantânea que a organização que agrega a maioria dos presos do interior do Maranhão é conhecida como o PCM, ou o Primeiro Comando do Maranhão. Os presos da capital seguiram à risca o mesmo ensinamento e, quase simultaneamente, criaram o “Bonde dos Quarenta Ladrão”(sic), ou o Bonde dos Quarenta. Ambos ganharam estatuto. Em pouco tempo membros tinham de fazer pagamentos à causa maior — justamente como seu patrono bandeirante.

Bastante noticiado pelos jornais da capital maranhense, o estatuto do PCM, cuja data de fundação é de 2003, foi publicado apenas em janeiro de 2011. Conta com apenas sete mandamentos básicos:

1- Um por todos e todos por um;
2- Nunca tomar uma atitude precipitado sem antes informar o comando;
3- Nunca usar o nome do comando em vão;
4- O comando não apoia e nunca vai apoiar qualquer descriminação contra qualquer preso, sendo da capital ou do interior porque somos todos iguais perante o crime;
5- Transparência a todos os irmãos do comando;
6- Lealdade acima de tudo;
7- A traição será sujeita a morte ou exclusão do comando.

O do Bonde, sem data definida, é um pouco maior:

1 — Irmão não enrola outro irmão;
2 — Toda ação tem que ser discutida;
3 — Irmão não passa ninguém para trás;
4 — Irmão não cresce o olho no próximo;
5 — Cada irmão morto será cobrado;
6 — Todo irmão tem que fortalecer o caixa;
7 — Aquele que sair do sistema e sumir vai passar pelo conselho;
8 — Toda operação patrocinada pela família, 10% irá para o caixa da família;
9 — Nenhum irmão pode ser esquecido;
10 — O irmão que passar o caixa sem dar nada irá para o conselho;
11 — Toda droga dos irmãos será vendida entre os irmãos. Aquele que der furo sem ser preso será cobrado pela família;
12 — Todo fortalecimento a um irmão será devolvido o mesmo valor para o caixa, e uma ajuda a mais para ajudar os outros;
13 — Toda arma ou carro repassado para os irmãos será reposto assim que o irmão melhorar;
14 — Nenhum irmão matará ou ferirá outro irmão sem passar pelo conselho. O descumprimento será falta grave;
15 — Toda Torre tem que passar para os irmãos os acontecimentos;
16 — Aquele que levantar falso testemunho contra alguém pagará;
17 — Não compramos drogas de inimigo;
18 — Irmão não meche (sic) com mulher casada;
19 — Respeita todo novato e convertido para a família;
20 — Ladrão não fira ladrão (sic);
21 — Todo irmão morto terá sua família ajudada;
22 — Todo problema antes do cadastro fica para trás;
23 — Todo irmão terá que ser cadastrado com nome, apelido, e endereço;
24 — Aquele que quiser sair pagará com uma doação ou será indicado para uma operação;
25 — Aquele que muda de lado será punido com a vida; é Bonde dos 40 até o fim;
26 — Fortaleceremos todas as reivindicações da sociedade contra políticos e policiais;
27 — Aquele irmão que for escolhido para uma ação e furar passará pelo conselho;
28 — Uma vez por mês será prestado conta com as “Torres”, para que foi usado o dinheiro do caixa, e passará para todos;
29 — Irmão não rouba irmão.

O Bonde dos 40, que representa os presos da capital, tem uma imagética forte atrás das grades. Foto: Guilherme Lázaro Mendes.

Até o fim de 2010 as gangues já estavam estruturadas em verdadeiros grupos, mas isso tudo dentro das prisões, longe do foco da população. O que já era uma situação grave começou a tomar uma forma tangível em 07 fevereiro de 2011: dali até o dia seguinte, uma rebelião na Delegacia da cidade de Pinheiro, onde 97 presos dividiam 4 celas, mostrou que o líder do motim, um garoto de 18 anos de nome José Ramiro Moreira, mantinha contato direto com Moisés, apontado como o líder da nova organização. Conhecendo o PCM, a população maranhense levou de brinde seu nêmese — o Bonde dos Quarenta já tinha o controle de grande parte do tráfico de drogas na capital.

E mal sabiam eles, ludovicenses e outros conterrâneos, que dissidências ocorreriam com frequência dentro dos grupos principais, gerando novas facções prontas para agir do lado de fora dos presídios. O governo maranhense, tal como o paulista, fechou os olhos prontamente.


Aquela unidade onde o promotor começava mais um dia de vistoria era uma das cadeias dominadas pelo Bonde, assim como quase todas as outras do complexo. Apenas a Cadet é neutra, isso fruto de um esforço recente. Existem áreas neutras dentro de São Luís 1, mas não dá pra saber ao certo onde é. Melhor não perguntar.

O efetivo da operação de visita é pelo menos o dobro do dia anterior: junto ao promotor ainda está Apoliana, com a prancheta mais rápida de todo o Anil e o Bacanga. Suas notas são rápidas, concisas, práticas. Fora que sua discrição faz com que se esqueça da sua presença. O segurança particular do promotor está aqui também, fazendo corpo com a equipe de comunicação e de engenharia. Há um ou outro policial rondando a turma. Há o diretor, Anderson Brito, um homem alto e volumoso, de meia-idade e barba de alguns dias por fazer; há o chefe de disciplina, Fabiano Cavalcante, vestido como um bom militar da Rota paulista ou do Bope carioca , bastante sereno e articulado, e vários homens da Atlântica, que em termos bem sucintos podem ser lembrados como a versão maranhense da Blackwater, a agência de soldados mercenários contratada pelo governo americano.

O corredor está bastante movimentado. A cadeia parece estar construída como uma grande escola americana, vários prédios térreos ligados por um extenso corredor. Na primeira ala, um preso está compenetrado em sua atividade — no alto de uma escadinha, olhando para a parede creme, o corpo negro e musculoso escondido atrás de camisa e bonés brancos e uma máscara, ele vai escrevendo com seu pincelzinho. Está ali ENFER, aguardando o resto do MARIA em uma tinta azul escura. O comboio passa, e ele está absorto nas suas letrinhas.

Na porta do lado oposto, um preso está deitado o chão. Segundo o diretor, aquele homem, o mais perigoso da unidade, aguarda uma transferência. Enquanto isso ele está em uma cela com uma suástica na porta, a duas grades do corredor principal. Está deitado, imóvel.
A visita completa dez minutos.

E é interessante pensar que a visita tenha durado dez minutos até aqui. O tempo existe, 60 segundos são um minuto. Um minuto é um tempo que, na sociedade moderna, não pode ser perdido. Uma hora perdida é muito dinheiro perdido. Um dia pode passar rápido na companhia daquele ou daquela que você ama. Um milésimo de segundo no emprego que você odeia faz seus músculos gritarem de dor. Daqui muito tempo podemos estar mortos. Daqui pouco tempo podemos estar mortos. Para nós, acostumados ao prazos e os diferentes momentos da vida, o tempo pode assumir facetas completamente estranhas entre si.

E então o tempo some — o segurança abre um cadeado da ala de celas e, quando todos entram, estão a poucos centímetros das celas, um corredor parcamente iluminado por alguns basculantes no alto e um lá no final do corredor. As celas são escuras, sem ventilação nem iluminação. O ambiente volta a ser inerte e, na medida do que já se acostuma dentro de uma prisão, ruidoso. O tempo ali está parado.

As sete celas daquela estreita via estão com cerca de 30 presos. Em uma cela de 3x2 metros, pode se encontrar de tudo — no alto das portas da maioria costumam sair antenas improvisadas, feitas com dois cabos de vassouras em forma de cruz, com as pontas embrulhadas em papel alumínio. Algumas têm TV, outras só a carcaça. Toalhas estão estendidas para todo lado. Em uma cela um preso não esboça movimento: está sentado na cama, encurvado para a frente, seu livro repousando no seu colo e aproveitando a única fonte de luz direta sobre as páginas. Do livro pouco se sabe, mas a única coisa que é possível ler é o seu autor — Edir Macedo.

O promotor pede então para que se abra uma cela. Aqui ele apenas espera . Em segundos, todos se espremem ansiosos para entrar na cela e entender onde aquela dupla está passando uma parte significante da vida: eles são presos simples, sem muitas posses nem chances de equipar seu aposento com produtos adquiridos em visitas na Tok Stok ou algo que o valha. O improviso dita toda a estética daquele ambiente escuro que, por mais insalubre que seja, não fede . Cama há apenas uma, um colchonete sobre uma base de concreto com o lençol esticado e o travesseiro com fronha de salmos no lugar . O outro dorme em uma rede, suspensa a quase 1,6 metro do chão. Um lençol pendurado separa a cama do banheiro. Uma caixa de leite integral Tirol, dividida no meio por um corte diagonal, faz às vezes de saboneteira, pendurada numa parede onde os azulejos inferiores já caíram — nela estão duas pastas da Colgate, uma Close-up e uma escova. A carcaça de uma TV Panasonic no chão serve de base para um tubo de xampu Seda, uma caixa de manteiga com sabão e uma saboneteira. No que separa a área de convivência da área de higiene, uma pequena mureta equilibra uma garrafa d’água de meio litro, quatro potes pequenos de margarina Primor e três cebolas, uma delas já descascada.

Interior de cela no Presídio de São Luís 2, um dos alojamentos masculinos de Pedrinhas. Foto: Guilherme Lázaro Mendes.

A privada, que opera no esquema “banho turco”, semelhante ao visto na cela feminina 24 horas antes, aqui é uma peça de louça (ou os frangalhos que dela sobraram) enterrados no chão. No meio fica meia garrafa pet, de cor marrom opaca — não que ela tenha sido pintada assim, se é que dá pra ser claro — que serve como descarga. Acima jaz um cano que solta água fria. Se nem nas casas de classe média ludovicenses a água quente no chuveiro é uma unanimidade, para os presidiários que todo mundo quer ver morto, mas nem morto.

É ali onde, depois que todos saem e as fotos são tiradas, os dois presos voltam. Assim como outros no corredor, a maioria muito alheia à livros, o melhor passatempo é ficar ali sentado, na porta da cela, encarando a parede branco-imunda do outro lado do corredor, por várias horas durante o dia. Todos os dias do ano. Durante anos a fio.

O tempo ali dentro parece ser uma coisa intangível, amorfa.

É uma preciosidade difícil de ser medida — o tempo em Pedrinhas tem diversos referenciais que passam longe de relógios e segundos e horas.

Detentos no Presídio de São Luís 2. Foto: Guilherme Lázaro Mendes.

Por exemplo: na última cela, o promotor para. Atende aos pedidos de Genivaldo para ter um pouco de atenção. Genivaldo Ferreira Campos, conhecido pela alcunha Biro Biro, 36 anos e meio, está agachado, apenas de shorts, em cima de um colchão instalado no chão. Seu braço esquerdo é definido, e leva várias tatuagens de prisão, como um ramo no dorso da mão, uma cruz no bíceps e o nome EUZÉBIA só que com o Z invertido. Agachado, não mais que 60 centímetros de altura, parece inofensivo demais para lembrar o Biro Biro, condenado a 39 anos de reclusão por dois crimes de homicídio e latrocínio cometidos em sua cidade natal, Timon. Sua primeira etapa de prisão, iniciada em novembro de 2005, acabou em 8 de junho de 2010, quando não retornou ao presídio no semiaberto. Recapturado quatro meses depois, desde então Genivaldo, o Biro Biro, pai de dois garotos, Givaldo e Guilherme, tem vivido essa vida de ir para Timon e Pedrinhas, onde agora ele encara de baixo para cima a figura gigante do promotor que analisa um papel dobrado com sua vida pregressa.

Para todos que já estavam saindo do corredor (inclusive o carcereiro que já estava pra trancar a ala) a pausa desta leitura representa uma perda de tempo. Mas para o preso, cujo olhar para cima parece perdido, infantil até, o tempo parece voar. Parece, pela fala um tanto quando ritmada, implorante, cheia de senhô e dotô, que ele acredita que sua sorte vai soprar agora, soprá-lo para longe destes muros de volta a Timon, ao (quem sabe) seu antigo emprego de zelador, aos braços da mãe Rosa e o pai Antônio. Numa manhã quente de quarta-feira um homem personificando a liberdade poderia tirá-lo, com uma canetada, do Presídio de São Luís 1, onde ele completava seu 82º dia.

Mas o tempo do promotor talvez fosse muito escasso, ou talvez muito importante, ou ele pode mesmo ter esquecido a caneta em casa. Após pouco mais de 15 segundos analisando aquela folha dobrada em 8 com o histórico de Genivaldo, o promotor gentilmente devolveu o papel, soltou alguma palavra confortadora e virou-se. O segurança se foi e Apoliana também, anotando tudo. Genivaldo continuou ali, imóvel, encarando a parede, a atividade mais recompensante naquele lugar.


Em uma ala mais pra frente, por trás das grades, existem lâmpadas frias. Paredes bem pintadas. Mesas e carteiras. E presos, altos e magricelas, atrás de cadeiras, completamente subservientes para com mulheres simples. Elas são professoras de Educação de Jovens e Adultos (EJA), e eles são presos que, em alguma medida, sentem que precisam sair do buraco onde estão melhores do que entraram.

Detento escreve seu nome durante aula do EJA. Foto: Guilherme Lázaro Mendes.

Há apenas um aluno na sala quando a comitiva quebra a paz naquele pequeno salão. A professora e o oficial, à primeira vista, parecem se conhecer não é de hoje. O promotor já visitou estas salas durante bastante tempo, por diversas vezes — e em um momento a professora o leva até um mural de papel cinza-escuro onde, entre várias fotos, o promotor aparece cercado de educadores. Na mesa um aluno está sentado, comendo bolachas e escrevendo o próprio nome.

A professora parece exultante:

“Mas dotô Carlos o senhor devia mesmo ter visto o Antônio Francisco, o Ceará, que ele terminou o EJA aqui que ele está lendo e escrevendo agora.”

Aquilo captura a atenção do homem da lei.

“Poxa vida, mas que bom! E cadê ele agora?”

“Ah seu Carlos, ele não veio hoje porque ele se meteu numa briga semana passada, e foi esfaqueado. Aí ele não veio.”

Na sala ao lado, presos costuravam e enfiavam ilhoses num tecido que em breve daria vida a uma cortina.


O promotor (de costas) encara as reclamações dos detentos do Presídio de São Luís 2. Foto: Guilherme Lázaro Mendes.

O promotor sobe as rampas e lá perto do final do extenso corredor que liga as alas, vira à direita. Virar à direita, nesse caso, significa parar num cômodo exíguo, cerca de 2,5m x 2,5m, cheio de traquitanas e ventiladores dentro de sacolas. A luz desse cubículo vem das barras de ferro, que protegem a área da quadra do presídio, onde no momento 79 presos de dedicavam às mais diversas atividades.

Ele entra depois da devida conferência dos policiais mascarados e do seu segurança particular. Notando a movimentação, grande parte dos presos se amontoa nas grades. Um sobre o outro, deixam suas antigas atividades em segundo plano: ao fundo, um preso toma banho de shorts; outro usa de uma gilete para raspar o cabelo de um preso, sob os olhares de uma certa audiência; debaixo do sol escaldante, dois mais corajosos insistem em fazer flexões durante todo o tempo da visita; se aproveitando de duas traves tortamente pintadas de azul nas paredes amarelas já bem descascadas, alguns se arriscam no futebol. Mas uns 70% deles estavam agora amontoados contra uma grade, abaixo de telhas de zinco, pronto para expor reclamações contra tudo e contra todos.

Suas faces são totalmente diferentes, mas características começam a se mostrar comuns: todos tem uma tez macilenta, dura e amassada; os olhos são lânguidos e não passam algum sinal de decisão. Não se parecem com presos perigosos, estando mais para cachorros amedrontados numa zoonoses qualquer. O suor empapa as testas e as barrigas circulares de quem tem barriga. Apenas três ali são vistos de camiseta. Algo realmente os aflige muito, como se uma praga se instalasse sobre aqueles homens. A grande maioria apenas assente com a cabeça o que um ou outro fala. Mesmo com uma grade separando o corpo policial do corpo criminal, este segundo grupo parece muito mais amedrontado que o primeiro.
 
De todos ali, menos de cinco tomam a palavra. Mas a variedade e quantidade de críticas e nomes diretos é de se impressionar e causar espanto: quem começou foi um careca de camiseta ali no canto, falando alto, olhando o dotô nos olhos. A primeira crítica foi voltada à direção da Unidade , que permitia as visitas íntimas apenas no meio da quadra .

Os membros da comitiva completam seus primeiros 60 segundos dentro daquela cela — curiosamente, a cena vista por fora dá a entender que os presos sofrendo pressões de dezenas de pessoas por diversos lados são eles. Mãos gesticulam no ar. A grande maioria dos presos, como que empalhada, apenas assiste a discussão daquele senhor negro com outros negros autores da mais variada carta de crimes do estado. Em algum momento dentro daquele mar de reclamações, um preso ergue a voz para falar de ataques feitos com bala de borracha no pátio, durante as visitas.

Detento mostra marca de bala de borracha, atirada por guardas dentro do presídio. Foto: Guilherme Lázaro Mendes.

Eu não pude perguntar ao preso à minha frente o que ele aprendeu tomando a bala de borracha . Um mulatão chegou perto da grade, as tatuagens quase que sumindo no braço, e me apresentou sua marca, levantando o lado direito do shorts: uma mancha negra, um hematoma dolorido só de se ver, provavelmente impossível de se aguentar se sentido. Tomar um tiro de bala de borracha e ter de sair andando talvez mereça um curso preparatório antes. “Aqui ó”, aponta para a câmera.

Ao seu lado um preso tem as letras A-L-É-X tatuadas nos dedos da mão direita. Ele então aponta a mão esquerda, onde o dedo mínimo conta com uma ferida pequena, mas provavelmente próxima de necrosar. O dedo está dois ou três tons mais escuro que sua pele, a aparência inchada.Alega ter sido uma bala a causadora de tal cena.

Nesse momento existe, no lugar onde o primeiro ferido de bala de borracha apareceu, algo como uma fila informal: atraídos pela câmera, alguns detentos resolveram mostrar, em fila única, o que as armas não-letais das diversas tropas agentes nos presídios foram capazes de fazer: o primeiro levanta a camisa e uma marca, na lateral de sua barriga, mostra que a bala parece ter pego de raspão; outro tem algo como uma bola preta em sua costela esquerda, um hematoma muito grande; um rapaz vira as costas nuas e outra bala de raspão parece ser a cauda negra de um cometa. Um mostra o braço direito. Atrás já tem outro, no foco o seu quadril.

É impossível determinar o que eles aprenderam com isso tudo, naquele centro de reeducação regado a celas sem luz, alguns ratos e outras tantas balas de borracha.


A Apoliana estaria, naqueles dicionários ilustrados, ao lado da palavra eficiência. Uma ilustração sua, rabiscando eternamente uma prancheta enquanto rola alguma conversa próxima, seria uma boa definição para essa palavra e seus derivados.

E essa eficiência toda é ainda mais incrível quando se nota que ela é uma das duas mulheres da comitiva — a outra se tratava de Conceição Câmara, membro da área de Vigilância Sanitária . Em um lugar onde homens andavam temerosos e em nenhuma hipótese davam as costas às grades e morriam de medo do que fosse — de uma rebelião a um copo de água fervendo voando porta afora — ela parecia um tanto quanto entediada por mais uma manhã de trabalho dentro do presídio.

No dia seguinte, atrás da tela de LCD do computador em seu escritório, ela conta que nem sempre foi assim. Foi numa aula da faculdade que ela conhecei Pedrinhas pela primeira vez. A cena mais forte, ela narra com calma:

“Começaram a chorar e aí todas…Aí a gente foi para aquela parte que tava vazia, aquele pavilhão lá, do banho de sol…E eu lembro que nosso professor era o irmão do Dr. Jorge. Ele era bem alto- ele tinha uma…Aí a gente falou para os familiares ‘mas não, não se preocupe com nós não’, e nós estramos naquele pavilhão.”

O pavilhão a que Apoliana se refere é o conjunto de celas onde todos aqueles presos no banho de sol ficavam confinados. O bloco de 26 celas era pintado de branco com um azul escuro descascado ora no branco, ora num tom mais claro de azul. No centro, havia um teto vazado na laje, um retângulo de onde se era possível tomar sol, tapado por uma rede de proteção como dessas colocadas para proteger crianças em apartamentos. Nessas redes estão presos de tudo — de tubos de leite-de-rosa a linhas de roupa. Lá ao alto, duas câmeras fazem a vigilância.

No alto de todas as portas se projetam antenas de TV. Do formato V ou daquelas pirâmides, qualquer uma é encontrada aqui, quase sempre perigosamente perto de uma extensão, que leva a energia pra dentro.

O pavilhão tem demonstrações aqui e ali da facção mandante. Alguém desenhou o número 40 com uma caneta Bic azul, saindo de um caule com folhas e com a palavra respeito escrito embaixo. Os quartos aqui abertos pelos policiais tem um banho turco em melhores condições, mas faltam colchões. Os famigerados ventiladores também estão presentes, pendurados e sem grades nem proteção do motor. O ventilador está nu por razões incompreensíveis.

O ventilador que tinha causado o início da guerra de facções já tinha se ido havia muito quando Apoliana tinha entrado ali, pela primeira vez. Era ainda uma aluna de direito conhecendo o presídio para a aula de Direito Penal.

“Lembro como se fosse hoje que uma colega da gente tava assim cara a cara com ele, sabe? E eles com a mão aqui do lado de fora. Doutor Paulo foi — o homem foi rápido. Quando a gente viu, só viu ele empurrar a menina, senão ele ia pegar o pescoço dela.”


O pescoço é uma parte crucial na anatomia do presidiário maranhense. Não é possível emergir aqui qualquer comentário de natureza jung/freudiana, a suposta busca da mãe ausente na traqueia alheia, mas nenhuma outra parte do corpo humano, ali, se fez tão representado. Não são só o coração, a barriga e a cabeça as estrelas dos homicídios. Dentro de Pedrinhas, são as gogós e jugulares que protagonizam o mais vil espetáculo de barbárie humana.

Uma das decapitações mais antigas dentro do complexo prisional vem de 1997. Na verdade, essa é a mais antiga dentre as memórias de Cinthia Urbano, uma psicóloga que atua em São Luís. Além do seu trabalho habitual, ela é membro da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, responsável por prestar assistência à presos, seus parentes e familiares que por algum acaso solicitem ou precisem de acompanhamento médico e psicológico. O tom adotado por Cinthia é sempre calmo e professoral, tranquilo. Pergunto para ela, atuante na Sociedade desde 2008, se existe tortura por parte de agentes públicos nos presídios de Pedrinhas: “Aham. Demais. E, anterior à 2008, eu já encontrei arquivos organizados com denúncias de tortura, aqueles clippings de jornais que eram exatamente da década anterior”.

Ela diz que desde quando entrou para o trabalho, seu foco foi a análise de casos de tortura — e que o trabalho não foi pouco nem distante das frequentes rebeliões que ocorreram desde então. Por estar tão ligada à causa dos presos, ela sabe de como demonstrar força se faz tão necessária ali dentro, se mostrar macho. Ela então embarga um pouco a voz e relembra, um tanto quanto assustada, quando viu a cena de um detento jogando a cabeça de um companheiro de unidade para o alto, um osso do 2001 às avessas. “Aquela cena eu jamais vou esquecer”.

Nenhum presídio brasileiro é conhecido por esta marca. A maioria tem mortes, alguns até mais que este pequeno complexo vizinho da BR. O extinto Carandiru, encravado na zona norte de São Paulo, já teve mais. Romão Gomes, em Recife, recentemente roubou os holofotes de Pedrinhas por seus casos ocorrerem com mais frequência. Mas ao menos em quatro oportunidades os presídios maranhenses viram casos assim.

O segundo momento de decapitações é o mais lembrado e o primeiro repercutido mundo afora. Começou como uma rebelião num domingo de Enem, 8 de novembro de 2010, e rendeu pelo dia seguinte com um saldo inacreditável: 18 mortos, três deles decapitados. As mortes foram registradas no Anexo III do Presídio de São Luis (15) e outros três na Penitenciária. Segundo os jornais (e o artigo de Luis Antônio), os três líderes das rebeliões, Jonny Boy, Cerequinho e Diferente, já tinham fortes relações com o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, os dois mandachuvas do crime no sudeste.

Na sede de um dos principais jornais da cidade, o presidente do Sindicato dos Jornalistas do estado me mostra a capa daquele dia. O jornal “O Imparcial” funciona em um prédio bonito, um quarteirão só dele nos altos do São Francisco. Douglas Cunha, o tal presidente do sindicato, trabalha desde a era de ouro deste jornal — 1968, quando ainda eram os anos 60 do Imparcial, um jornal membro dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Hoje ele é o Imparcial, o mesmíssimo jornal de seu auge, 50 anos atrás, como que uma peça parada no tempo de tão depressiva: os seus poucos jornalistas trabalhando silenciosos, em baias, focando diretamente na tela de tubo do computador. Aqui e ali, diversos jornais jogados, mesas vazias, e uma TV ao fundo passando uma TV Mirante/Globo sem som.

Passando pelo corredor com as capas clássicas do jornal fundado em 1926, lá está ela: a foto de uma cabeça, segurada pela mão direita enluvada de um bombeiro, sobre um caixão. A imagem aqui aparece borrada, e sobre o borrão um texto alertando para a violência sem limites. Douglas explica que a violência faz parte do cenário do jornalismo do Maranhão, com uma facilidade um tanto quanto assustadora, e inclusive é parte cotidiana do imaginário da cidade. “Nem é [algo] da imprensa propriamente dito, é algo cultural da população”, afirma. “O jornal vende muito mais se tiver um morto”. O aumento da violência na cidade entre 2005 e 2015, que fez a taxa de média de mortes subir de 1 por dia para mais de 5, fez o sucesso e fama de muitos jornalistas policiais como ele. Ao menos dois jornais da ilha vivem exclusivamente disso, sendo um o Aqui Agora (no estilo do carioca Meia Hora) e o Itaqui-Bacanga . E como a morte escancarada vende demais no Maranhão, nem mesmo jornais sérios e conhecidos pela credibilidade inabalável deixam de estampar o vermelho do sangue direto na capa. Os jornais vivem das capas, as capas vivem de mortes, a morte vive aqui, essencialmente, do tráfico, e o tráfico de drogas, tão presente em toda a cidade e gerador de uma batalha entre gangues durante a luz do dia em diversos bairros, provém o macabro lucro dos midiáticos da ilha. Nos cálculos de Douglas, 4 em cada 5 homicídios na região metropolitana tem relação com o tráfico.

Naquele dia o Imparcial preferiu borrar a cabeça decepada na capa, uma foto de página dupla. O Estado do Maranhão não foi menos contido: colocou a mesma foto menor, ocupando menos de um décimo da página. Mas sem nenhuma cobertura.

Ao lado das cabeças do Estado, uma foto de um carcereiro sendo levado numa maca, em um espetacular clique de Biné Morais.


A terceira grande rebelião lembrada por Cinthia é uma em 2011, ocorrido na cidade de Pinheiro. Um pai acusado de incesto com os filhos foi uma das vítimas, que no final, segundo ela, seriam duas ou três, de uma rebelião no presídio da cidade.


E como crianças adoram histórias contadas pelos mais velhos, vamos voltar ao beiral da cama dos netinhos da vovó Sarney. Se a vovó tiver dificuldades com crianças para pegar no sono, ela facilmente poderia ajeitar o óculos e contar daquela série de rebeliões — a última série de seu governo — em que ela contou com a sua perspicácia, aliada à muita sorte, para poder virar o jogo.

Os netinhos ouviriam Roseana se lembrar de como, em 2013, ela se preparava para fechar mais um ciclo. Já faziam quatro anos que ela havia voltado ao Palácio dos Leões (Jackson Lago já era passado). O Museu dos Sarney — agora chamado Fundação da Memória Republicana Brasileira ia às mil maravilhas, com dois anos de funcionamento e R$ 8 milhões investido. O patriarca do bigode, o José de Saraminda e Marimbondos de Fogo, já havia largado a presidência do Senado e entregado ao seu correligionário Renan Calheiros, e via ao fim de dois anos o término do seu ciclo de vida pública, onde deixaria o Senado e passaria a aproveitar a vida no Maranhão pelo qual ele tanto lutou . No ano seguinte vai ter copa sim e vai ter eleição, e tudo já está mais ou menos acertado com a base do PMDB para que Edison Lobão Filho, o Edinho Lobão, se candidate pela chapa. A época é boa, a fartura que sempre se nutriu o estado continua forte — as coisas continuavam tão fartas quanto em 2010, quando o estado ficou com o segundo pior IDH do país, atrás apenas de Alagoas.

Então, nesse mar de maravilhas, irrompe a violenta fúria. Quem ele é a narradora da história vai contar mais pra frente, manter as crianças focadas e tal. Mas esse vilão é mau mesmo: começa a atacar lá dentro dos presídios de novo, aquelas masmorras emparedadas, uma nova briga entre gangues — que agora já são grupos organizados e hierarquicamente posicionados dentro e fora de Pedrinhas. Então as mortes começam a ocorrer. Só em dezembro de 2013, segundo o relatório da Secretaria de Segurança Pública do Estado, oito presos em custódia do estado morreram ali dentro. Em uma briga de facção na manhã do dia 17, mais precisamente às 9h28, Manoel Laércio dos Santos Ribeiro, Gilsoncley Rodrigues Silva, Diego Michael Silva Coelho e Irismar Pereira acabaram executados por rivais no CDP de Pedrinhas, com o uso de armas brancas; até o final do ano outros dois morreriam no Presídio São Luís (ainda um bloco só) e em janeiro outros três engrossariam a lista. Quando Sildener Pinheiro Martins, de 19 anos, foi encontrado no interior da cela 13, sem os sinais vitais, provenientes de lesões de arma branca, faltavam três dias para que Porca Preta encontrasse a família de Ana em um ônibus na periferia. E a causa da morte de ambos estava conectada, pois apenas a briga de facções dentro do presídio tirou a vida de Sildener, e apenas a eterna caçada entre as mesmas facções fez com que Porca Preta e seu bando dessem sinal para o ônibus em São José de Ribamar. Quando as coisas começaram aparentemente muito conectadas, o alarme estourou.

Estourou, mas não no Maranhão. No dia sete de janeiro de 2014, a Folha de S. Paulo publica um vídeo em seu site: recebido pelo Sindicato dos Servidores do Sistema Penitenciário do estado, mostrava Manoel, Diego e Irismar alinhados, os corpos deitados e sujos e as faces demonstrando alguma agonia — afinal, eles estavam decepadas, empilhadas sobre o tórax dos seus donos, mergulhadas em sangue. Ao fundo alguém apela “tem que ajeitar o foco”.

É hora dos Sarneys se mexerem. Roseana faz o possível e mobiliza tudo o que tem à mão — isto é, o jornal O Estado do Maranhão e os telejornais da TV Mirante. No dia 5 de janeiro, enquanto Ana Clara de alguma maneira agonizava no hospital, Roseana Sarney era capa do próprio jornal, na foto estava segurando o óculos, uma pose decidida e gesticular. O título, bem destacado, anunciava “Roseana: o Maranhão está melhor e bem-estruturado”, e um caderno especial era reservado apenas às declarações exclusivas dadas por ela ao jornal.

O que, obviamente, soou como a mais fina das ironias ainda na mesma semana, quando segurança pública e administração penitenciária entraram em colapso, se juntando assim a tantas outras áreas deficitárias no Maranhão. A crise gerada após a veiculação das fortes cenas pela Folha veio simultaneamente a uma nova onda de mortes no presídio — a maré trouxe muitas ondas quebrantes de uma vez só.

Quanto mais a vovó Roseana se esforçava, menos efeito dava. A capa do dia 7 de janeiro, dia seguinte à morte fartamente noticiada de Ana, dá apenas uma linha-fina relativo ao enterro da garota — bem menor que a chamada “Roseana diz que selvageria será punida com rigor”. O editorial, na página 4, vaticinava que “Não dá mais para conviver com tanta crueldade, e por isso o caminho mais certo é reprimi-la com mão de ferro. […] é hora de o Sistema de Segurança Pública lançar mão de todos os recursos disponíveis para sufocar a criminalidade, porque o Estado, que age em nome da sociedade, não pode ficar refém de facínoras”. Belas palavras.

No dia seguinte a onda de ataques a ônibus e de toques de recolher cada vez mais cedo prossegue. Nos dias 8 e 9 mais três homicídios ocorrem na cidade, ônibus são parados e passageiros revistados. O editorial do Estado do Maranhão do dia 9 então lembra que “No caso do Maranhão, os investimentos em logística, ao que se conclui, caminham a passos largos”.

Na mesma velocidade que boatos dão conta da onda de violência, corre à boca pequena de todo este movimento parte da oposição ao governo. Há que, já lembre do candidato derrotado das eleições de 2006, o ex-presidente da Embratur Flávio Dino.

E, de dentro do Palácio dos Leões, a governadora manda uma prova real da preocupação de seu gabinete com o agravamento dos fatos: o Pregão nº 01/2014 ganha as manchete pela busca do Governo do Estado em contratar duas empresas — uma especializada em realização de eventos e outra em cerimonial.

Anexo ao pregão vem algumas das necessidades mais prementes a serem supridas pelo Maranhão, onde as empresas deveriam preencher os preços sugeridos ao aluguel de, entre outros itens, tapetes, lustres, castiçais e cinco tipos de cardápios, que incluem whiskies, vinho (“Vinho importado de 1º qualidade”) e Champanhe (“extra brut-brut-sec-demisec”); a contratação de entradas com escondidinho de carne de sol com macaxeira, pratos principais que incluam tortas de camarão e caranguejo, além do cuchá (sic) , risoto de frutos do mar, tomates secos recheados e lagosta. Não demora muito tempo e alguns sites já comparam Sarney filha com Maria Antonieta. Pouco tempo depois a licitação foi cancelada — ao menos a parte das lagostas.

E quando Roseana, atacada por todos os lados, mostra-se acuada, poucos podem ver que sua ação é justamente a contrária. Se ela é Maria Antonieta, Maria está na verdade na porta do seu Versalhes, apenas aguardando o momento certo do contra-ataque. No dia 10 de janeiro, em uma grossa edição do seu jornal, os Sarney partem para o ataque com a capa “Estado e União se unem para solucionar a crise carcerária”, onde a primeira ação é a criação de um comitê presidido pela governadora e a última é a efetiva ação da Força Nacional de Segurança. Na página 4, o famoso editorial “O Maranhão não é Pedrinhas”, que em seu interior conclama um exagero da mídia nacional e internacional (BBC, New York Times, Le Monde, La Reppublica o Público de Lisboa, para citar alguns de fora). Não, o Maranhão não é isso:

“O Maranhão está no foco principal dos holofotes nacionais. Virou o assunto preferido das vestais da imprensa nacional, que, de repente, se voltaram para este pedaço do Nordeste, atraídas pelos problemas no Complexo Penitenciário de Pedrinhas. Nas suas análises, o Maranhão é Pedrinhas, é a ação brutal e insana de criminosos, que ocasionalmente se matam dentro do presídio e, por causa da reação dura à última chacina, tentaram intimidar o Sistema de Segurança. As vestais iluminadas da grande imprensa tentam passar para o Brasil e para o mundo a impressão de que isso é uma rotina, se esforçando para mostrar o Maranhão como uma exceção infernal comandada por um governo omisso. O Maranhão não é isso, os maranhenses e os visitantes contumazes o sabem muito bem. O Maranhão de hoje é muito, muito mesmo, melhor do que esse Maranhão pintado pelos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo e pelos comentaristas da Rede Globo. É um estado imenso — 332 mil quilômetros quadrados e quase sete milhões de habitantes -, encravado na fronteira do Nordeste com a Amazônia e premiado por um litoral magnífico, nos quais estão os Lençóis, uma das maravilhas naturais do planeta.[…]”

A partir daí, cada início de parágrafo é uma exaltação e ao, mesmo tempo, uma exibição de um plano de ação do Maranhão que, em 2014:

“[O Maranhão de hoje é o Maranhão] que luta de maneira efetiva e firme para superar a pobreza que ainda afeta alguns dos seus estratos sociais[…]”

“[O Maranhão de agora […] é o Maranhão] que vem se firmando como polo de desenvolvimento econômico regional, atraído para seu território empreendimento industriais de peso.[…]”

Exaltação esta que dura até o último trecho onde, após cinco parágrafos do que melhor existe em marketing governamental, o(s) autor(es) se entrega(m):

“É também, infelizmente, ainda, o Maranhão de Pedrinhas, de alguns bolsões de pobreza, de alguns indicadores ínfimos. Mas nenhuma dessas realidades está sendo ignoradas. E se os agressores se derem ao trabalho de investigar, encontrarão, sem maiores esforços, um estado pobre, sim, mas lutando arduamente, e já com alguns ganhos visíveis, para se tornar um estado economicamente forte e socialmente equilibrado.”

Com o principal canal de TV na mão e o jornal de maior tiragem, seria extremamente fácil para uma criança entender que o mal perdeu e que, até o fim do mês, a situação estava feliz para sempre. A capa do último Estado do mês de janeiro mostra um paciente deitado em um quarto do hospital conhecido como “Socorrão”, quando o local parece tão maltratado quanto as próprias celas de Pedrinhas. O hospital é municipal, sem relação com a governadora. O editorial então era uma saraivada contra o Sindicato dos Servidores do Sistema Penitenciário do Estado, cuja atitude de vazar o tal vídeo dos decepados à Folha de S. Paulo foi associada rapidamente à uma associação com os detentos. Não que isso fosse verdade, mas um editorial não é per se uma reportagem, e ali faltam documentos, gravações, provas do tal fato. Segundo o mesmo texto, os agentes “causavam perplexidade” ao tentar forjar provas contra o Estado. Pronto, o Estado não tem mais culpa. Tudo como dantes no castelo d’abrantes. Vida que segue.

A vida seguiu no Maranhão de Pedrinhas, de alguns bolsões de pobreza e de alguns indicadores ínfimos. E, não que fosse difícil, mas numa tarde de sábado, quase um ano depois da rebelião, foi possível encontrar uma pessoa, como tantas outras naquela terra, encruzilhada por estes mesmos três flagelos.


Parte 3. O Homem.

No mesmo dia em que Roniele desfiava as teias de sua própria e trágica história, sentada na sala verde-água do berçário da penitenciária feminina, a duzentos metros dali as portas de Pedrinhas se abrem e ele sai, encarando o asfalto da rodovia, o sol escondido mas o calor dele emanado impiedoso.

Ele, por algumas razões complicadas que nossa ansiedade poderá entender mais pra frente, não pode ter seu nome citado. Então esse homem, esta alma sebosa a cruzar a porta de um dos presídios de Pedrinhas de fora pra dentro, alguns itens em sua mão, deverá ter um nome fictício, cujo batismo fica a cargo sempre do autor da história, a pessoa que conta.

Então aqui ele será aqui chamado de josé — e será josé sarney.

Primeiramente porque “José” é um nome comum e as normas jornalísticas entendem que nomes comuns ajudam a manter o anonimato. E em segundo lugar porque, no caso específico do Maranhão, “José Sarney” é um nome pra lá de comum. Basta uma volta pelo centro da cidade para entender que o ex-presidiário j.s. será lembrado aqui sempre com minúsculas para não se confundir com as pontes, avenidas, bibliotecas, hospitais e bairros inteiros que levam o mesmo nome. E também porque ele, como quase todo conterrâneo, sempre foi e sempre será uma forçada sombra das ações do seu “homônimo” portador das maiúsculas.

As portas se fecham de novo e ali está josé sarney, liberto das paredes amarelas e grades e arroz-e-salsicha-fria que dominaram sua vida quase que por inteiro, até o último fio do seu cabelo liso e negro-graúna. Fazem sete anos que ele não vivia o lado de fora mas, depois de tanto tempo, josé não sabe se o perigo está mesmo do lado de dentro ou do lado de fora.

A vida de j.s. foi sempre cercada de lama. Seja a lama das rua onde morou, em um bairro afastado no extremo oeste da cidade, seja pelas suas escolhas, seja por onde ele passou o último quarto de sua vida. Ele, sarney, não é santo. Ele sabe e confessa, sentado em uma longa entrevista, que cometeu não apenas um crime. Ele não chega a falar em mortes, mas seu prejuízo foi grande para outras pessoas.

Com este raciocínio pessoas lotam as ruas, as seções de comentários de sites de notícias e os servidores das redes sociais para justificar nada mais que o ódio a esta raça: a daqueles que causam mal aos outros. A turma do cadeia neles defende as ações policiais mais variadas, as prisões de menores de idade e a pior pena para todos os tipos de delinquentes — do ladrão de pão ao ladrão da Petrobras. Os “justiceiros” afloram país afora.

Talvez esse comentário apenas exista devido ao fato de que nem todos conhecem como funciona uma cadeia. Exercer um comentário sobre o sistema prisional (é falho, pune pouco) é um plateau; comentar sobre um complexo penitenciário conhecido pelas suas rebeliões, violência e do conhecido descaso por parte de autoridades públicas competentes ao largo dos anos baseado em algumas visitas é uma formação diferente. Viver atrás das grades, por menor o tempo que seja, é uma terceira, completamente diferente.

Não que alguma delas mereça ser desprezada, mas deve-se, ao menos, respeitar uma hierarquia aqui. Então é por isso que, quando o homem do nome falso resolve sentar no banco de madeira, na casa de sua mãe, e contar sua história, deve-se ouvi-la por inteiro, com o devido respeito: ninguém pode duvidar das experiências por ele vividas em tantos anos de sistema prisional maranhense. E não pode se suspeitar da sua vontade, maior que tudo, de voltar a ter uma vida digna.


Encontrar josé sarney, nesses dias de liberdade, significa ter conhecido toda sua família — já que ele é um ser recluso, focado apenas em reconstruir sua vida e proteger seus dois filhos pequenos — os seus declarados amores. Para que isso ocorra, mais do que pagar sua pena, sarney precisou do apoio incondicional de duas mulheres que o representavam do lado de fora do mundo.

Já dizia o cantor americano James Brown que este é um mundo masculino — mas que ele é nada, nada, sem uma mulher ou uma garota. As duas guardiãs de josé não são garotas — ambas já chegaram à maturidade. A sua mulher, roseana sarney, aparenta ter dez ou quinze anos a mais que os atuais anos de idade. O rosto é sulcado, enrugado. Ela, que jamais trabalhou em um emprego com carteira assinada, já trabalhou, batalhou e chorou tanto nesta vida que chega a ser desumano pensá-la como uma desocupada.

E pensar no fato de roseana conhecer josé logo na escola. A vida, todos nós temos de saber, não é um colégio particular, não é (sempre) completar ensino fundamental aos 14, o médio-com-viagem-pra-Porto aos 17 e faculdade aos 21 ou 23. Nem sempre isso é possível — e com roseana assim foi: eles começaram a sair quando ela estava na sétima série, aos 20 anos de idade.

“A gente morava na mesma rua, no Vinhais”, ela começa a se explicar. A voz de roseana é fina, porém regular, não varia, não tem tons — é um novelo desfiando uma lã eternamente. “E a nossa infância foi sempre junto. Mas foi só no colégio que a gente se aproximou mais, entendeu?”

Em 2003, quando eles começaram a namorar mais seriamente, josé tinha 18 anos. O seu histórico de empregos foi proveitoso, mas nada que jamais o tirasse da região onde nasceu — o cargo mais duradouro foi relativo à pesca, com parentes, lá pros lados da Raposa. Poderia virar um grande pescador, quem sabe, mas algo além disso com certeza estava muito além no horizonte.

Se o amor que existia entre os dois no começo da relação era fugaz ou duradouro com certeza seria algo a se afirmar muito cedo. Porém já nessa época a vida de josé tinha começado a sofrer sua metamorfose definitiva: as suas experiências profissionais, como em grande parte dos empregos de baixa renda, era informal — mas cada vez mais irregular. E logo no começo do namoro o relacionamento entre roseana e josé sarney foi posto na prova de fogo.

“Não foi coisa de um mês até o josé ser preso”, relata. A afirmação dela é composta, palavra por palavra, por um certo sentimento de eu fiz a minha parte. A primeira medida tomada da parte dela foi forçá-lo a afastar-se de algumas amizades, a quem considerava o real problema dele dentro do mundo do crime. O que parece ter surtido efeito — josé não tinha cometido delitos por algum tempo. A mulher sem a qual ele não seria nada queria colocá-lo nos trilhos, e possuía algum sucesso em sua empreitada.

O que talvez os dois não esperavam era o rastro deixado pela sua ação — além dos pequenos assaltos, josé era pichador: sua grife, a assinatura personalizada, já estava espalhada pela cidade e era conhecida não apenas pela sua gangue e pelas rivais. Entra aqui então, por um canto escuro do palco (e se mantendo ali por quase todo o ato), o Velado.

O Serviço Velado, mediante uma rápida passada no Google, é aquele setor que agrupa os membros do setor de inteligência da Polícia Militar do Maranhão. Uma tropa especial, assim como é a Rota e o Bope. A prova mais visível da semelhança entre estes órgãos está não apenas nas roupas, mas no Google: os primeiros resultados para o termo indicam denúncias de tortura, maus tratos, abuso de autoridade e até mesmo formação de quadrilha. Um serviço que comete erros crassos de conduta como os dos bandidos a qual perseguem — mas que são aplaudidos firmemente por uma parte sensível da população .

O Velado já tinha olhos pra ação daquele criminoso que eles não conheciam como josé sarney, mas sim como o nome da sua grife. Com essa aproximação perigosa, josé foi se enfiando em um lamaçal cada vez maior e mais espesso. Por maiores as suas tentativas (e as de roseana) de se manterem nos locais iluminados do palco, se ele em algum momento pisasse fora da luz, a sombra o dominaria — e o Velado tornaria a sua vida um inferno. E assim foi.

Quem conta como josé pisou fora da linha é a segunda mulher da sua vida. Sentada tranquilamente, do outro lado da mesa e de frente ao gravador, está a irmã do homem. Seu nome aqui será kyola, kyola sarney.

O primeiro dia dele ela não se lembra. Primeiro ela chuta 1998, depois 1999, e depois — versão essa posteriormente confirmada pelo próprio josé, em uma terça-feira, 25 de novembro de 2003. “Ele foi preso acusado de roubar um estabelecimento comercial”, inicia a irmã, explicando que ele fez parte de um grupo que rendeu os funcionários de um entreposto de bebidas. O dono do estabelecimento comercial, nesse dia, havia feito um saque no valor de R$ 50 mil, provavelmente para o pagamento de salários e despesas. Dos R$ 50 mil (colocados no seguro), R$ 10 mil foram guardados em um cofre, arrombado pelos ladrões.

E josé nem era o mandante do crime (pelos depoimentos entende-se que este não estava na hora do roubo); não era nem o líder dos criminosos; e não tinha nenhum papel especial ali dentro. Era mais um dentro do grupo de criminosos levando os dez mil reais do cofre de uma loja de bebidas no bairro.

A sua prisão ocorreu no dia 25, por força do Velado. O primeiro contato entre os dois josé não se lembra, mas sua irmã fornece alguns detalhes: a ação dos policiais teria sido truculenta, com supostas agressões físicas e choques elétricos. O dono da adega teria supostamente acusado o roubo dos 50 mil e embolsado o dinheiro do seguro, enquanto josé era vítima de seguidas sessões de interrogatório, comandados por membros do Velado e de um certo delegado de nome Reginaldo, que comandava a delegacia na época. O foco deles era apenas um: o montante de dinheiro levado — segundo a família de josé, todo o dinheiro roubado, 10 mil, foi recuperado.

Nessa hora eu e ela estabelecemos um contato visual muito grande. E as dúvidas começaram a pousar como poeira na mesa.


São acusações gravíssimas. O gravador capta tortura. Choques elétricos. Agressões de toda natureza. Uma violação atrás da outra, cometida por um órgão do sistema público estadual que deveria prezar pelo artigo 5º da Constituição, sua peça mais famosa, que prega o direito à vida. Em quatro minutos de conversa kyola explica que seu irmão foi preso sozinho, quando havia um grupo em sua companhia; que policiais tentaram contra a vida de uma pessoa, como tantos policiais fazem todos os dias contra negros e pobres de periferia, em um ambiente fechado e sem a presença de um advogado. Não havia nada a ver com propriedade, mas todos os outros princípios básicos a que todos os brasileiros têm garantidos foram violados, segundo ela. Segundo ela.

Ficamos aqui no meio de uma trincheira de impasses. Tem essa cadeira livre aqui do meu lado, senta aqui, deixa eu te contar uma coisa: meu, não quero fazer feio, não quero contar histórias falsas logo na minha primeira grande reportagem– logo, por que eu deveria dar razão completa à opinião à esta mulher na minha frente, contando apaixonadamente e em detalhes a história de vida do seu irmão? Chega aqui mais perto, falar uma coisa ao pé-de-ouvido: ela sofreu todo tipo de problema por uma ou duas decisões erradas dele? E se ela, que sabe os meus planos aqui, quer apenas me impressionar? Será mesmo? MESMO?

São perguntas demais rodeando esta entrevista enquanto ela continua a explicar o que aconteceu naquela delegacia cujo nome ela ainda não contou.

O jornalismo se baseia na mais simples das obrigações — ouvir os dois lados. A mais simples de ser entendida é a mais difícil de ser seguida. Uma pequena amostra desta afirmação está nos jornais vespertinos especializados em sangue: a polícia mata criminosos, como se civilizado fosse para uma sociedade um ser tirar a vida do outro. Defensores mais ardorosos da corporação vão se agarrar às teses de que o bandido também não poupa o cidadão de bem, desses que vão às janelas e ruas xingar a presidente, e que a polícia tem que matar mesmo e que lugar desses calhordas que destruíram São Luís tão rápido é mesmo em Pedrinhas (ou pior). Se eu levasse em conta, ali sentado naquela sala, metade do que se diz em comentários de site de notícias, se eu levasse em conta tudo o que vim ouvindo desde o meu primeiro dia no estado, quando conversei com o Caxias lá no casarão, eu teria a reserva moral de xingá-la por meia hora.

É difícil querer levar uma única fonte a sério. Ela pode entortar o jornalista a seu bel-prazer, e este ficará refém de suas informações: essa é minha situação atrás dessa mesa. Então se faz hora de se tomar uma posição.

Se ela resolveu dar a entrevista por espontânea vontade; se essa entrevista ocorre na sede da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos; se a SMDH não apenas consente que a entrevista seja ali como também a psicóloga Cinthia, que acompanhou o caso, coloca completa fé no discurso de kyola; se o telefone da Secretaria de Segurança Pública do estado apenas chama durante três dias seguidos e, por último mas não menos importante; se dois membros da ONG Human Rights Watch estão nesse momento desembarcando no aeroporto Cunha Machado apenas para ouvir estes mesmos relatos, então será uma questão de honra encampar esta história, retirar todos os supostamente e alegam dos fatos e assumir o risco. Jamais saberemos qual é a verdade, pois essa não há — mas existem lados a serem contados. E eu, desse lado da mesa, acompanhando um depoimento ligeiramente emocionado da irmã de um criminoso confesso, já escolhi o meu.


Se trata de dar alguma voz às histórias dos mais de 4000 presos do sistema prisional de um estado que, até hoje, é lembrado como um curral de uma família chamada Sarney — mesmo que os Sarneys tenham se dispersado da política e Roseana hoje, à época em que escrevo, tenha de responder por associação nos escândalos recentes envolvendo a Petrobras. Se trata, também, de lembrar das vítimas de crimes violentos de uma região que concentra metade do efetivo policial do estado — e que não consegue controlar o limão que expele uma limonada de homicídios e latrocínios em quantidades cada vez maiores.

Quando um estado no norte, esquecido pelas capitais do sul, não recebe o mínimo auxílio desenvolvimentista, a barbárie civilizatória começa. E quando um grupo excessivamente pequeno de pessoas se aninha dos mais diversos poderes e órgãos do estado, apadrinhando amigos em contratos milionários (como o da Atlântica Segurança), o cenário passa a ser desolador. Não existe um futuro previsível para um jovem, morador de um bairro distante e pobre, de se tornar um advogado ou um engenheiro, muito menos um médico. A cantilena libertária, que advoga que “quem quer ser algo na vida batalha desde cedo para conseguir” pode até parecer eficaz, mas não é efetiva — qualquer volta por um aglomerado de barracos e não vão demorar a aparecer casos de sonhadores que tiveram de deixar seus planos para sustentar a família, cuidar da mãe, procurar entender como criar mais um filho nasceu. O Brasil, infelizmente, ainda não é a potência dos jovens empreendedores de startups e totalmente conectados à Internet — é ainda o Brasil dos jovens da enxada, daqueles que seguem a carreira dos seus pais, dos que procuram no tráfico e nos pequenos crimes uma salvação para a necessidade de bem-estar ligado ao consumo, algo inerente às suas vidas desde antes de eles mesmos adquirirem consciência. E são todos eles — a grávida, a filha, o jovem — que estão ou atrás do muro em Pedrinhas, ou expostos aos perigos de uma das, repito, três cidades mais violentas do país e uma das 15 mais do planeta. 
 
Se trata de fazer justiça. E, principalmente, de evitar novos casos como o de kyola.


De longe, se você ver os braços de kyola, pouco musculosos e um tanto murchos, vão parecer ao certo queimaduras de cigarro. Mas não são queimaduras: as manchas não são queimadas nas bordas, nem ao menos são redondas. Tem tamanhos e formas variadas, e sobem por todo o braço direito, indo pro colo do peito, passando pelo pescoço, parando em cada narina, nas têmporas e até para as orelhas.

De origem autoimune, o Lúpus é hereditário e ataca o indivíduo (4 em cada 5 vítimas são mulheres) em momento de estresse extremo. De origem desconhecida e autoimune, pode causar um leque de sintomas, que vão de úlceras às dores espalhadas pelo corpo, febre e as manchinhas. E tudo isso aconteceu em kyola, por volta de 2011, se refletindo na sua pele. A doença se alastrou sem o seu conhecimento — apenas dois anos depois de seu início foi que ela notou a companhia da enfermidade. “Foi quando eu parei de ir visitar ele que meu cabelo começou a cair”, relembra. Seu cabelo, hoje em um tom claro bastante gasto e acabado, começou a escassear em alguns pontos — ela, cabeleireira de formação, sofrendo com aquilo que ela mais tratava de evitar em suas clientes. “A revista [íntima] é bem minuciosa […] a gente tem que ficar totalmente despida, então aquilo já me incomodava. Na época eu estava toda ferida, não estava cicatrizada. Hoje em dia algumas já estão cicatrizadas, mas na época estava tudo em carne-viva”, diz. Os seus ombros marcados parecem que há muito eram fortes e retos, dignos de uma pessoa de personalidade e que a vida foi curvando cada vez mais e mais as suas clavículas.

O seu sofrimento estava ligado diretamente ao sofrimento do irmão, josé. Às seguidas sessões de tortura mantidas pelo Velado que incluíram, entre outras, o uso da técnicas como aquela de fazer amarrar o torturado numa cadeira sem o estofamento inferior, e, então iniciar a tortura com fortes agressões aos testículos. Em seu depoimento, em nenhum momento kyola sarney retirou a culpa dos crimes dos ombros de josé — assim como enumerou todas às vezes em que acorreu em auxílio do irmão, indo pessoalmente e repetidas vezes aos locais de apoio, entre eles a SMDH e o Ministério Público do Estado.

E os dias que viraram meses que se tornaram anos de estresse e crises nervosas cobraram o altíssimo preço no corpo hoje um tanto quanto abatido de kyola. Ao contrário de Roseana, esta ainda tem sua imponência, bastante abalada, mas ainda presente.

Até que um dia josé escapou. Durante os primeiros dias as coisas pareceram voltar ao lugar, mas ao fim de um mês e dois dias tudo voltou ao estado das coisas — ou seja, a agonia inquietante.

Mas acho que já é hora de parar de falar por ele e apresentá-lo, josé sarney, o pichador e assaltante que é uma amostra de tudo que existe nessa ilha — a desesperança de um futuro prometido, o medo da violência , a desigualdade latente e todos os problemas que 49 anos de governo estadual (e seus representantes municipais) não foram capazes de resolver. Para isso, na calorenta tarde de sábado, é preciso mergulhar rumo aos rincões da capital.

Olá, josé.


Antes disso, um garoto de uns quatro ou cinco anos aguarda com o que parece ser sua avó num ponto de ônibus na Avenida Jerônimo de Albuquerque, no bairro conhecido como Cohatrac, parte leste da cidade. O ponto fica de frente ao supermercado Matheus, e a uns 300m de uma maternidade com o sugestivo nome de Marly Sarney. Debaixo do sol escaldante do verão maranhense, o garoto se põe de pé, em frente ao corpo da suposta vó. Enquanto ela procura o seu ônibus que uma hora vai aparecer no horizonte, ele chupa o dedo olhando em direção a uma banquinha que vende doces e tem algumas unidades do jornal Itaqui-Bacanga exposto, presos com um pregador .

Então, junto com o ônibus que vó e neto esperavam, desce kyola. Menos abatida que no dia de nossa conversa e iluminada pelo sol, ela respira fundo e lembra que é dia de encontrar o seu irmão, josé. Este é o quinto dia em que josé se põe às ruas, mesmo que por parte do dia — seu regime agora permite que ele volte apenas às 16h para se apresentar e passar a noite em uma unidade prisional- que, ao invés do complexo de Pedrinhas, é um albergue região central da cidade.

Por algum motivo relativo ao trânsito, seguimos a pé até um lugar mais fácil para o encontro de nossa carona. No ponto de ônibus na porta do Rio Anil Shopping, onde o cheiro da pipoca se misturava ao perfume de uma senhora e um salgadinho, um táxi aparece lá longe.

“Olha lá, são eles ali esperando a gente. Vamos lá”, pediu kyola, e entramos no táxi, vidros fechados e ar condicionado uns dez graus menor do que o lado de fora.

Do lado de dentro, além do táxista, estavam os dois membros da Human Rights Watch (HRW) enviados para analisar e entrevistar envolvidos em casos de tortura nos presídios do estado. Em dezembro de 2013, antes que toda a poeira relativa às rebeliões de Pedrinhas começasse a subir, a Organização dos Estados Americanos (OEA) ainda deferisse uma medida cautelar proferida pela OAB do estado contra o governo, solicitando proteção para todos os ameaçados diretamente com os eventos de Pedrinhas e diminuição da superlotação do presídio. A medida não foi seguida, os casos de mortes e torturas tiveram um novo e mais incrível salto, e isso acendeu o alarme em diversas organizações de direitos humanos.

A HRW aqui no Maranhão estava representada por Cesar Muñoz Acebes, um espanhol de português bem desenvolvido que, além de jornalista com passagens pela agência EFE e CNN, agora era pesquisador sênior da organização no Brasil; e um homenzarrão meio calvo que quase não coube no carro e que se tratava de Daniel Wilkinson, diretor para as Américas da organização. Junto aos dois e ao táxista, fomos eu e kyola tomando primeiro a avenida São Luís Rei de França e seu trânsito pesado na região de semáforos, indo até a Avenida dos Holandeses e então indo embora, por paisagens não tão urbanas e com uma bacabeira ou um matagal no lugar de uma casa.

Quando nos demos conta, o carro estava passando por uma lombada de cimento, dessas que os próprios moradores fazem para evitar o excesso de velocidade; e então mais pra frente o asfalto acaba e o carro por pouco não para dentro de uma vala de quase metade do seu tamanho. Um ônibus à nossa frente joga uma nuvem de poeira laranja-escuro para o alto, dando a sensação que entre aquelas casas de pau a pique e as igrejas térreas e os coqueiros carregados estão no meio de uma tempestade de areia.

A poeira vinda da rua e se chocando contra o para-brisa é grossa, pesada, realmente forte. Mas o motorista segue por aquela avenida, vira à esquerda e quando apenas ele é o carro na rua levantando um spray esfumaçado, kyola aponta alguma casa à esquerda: “É ali, pode parar aqui mesmo ó”.

A poeira baixa. As portas são abertas e o ar quente engalfinha a todos como um velho amigo.

Sentado ali, brincando com uma linda garotinha de uns cinco anos e cabelo de índia, está josé. Aquela deve ser sua filha — dentro daquele terreno coexistem pelo menos três casas, e pra lá e pra cá estão correndo outras incontáveis crianças, por debaixo de coqueiros e varais de arame segurados com bambu. Mas apenas essa criança tem o mesmo tipo de cabelo de josé — um fio negro e liso, no caso dele muito bem cortado e repartido.

No meio dessa área comum há uma mesa de madeira, e um banco do mesmo material. Sentamo-nos. E josé começa a reviver tudo.


Naquela noite, a trigésima-terceira depois da sua fuga do Centro de Custódia de Presos do bairro do Anil, na própria capital, josé estava na casa de um parente. Além das tradicionais torturas, os quatro anos cumpridos de pena por ele, não apenas no CCPJ do Anil como em diversas outras delegacias e pontos de custódia eram cercados de violência, não apenas contra ele mas contra todos ao redor. Brigas entre detentos sempre geraram números para as estatísticas (segundo a Secretaria de Segurança Pública, o último antes do fechamento deste livro foi João Francisco Diniz Ferreira, 25, de causa desconhecida). E também a violência entre os policiais do Velado contra ele, jamais interrompida, o pôs na decisão de fugir.

Então, às quatro da manhã, ocorre o reencontro entre as forças policiais e ele, cercado de familiares. Todos da família sofrem agressões — o seu primo e a tia, que recentemente tinha sido operada do coração, não são poupados. A sua mulher, roseana, estava no local e apenas não é algemada pois josé mente ao negar conhecê-la.

O pedido do Velado, argumenta josé, era incisivo. “Eles queriam saber: ‘cadê a pistola?’”, explica; o fato de tentar explicar estar desarmado irritou os policiais mais e mais — foi quando um do bando sugeriu:

“Vamo levar ele pro mato”

E lá foram eles pro mato, uma tática tão comum e conhecida pelas forças especais de segurança Brasil afora. Três horas depois, sol já de pé, a tortura acaba. Nove horas da manhã e só então josé é apresentado na Delegacia de Polícia do bairro Cidade Olímpica. Sangra por nariz, orelhas, boca. Hematomas ao redor do corpo. Durante horas, ele ficaria jogado em uma cela, deitado em uma poça sobre suas próprias secreções.

Apenas no dia seguinte ele seria levado, sob custódia, ao hospital Socorrão. Logo no primeiro dia, preso às grades da cama, a realidade parecia voltar à situação rotineira: os mesmos sargentos que o agrediram passavam rotineiramente para ameaçá-lo.

Não que, quando ele tivesse voltado ao CCPJ do Anil, tivesse havido aí um grande intervalo de tempo. Depois de 33 dias na rua (e 20 internado no hospital devido às múltiplas lesões e fraturas provocadas pela tortura ). Mas aqueles anos após o sumiço do ventilador de Sadam já não eram mais os mesmos.


As duas facções… Antes de surgirem as duas facções eu já me encontrava lá. Aí começaram a formar as facções eu já estava lá no meio. Só que o fato de eu não querer participar de certas coisas que eu via lá — roubo, assalto, morte -, muitas pessoas chegaram até a morrer sendo inocentes lá”.

César assente com a cabeça. Aquele caso não seria o único que ele encontraria, no Maranhão, de presos forçados a se unir a uma gangue. O acordo feito dentro de uma prisão é simples e não precisa de muito fundamento: normalmente um neófito não sabe como se portar.

Vamos lá, mais um exemplo: em um exemplo fictício de um garoto de 18 anos recém-chegado em Pedrinhas por tráfico de drogas, dá até pra imaginar, já tem algum conhecimento sobre grupos e gangues — algo bem diferente de conviver com eles diuturnamente, sob ameaças de chuçadas e morte por outras tantas formas. Esse cenário funciona como meio de coação natural, e a não-afiliação de um detento a uma das organizações pode dar a ele o mesmo fim que Manoel, Diego e Irismar, os rapazes decapitados em Pedrinhas; ou então os destinos ameaçados a tantas e tantas mulheres de presos feitos pelos chefes de pavilhão. “Presos provisórios são comumente colocados nas mesmas celas que condenados por crimes graves, uma flagrante violação dos padrões internacionais. Em lugares como Pedrinhas, os recém-chegados sofrem intensa pressão para se associarem a facções criminosas e, assim, garantirem sua própria segurança”, afirmou César em editorial publicado no jornal O Globo, no mês de abril.

Ainda é incrível entender que obsessão por se manter livre pós-prisão que manteve a postura de josé tão inflexível dentro da cadeia. A começar pela recusa em se juntar ao P.C.M. e ao Bonde dos Quarenta ou a qualquer outra facção. Sua situação política dentro da cadeia já estava visivelmente complicada por causa desta decisão, e nada como a ajuda de bons amigos de trás da escrivaninha para melhorar as coisas.

À primeira vista, os diretores de Pedrinhas durante o ano de 2015 são homens e mulheres sérios, compenetrados e um tanto quanto receptivos às demandas dos presos. Óbvio que todas estas anotações são feitas enquanto a visita ocorre ao lado de um promotor do Ministério Público, e mesmo a receptividade é vista pelos presos com um sorrisinho irônico, desses de canto de boca, indicando que a benesse da visita só ocorre por causa da chegadado superior do superior. Diretores não têm de ser bonzinhos com seus presos — têm apenas de fazê-los cumprir as penas.
 Porém dois diretores de Pedrinhas ficam na memória de j.s.. Jonas em 2009 e alguém que ele chama de “Dove”, em 2013. Em comum, apenas a característica de colocar presos em alas rivais, provocando mortes. Depois de ouvir (e ter confirmado em outras fontes) esse fato, fica difícil confiar nas tabelas da Secretaria de Segurança, que credita quase todas as mortes em sua custódia às “Brigas de facção”.

Mesmo não fazendo parte de nenhum dos lados, respondendo a 8 processos, josé passou por isso. A maior tensão ocorreu em 2010, quando o diretor Jocerlan resolveu juntá-lo a outros dois presos numa transferência de cela. Jocerlan, afirma o ex-detento, era diretor do CCPJ do Anil durante sua fuga, sendo que ambos se reencontraram aqui novamente, às margens da BR.

Apesar da neutralidade, josé se encontrava entre os membros do Bonde, sofrendo constantes ameaças. Então ele e a outra dupla, sem alardes, foram transferidos para o pavilhão dos presos do P.C.M. e ali deixados à própria sorte. Poderiam ser deles as cabeças sendo carregadas por bombeiros que estrelariam a capa do jornal do dia seguinte. Podiam ser eles a ocuparem duas linhas de um relatório mensal de quase 30 páginas que a Secretaria atualiza todo dia, quem sabe incluindo as palavras “briga de facção” logo após alguns dados preliminares da causa mortis.

A primeira solução foi, segundo ele, tentada à exaustão: o diálogo reto com o diretor da cadeia. “Mas ali não tem como, porque reclamar é visto como conspiração”, tenta explicar. Qualquer ato perpetrado pelos apenados pode ser visto como conspiração contra o sistema, sendo que ninguém precisa de uma inteligência acima da média para isso. Ele mesmo acredita que assim foi entendido quando ele moveu ações penais por agressão e torturas alguns anos atrás.

Mas, naquele dia em que foram jogados no pavilhão com os presos inimigos, definitivamente não foi isso o que passou pela cabeça dos três. Sentindo o perigo de uma morte iminente (em um presídio com recordes de violência isso é bem comum), em apenas 24h ali e com uma facilidade até hoje não explicada, os três arquitetaram a fuga. Quebram a porta, abriram um buraco na grade e fogem. Essa segunda fuga de josé para a vida não é para a liberdade, e sim para o meio do pátio, apenas para fugir de uma morte que estaria a caminho por parte dos membros do P.C.M . Após a quebra das grades, todos permaneceram ali, no meio do pavilhão do Presídio de Pedrinhas. Em pouco tempo a tropa de choque encosta e, mesmo sem oferecer resistência, todos foram agredidos.

A lei da prisão é muito mais dura do que qualquer Código Penal regente; suas bordas são porosas, tênues, inclusivas; e a pena, que pode vir de qualquer lado, não ajuda, necessariamente, a reeducar um interno. Isso tudo em um estado conhecido pela força e coragem de seus homens, onde crimes ainda se resolvem na faca e na bala. O sul do estado conheceu Júlio Santana, um assassino de aluguel responsável por 492 mortes , e a capital conheceu a mais violenta guerra de facções do país, tão violenta que conseguiu abriu espaço para dissidências ainda mais violentas, como a Anjos da Morte ou a Mensageiros do Inferno .

Cesar pergunta então qual foi a pior agressão que ele sofreu em todos os doze anos de sistema prisional. Ali então josé vai fundo na memória e recorda, em detalhes muito vivos para uma ficção, de um dia em 2009 sobre quando membros do Grupo Especial de Operações Penitenciárias (os Geop’s), fizeram uma visitinha à sua cela. Se encontraram ou deixaram de encontrar algo na cela, josé não revela (proposital ou ingenuamente), mas suponhamos que ali tenha sido encontrado algo, como uma faca ou um celular. Sem ir atrás da opinião de um jurista ou advogado, é fácil imaginar que um caso deste seja resolvido, em uma sociedade civilizada, com a extensão da pena do condenado relativo ao segundo crime — posse de arma ou de celular em cadeia — com um agravante de já ser um reincidente julgado. Ao menos isso seria a lógica de uma justiça coerente.

Diferente da justiça da cadeia, que deixou a sua lógica marcada numa cicatriz na sua testa. Algemado e de frente à porta, foi empurrado em direção à grade. Rios de sangue desciam sobre testa e sobrancelha, mas ele não lembra se desmaiou ou não. Era o sétimo ano dele dentro do sistema carcerário, cercado de ameaças por polícias, diretores e por membros de facções variadas. Ele não demonstra mais medo em sua fala — há algo muito estranho no seu discurso. As denúncias que ele faz contra diretores que facilitavam mortes (como outros presos em São Luís I me garantiram), agentes e tropas de choque que praticavam atos truculentos dentro do presídio (como as marcas de balas de borracha retratadas puderam provar) e detentos que ameaçam todos ao seu redor (a atmosfera de insegurança sempre presente não apenas dentro mas fora do presídio), enfim, todo o seu relato carecia de persuasão. Ele parecia não estar realmente interessado em saber se quem ouvisse aquela história iria acreditar no que ele dizia. Todos sentados naquele banco, tomando suco de murici e sentindo a forte ventania bater sobre coqueiros e varais, levantando um bocado de areia do chão enquanto uma criança ou outra passava de motoca pelo pátio. Ele simplesmente não se importa se estão acreditando no que diz ou não.

Se ele perdeu a fé na vida depois de tudo isso, é outra coisa. Essa é a história de josé sarney, da sua irmã que ainda consegue sustentar seu emprego e da sua mulher, que só se sustenta à base de Pondera e, mais frequente, Valerian — dois calmantes em cápsulas.

Doze anos dentro das grades parecem ter tornado j.s. inerte a quaisquer emoções.

Prisão é esquecimento.

Enquanto eles estão lá dentro, ninguém mais se importa. Marcola está preso em Presidente Venceslau, interior de São Paulo, e Fernandinho Beira Mar está desde 2012 em uma prisão de segurança máxima em Rondônia, cumprindo 80 anos de pena. Mas eles podem ficar lá para sempre, que poucos se lembrarão deles em rodas de domino é conversas de botequim.
 
Prisão é esquecimento.

As portas do albergue se fecham e o táxi volta a rodar. Para dentro daquelas portas se foi josé passar mais uma noite da sua pena de regime aberto. Seus primeiros dias na rua em sido muito mais complicados do que ele esperava que pudessem ser. Para começo, sua localização (e, assim como deu para notar, seu nome) tem de permanecer em anonimato pela cidade, já que ele e sua família, com o apoio da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, conseguiram efetivos avanços em relação às penas por ele cumpridas e em relação aos policiais acusados de tortura e maus tratos. Isso, claro, deixou tanta gente puta da vida que é melhor não brincar com a sorte.

Como grande parte do sistema prisional do Maranhão, j.s. ainda espera pelo julgamento de outros crimes. Ele respondia, à época de nossas conversas, a 12 processos. Quatro deles ele confirmou autoria, sendo condenado por tais. Outros quatro ele negava autoria, sendo também condenado. Mais quatro corriam em aberto, sem julgamento, que ele negava envolvimento.

Ele alega que estes oito as quais não reconhece ação foram assaltos e pequenos delitos ocorridos durante o período em que esteve foragido, e que a polícia, por ordem do Velado, associou seu nome aos crimes nos boletins de ocorrência. Ao menos em dois momentos diferentes da entrevista, josé se lembra de um caso, relativo ao roubo de celular, que ele nega — e na qual responde por dois processos simultaneamente. Um roubo, duas penas.
 
A sua família tentava, à época, realocá-lo em algum emprego, longe da história de pesca que ele se meteu quando era adolescente. Porém faltavam documentos que provassem sua pena em liberdade, ao mesmo tempo em que advogados ligavam com pedidos de pagamentos estranhos no celular de kyola. Ela já não sabia o que fazer, e a semana em que viu o seu irmão livre pela força da lei, a primeira em doze anos, foi uma das mais preocupantes de sua vida.

A família jamais atendeu às minhas ligações novamente.

Prisão é esquecimento.

Existe, na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, casos e casos relativos ao chamado “Direito de Esquecimento”. É o questionamento da vítima ou de seus familiares contra a veiculação de algo já esquecido pela sociedade. A Xuxa mesmo tinha um desses rodando pelo por lá. Se trata de dar ao requerente o direito de saber se ele merece passar por tudo de novo — um assassino merece ser lembrado por um crime cuja pena já foi paga, ou uma apresentadora de TV merece ser lembrada por um vídeo pornô feito lá na sua juventude.

Isso tudo passa à cabeça quando escrevo sobre josé. Sua pena por ser mandante em um assalto já foi paga. As penas relativas aos outros assaltos, idem, e ele não diz ter mais medo de voltar a ser preso. Tudo o que quer, segundo ele, é estar próximo dos filhos e da família. José parece mesmo ter aprendido a lição, mas os policiais que jamais se deram por satisfeitos na investigação do caso vão continuar como a sua sombra, perseguindo-o pela cidade e por aonde for, atrás de algo que nem ele sabe ao certo o que é.

Prisão é esquecimento.

O governo se esqueceu de Pedrinhas. A penitenciária, o setor mais antigo do complexo, fundado em 1965 por Newton Bello, está acabado. O mato cresce dentro de cômodos já sem telhas, as paredes brancas ruindo lentamente. Lá do outro lado, se apoiado em grades tão bambas quanto as paredes, estão dois presos, olhares perdidos, desligados. Um guarda da Atlântica faz a retaguarda.

“Doutor, por favor”, interpela um dos encarcerados ao promotor, “queria que o senhor desse uma olhada nessa questão da visita, entendeu? A gente, pra receber visita no pavilhão, não tem estrutura, e aí tem visita e fica tudo misturado, entendeu?” o promotor apenas segue com a cabeça. “Dá problema de gangue e tal. Essa semana uma mulher até passou mal aqui. O senhor viu o tamanho que é aquele pavilhãozinho ali.”

O promotor, como deu a entender, pouco pode fazer na hora. O relatório produzido pelo MP/MA sobre a visita (que obviamente passou pelas anotações de Apoliana) poderá fazer mais — mas é improvável. Ou então ele pode aconselhar que as visitas sejam realocadas ao único local ventilado, limpo e ainda resistente de todo o complexo prisional: a casa de oração, uma igreja estilo pentecostal com ladrilhos azuis construída dentro do terreno da prisão, que se mantém aberta, fileiras de bancos limpas e um púlpito em madeiras escura, pronta para o pastor — que parece que há muito não vem, já que ela está vazia e do seu interior ecoa música gospel quase que o tempo todo.

A biblioteca também está de pé, é um prédio lindíssimo em formato de farol, mas o diretor informou que está fechada faz é algum tempo mesmo.

Ali longe, perto do portão de entrada, está sentado um preso no chão, bastante tranquilo, tomando um ar. O promotor troca algumas palavras com ele, papo-furado mesmo, e se dirige à sala do diretor, onde fica cerca de quinze minutos em reunião privada.

Ao voltar ao mesmo lugar da conversa, um dos membros da comitiva espirra sucessivamente. Dou risada desta pessoa até que eu mesmo começo a espirrar e, então, coçar os olhos brutalmente. Aí é que se sente o gás de pimenta tomando um pátio inteiro, aquela sensação deliciosa de vias fechadas e ardendo. O preso agora está lá ao longe sendo levado pelos policiais. Não mais o veremos. Se não fosse pelo gás, o teria esquecido fácil.

Prisão é esquecimento.

Vocês podem achar que eu me esqueci, mas quem pode ter se esquecido são vocês. Roniele Costa Moura, 25, presa em Pedrinhas com a sua mãe. Mas quem a esquece, na verdade, somos nós, do lado de fora: pense em quando tempo do seu dia é dedicado a se importar com presos que foram pegos com uma trouxinha de maconha como a sua (ou que foram pegos com a trouxinha de maconha que iria ser comprada por você); pense em como é morar, com menos de 25 anos, em um ambiente onde paredes são REALMENTE pintadas com sangue, onde ratos correm pra lá e pra cá e sua comida se tratará, todo dia pelos próximos anos, de um arroz que se assemelha a uma papa com duas salsichas frias dispostas em linhas paralelas.

Pense nas razões que levaram Roniele ali. Sua mãe, cega de diabetes, precisava de uma cirurgia no hospital dos olhos de Teresina. De sua casa até o hospital, uma viagem de 260km separaria a mãe da visão novamente.

Pense no custo desta cirurgia: dois mil reais. Um dinheiro que em São Paulo não serve para passar o mês, na capital do Maranhão pode pagar até quatro meses de aluguel de um bom imóvel. E em Bacabal, cidade do interior, era uma quantia assombrosa para aquela trabalhadora de casa de família, mãe de três filhos e grávida do quarto.

Ao contrário dos amigos de Isaque, Roniele não entrou no tráfico por roupas melhores ou por uma fuga consumista dentro de uma perspectiva mediana: quem seguiu este caminho foram os irmãos, Ronilde, 26 anos, e Ronaldo Costa Moura, 23 anos, conhecido na cidade como “Perninha”. Eles sim trabalhavam como bons pedreiros, mantendo a casa, na rua Beira-mar, no bairro de Altamiro Paiva, próximo ao centro de Bacabal, como um ponto de venda de drogas.

Isso no dia 2 de dezembro de 2014, quando a Polícia do Maranhão fez o seu trabalho e, às 14h, efetuou uma batida no local. Foram presos Ronilde, Ronaldo, um menor das iniciais M.C.S., e Emanuela, que não estava relacionada ao tráfico mas estava de posse das drogas.

Segundo o relatório da PM publicado em sites locais, a polícia encontrou no local 2 (duas) pedras aparentando ser crack; 30 (trinta) cabeças de uma substância que aparenta ser crack; 27 (vinte e sete) relógios diversos; 01 (uma) faca e 02 (dois) facões e uma incrível quantidade de bugigangas que não se é possível entender o proquê da polícia ter levado tudo — de câmeras a chapinhas de cabelo.

Uma carta anônima mandada ao autor do blog sergiomatias.blogspot dava uma voz à prisão de Roniele. A carta, ao que tudo indica escrita por alguém próxima da família e especialmente de Roniele, conta que, ao não conseguir pagar a cirurgia da mãe doente, ela teria se incluído como uma das operadoras do esquema apenas na intenção de não deixá-la desamparada na prisão — e isso ela também me disse em seu depoimento. A arte imita a vida — e versão real do que acontece no seriado Prision Break é estarrecedora.

Durante meus contatos nos meses subsequentes, jamais tive o retorno sobre onde estaria e como estariam Roniele e sua mãe. Talvez elas ficassem ali na Penitenciária Feminina pouco tempo. Ou quem sabe liberadas. Ou, então, enclausuradas ali dentro, para sempre.

Pense no quão comum isso é. Quantas Ronieles estão para lá das grades, em nome da sua segurança e da própria desgraça. Quantas delas podem estar por lá.

Esquecidas.