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Prólogo de “Benethir e a Cidade Assombrada”

Era noite de lua cheia na cidadela fortificada de Irlad. O brilho do satélite natural iluminava os altos muros de rocha negra a cercar o perímetro da imponente concentração de torres do norte do reino de Asterland, roubando a atenção dos soldados a vigiar as ameias. Não havia quem pudesse julgar os pobres soldados, a visão naquela noite fatídica era única.
O céu sobre Irlad nunca esteve tão límpido. Estrelas assomavam como grãos de areia em volta da brilhante esfera lunar flutuante, que pairava em plácido movimento, esgarçando o véu de seda estelar. Os soldados olhavam uns para os outros, maravilhados e incertos pois a anormalidade da belíssima escuridão ornamentada daquela noite aparentava advir de uma poderosa convergência cósmica, na qual as energias luminosas de toda a galáxia se voltavam para aquele minúsculo pedaço do mundo terreno. “O que há de especial esta noite?” se perguntavam os soldados, falhando em encontrar significado para tamanha magnificência celeste.
Ao longe, no interior dos muros da cidadela, se ouviam gritos de cansaço e dor. Eram gritos femininos, gritos de parto. Sobre uma cama, uma mulher suava, sofria e gemia. Ao redor da mulher prestes a dar a luz, outras mulheres se postavam. Umas eram amigas da mãe sofredora, que assistiam a situação e torciam pela vida de uma mãe e sua criança; algumas delas até choravam com mais intensidade por já terem conhecido bem de perto a dor que aquela mulher sentia.
Havia também uma nobre de longos e cacheados cabelos loiros que, fechando o punho direito sobre a boca em demonstração de nervosismo, torcia pela sobrevivência de sua aia preferida e seu bebê. Por fim, havia ainda uma outra mulher que, não pela primeira vez, trabalhava incansavelmente para salvar uma mãe e seu filhote. A parteira de mãos firmes e habilidosas suava ao tentar passar calma à companheira mãe; contudo, sua longa experiência mostrava que dos diversos trabalhos de parto a acumularem-se em seu currículo aquele era o de maior dificuldade pois o bebê relutava em abandonar a calorosa segurança aconchegante do interior amoroso de sua mãe. A pequena criatura não queria vir ao mundo frio, desconhecido e hostil.
Havia apenas um homem no humilde quarto de tijolos rochosos, velas espalhadas e palha jogada ao chão. Na verdade era apenas um garoto de lisos e curtos cabelos pretos, filho da jovem condessa Janet Irlad, lady do condado de Irlad, a nobre presente no quarto. Nascido e criado na cidadela, o garoto era um iniciado nos ensinamentos culturais de Hermer Irlad, antigo e poderoso mago que uma dia havia sido conde de Irlad. O pequeno Varnold Irlad, de apenas 10 anos de idade, rezava preces aos deuses com as pequenas mãos infantis unidas. O menino clamava em favor do bebezinho e da aia que para ele era como uma segunda mãe.
- Empurre! - ordenava a parteira, segurando firme um dos joelhos flexionados da mãe sofredora.
A mulher gritava e suspirava. Então a dor se misturou com alívio a estampar-se em seu rosto molhado quando o bebê se virou dentro dela, finalmente facilitando um pouco o trabalho da parteira. As pernas da mãe tremiam ao fazer esforço e lágrimas jorravam de seus olhos brilhantes como cascatas de sal.
- Quase lá! Quase lá! - declarou a parteira, vendo a cabecinha do bebê precipitar-se para fora da mãe, em direção ao condado de Irlad. Em direção ao mundo.
As amigas juntaram-se nas laterais da cama, segurando as mãos suadas da mãe. A condessa e seu filho mago ficaram mais de canto, quase em silêncio, uma vez que o pequeno Varnold continuava cochichando sua reza.
- Mais um pouco, mãe! - impulsionou a parteira. A voz da mulher de idade avançada era forte e seu rosto ossudo carregava expressão de pura determinação. Os olhos azuis e profundos da parteira ilustravam já ter visto muita coisa boa e ruim ao longo de toda uma vida.
A mãe fez mais um pouco de força para um último empurrão, depois deitou sua cabeça, não aguentava mais. Seus cabelos castanhos e lisos se espalhavam pelos travesseiros da cama, ensopados de suor. Os olhos cinzentos e marejados da mulher se focaram no teto e sua voz se calou. Porém, ainda havia um pouco de ar cansado lhe saindo pela boca.
O choro do bebê ganhou o quarto, silenciando a todos, inclusive o pequeno Varnold, que suspirou, impressionado com a cena. Mas não havia terminado para a parteira, que ainda tinha trabalho. A mulher habilmente cortou o cordão umbilical do pequeno ser e o envolveu em uma manta. Depois levou o bebê recém-nascido às pressas para a mãe, percebendo que o estado da mulher era crítico.
- Resista… pelo menos um pouco mais. Conheça… sua filha.
A esguia lady Janet Irlad engoliu seco, em completa apreensão calada enquanto sua aia mais benquista fazia força para erguer os olhos e contemplar sua cria. As amigas tentaram ajudá-la a se sentar mas a mulher não conseguiu se erguer apropriadamente pois sentia muita dor, porém manteve seus olhos fixos na filha.
- Qual nome tu desejas para ela? - perguntou a velha parteira, a única pessoa que conseguia falar no quarto, enquanto o resto ou chorava ou se mantinha em silêncio admirado e tenso.
Após tanta dor, a mãe sorriu. Sentiu a maior felicidade de sua vida naquele que era seu derradeiro momento. A mão suada da mãe acariciou a testa ensanguentada da filha chorosa.
- Ehva… - suspirou - …Seu nome deve ser Ehva.
A menininha gorducha pareceu ter gostado do breve contato dos cálidos dedos de sua mãe em seu rostinho, mas logo em seguida voltou a chorar quando o toque maternal foi rompido e a mão suada de sua progenitora se afastou para na cama repousar e não mais se erguer.
Uma lágrima precipitou-se pelo olho esquerdo e escorreu o fino rosto de lady Janet Irlad no instante que os olhos da mãe de Ehva se secaram para sempre.

A jovem Ehva corria com suas amigas Vera e Annice pelos jardins do palacete da família Irlad. As garotas adoravam quando sua senhora as mandava colher flores para servirem de enfeite a alguma ocasião importante. Ehva sempre teve constituição natural mais robusta que suas companheiras magricelas, mas isso não a impedia de correr de igual para igual com as meninas ligeiras. As três aias haviam crescido na cidadela de Irlad, criadas juntas, com amizade que as tornava inseparáveis.
- Dessa vez pegarei mais flores, Ehva! - declarou Annice, com seus cabelos cacheados negros ao vento.
- Eu duvido - retorquiu Ehva, com seus cabelos castanhos presos a um coque, deixando apenas alguns fios soltos sobre o rosto arredondado e suado.
- Hoje todas precisaremos de muitas flores para deixar a senhora contente - advertiu Vera, com o calmo olhar esverdeado que só ela possuía.
E Vera estava certa. Se tratava de um dia muito especial. O segundo filho de lorde Carl Irlad e lady Janet Irlad estava fazendo um ano de vida e o conde havia demandado que a primeira festa de aniversário de seu filho caçula deveria ser cheia de pompas.
- Aqui estão as flores que pediu, senhora - disse Ehva a condessa, arfando, depois de tanto correr.
- Muito obrigado, Ehva - disse lady Janet, com um largo sorriso no rosto.
Os olhos cinzentos e grandes de Ehva se iluminaram ao ver que obteve êxito em trazer alegria a lady Janet.
A condessa havia criado Ehva de modo mais pessoal após ter sofrido pela morte da mãe da garota, o que fez com que Ehva se diferenciasse das outras servas da cidadela. Janet queria que Ehva se tornasse sua aia mais valiosa e assim, ao longo dos quinze anos que se seguiram desde o nascimento da menina, a condessa acabou nutrindo um afeto que a tornou uma espécie de mãe para a garota. Ehva amava lady Janet sobre todas as coisas e fazia tudo o que sua senhora requisitasse, mesmo sabendo que jamais seria como uma filha de verdade para a condessa, como era o caso de lorde Varnold e o pequeno Raymon, filhos e herdeiros de lorde Carl.
Conforme foi crescendo e adquirindo conhecimento do pequeno mundo da cidadela à sua volta, Ehva escolheu amar lady Janet e viver a vida que a condessa para ela havia montado, em vez de tentar sequer se permitir imaginar perante uma vida desconhecida, que lhe fizesse sofrer pelas privações a ela impostas pelo baixo nascimento. Tais escolhas de Ehva não aconteceram de uma hora para outra, e sim com o lento e intermitente passar de invernos e primaveras. Ehva era uma jovem flor que foi semeada e cultivada para compreender o mundo sob os limites do solo da cidadela pertencente ao norte excomungado do reino de Asterland.
Todos os muros e torres haviam sido enfeitados com bandeiras, fitas e flores. A festa do primeiro aniversário de Raymon Irlad estava linda e era assistida por todos os residentes da cidadela na praça central, onde o chão de terra batida estava colorido, coberto de pétalas. Os convidados aplaudiam o estimado e risonho lorde Carl, confortável com seus longos cabelos pretos caindo sobre sua fina armadura.
- Meu filho Raymon Irlad. Hoje, mais do que nunca, é o teu dia.
- Viva a Raymon! - gritou Varnold Irlad, o primogênito de lorde Carl. Um mago adulto de cabelos curtos e pretos como os do pai e pequeno irmão.
Todos brindaram e banquetearam naquele dia ensolarado de primavera.
Lorde Bryce Aly, senhor do condado de Northaly, vizinho do condado de Irlad, se achegou a Carl Irlad para abraçá-lo e felicitá-lo.
- Que Raymon seja um dos grandes defensores do norte contra os bárbaros Cabeças de Fogo - declarou o homem de expressão forte e cabelo bem curto.
- Ele será, meu nobre sogro - respondeu lorde Carl com meio sorriso. - Ele será.
O pequeno Raymon nada entendia do que estava acontecendo, enquanto se prendia ao colo de sua mãe. Lady Janet só tinha sorrisos para aquele dia, assim como Ehva e todos os outros servos, que viviam para se alegrar diante da felicidade do nobre casal governante do condado de Irlad.

- Não faça isso, Raymon! - gritou Ehva.
A aia corria atrás do incansável garoto sapeca, que todos os dias incrivelmente encontrava diversas novas formas de fazer suas bagunças pelos vastos corredores do palacete enquanto lady Janet se divertia vendo o desenvolvimento de seu filho caçula.
- Não vai conseguir acompanhá-lo, minha cara - sorria a condessa.
- Se com dez anos já mostra tamanho vigor, creio que dominará o mundo quando adulto - disse Ehva, arfando, com as mãos apoiadas na cintura.
- Que os deuses guardem suas palavras, minha querida - Janet ergueu as delicadas mãos com as palmas abertas, em prece.
Fios brancos se misturavam aos loiros cabelos de lady Janet, mas a mulher envelhecia como o mais puro vinho, nunca perdendo a sua beleza.
Estava escurecendo quando lorde Carl Irlad chegou de uma viagem que havia feito pelo condado.
- Meu senhor - disse prontamente lady Janet, quando seu esposo entrou no grande salão do palacete.
Ehva apenas abaixou sua cabeça.
- Minha senhora - respondeu Carl, atravessando o salão para cumprimentar sua esposa com um leve beijo.
Ehva pediu licença e foi atrás de Raymon, com receio do tamanho da nova travessura que o garoto pudesse estar aprontando.
Uma vez a sós, Carl olhou para Janet com ar de preocupação.
- O que aconteceu? O que viu? - se preocupou Janet, acariciando a espessa barba negra de seu senhor.
- Escassez foi o que vi - respondeu Carl, se libertando calmamente do abraço de Janet e virando de costas para esconder o abismo que era sua face.
- O condado não pode estar pior - Janet segurava as mãos, nervosa.
- Pois digo que está. O jovem guerreiro Digon me levou aos três vilarejos e neles vi diminuição da população, bem como de recursos, por falta de mão-de-obra. Os ataques de bandidos errantes e goblins estão aumentando a um ponto que mesmo o implacável e valoroso Digon não consegue combater. As pessoas estão partindo para onde podem, por julgarem que não há mais esperança em Gold Potato, Tinyrock ou Ironail.
Digon era um jovem e voraz aventureiro oriundo do povo das montanhas do extremo norte, além do reino de Asterland. Sagrado cavaleiro pelo rei Peter de Asterland, após pedido de lorde Carl, o guerreiro auxiliava os Irlad na proteção dos três vilarejos a formarem o eixo do condado de Irlad.
- Meu pai poderia ajudar - sugeriu Janet.
Carl sorriu com desdém à tentativa de Janet.
- Lorde Bryce Aly está ocupado demais matando Cabeças de Fogo ao longo do território de Landfire, a fim de se ver útil ao rei Peter. Ele não pode nos ajudar.
A voz de Carl se mostrava pesada toda vez que precisava citar seu sogro. O esposo de Janet sabia que o senhor do condado de Northaly havia arranjado o casamento de sua filha com ele para fomentar uma vassalagem forçada da enfraquecida Casa Irlad. Lorde Bryce Aly tinha interesse no condado de Irlad mesmo com o território fazendo parte das terras excomungadas pela coroa asterlesa.
- Podia apelar ao rei Peter - sussurrou Janet, em afirmação que ela mesma sabia que não tinha força de argumentação alguma.
- Sabes muito bem que o condado de Irlad faz parte do território abandonado do reino de Asterland, a oeste da cordilheira de Snakey. Assim sendo, não tem a mínima importância para a coroa de Asterland - suspirou Carl, frustrado. - Maldito seja o dia no qual a magia voltou ao mundo! - fechou os punhos com raiva.
- Não devia falar assim. A magia faz parte de tua linhagem e corre nas veias de teus dois filhos.
Carl Irlad caminhou lentamente para perto de Janet e os olhos verdes de sua esposa encarou.
- Minha querida, a cada dia que passa perdemos mais a força de defender ou abastecer o condado. Chegará o dia em que a Casa Irlad virá a ruínas e não haverá magia no mundo que a isso impeça.
Seguindo os rituais do crepúsculo, Ehva levou o pequeno Raymon para sua nobre mãe. A aia sabia que sua senhora estava triste e portanto não dormiria direito naquela noite. Suspeitando que a viagem de lorde Carl pelo condado fosse o principal motivo da infelicidade da estimada lady Janet, antes de deitar-se, Ehva fez uma prece aos deuses para que bençãos fossem derramadas sobre o território governado pelos Irlad.
- Ouçam o desejo de meu coração - clamou a aia ao fechar os olhos para dormir.
Eis que, no meio da noite, Ehva acordou assustada por uma cacofonia de gritos raivosos masculinos, gritos aterrorizados femininos e masculinos, além de intenso barulho de incêndio. Ainda esfregando os olhos e sem entender bem o que estava acontecendo, Ehva percebeu que fumaça entrava pelo teto de madeira de seu quarto, o que fez a aia despertar de susto, vestir uma capa e sair para a rua, a fim de averiguar que loucura era aquela na madrugada.
A visão da aia foi preenchida com puro terror. Flechas de fogo assomavam por sobre as ameias da cidadela, vindas do lado de fora dos muros e, por sobre os muros, homens de Irlad trocavam golpes de espada furiosos e sangrentos com invasores que surgiam como formigas escaladoras. O fogo já tomava boa parte da cidadela e diversas pessoas corriam inflamadas, tentando escapar da morte iminente. Estrondos de madeira de aríete com a madeira do grande portão se repetiram até que foram subtituídos por gritos de fúria quando o grande portão cedeu e a cidadela foi invadida por milhares de soldados ruivos, que avançavam e matavam todo e qualquer um que em seu caminho furioso se pusesse.
Ehva estava completamente absorta por aquela visão terrível quando uma mão agarrou forte o seu braço.
- Não podemos ficar aqui! Venha! - gritou Annice, uma das amigas de Ehva.
As duas aias começaram a correr como loucas, tentando achar meios de escapar daquele caos generalizado.
- Mas e a senhora janet!? - exclamou Ehva, nervosa. - E o pequeno Raymon!? Não podemos deixá-los!
Annice parou um instante apenas, olhou nos olhos chorosos de Ehva e balançou negativamente a cabeça.
- Não há escapatória para os Irlad, Ehva. Morrerão todos hoje.
Ehva não queria acreditar no que Annice estava dizendo e chorou ruidosamente. Annice agarrou o braço de sua amiga mais uma vez e a arrastou, correndo.
- Talvez a gente consiga fugir, Ehva. Mas só se a gente correr muito!
Annice levou Ehva para a extremidade norte da cidadela, onde os confrontos e o fogo estavam mais brandos. As aias adentraram uma passagem por entre os esgotos abaixo dos altos muros, que dava direto a um riacho. Assim saíram da cidadela de Irlad.
Annice e Ehva corriam e corriam, até que uma flecha vinda do alto dos muros acertou a perna esquerda de Annice, fazendo a serva cair e gemer.
- Não! Não! - choramingou Ehva, agachando de encontro a Annice enquanto homens Cabeças de Fogo gritavam ordens por entre as ameias e outros desciam as escadas de rocha do muro, correndo.
- Some daqui, tola grandalhona! - vociferou Annice. - Não vou conseguir.
Ehva tremia e suava frio. Não se sentia capaz de dizer uma palavra.
- Vá, Ehva, pelo amor dos deuses. Salve-se - implorou Annice, chorando. - Você sempre correu mais que eu… …e hoje nós corremos mais do que Vera - sussurrou a aia ferida.
Muito confusa, Ehva beijou as mãos de Annice e se levantou gemendo de tristeza e frustração.
- Vá - chorou a aia de cacheados cabelos negros, vendo Ehva desaparecer na noite.
Ehva correu desesperadamente e, mesmo não olhando para trás, tinha em sua mente a imagem perfeita dos raivosos captores ruivos agarrando Annice. Lágrimas rolaram como nunca por sobre seu rosto arredondado.
A desajeitada mulher de forte constituição avançou firme pela escuridão, sem parar enquanto seu fôlego não chegou ao limite. A aia não sabia para onde estava indo mas também não queria estacar e sofrer o risco de também ser capturada.
O dia amanheceu e o sol avançou em arco no céu. A mente de Ehva era um turbilhão enquanto a mulher corria por entre campos abertos e bosques espinhosos. Os passos pesados e gemidos de pranto da mulher cansada desafiavam o silêncio das pradarias inabitadas do norte abandonado de Asterland. As vestes de Ehva estavam sujas e rasgadas. Sua barriga, quase vazia, não fosse por alguns pés de amora e um lago que a mulher encontrou em seu caminho tortuoso. A noite seguinte veio e Ehva continuou avançando, parando para descansar brevemente e depois seguia em frente, sem saber para onde suas pernas a guiavam. Seus olhos estavam vidrados, não conseguiam mais chorar, sua pele estava esverdeada e a mulher mancava.
Até que, na alvorada do terceiro dia da terrível e quase ininterrupta caminhada, Ehva chegou capengando com a neblina a um vilarejo agrícola. Um homem arava sua horta de batatas quando foi acometido por um susto ao ver o vulto da aia desmoronando na terra. O camponês correu ao socorro da mulher e a levou para sua pequena casa. Ehva delirava quando foi carregada, sua vida estava por um fio.
Completamente surpreso com a situação, o camponês abandonou todas as suas tarefas do dia e se dedicou a tratar dos ferimentos de Ehva. O homem limpou-a como pôde e lutou para fazer a convalescente mulher beber um chá fortificante, fervido às pressas, que finalmente a fez parar de tremer.
Ehva dormiu pelo resto do dia e quando acordou o camponês estava sentado em uma cadeira, ao lado da cama. O homem não havia saído de perto dela um momento sequer. A mulher foi aos poucos recobrando os sentidos e então encarou o camponês. O homem tinha entradas de calvice apesar de não parecer velho. Em seu rosto rechonchudo pendurava-se um bigode preto, que combinava com a cor de seus olhos envoltos por pesadas pálpebras semiabertas e cabelo curto bagunçado.
- Onde estou? - perguntou Ehva, com fala lenta.
- Está no vilarejo de Gold Potato, minha senhora - respondeu o camponês, respeitosamente.
- Quem é você? - Ehva se ajeitou na cama para olhar melhor a humilde casa de apenas um cômodo.
- Sou Robert - respondeu o homem com cuidado. - Cuidei dos ferimentos da… senhora. Sabe… não devia viajar sozinha por aí. É perigoso.
Ehva então se lembrou de tudo o que havia acontecido e seus olhos abaixaram, pesados de lágrimas que ela engoliu. Robert percebeu a tristeza de Ehva.
- A senhora é… uma princesa?
Ehva ergueu os olhos para encarar o Robert. Estava triste mas também surpresa pois percebeu a ternura com a qual o camponês a olhava. Era a primeira vez que um homem a admirava como se fosse bela. Além disso, Ehva nunca havia sido tratada como alguém de suma importância, como a pergunta do camponês insinuava.
A ex-serva fiel de lady Janet Irlad respirou fundo ao recordar os trejeitos de altivez oriundos da nobreza de sua antiga senhora.
- Não. Não sou uma princesa.

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Fantasia e Ficção Científica são os gêneros literários de maior visibilidade em meu perfil, mas também falo de história, filosofia, sociologia e antropologia. Artigos científicos também têm o seu espaço aqui, assim como o cinema, a minha paixão.

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Bruno Birth

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