Todo dia uma torneira quebra.

Quando eu era criança, tinha a mania quase incessante de acompanhar meu pai quando ele ia consertar alguma coisa lá em casa. Seja um chuveiro queimado, uma geladeira com porta quebrada, o motor de um carro, o mal contato nos fios da televisão… Não importava o problema, eu sempre estava atrás querendo ajudar.
Parecia até uma sombra dele, levando chaves de fenda, alicates, parafusos, fitas isolantes. Mesmo não fazendo ideia da funcionalidade dessas ferramentas, eu adorava ficar observando enquanto ele cortava fios, pregava parafusos e resolvia problemas de casa como se fosse um especialista em mecânica e eletricidade.
Outro dia, recentemente, entrei numa conversa com meu chefe sobre um cliente novo na agência. Trabalhávamos na campanha de uma empresa de engenharia e arquitetura e, por se tratar de um planejamento de grandes obras, a empresa só encomendava materiais em quantidades enormes.
A minha dúvida era em relação ao ganho de pequenas lojas de materiais para construção e ferragens. Se o público-alvo não eram empresas ou pessoas que precisavam comprar em grandes quantidades, então como sobreviviam aquelas lojinhas perto de casa que eu sempre ia com meu pai quando era pequena? Como elas ganhavam dinheiro nesse segmento? Todo mundo que vai fazer uma obra, seja de um prédio de 12 andares ou só a reforma de um quarto, prefere comprar em lojas de alta demanda.
Como se fosse óbvio (e realmente era), meu chefe disse: “Eles vivem de emergência, Brunna. Todo dia uma torneira quebra”, respondeu. Se meu pai comprava lá quando nossa torneira quebrava, o resto da vizinhança também. Eles sobreviviam com emergências domésticas.
A dúvida foi esclarecida, mas fiquei com essa frase na cabeça durante um tempo. Todo dia uma torneira quebra… Todo dia acontece alguma emergência, todo dia algum parafuso precisa ser trocado, algum chuveiro é queimado, algum carro é pifado. Todo dia acontece um problema. Todo dia alguma coisa acontece.
Voltei pra casa meio pensativa, achando essa frase metafórica demais pro meu gosto. Eu, com essa minha mania de achar duplo sentido em tudo, sentia que essa frase não se aplicava somente à problemas domésticos e muito menos à grandes construções de prédios. Segundo minhas teorias filosóficas e reflexões sobre a vida, todo dia uma torneira quebrar era a mesma coisa que dizer que todo dia a gente se depara com um problema, por mais bobo que seja.
Nem a pessoa com o dia mais perfeito é impune de imprevistos e nem o menor dos problemas significa um problema pequeno. Li um livro uma vez onde a autora fala que a vida acontece todo dia. E que se não fosse os desencontros, desapontamentos, desilusões, e esses obstáculos que a vida coloca na nossa frente diariamente, seríamos aquele tipo de espécie que morre na praia rápido, sem resistência nenhuma a qualquer tempestade.
Faz sentido: se não fosse por todos os problemas que tive que resolver na minha vida — seja beber para curar um coração partido, ou mudar meu comportamento para superar brigas com pais e amigos, os desapontamentos com situações cotidianas, os erros constantes, os tapas na cara sem avisos, eu não teria o mínimo de conhecimento e força pra brincar de ser gente grande. Sem resistência a gente não consegue evoluir.
Nossa vida é igual a lojinha de ferragens que fica perto de casa. Temos que estar preparados para resolver os pequenos problemas da vida, aprender com eles para, um dia, conseguir lidar com construções de grande porte. Afinal, de torneira em torneira, a gente constrói um prédio com os melhores acabamentos.
Só espero que ele seja de qualidade.

Like what you read? Give Luiza Lima a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.