Vozes do interior: a presença de jovens no poder legislativo municipal

Conheça jovens vereadores que estão propondo a construção de uma nova política.

A inserção da juventude nos debates e nas instituições políticas é um dos desafios da democracia em todo o mundo. No Brasil, essa questão ganhou destaque com as manifestações de junho de 2013, quando milhares de pessoas, na maioria jovens, foram às ruas lutar por uma causa, o que há muito não se via. Por outro lado, escuta-se que os jovens não se interessam ou não participam de questões políticas.

Nova Pádua, localizada na serra gaúcha, lidera o ranking de jovens eleitos em 2016, com 3 vereadores de 20 anos ocupando cadeiras na Câmara da cidade.

Sem nenhum vínculo familiar político, Maico Morandi, eleito pelo Partido Progressista (PP), decidiu colocar seu nome à disposição em 2016, por conta dos escândalos de corrupção posteriores ao ano de 2015. Contou com apoio de seus familiares e de seu partido e, a partir de uma campanha realista, sem promessas, Morandi deixou claro a importância de uma renovação na política. “Isso que fez com que o povo confiasse tanto em mim”, afirma.

A inserção dos jovens de apenas 20 anos surpreendeu aqueles que estão há pelo menos 20 anos legislando. No início, Morandi sentiu-se deixado de lado pelos colegas mais velhos, o que não foi impedimento para se dedicar a seus projetos.

Apesar de perceber que os jovens estão mais participativos no cenário político, principalmente nos menores municípios, Maico nota que ainda há pouco interesse. “Acredito que seja compreensível, visto a imagem que um político passa para o país”, justifica.

“Posso dizer que tenho orgulho de ser brasileiro, mas por muitas vezes, tenho vergonha de dizer que estou inserido nessa classe de políticos”

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do total de 496.896 candidatos às eleições de 2016, apenas 2.405 (0,48%) tinham menos de 20 anos. No Rio Grande do Sul, dos 28.849 candidatos, apenas 117 (0,41%) tinham menos de 20 anos. Destes, só 7 se elegeram. Entre os candidatos com idade entre 20 e 24 anos o número é um pouco maior, mas ainda sim pequeno perto dos candidatos com mais idade.


Após as eleições de 2014, Leonardo Braga, indignado com a situação do país, começou a desabafar nas redes sociais. O efeito foi natural: várias pessoas começaram a compartilhar e a seguir o garoto, que percebeu que a indignação não era exclusivamente sua. No mesmo período, Leonardo trabalhava em uma empresa familiar emitindo notas fiscais, que o fez perceber o quanto se pagava - e ainda paga - de impostos. Sua dupla indignação fez crescer a vontade de participar de forma mais ativa do sistema político.

“ A crise teve esse lado bom: despertou no jovem o interesse pela política. E não digo só de forma partidária, mas como cidadão mesmo, acompanhando o trabalho dos parlamentares e emitindo opiniões. Isso é muito bom”.

Hoje, aos 23 anos, Leonardo é vereador da cidade de Sapiranga, pelo PSDB, e vice-presidente da Câmara do município. Quando questionado a respeito da polarização do nosso país e o que pode ser feito, responde:

“Ser uma pessoa ponderada é o melhor forma de exercer política. É necessário saber ver os dois lados, interpretar, dialogar e depois e emitir uma opinião, tomar uma decisão. O que vemos hoje é um mix de demagogia, politicagem e briga por interesses particulares”.

Sempre participativa na comunidade onde vive desde muito jovem, a vereadora de Nova Pádua, Jéssica Boniatti também está no time dos jovens eleitos com menos de 20 anos no Rio Grande do Sul. Sem muita intenção, chegou a coordenar, ainda na escola, debates relacionados à política, pesquisando e adotando posicionamentos, além de participar do projeto “Vereador Júnior”.

O fato da política estar totalmente atrelada a escândalos, descalabros administrativos e burocracia exagerada distancia as pessoas, especialmente, os mais novos.

“Os jovens precisam ser motivados a partir de exemplos de histórias construídas com decência e princípios éticos e, acima de tudo, precisam de oportunidade”, destaca Jéssica.

Em Santo Antônio da Patrulha, região metropolitana de Porto Alegre, os vereadores mais votados foram os mais jovens entre os candidatos na última eleição. Rodrigo Massulo, eleito com 1.637, obteve o título de vereador mais votado e também o mais jovem desta legislatura. “Essa vitória é um recado da população de que a renovação veio para ficar”, comenta o vereador de 28 anos.

Hoje, as redes sociais possibilitam uma outra forma legítima de participação no processo político. Como forma de tentar alcançar outros jovens, Massulo tem procurado fazer seu mandato de forma muito transparente, sobretudo, pelas redes sociais, com o objetivo de alcançar a juventude presente nesse meio.

Otimista em relação aos próximos quatro anos, o patrulhense espera que a política deixe de ser um balcão de negócio, principalmente em Brasília, e que seja de fato aquilo a que se propõe na sua origem, que é servir.

“Rubem Alves dizia que a política é a arte de administrar o sonho dos outros. Infelizmente, os políticos administram seu próprios sonhos (…) Mas espero que a política melhore, que mais gente do bem se envolva. Não podemos mais ficar ouvindo o grito dos maus na política.”

Cientes de que as grandes mudanças não acontecem da noite para o dia, esses 4 vereadores vão, aos poucos, construído uma política baseada em novos valores. É preciso entender que a política deveria ter sido sempre uma só: o que, de fato, deve ser. O que não se pode crer ser normal ou relacionar com o conceito de política é o que o Brasil vive atualmente.

E você? Que política você quer?