Foto: Fernando Capellato no Retiro de homens no Terra Luminous

Em busca de novas referências

Lucas foi criado pela sua mãe.

Seu pai a abandonou um pouco antes dele nascer. Cresceu com sua mãe, suas tias e sua avó.

Numa das rodas de conversas do nosso encontro, relatou como a ausência do pai o fez desenvolver uma energia feminina muito mais forte que sua energia masculina. Ele na verdade nem sabia direito o que era ser homem porque nunca teve referência.

Isso o fazia ter dificuldade em tomar iniciativa, ser proativo, fazer escolhas ou mesmo dizer não.

Ao escutar sua história, imaginei então que todos os outros homens que tiveram a presença do pai então fossem privilegiados por terem uma figura masculina de referência.

Mas aí ouvi outras histórias.

Ouvi a história do Pedro, que foi criado por um pai machista e violento.
Seu pai era tão agressivo que ele desenvolveu uma aversão aos homens. E assim, desde criança, ele não conseguia fazer amigos homens. Só conseguia andar com mulheres, porque associou o masculino a violência e agressividade.

Conheci a história do Marcelo, que vinha de uma família com o pai sensível e a mãe trabalhadora. Era a mãe que sustentava a casa financeiramente. E ele cresceu achando que seu pai não era tão homem quanto os pais de seus amigos que trabalhavam e ganhavam muito dinheiro. Seu pai, inclusive viveu muitos anos em depressão, o que contribuiu para sua visão de que seu pai não era um exemplo.

O pai do André trabalhava muito e o ensinou que é isso que um homem tem que fazer. O tio do Felipe era sua referência. Homem justo. Sustentava a família e ajudava os irmãos. Quando seu primo decidiu ser músico, seu tio não o apoiou. Disse que ser músico não era trabalho.

Há alguns meses comecei trabalhos de autoconhecimento com homens. Tive o privilégio de escutar dezenas de histórias como essas que descrevi. E a cada história, percebi uma questão presente na nossa sociedade. A ausência de referências de masculino saudável.

A ausência do homem sábio. Daquele que sabe o que é ser homem de verdade. Que consegue trabalhar, materializar, cuidar dos outros e ao mesmo tempo sabe honrar mulheres, ser sensível e valorizar a arte. Daquele homem que consegue se conectar e aprender com a natureza, que respeita os ciclos.

Nós aprendemos com nossos pais, que aprenderam com nossos avós, que aprenderam com nossos bisavós e desde não sei quando, nós aprendemos que homem tem um jeito certo de se comportar. Algumas vezes aprendemos porque nos dissemos, outras vezes aprendemos apenas porque observamos como os homens adultos faziam.

E assim seguimos replicando um modelo padrão daquilo que acreditamos ser homem.

E ao ouvir tantas histórias como essas, ao perceber a falta de clareza que temos do que de fato siginifica ser homem, sentimos a necessidade de buscar novas referências.

E é por isso que estamos começando esse movimento.

Queremos dar espaço para novas referências de masculino. Queremos compartilhar histórias de homens que vivem diferente. Que tiveram coragem de seguir um caminho diferente, uma profissão diferente, que sabem expressar suas emoções, que tratam as mulheres de forma diferente, que deixam seus filhos serem quem são.

Talvez a gente não consiga encontrar o homem que faz tudo isso. Mas cada homem guarda uma peça do nosso quebra-cabeças. E contando essas histórias, podemos mostrar que não existe um único padrão do homem perfeito. Mas que existem milhares de tipos de homens diferentes que devem ser valorizados, que podem ser referência e que não são menos homens que nenhum outro.

Porque nenhum homem precisa provar que é homem. O homem é homem porque nasceu homem.


Texto dedicado ao meu pai, minha referência de masculino e que me deu espaço para eu ser quem eu sou…


Todos os nomes são fictícios (para preservar a identididade) mas as histórias são reais


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